Quatro anos e alguns dias/semanas/meses atrás...

– Caio, seu canalha!! Por que você fez isso comigo?!

– Seu estúpido! Não sei brinca com o coração de uma mulher!

– Haha, mas eu não brinquei com o coração de vocês, eu falava a verdade quando dizia que tinha sentimentos por vocês! Mas não era bem amor ou coisa assim, só queria sentir o corpo quente de vocês junto ao meu.

O sapato de uma delas voou na cabeça deles enquanto ele andava apressado na frente de ambas:

– Parem de me seguir, meninas! Isso é agressão e abuso! Além disso, que culpa eu tenho se vocês só ouvem o que querem ouvir?

– Pare de ser hipócrita! Você disse claramente que me amava!

A outra parou de segui-lo e começou a chorar:

– Ele disse que te amava?!

– Disse.

– Bem, acho que homens assim merecem morrer, cansei de fazer parte do jogo dele

Caio virou e disse sorrindo:

– Muito boa escolha, senhorita. Agora se me permitem.

E foi embora. As duas continuaram paradas olhando aquele belo homem se distanciar. Alto e com um corpo agradável aos olhos, toda sua beleza exterior não era nem um pouco igual à interior. Caio era um rapaz egoísta e que brincava com o coração das mulheres, mesmo sem querer...

Andando calmamente pela rua, pensava: “Por que eu não consigo amá-las? Porque nem quando toco aqueles seios ou sinto o cheiro de seus cabelos e de seus corpos eu não consigo amá-las? Quando eu encontrarei meu amor? Por que eu não a acho em lugar algum? Eu não queria que fosse assim, mas se tivesse que amar várias até encontrar a que nasceu pra mim, terei que continuar...”

Ao tirar a chave do bolso, várias camisinhas caíram...

– Bem, pelo menos não terei nenhum descendente tão cruel quanto eu — disse, sorrindo — Já basta meus pais... Como eles puderam me largar daquela maneira? Como alguém larga uma criança com 12 anos? Deixar escola paga e muito dinheiro na conta não significa deixar o amor de uma família incluso...

Entrou e trancou a porta. Colocou uma comida congelada no microondas, tirou a camisa para tomar banho e percebeu que seu corpo estava gelado, mesmo após um belo dia acompanhado de duas mulheres; seus músculos, que estavam contraídos, relaxaram... No caminho para o banheiro tirou as calças e foi tomar um banho.

– Acho que ser largado pelos pais deixa uma pessoa muito carente. Será que é por isso que eu sou assim? Mas o corpo dela era tão lindo... Tão lindo... Até combinava comigo! Imagino nós dois juntos, na rua todos iriam se virar só para nos olhar, na casa dela elogios não nos faltariam, ela num vestido de noiva seria perfeita, mas... eu não sinto nada.

Após o banho, como tinha esquecido a toalha, saiu nu do banheiro. Assustou-se quase no mesmo instante:

– Aah, me desculpe, me desculpe!! — Leandro falou assustado e sem parar ao ver Caio.

Rapidamente, Caio cobriu-se com o que tinha mais perto: o pano da mesa, o que fez com que todos os pratos caíssem. Desajeitado, Leandro foi tentar ajudar aquele pequeno desastre, mas tropeçou e acabou caindo nos braços de Caio que, para segurá-lo, soltou a toalha. Suas bochechas ficaram coradas. Leandro sentia o certo relevo que havia entre as pernas de Caio, e este sentia o frio que acompanhava Leandro e suas roupas. De repente, os dois se soltaram, o que fez com Leandro continuasse sua queda ao chão, mas dessa vez estava indo para trás. Na esperança de ficar em pé, jogou suas pernas para cima para ganhar impulso, e isso resultou num forte chute no pênis de Caio. Após esse esforço inútil e doloroso, Leandro caiu e Caio, sofrendo, caiu sentado nele. Leandro tentou se levantar e,

– Para de se mexer menino!! Para!! Você vai destruir meu corpo e minha casa desse jeito, seu descontrolado! — Gritou Caio.

– Desculpe-me, desculpe-me. — Disse Leandro sem graça e corado.

– Certo. — Respondeu com uma cara emburrada — Quem é você afinal? E como você entrou na minha casa??

Leandro tentou responder, mas quando olhou para cima, viu o corpo nu de Caio e não conseguia desviar, ficando mais corado do que já estava. Caio, ao perceber a situação constrangedora em que os dois estavam, levantou-se e disse:

– Vou colocar uma roupa e já volto, mas não toque em nada! Em nada, senão eu ligo para a polícia.

– Sim sim, não tocarei em nada.

Caio foi para o quarto e colocou uma bermuda. Ouviu o microondas sendo aberto e foi correndo para a cozinha:

– Eu não te disse para não tocar em nada, seu estúpido?! — Gritou.

– Mas é que estava cheirando queimado e quando você estava sentado em cima de mim, sua barriga roncou, imagino que pela fome você não queira perder este prato de lasanha. — Sorriu, talvez aquele fosse o sorriso mais lindo que Caio já viu.

– Tudo bem, sente-se aí, vou pegar pratos pra gente dividir essa lasanha. — Respondeu, corado e com o coração acelerado, sem saber por que.

– Não, não precisa, eu não quero incomodar, prometi a minha irmã que não iria incomodar.

– Você já incomodou bastante, então sua promessa já foi por água abaixo mesmo...

– Desculpe-me... — Respondeu sem graça.

Pegou dois pratos, abriu duas latas de cerveja, dividiu a lasanha e sentou-se:

– Não, obrigada, eu não bebo cerveja.

– Então pega uma água ou o que você quiser na geladeira! – Caio frustrou-se com aquela inocência.

Leandro foi até a pia e pegou um copo de água, voltou a mesa e Caio perguntou bruscamente:

– Quem é você?

– Sou irmão da Lisa. Você me conhec...

– Você é o irmão da Lisa???! Essa mulher me arranja problemas até quando não está por perto! — interrompeu — Por que ela te mandou aqui?? Ela me dá o super fora, e agora manda o irmão pra minha casa??? Me passa o telefone dela agora!

– Ela disse que eu não pos...

– Como assim não pode passar o telefone daquela idiota??! — Estressou-se novamente.

– Minha irmã te considera um super amigo, mas acha que é melhor vocês não manterem contato. Diz ela que você procura, loucamente, o amor da sua vida, e que quer pegar toda e qualquer mulher até encontrar, por isso ela vai esperar, até que você encontre seu amor.

– Essa estúpida! Eu já entendi que ela não é o amor da minha vida, nunca tentaria mais nada com aquela mulher.

– Desculpe-me, mas realmente não posso passar o seu telefone.

– Tudo bem, mas...- Caio parou e colocou as perguntas em ordem dentro de sua cabeça. — Como você entrou aqui?

– A Lisa disse que você sempre foi muito óbvio e que guardava uma chave reserva no vaso perto do elevador, então...

– Então você pegou a chave lá. — interrompeu mais uma vez — E por que você está aqui?

– Porque eu estou fugindo.

– Sério?! Fugindo de quem? Ou melhor, você não estava na França? Lembro que já te vi, mas você ainda era pequeno. Pensei que tinham te levado para a França...

– Pois é, estou do fugindo de lá! – Agora era a vez de Leandro interrompê-lo.

– Só pessoas loucas fogem da França. — Respondeu num tom sarcástico.

Caio se levantou e foi pegar outra lata de cerveja enquanto Leandro começava a contar sua história:

– Acontece que eu encontrei uma bela mulher lá, ou melhor, encontrei várias, mas todas se apaixonavam por mim, sem querer me achar muito. Até que vi a Olive e me apaixonei, quer dizer, pensei ter me apaixonado. Nós começamos a namorar e tudo estava perfeito, todos de nossas famílias nos aprovavam, as pessoas se viravam para nos ver quando passávamos, até que um dia a pedi em casamento. Desde esse dia, comecei a ficar mais nervoso, procurando os motivos para ter me apaixonado por ela, mas não encontrava. Falava com meus amigos, mas eles diziam que quando se ama, não há razão, mas eu não queria um amor assim, não confiava nesse amor.

Colocou mais 4 latas na mesa enquanto ouvia, atentamente.

– Mesmo assim, eu não desisti da idéia de nos casarmos. Olive não deixava de ser maravilhosa aos meus olhos, ela era, não, ela é linda, mas eu não sabia por que a queria, além da beleza. Ela reparou quando eu comecei a me distanciar, mesmo que eu disfarçasse, ela me conhecia. Até que ela me disse: "Leandro, é isso que você quer?" e eu não podia dizer não então sorri e disse que era isso mesmo. Mas acho que ela não acreditou muito em mim, embora confiasse no esforço que eu estava fazendo; mesmo assim, não tocou mais nesse assunto até o dia do casamento.

– E você não está lá com ela porque... — interrompeu de novo.

Leandro ignorou e continuou:

– No dia do casamento ela estava linda, quando a vi no seu vestido de noiva pensei "Esta mulher é linda! Esta mulher maravilhosa...", eu caminhei em direção a ela sem perceber mesmo antes que ela chegasse ao altar e sem graça ela disse "Leandro, err, você tem que me esperar lá...”, mas ela já sabia, eu via a tristeza no olhar dela... "Olive, eu não posso mais, eu te a...", tentei continuar, mas ela respondeu "Não, Leandro, você me ama como amiga, eu te amo, espero que um dia como amigo, mas eu não posso te obrigar a isso. Vá, quero que você encontre o que o seu coração tanto espera!". Eu sentia nos meus ombros e naquele abraço apertado que ela sorria e chorava, e quando começou a me soltar, suas lágrimas aumentaram mais e mais, mas eu não pude protegê-la, eu não pude... Eu corri em direção à saída e enquanto corria sem destino, liguei para a minha irmã que acabou me mandando pra cá. — e sorriu.

Algumas latinhas depois, a bebida começou a fazer efeito em Caio, que foi até o sofá e se deitou, parece ter ignorado toda história, mas no fundo tinha prestado atenção, só queria descansar:

– Eu vou ficar aqui, porque acho que não consigo chegar até meu quarto zonzo desse jeito, mas pode ficar lá.

– Claro que não! Já cheguei causando um estrago na sua casa, não pretendo ser mais inconveniente que aquilo. Deixa que eu te levo até lá...

– Ah menino... Olha seu tamanho... — E dormiu.

Leandro até tentou levantá-lo, mas ele era um pouco menor e sua força não agüentou Caio. Desistiu. Sentou-se no chão, a frente de Leandro e ligou a televisão. Começou a assistir, mas logo o sono chegou.