Um Estranho No Natal
2 Feliz Natal? (Richard)
Notas iniciais
Whaskar Capital, aproximadamente dois mil e setecentos anos atrás, até os dias atuais.
A lua banhava minha pele pálida. Enquanto eu corria, sentia a relva lamacenta abaixo de meus pés e o vento gélido do inverno, mais intenso a cada limite de velocidade superado. As árvores não eram mais que borrões distorcidos em meio à noite silenciosa. E em meus ombros, pairavam o extenuante desafio; de capturar minhas presas antes dos primeiros indícios de alvorecer.
Ainda sentia o odor pútrido dos cadáveres descobertos fora de seus túmulos, ao passo que os infratores que os desenterraram, perdiam progressivamente a vantagem da distância que possuíam de mim.
Roubar sangue de morto fora estritamente proibido pelo conselho, mesmo assim persistiam aqueles que se aventuravam dentre os cemitérios, em busca da vantagem clandestina que o terrível liquido espesso e podre proporcionava, já que sangue de morto apesar de não ser consumido, detinha em nossa sociedade um preço alto de comércio e diversos fins.
Acima do odor fétido que eles carregavam, mesclavam-se suas essências próprias, deixando um rastro em meio o cheiro de natureza e a podridão horrível. E por mais que os cinco vampiros acobertassem, toda essa nuance pairava em meu caminho de forma que, não importava a distância, ou a mudança em seu curso. Eu sempre os encontrava.
Durante os anos pós transformação fui me especializando na classe dos Perseguidores, função que me distraía da sede e aplacava minha persistente inquietação. Se alguém fugia de um julgamento, ou precisava ser encontrado por qualquer motivo, eu era intimado a perseguir. Não era algo do qual eu tivesse um escolha, ou pudesse recusar caso não desejasse fazer. Contudo, eu ainda apreciava. E mesmo me considerava bom com as caçadas.
Perseguir um outro Vampiro é bastante diferente de perseguir um humano. As pistas vêm e somem, nós somos em geral, silenciosos e rápidos, tenho que estar constantemente atento.
Foi num segundo de distração que tudo mudou.
O rastro de um dos Vampiros sumiu, e antes que eu percebesse ele havia agarrado meu braço e lançando-me a leste da floresta sombria. Senti meu corpo brigar por espaço com as árvores, arrancando-as do chão uma a uma, até perder a força na vigésima e repousar bruscamente em um tronco seco. Um leve sibilo metálico ecoou em minha audição mais apurada, bem a tempo de pender minha face para o lado esquerdo e desviar da lâmina pequena e brilhante da adaga. Nem bem virei meu rosto e senti algo atingir minha barriga, fazendo o tronco do qual eu me apoiava desabar. O Vampiro então impulsionou outro chute em meu rosto, sua face repleta de ódio.
— Perseguidor repulsivo!
Segurei sua perna no ar, e deferi um soco. O gesto se perdeu sem conclusão, pois um segundo Vampiro segurou meu pulso, e com outra lâmina em punho, efetuou um corte na base direita de meu estômago. Trinquei meus dentes contendo um rosnado, enquanto o ferimento queimava de forma incomum. Mal ele terminara e senti meus reflexos baixarem consideravelmente.
Merda.
Percebendo que eu compreendi seu feito, ele deixou escapar um sorriso triunfante, enquanto os outros três se revelaram da escuridão e uniram-se à dupla. Ele executou mais dois cortes, então se escorou em uma árvore próximo, liberando o caminho para que seu lide me analisasse.
— O que faremos com ele? – Questionou o que me acertara.
— Vamos pedir uma recompensa. – Um terceiro, o que supus ser o líder, se aproximou e pegou meu rosto. — Aposto que sendo quem é, há gente disposta a pagar bem por ele. Seu Mestre deve ter interesse em tê-lo de volta. Ou podemos vender a quem der o maior lance.
Levei a mão ao ferimento, disfarçando meu contra-ataque. Os homens discutiam o que fazer comigo, quando desembainhei a espada em minha cintura. Focando o Vampiro mais próximo, deixei que a lâmina lhe cortasse o pescoço. Ele ainda tateou o espaço vazio acima de sua garganta, antes de se desfazer em cinzas e ser varrido pelo vento.
Com algum custo travei uma batalha com os quatro restantes, desviando dos golpes e acertando alguns outros. Os cortes queimavam de maneira inimaginável e vez por outra minha visão dava sinais de falha, querendo desvanecer.
Eu conhecia bem aquela queimação. Sempre que eu era torturado e mantido em cativeiro os vassalos se utilizavam do mesmo método para me enfraquecer e me manter sob controle.
Os vampiros tomaram a estrada sul que levava a Whaskar. Ponderei se os seguiria ou não, não estava exatamente em condições. Fora as recordações desagradáveis que a Capital levava. Lembranças de um tempo distante em que eu era um príncipe comum dos humanos, de tudo que passei quando era um recém transformado. Quando eu ainda fingia desesperadamente ser algo que eu não era.
Era doloroso, não fisicamente, mas emocionalmente. Permaneci parado em meio a escuridão e podridão de minha alma, sufocado em meio aos demônios do passado e a culpa. Os céus trovejam ferozmente enquanto eu tentava me recompor da repentina chuva de emoções.
Tentei pensar racionalmente: Convocar outro Perseguidor poderia demorar tempo demais, e eles estavam tomando distância muito rápido. Então tomei minha decisão, guardando minha espada e disparando em meio as luzes da cidade que me transportavam involuntariamente a uma outra época.
Um mal pressentimento percorreu minhas entranhas, e foi prontamente ignorado. A cada metro que eu avança ouvia um sussurro, ou uma gargalhada. Retornar aquela cidade maldita abalava minha sanidade.
As luzes foram mais e mais claras, refletidas no grande lago congelado que circundava os limites do antigo castelo de Craine. Os vampiros ultrapassaram rapidamente o gelo e, quando cruzei a superfície lisa em seu encalço, uma claridade tão intensa quanto o próprio sol me envolveu. Tudo aconteceu quase tão rápido quanto me movia e a luz voltou a sua intensidade natural eu senti o baque em minhas costas.
Meus olhos focaram o exuberante telhado de vidro e as falsas estrelas penduradas nele com curiosidade, entretanto a imagem logo ficou ofuscada por um rosto desconhecido que me fitava num nível acima do meu. Um homem com cheiro humano estendeu a mão coberta por uma luva de lã e abriu um largo sorriso. Aceitei seu gesto tentando aparentar confiança e ele me ergueu.
— Foi um tombo e tanto! – Ele limpou o excesso de gelo de minha roupa, franzindo o cenho ao se deparar com a espada presa à minha cintura. – Se for patinar, certifique-se de possuir patins em seus pés.
Olhei para os humanos ao meu redor. Todos eles calçavam uma espécie de bota com uma lâmina na parte debaixo. Não queria levantar suspeitas perguntando o que era patinar, então apenas assenti com a cabeça.
— Estou certo que me lembrarei disso.
O humano impulsionou o pé para frente e deslizou em meio a superfície gelada, soltando-me. Outros humanos faziam o mesmo movimento, intercalando os pés, girando em círculos dentro do retângulo liso. Alguns de mãos dadas, uns rindo. Ainda uma parcela de humanos assistiam do lado de fora do retângulo, sentados em bancos brancos de madeira, gritando palavras de incentivo e apoio.
Caminhei com cautela até a borda do triângulo, pulando o cerco e indo para o outro lado. Uma série de pessoas caminhavam com bolsas e vestes atípicas de qualquer uma que eu tenha visto, diferente até que a de vampiros mais excêntricos, como O Criador e os integrantes do conselho. As luzes excessivas irritavam meus olhos, e as vozes eram tantas que me causavam dor de cabeça. Foi preciso um tempo até que eu me adaptasse.
— Feliz natal! – Disse-me um humano em um tom simpático, junto de um aceno.
— Feliz natal. – Respondi de forma seca, incerto do que ele queria dizer com esse termo.
Os humanos estavam amontoados em grandes quantidades, andando de forma desordenada no estranho espaço oco que se estendia por três andares. Grande parte deles paravam no degrau de uma imponente escada, que movendo-se de forma lenta demais para o meu gosto, tratava de avançar os degraus por eles, sem que os humanos executassem um passo sequer. Fiquei observando embasbacado o objeto mágico, obra de alguma bruxa ou mesmo de algum feiticeiro.
— Quero um Xbox One!! – Gritou um garoto aos prantos enquanto era arrastado pela mãe. — Não quero um Nintendo Swicth! Quero o Xbox e uma assinatura ilimitada do Xbox Live!
Os dois saíam de um dos diversos espaços quadrados. A maioria era composto por roupas dispostas em cabides, e bonecos vestidos com elas. Mas o qual eles saíram continha bonecos menores, em forma estranhas e assustadoras, desenhos espalhados em papéis gigantes pelas paredes e objetos espelhados, repleto de cabos petros, dos quais eu nunca vira antes.
— Já te disse que os jogos do Xbox são muito violentos. – respondeu a mulher em um tom repreensivo, que logo transcendeu para um bem animado. – Vou te comprar Mário World!! E Zelda!
O menino permaneceu insatisfeito, e eu finalmente consegui perceber o que os distintos quadrados eram; comércios.
Aquele lugar fechado e sufocante em muito se assemelhava a região comercial de WindHeart em dias de pico, embora em maior escala. Me aproximei dos bonecos vestidos e observei um masculino atrás do vidro. A veste era simples, mas não era nada de todo ruim.
Todo o comércio, apesar de possuir características bem distintas entre si, tinham em comum a decoração. Os espaços estavam em quase sua totalidade, decorados de vermelho e verde. Algumas nuances de prata e dourado brilhavam dentre as cores chamativas, amenizando a estranha combinação. Mas a terrível escolha de cores era o menor dos problemas na aparência do lugar.
Desenhados nos vidros, pendurados nos tetos, dispostos em prateleiras, e em meio a toda parte imaginável, estavam a figura de um homem velho e uma carruagem pela metade, arrastados por alguns animais com galhos de árvores dispostos em suas cabeças. A imagem se repetia incontáveis vezes, em tantas versões macabras e diferentes, que temi que o velho fosse alguma espécie de entidade maligna.
Sua imagem era tão perturbadora que por mais que eu olhasse novamente o ponto em que os humanos brincavam com seus “patins”, ela simplesmente não me saía da cabeça. Todos a minha volta desejavam “feliz natal” e como uma corrente mágica que não deveria ser quebrada, eu repetia os votos, me encolhendo próximo a parede de aspecto liso, de um material do qual eu também desconhecia.
Mil possibilidades para o significado daquela palavra passavam pela minha cabeça, quando um grito agudo atraiu minha atenção.
Uma mulher baixa e acima do peso caiu da escada móvel, levando consigo outros humanos nos degraus inferiores. Não consegui conter uma risada sincera em meio ao caos cômico que se instalara. A cena se desenrolou da pior forma possível, com alguns humanos mais simpáticos se esforçando em levantá-la. O feitiço parou de funcionar e a escada voltou a ser uma escada comum.
Um aglomerado se formou em volta das pessoas caídas. E em meio a eles, um estranho adolescente corria em direção contrária, empurrando seus semelhantes e forçando passagem degrau por degrau. Um suor escorreu de seu rosto e o cheiro de sua preocupação chegou a mim, misturado no odor quente de sangue fresco.
Geralmente eu tentava a todo custo não ouvir os pensamentos dos humanos, principalmente porque era algo que mesmo após anos e anos de treino, eu não tinha pleno controle. Contudo dessa vez forcei minha concentração no rapaz de causa surrada e cabelo espetado. Sua voz preencheu minha mente, suave embora grave, totalmente condizente com sua idade.
Ela vai morrer! Eu tenho que impedir!
Não demorou muito e uma das pessoas debruçadas no parapeito despencou do segundo andar, se espatifando contra o chão branco. Seu coração parou de bater imediatamente e o sangue escapuliu de seu corpo através do pescoço quebrado, formando uma deliciosa poça escarlate envolta de si. Aprumei minha postura contendo a vontade de lamber o piso espelhado.
Alguns humanos uniformizados surgiram, pedindo passagem com algo grande em mãos. Eles imediatamente cobriram a moça e a colocaram no objeto. Eu pretendia segui-los quando o rastro dos Vampiros se tornou novamente aparente, me transportando de volta de toda confusão.
Os cinco fitavam o chão manchado com o desejo aparente em seus olhos. Ao cruzarem seus olhares com os meus eles correram e eu saltei rapidamente para o segundo andar. Puxei uma adaga de dentro da minha bota e a sujei com o mesmo que eles me atingiram mais cedo, lançando-a no último antes que ele virasse na bifurcação de corredores. Ele cambaleou, apoiando-se na parede, entretanto adentrou uma porta dupla.
O interior era diferente do espaço oco, era mal iluminado e lotado por caixas dispostas em pilhas e mais pilhas que praticamente tocavam o teto. Distante dos humanos barulhentos, a ardência dos cortes em minha carne tornou a me incomodar e mais sinais de enfraquecimento se mostraram, deixando-me com as pernas parcialmente paralisadas.
Me apoiei em uma pilha de caixas ouvindo as vozes ecoando pelo ambiente. Os Vampiros infratores não estavam sozinhos. Percorri o labirinto de corredores seguindo o cheiro humano, bem mais fácil de se identificar sobre minhas condições e arfei, descente dos que meus olhos me mostravam.
Corri os olhos pela silhueta pálida e pequena que eu conhecia tão bem. Parada próxima ao menino que abrira passagem em meio o tumulto, seus olhos azuis fitavam os Vampiros de forma impaciente. Os fios dourados mal se agitavam com seu movimento, mas mantinham o mesmo brilho e sedosidade. O vestido justo e curto revelava demais do seu corpo, partes que nem eram permitidas as meretrizes que revelassem em público. Estendi minha mão ao ar, desejando tocá-la.
Como se adivinhasse que eu a observava, ela virou o olhar em minha direção e sorriu. Uma fantasma de meu passado atormentado. As palavras morreram em minha boca, por um momento eu sequer sabia como pronunciá-las. Mas o nome ecoou por cada pedaço de lembrança que ainda vivia em mim.
Bethanny...
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