Um Diário Nem Tão Querido
2 Meu "Presente" de Aniversário
Notas iniciais
Sábado, 10 Agosto de 2013
Eu congelei, sentindo o movimento debaixo dos meus cobertores. Com toda certeza tinha alguma coisa lá, movendo-se vagarosamente até roçar de leve nos meus pés. Imaginando todo tipo de criatura terrível, saltei pra fora da cama aos berros.
—Feliz Aniversário! — dizia minha mãe, de pé na porta do quarto com um pequeno bolo confeitado na mão.
Minha mãe, Grace Donovan era uma mulher de 42 anos, baixa estatura, olhos castanhos muito claros e cabelos loiros, com alguns fios já grisalhos aparecendo, o que lhe dava um ar muito maduro.
Eu girei sobre os calcanhares e a fitei atordoada.
—Mas... o...que?!
Ela ignorou o meu balbuciar e lançou um olhar para a protuberância.
—E então, gostou do presente?
—Presente? — olhei mais uma vez para minha cama. Me aproximando com muita cautela, puxei as cobertas num único movimento só para levar mais um susto.
—Um gato? — perguntei confusa.
—Foi a Natalie que mandou. Ela achou que você gostaria de um bichinho para te fazer companhia
Minha tia Natalie sempre foi conhecida pelos péssimos presentes que dava, mas dessa vez ela tinha se superado.
—É isso que eu ganho no meu aniversário de dezessete anos? Um gato? E preto?
—Você nunca foi supersticiosa Sue. E se você quer realmente saber, ele é muito fofinho, aposto que depois que conhecê-lo vai se encantar.
—Ah claro! Estou encantada. Em vez de ganhar dinheiro, ingressos para um show bacana ou aquele celular super moderno, eu ganho responsabilidades. É com certeza o melhor aniversário da minha vida.
—Não seja mal-agradecida Susan — repreendeu minha mãe — sua tia lhe deu um presente de coração e é muito rude de sua parte falar desse jeito.
—Tá legal, desculpe — respondi desanimada — eu vou ligar para agradecê-la depois.
—Ótimo — ela disse, erguendo o bolo próximo a mim — e então, vai apagar as velinhas ou não? Lembre-se de fazer um pedido.
Soprei as velas, imaginando o quão legal seria se minha vida não fosse tão chata. Nunca acontecia nada de especial.
—Agora se arruma e desce para comer e abrir os outros presentes. Espero-te lá em baixo — minha mãe disse me dando um beijo de leve na bochecha e descendo as escadas, deixando-me sozinha com o meu “presente”.
Fitei aquela criatura. Sua pelugem era completamente negra e seus olhos eram verdes, atentos. Parecia me analisar da mesma maneira que eu o fazia.
Estiquei a minha mão para tocá-lo, porém não cheguei a completar o movimento, pois nesse exato momento, a criatura simplesmente pulou no meu rosto, arranhando a torto e a direito.
—Ahh!! — gritei apavorada — me larga!
Depois de muito lutar, eu finalmente consegui tirá-lo de cima de mim, mas não antes de conseguir uns bons arranhões no rosto. Depois disso, o gato simplesmente sentou-se no chão e começou a lamber as patas me encarando.
—Eu te mato seu maldito! — gritei.
Já estava me preparando para acertá-lo com o primeiro objeto que encontrei (no caso, o despertador que estava na cabeceira da minha cama) quando minha mãe invadiu o quarto com os olhos arregalados.
—Mas o que houve aqui?
—O que houve?! O meu lindo presente é um monstro maligno que por pouco não arrancou meus olhos!!! Foi isso que houve!!
Ela olhou para mim impaciente.
—Susan que bobagem! Você deve ter assustado o bichinho e ele apenas se defendeu, foi só isso. Eu o segurei hoje mais cedo e ele não me fez nada. Venha, vamos descer a July e a Kate estão te esperando.
Depois de escovar meus dentes e tomar um banho rápido, desci as escadas correndo para encontrar minhas melhores amigas sentadas no sofá. Eu conhecia July Nomura e Kate Richards desde a pré-escola. Apesar de termos personalidades diferentes nós éramos muito unidas e fazíamos tudo juntas como as “Três Espiãs Demais”. Ao me verem as duas se levantaram e me deram um abraço de urso gritando feito loucas.
—Feliz Aniversário!!! — disseram.
—Obrigada meninas! — eu disse rindo.
—E então, ganhou muitos presentes? — perguntou July.
—Bom até agora eu só abri um “presente” — respondi sem humor.
—É? E que presente foi esse? — disse Kate
—Um gato, acredita?
—Um gato? — disseram as duas ao mesmo tempo.
—Pois é — respondi fazendo uma careta.
—Que fofo! — disse July — qual é o nome dele?
—Não escolhi um nome ainda — disse. Mas eu podia facilmente imaginar uma lista de nomes para falar a verdade. Todos palavrões.
—Se ainda fosse de duas “patas” — riu Kate — de um desses, você precisa.
—Que engraçado — respondi. Kate não podia perder uma oportunidade de me lembrar o meu status eterno de solteira.
—Dessa vez tenho que concordar com a “Kitty” Sue — interveio July.
—Vocês vão começar com isso de novo? — reclamei.
—Sue. Você tem de admitir — argumentou Kate — está sempre reclamando que sua vida é chata, mas não faz nada para mudar isso. Vive enfiada dentro de casa comendo, dormindo e vendo TV. Tem que aproveitar mais a vida!
—Eu aproveito e muito a minha vida — respondi sem muita convicção no que dizia.
—Ah é? — indagou July erguendo as sobrancelhas — então quer dizer que você vai à festa de hoje a noite na casa do Danny não é?
—Festa? — tentei soar surpresa, mas acho que não me saí muito bem.
—Não finge que não sabia Armstrong — disse Kate cruzando os braços.
—Eu não estava lembrando gente, só isso — menti.
—Mas você vai, não vai? — indagou July.
—Claro — respondi enquanto me xingava mentalmente. Festas não eram meus passatempos favoritos, mas por um lado Kate tinha razão. Estava na hora de dar uma guinada na minha vidinha sem graça.
—Oba!!! —gritou July .
—Bom já que o assunto foi resolvido que tal abrirmos os presentes? — perguntei animada.
—O meu primeiro! — disse Kate já levantando.
Enquanto abríamos os presentes, senti que aquele dia mudaria minha vida para sempre. E eu não podia imaginar o quanto.
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