Um Dia Bem Longo
3 Acordos Diplomáticos
Notas iniciais
“É certo que habitualmente eu iria recusar com toda a essência da minha vida a presença desses dois aqui em casa, mas acho que, no final das contas, estou desesperado por companhia.”
O jovem Akira pensava isso enquanto discava o número de sua mãe no telefone. Aquela já era a segunda tentativa e, obtendo novo fracasso, sacou o celular do bolso e discou um número diferente.
O fato agora era que, recebendo uma ligação do celular do próprio filho, ela não iria deixar de atender.
“O irmão dela pode ficar no quarto ao lado”, pensava o rapaz enquanto batia impacientemente o dedo no revestimento de madeira que havia sido recentemente aplicado à parede. “Desde que ele se comporte, posso suportar sua estadia aqui”.
Depois do terceiro toque, uma voz feminina, madura, atendeu do outro lado da linha.
— Filho?
Sim, aquela voz. Era inconfundivelmente sua mãe, Yamamoto Kaori.
Para sua surpresa, após ouvir a voz daquela mulher que havia conquistado tudo na vida, não conseguiu sair do silêncio. Era assim já há alguns dias. Precisamente, desde que Akira havia colocado em questão a ausência de sua mãe na casa.
Não era um conflito familiar. Ele conseguia viver bem com sua irmã e as vindas de sua mãe sempre que possível. Apenas havia se perguntado “Por que ela continua indo para o exterior, se já temos tudo de que precisamos?”.
— Sim, sou eu. Como está a viagem?
— Ah, sim... está indo bem até agora. Sabe onde estou?
— Sei. — respondeu Akira um tanto ríspido para o que pretendia.
— A-Ah...
“O silêncio é o maior dos martírios”, pensou ele enquanto metalizava as palavras de Pascal, “Nunca os santos se calaram...”
— Daqui a alguns dias eu volto, então só vou precisar sair novamente no mês que vem!
— Sim, desde que nada aconteça, certo? Como você tendo que ir pro outro lado do–
Veloz como uma flecha, a mão de Aika tomou o celular das mãos de Akira, virando-se rapidamente para tomar outra direção, onde pudesse falar em paz. Vendo sua irmã afastar-se, deixando-o sozinho no corredor, Akira virou para um quadro próximo enquanto refletia.
“Ela é só uma pintora... Não vejo por que pintores teriam que ficar viajando por aí.”
— Ah... Deve ter sido melhor desse jeito...
“Com certeza, as doces palavras de minha inocente irmã concederão a mim o que quero.”
Com passos rápidos, Akira buscou a presença desejada de Sophia, a garota de olhos violetas. “Ainda preciso avisar a mãe dela”, pensou. “Aika vai cuidar da nossa, então...”
— Sophia! — gritou ele em voz alta enquanto entrava na sala. — Preciso que me diga uma coisa!
A garota assustou-se um pouco com a chegada repentina de seu anfitrião, mas rapidamente respondeu:
— É o número da minha mãe?
— Exatamente... — Ele estendeu um outro celular que estava num móvel próximo para ela, perguntando: — Pode me fazer o favor?
Acenando positivamente, Sophia pegou o celular e discou o número de sua mãe. Enquanto colocava o aparelho no ouvido, deslocou uma mecha de cabelo para trás, tirando-a do ouvido.
“Que belo cabelo”, pensou ele.
Após alguns instantes, a garota perguntou ao celular:
— Mãe?
Akira assistiu a todo o diálogo entre mãe e filha, no qual Sophia explicava que tinha uma amiga de confiança e que tinha sido convidada a passar um tempo em sua casa, com seu irmão. Em certo ponto, ela estendeu o aparelho ao japonês, arrastando as palavras como se fossem parte de um canto de sepultura.
— Ela quer falar com você...
Aquele parecia ser um momento um tanto importante.
Akira estendeu a mão e segurou o celular, encarando fortemente a menina à sua frente. Colocando o aparelho no ouvido, começou o diálogo para o qual já há alguns minutos vinha treinando mentalmente:
— Boa noite. A senhora é a mãe de Sophia?
De início essa pode parecer uma forma bastante comum de iniciar uma conversa, mas para o nosso protagonista, esse não é em caso. Acima de tudo, Akira era um jovem cortês, clássico e de poucas palavras — ainda que quando falasse, fosse bastante.
Uma voz mais jovem do que deveria respondeu, sem demorar, o educado garoto do outro lado da linha:
— Boa noite! Você é Akira, o amigo de Sophia?
“Parece que já vou começar mal”, pensou ele, logo deixando esse pensamento de lado ao observar um detalhe inquietante.
— Não — ele negou de forma bastante prática — na verdade, sou irmão da pessoa que é amiga dela. Por enquanto, sou apenas um conhecido... Devo passar o telefone à minha irmã, ou a senhora quer falar comigo mesmo?
“Não me surpreenderia se ela não me ouvisse com todo esse barulho”.
— É com você mesmo... — riu um pouco a mulher de pronúncia confusa ao telefone. Akira podia sentir o sotaque russo ainda mais forte na mulher, mas antes que pudesse se perder nesse detalhe, notou o tom preocupado que surgia do outro lado da linha — Eu realmente agradeço a oferta, mas, veja bem, meu filho...
— “... Ainda não lhe conheço e não posso deixar que ela fique aí...?”
— Precisamente!
“Se a senhora tivesse ousado permitir algo desse tipo tão facilmente, eu gastaria todos os créditos desse aparelho lhe dando uma lição de moral.”
— Como é seu nome, senhora?
— Anastasia...
— Senhora Anastasia, seu argumento é ótimo e, na verdade, não tenho intenção alguma de rebatê-lo de qualquer forma.
Sophia rapidamente mudou sua expressão, surpreendendo-se com a afirmação do jovem que, por sua vez, deu-lhe as costas enquanto continuava a falar.
— A verdade é que eu convidei seus filhos para passar um tempo aqui por meus próprios motivos. Ando só ultimamente, e vi a oportunidade de conseguir algumas companhias dessa forma. Já estava, desde o começo, esperando que a senhora não permitisse, mas imaginei que ainda haveria uma chance, considerando a situação em que sua filha aparenta estar.
— C-Como...? — O tom de voz da mulher havia mudado, convertendo-se em um claramente confuso e surpreso. Percebendo que ela não iria abrir espaço para o que ele queria, continuou:
— O colégio Suisei é conhecido por ser um dos de maior status dentro de Fujisawa, senhora Anastasia. É um colégio para a alta sociedade, com um padrão bastante rigoroso quanto a isso.
Akira virou-se para Sophia, examinando-a de cima a baixo com os olhos aguçados que confirmavam o que ele já tinha constatado anteriormente.
— E esse uniforme, ainda assim, é de segunda mão.
Do outro lado da linha, ouviu um sussurro de surpresa.
— Não apenas isso, o centro de Fujisawa não é exatamente conhecido por seus padrões de vida... Desde que o distrito foi reformado, muitas pessoas se mudaram pra cá, resultando em uma superlotação... Tenho certeza de que o local onde estão morando não é nem um pouco confortável. É, no mínimo, desagradável.
Sophia sorriu com franqueza enquanto observava Akira falar sem parar no celular. Aquele era Yamamoto Akira, o garoto de quem sua amiga, Aika, tanto havia falado em várias ocasiões.
— Não pense que pode me enganar — disse ele sorrindo enquanto encarava a russa. — Nunca no mundo eu ouviria o nome “Ural” e não o reconheceria. Vocês são de uma família rica — mais rica que a minha — e com certeza não iriam para um ambiente como esse em circunstâncias normais. Como se não bastasse, há esse som de tumulto que posso escutar daqui... A senhora parece ter tentado diminuí-lo... Onde está agora, em um restaurante? O fato é que acredito que estão em péssima situação agora, e vi a oportunidade de conseguir o que quero explorando isso.
Depois de um breve momento onde ele pôde engolir um pouco de saliva, Akira esboçou um sorriso largo com seus lábios finos e prosseguiu, mais como vilão do que como mocinho:
— Estou certo de que a senhora não deseja deixar seus filhos comigo agora... Mas... Bem... O que posso dizer é que eu posso cuidar bem deles enquanto a senhora não consegue se estabilizar... Se estiver tudo bem para a senhora, claro.
“Não existem mais dúvidas... Eu realmente sou incrível no que diz respeito a acordos diplomáticos.”
*
— E então... foi assim que a convenci a deixar seus filhos aqui.
Akira estava sentado no chão, junto a Aika, que, deitada no sofá, lia uma revista sobre sucos dos tipos mais exóticos que se podia imaginar. Usava uma bermuda amarela que só saia do armário à noite; era de um material leve, que lhe deixava bem à vontade. Sua irmã, por sua vez, usava seu clássico pijama de duas partes, mangas e pernas compridas, cor branca, gola vermelha.
Colocando uma mão entre uma página e outra, Aika interrompeu sua leitura e virou-se para admirar o cabelo do irmão, que ela acariciava entre os dedos.
— Ela é uma boa mulher... —constatou em voz alta o japonês, enquanto permitia o toque de sua irmã. — pude perceber apenas por ter ouvido a voz dela no telefone. Até está trabalhando em um restaurante por eles... Pensar que uma mulher tão orgulhosa iria tão longe por seus filhos!
— Mas essa foi sua fraqueza, não foi? No final, você conseguiu o que queria... Akira, você é uma pessoa um tanto manipuladora quando quer.
— Ei, não fale desse jeito. Se os humanos não tivessem se adaptado às diferentes situações em que estiveram, ainda estaríamos comendo frutas, sementes e caçando animais com o dobro de nosso tamanho. Não é possível... Você já está com sono?
— Claro que não! — exclamou ela aborrecida. — Ei, Akira... O que você acha que eu sou, uma criança?
Akira levantou-se do chão, deixando seu apoio — que até então era o sofá — para trás, junto com as mãos de sua irmã. Pegando um relógio em cima da mesinha e simultaneamente ignorando a pergunta inconformada de sua irmã, retrucou:
— Mas sabe... Já são duas da manhã... Você não devia ir dormir?
— Na verdade, não tenho aula amanhã — informou ela de forma suspeita, também se levantando enquanto agarrava uma almofada. — Vai ter reunião com os responsáveis.
Um ambiente esquisito acabou formando-se após as palavras da menina. Percebendo que talvez não tivesse sido uma boa ideia mencionar aquilo, Aika tentou mudar de assunto, apenas para acabar incomodando ainda mais o japonês, que acabou por deixar escapar as palavras que sua irmã não deveria ouvir:
— Responsáveis, hein... — Um pouco de ressentimento tomou conta dele, mas não antes que pudesse se virar rapidamente para sua Aika, perguntando:
— Quer que eu vá?
— O-O quê? — balbuciou sua irmã, surpresa. — De jeito nenhum, Akira! Você... você não precisa se esforçar...
— Mas eu realmente acho que alguém devia ir — ele encarou intensamente sua irmã, cada vez mais atrapalhada com as palavras, como se querendo avaliar sua reação — Já faz tempo que eu não vejo os professores também...
Um pouco apreensiva, Aika murmurou:
— Mas... se... se você for... — Ela abaixou um pouco a cabeça, pensando se devia ou não dizer aquilo — Você não precisa... Já fez o bastante...
“Sei... O bastante... Huh?”
— Entendi — falou o irmão mais velho com a voz mais gentil que pôde simular. Ainda certo de que não conseguira acalmar sua irmã, continuou, enquanto batia levemente nas costas dela:
— Agora se apresse! Ter folga não significa perder uma noite de sono!
— A-Ah...
— Rápido, rápido! Eu também quero dormir, e não posso fazer isso com minha irmã acordada!
— Mas... por quê?
“Uma excelente pergunta, Aika.”
Akira meditou acerca das várias respostas que lhe vieram à cabeça. Depois de alguns curtos segundos de silêncio, escolheu a que julgou mais efetiva, mais útil, e colocou seu trunfo em ação:
— Hm... Por que será...? — disse ele fazendo-se de sombrio, enquanto sussurrava: — Porque a essa hora... os irmãos mais velhos geralmente fazem coisas maliciosas na Internet... coisas que nossas irmãs não podem ficar sabendo...
— E... EH?!
Alguns minutos depois, sua irmã dormia no primeiro andar.
Colocando-se no arco de seu quarto, um pensativo Akira lamentava-se enquanto, simultaneamente, comemorava seu sucesso.
“Aika conseguiu facilmente o consentimento de nossa mãe... Não sei se isso deveria ser bom, entretanto...”
Akira riu um pouco e olhou para a sala de estar onde horas atrás, recebia sua visita.
“Bem, pelo menos eu consegui algo hoje... Esses dois irmãos... Não entendo o porquê, mas sinto que algo muito perturbador está por trás da situação dessa família...”
Puxando lentamente a porta de seu quarto e adentrando, então, a escuridão do cômodo, concluiu estoicamente seus pensamentos sobre o assunto, sentindo apenas um pouco de desconforto com sua própria resolução. Sentou na beira da cama refletindo sobre todo o dia que havia se passado, e olhando para um caderno em cima da mesa, pensou:
“Não que seja da minha conta, é claro...”
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