Um Dia Bem Longo

2 Carisma Russo


Notas iniciais
Então... vou colocar o segundo capítulo agora de manhã...

Todo o nervosismo da falta de prática assolou seu corpo naquele momento, ainda que a mente estivesse trabalhando à toda, buscando resoluções e conclusões para aquela situação. A atmosfera tinha se tornado um tanto pesada e Akira, buscando amenizar tal clima, levantou a questão:

– Sophia Ural... você vem do exterior?

A pergunta foi lançada casualmente, mas a visita ainda pareceu surpresa com a interrogação. Akira lia com pouca atenção um pequeno livros de contos, com uma capa branca e desenhos de plantas e coelhos em preto, enquanto que ela estava sentada em uma poltrona próxima esperando Aika chamar para o jantar.

No momento da pergunta ele havia fechado o pequeno livro, fazendo um barulho fraco que ainda sim a surpreendeu. Tendo sua atenção voltada para o irmão de sua colega, imaginou que seria um bom momento para levantar um tópico, mas não esperava ter de responder algo primeiro.

– Ah... sim, eu sou russa...

– Russa? – ele ficou surpreso – O que os russos estão fazendo no Japão?

– Eu vim com o meu irmão pra cá sob algumas circunstâncias, e desde então estamos morando por nós mesmos próximo ao centro...

– Uhm...

“Um leve erguer de sobrancelhas e um sorriso amigável no rosto pode ser uma arma fatal em situações inusitadas... uma visita inesperada é só um caso. Fingir estar surpreso ao ganhar um prêmio que, huh, você certamente ia ganhar, é outro.”

Depois de um leve momento onde o japonês encarou ainda mais a fundo a russa, causando um leve desconforto na mesma, ele continuou:

“Acredito que isso também aplica-se a fingir-se surpreso ao acidentalmente encontrar sua namorada que, na verdade, você estava seguindo... bem, não que faça diferença agora. Minha encenação foi extremamente eficaz, e a pergunta no final, o toque de ouro.”

Akira ainda encarou por mais alguns momentos a garota, que agora evitava seu olhar a toda custo, deslizando a cabeça em direção aos quadros e ao relógio antigo que decoravam a sala de estar ou, como o japonês costumava falar, “pseudo-sala”.

“Com isso completei meu dever como anfitrião. Minha cota de conversas por hoje está... terminada?”

Durante aquele breve momento, então, ouviu-se apenas o bater do relógio, que parecia distrair bem a garota. Naquele momento, onde seria possível examiná-la bem sem ser notado, Akira observou cada detalhe de seu corpo.

Além da pele um pouco clara, Sophia – a garota que Aika supostamente tinha avisado que viria – tinha cabelos negros e olhos violetas, bem escuros. Akira não era profissional em análise corporal, mas suas três medidas seriam, muito provavelmente, 76-49-75. Para um homem exigente, aquilo não seria suficiente mas, para uma adolescente comum, o japonês acreditava que a russa estava na média.

“Espere, meus critérios não estão autos o bastante aqui... ela tem um corpo infantil demais!”

Era completamente diferente de sua irmã. Completamente, mais que completamente diferente.

Quando estava prestes a parar de encarar a menina, ergueu os olhos e encarou novamente seu rosto, voltado para alguns livros jogados em um móvel próximo à escada. Dali, Akira reconheceu uma autobiografia de Einstein, que ele sabia não ter sido ele a comprar. Reconhecendo na garota o brilho do interesse, levantou-se e foi até o móvel, tomando o livro nas mãos.

A russa surpreendeu-se um pouco, perguntando, logo em seguida:

– Você gosta de Einstein?

– Que tipo de gostar? Se está perguntando se eu o namoraria, a resposta é não. Se está perguntando se eu gosto do que ele fez, a resposta é clara.

Após uma leve risada da fraca piada do japonês, ela colocou uma mecha do cabelo para trás e indagou:

– Clara? O que quer dizer?

– Se eu não gostasse do que ele fez... não acha que estaria indo contra as leis do meu mundo?

– Calma, calma – disse ela parecendo empolgada – você não pode colocá-lo na posição de Deus?

– Eu acredito que algo como ele exista – um olhar sério formou-se em seu rosto – mas acredito, ainda, que os humanos podem fazer um bom trabalho em seu nome.

– Um bom trabalho?

– E o que você acha que é a ciência?

A russa parecia prontificar-se a responder, e quando abriu a boca para falar algo – que tinha, em verdade, despertado o interesse do jovem – foi interrompida por Aika que, da cozinha, a chamou para jantar.

Os dois ainda se encaram por um momento, e então a garota levantou-se e foi caminhando para onde achava ser a cozinha. Akira parou e ficou olhando um pouco mais para o livro, e quando a menina virou-se para perguntar se não viria, ele murmurou:

– “A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente” ... acho que só você, que conseguiu entender a maior parte do mundo, pode dizer isso, amigo...

O japonês então sentou-se novamente em uma poltrona, massageando com os dedos da mão esquerda os pontos doloridos de suas pernas, ainda cansadas do esforço para subir a escada. Da sala, podia ouvir as garotas discutindo algo, até um ponto onde a voz que indicava Sophia calou-se, dando espaço para um momento interessante.

Logo em seguida, carregando toalhas e um par de peças de roupa, a menina voltou a sala, passando pelo japonês e, enquanto subindo a escada, falando baixo:

– Com licença...

– Não se preocupe, mesmo que pudesse não iria espiá-la.

– E-Eh?!

A menina apressou os passos a avançou rapidamente por todos os degraus, chegando ao primeiro andar. Logo em seguida, Aika veio da cozinha, e enquanto passava por Akira, comentou:

– Aki-chan... você não devia matar as visitas de vergonha desse jeito...

– Eu só tentei tranquilizar a garota, não seja chata – disse ele com um sorriso sarcástico no rosto.

Sua irmã sorriu também e subiu as escadas, desaparecendo então do campo de visão do garoto e alertando um pouco mais sua audição.

“Tudo aquilo por nada... E eu achando que ela só tinha ido pro kendo... Ainda errei que dia era hoje...”

Vagarosamente, Akira esticou suas pernas o tanto quanto conseguia, sentindo dores alucinantes e caibras surgirem por toda a extensão do membro.

“Talvez eu deva amputar tudo, e ter como argumento ser aleijado”

Rindo da própria piada, o jovem levantou-se com um último esforço e dirigiu-se à “verdadeira sala”. Nela, ligou seu console, pressionando o botão luminoso que nem mesmo podia ser chamado de botão, e recuando em direção ao sofá quase felpudo atrás de si.

Quando acomodou-se, buscou com as mãos o controle, encontrando o mesmo atrás de uma almofada na sua direita. A tela de sua TV gigante iluminou totalmente o ambiente, e quando o jogo começou, seus movimentos foram precisos.

Um, dois, três botões pressionados em tempo certo, e então um leve movimentar de pulso, garantiram um combo mais que especial e lhe deram a tela de “Perfect! Fast K.O.!” que ele estava tão acostumado a encarar.

Jogou o controle de lado um momento com a dor gradualmente maior em sua perna. Levantando o olhar para o teto e passando as mãos no rosto, praguejou. Levantou-se ainda mais uma vez, e passando pelo corredor e a sala de estar, aproximou-se da escada e gritou:

– Aika! Onde tem remédio pra dor?!

Do banheiro, ele ouviu um outro grito responder:

– Dentro da minha bolsa tem um! Na cozinha!!

Agradecido, o japonês afastou-se da escada, mas não rápido o suficiente para evitar ouvir interessante diálogo.

– ... a aula foi realmente interessante... me pergunto se... na próxima...

– ... não acho... possível... muito ruim...

–... não pode... criticar...

As duas deram alguns risinhos e comentaram coisas fúteis, do tipo “Nossa, os seus são grandes!”, “Que pele macia!”, e por algum motivo, o japonês reconheceu na situação aqueles animes populares, onde o protagonista acaba morando numa casa cercado de garotas lindas e jovens, passando por todo tipo de situação com elas.

– Me pergunto se esse vai ser o meu caso... isso faria da minha vida interessante...

Quando estava prestes a respeitar a privacidade delas, a conversa chamou atenção do japonês.

“Bah, a culpa é delas. Estão quase gritando lá em cima...”

– ...De toda forma... que foi... aquilo?

– Anh? Aquilo?

– O seu irmão....

– Ah, ele é mesmo... pervertido... falar esse... de coisa...

Sophia tinha respondido alguma coisa, mas foi baixo demais para até mesmo Akira escutar.

Lamentando por ter uma audição humana e mortal, afastou-se em direção a cozinha, encontrando a bolsa de sua irmã em cima da mesa. Abrindo-a, passou a procurar o que queria: uma cartela ou mesmo um simples comprimido de analgésico.

Imaginou como ia realizar tal façanha.

Como encontrar um comprimido de analgésico dentro da bolsa de uma mulher?

Passou alguns minutos tirando escovas, espelhos, papéis, documentos, notas fiscais e até mesmo uma camisa de dentro da bolsa da irmã. Quando estava cansado o suficiente de tentar inutilmente procurar pela bolsa, sentiu uma pequena pontada no indicador.

Era o comprimido.

Usou os dedos para removê-lo em segurança do ambiente catastrófico em que estava, e tirando-o de sua proteção, engoliu-o de uma só vez.

Nesse exato momento, Aika e Sophia desciam as escadas, vindo em direção à cozinha – provavelmente preparando-se para o jantar.

Em silêncio, começou a reunir os bens de sua irmã e jogá-los dentro da bolsa novamente, tirando toda aquela bagunça da mesa. Quando sua irmã se aproximou, comentou:

– De toda forma, Sophia... seu vocabulário é muito bom, não é?

– Ah? Sim... eu aprendi quando ainda era nova.

– Você aprendeu japonês ainda nova? – surpreendeu-se Aika – e eu me achava inteligente...

– O que você quer dizer, Aika? Que tipo de amiga é você? Eu acabei de conhecer a garota, e descobri mais rápido que você que ela falava japonês desde criança?

– Não fale com um tom tão desapontado... – riu a russa sentando-se numa cadeira próxima, indicada por Aika.

Os dois sentaram-se à mesa, enquanto Aika foi buscar o jantar. Tratava-se de um cardápio que incluía Sushi, Sashimi e Yakisoba, com um pouco de arroz branco.

Apesar de Akira preferir comer tais pratos no almoço, não reclamou. Estava ocupado demais pensando.

“Ser capaz de dominar uma língua tão complicada como a japonesa com poucos anos de idade revelava um grande talento para o estudo, ou uma grande quantidade de tempo disponível. O vocabulário dela era tão bom que poderia se passar por uma japonesa nacionalista, desde que não dissesse seu nome.”

– Itadakimasu! – disseram as duas à mesa.

– Itadakimasu – falou Akira com os olhos vidrados na russa.

“É verdade que a infância é o melhor momento para aprender novas línguas, mas aprender japonês é outra coisa. Será que ela teve alguma influência quanto a isso?”

– Sua mãe é japonesa, Sophia?

– Sim – respondeu ela enquanto fazia seu prato – a parte da minha mãe da família é japonesa.

“Ah, isso explica muita coisa. Dê os detalhes antes de informações tão incríveis, menina.”

Enquanto comiam, Aika e Sophia conversavam, e Akira escutava atentamente todos os detalhes do diálogo.

Sophia tinha vindo ao japão com a mãe e o irmão, e estava morando próximo ao centro – um lugar não tão distante dali. Pelas contas de Akira, três ou quatro quarteirões eram suficientes para alcançar o apartamento onde ela estava morando.

Havia se matriculado duas semanas atrás, e foi nesse período que conheceu Aika, no pátio frontal do colégio. Entretanto, estavam enfrentando alguns problemas com dinheiro, e logo voltariam à Rússia, já que o pai de Sophia exigia a presença de sua mulher lá imediatamente.

“Eles estão se divorciando? Isso só gera merda para os filhos...”

Talvez sensibilizado pela situação, ou simplesmente por saber que não ia influenciar em anda ter duas pessoas a mais na cada, ele comentou:

– Se estiver tudo bem pra você e seu irmão, podem ficar aqui até sua mãe voltar.

As duas garotas pararam de jantar imediatamente. Aika encarou de olhos arregalados o irmão, que continuou falando.

– Eu não entendo bem a situação... – “O que na verdade é uma mentira”, pensou – mas nossa casa tem mais de dez quartos no primeiro andar, e não acho que seria um problema vocês ficarem aqui por um tempo.

Sem saber o que falar, a menina começou a gaguejar compulsivamente, o rosto vermelho e os olhos para baixo.

– E-Eu agradeço a gentileza, m-mas...

– Não faz mal. Eu realmente não me importo, vocês seriam bem-vindos. – e virando-se para sua irmã, um tanto atônita na mesa, indagou:

– Está tudo bem, Aika?

– Sim... – ela acenou positivamente a cabeça – eu acho...

– Então está acertado. Quando você arrumar suas coisas, pode vim pra cá. Só preciso falar com sua mãe antes, pode me passar o número dela?

Notas finais
Acho que vai demorar um pouco pra eu postar o próximo capítulo, coisa de três a quatro dias. Se você leu, obrigado! Perdoe os erros!