Um Dia Assustador
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Notas iniciais
John estava correndo pela calçada.
Seu dia já não começou muito bem. Acordou com um telefonema as quatro da manhã, um de seus clientes estava entrando em pânico, pois não acreditava que conseguiria pagar o que devia. John, então, precisou deixar sua filha de 13 anos sozinha no apartamento — claro que, como qualquer pai faria, ele deixou um bilhete explicando o que havia ocorrido — e correr para encontrar e acalmar seu cliente.
Veja bem, John era um negociador nato. Ele é contratado por pessoas em péssima situação financeira e, além de negociar suas dividas da melhor maneira possível, desenvolve um planejamento pessoal para normalizar sua condição.
Fábio, um cliente recente, possui um problema com apostas e perdeu muito dinheiro com isso. Mesmo após contratar John, ele estava irredutível, pois tinha certeza que viriam cobrar sua dívida com juros e sabia que não havia como pagar. Durante o mais recente ataque de pânico, revelou o que estava a todo custo segurando: devia dinheiro para um traficante e o prazo estava acabando.
John Underwood conseguiu o nome do sujeito que havia emprestado e, após uma pesquisa rápida no banco de dados da polícia de Belo Horizonte (o qual ele possuía acesso, longa história — que envolve uma policial, um poodle e balões), foi capaz de localizar seu endereço. Em seguida, ele se dirigiu até lá para negociar a dívida e aumentar seu prazo. Como? Bem, vamos dizer apenas que ele pode ser bastante intimidante quando quer.
E o que tudo isso tem a ver com a história? Desde que acordou, John acabou com um ataque de pânico, entrou num território perigoso, invadiu a casa de um traficante e negociou a dívida do seu cliente com ele. Entretanto, nesse exato momento, quase duas horas da tarde, John se encontra na frente de uma farmácia, aterrorizado, tentando descobrir como compra um pacote de absorvente sem ter que passar pelo caixa.
Tudo isso porque Alexa teve sua primeira menstruação hoje e ligou pra ele, pedindo pra comprar o absorvente e algum remédio pra cólica. Sempre soube que ser a única família dela seria o maior desafio de sua vida, mas nunca imaginou que esse momento tenebroso da sua vida. Como ele saberia qual remédio comprar, pelo amor de Deus? E será que ela sabe colocar o absorvente da maneira correta? John tenta conter seus pensamentos para evitar entrar em pânico, como Fábio.
Se aproximando da farmácia, ele avista uma mulher na faixa dos 30 anos, prestes a entrar. Sem se conter, ele a chama:
— Olá querida, eu estou no meio de uma tragédia e realmente poderia usar uma ajuda sua. — John fala com a desconhecida — Meu nome é John, por sinal.
Depois de se recuperar do pequeno susto inicial, a mulher inclina a cabeça, intrigada.
— Meu nome é Milena, é prazer conhecê-lo. — ela diz, apertando a mão que ele estendeu
— Então Milena — John começa — eu precisava comprar algo na farmácia, mas não sem nem por onde começar.
— Por que não começa dizendo o que seria? — ela sugere
Um pouco constrangido, John coça a cabeça, tentando encontrar um jeito de falar.
— É... então, eu moro sozinho com a minha filha, ela fez 13 anos a pouco tempo. Faz alguns minutos que ela me ligou e disse que... — a voz dele falhou por um breve momento, John limpa a garganta e continua — ela disse que menstruou pela primeira vez e não tem nada em casa. — apesar de falar mais baixo essa última parte, Milena ainda ouviu e riu baixinho do desconforto do homem, o qual falava cada vez mais rápido — Mandou eu vir na farmácia, mas eu não faço ideia do que comprar. Sei que precisa de absorventes, mas tem tantos! Como eu vou saber qual é pra levar?? Não sei se o pior é isso ou o remédio que também vou ter que comprar, por que ela disse que estava com dor. Mas ela também não disse qual era o tipo da dor. E agora? Vou acabar levando todos os remédios desse lugar e...
— Calma! John, não é? — ele assente e ela continua — Eu preciso que você se acalme um pouco John, respire.
Depois de alguns segundos, com ele visivelmente mais calmo, Milena continua:
— Como é a primeira menstruação, o ideal é que seja o absorvente mais confortável possível e... — John passou os próximos 20 minutos da sua existência aprendendo sobre os tipos de absorventes e os principais remédios para cólica, além de saber como alivia-la
Ao sair da farmácia ele ainda repassava todas as informações em sua cabeça, esperando que apreendesse o máximo possível, para poder passar à filha. Segurando dois sacos plásticos, John corre de volta para o carro, estacionado a 1 quarteirão de distância.
10 minutos depois, parado na porta de casa, suado, cansado e ainda com um pouco de pânico, ele toma coragem e entra em seu pequeno apartamento. Esperando, obviamente, um rastro de sangue pela casa, John se surpreende ao não encontrar sua garotinha em lugar nenhum.
— ALEXA, CHEGUEI — ele grita, na esperança dela ouvir e respondê-lo
— No banheiro, pai! — ela grita de volta
Se dirigindo para o banheiro, John bate três vezes e avisa que deixará as compras no chão, perto da porta. Depois de ouvir ela responder, John coloca tudo no chão e vai para a sala, esperar sua filha acabar no banheiro.
Sua garotinha agora não era mais sua garotinha e foi assim que um pensamento o atingiu feio: sua filha, agora, poderia gerar filhos ela mesma. John vai pra cozinha e põe um pouco de água no copo. Mesmo depois de beber um copos e meio, ele continua sem respirar adequadamente, quando outro pensamento o atinge: ele precisa começar AQUELA conversa com ela. Começando a hiperventilar, ele começa a abrir os botões da camisa. E é essa cena degradante que Alexa se depara ao sair do banheiro.
— PAI?! É um ataque cardíaco? Fala comigo, por favor! — ela corre para ampara-lo.
Ao perceber que John tenta falar alguma coisa, ela o coloca no sófa e se aproxima para escutar.
— Nada de... — ele pigarreia
— Não estou conseguindo entender — Alexa fala, quase entrando em pânico também
John se recompõe de imediato, percebendo que aquela era a situação em que ele precisava ser firme, um dos momentos mais importantes da sua vida de pai, que iria determinar muita coisa e repete com mais firmeza:
— NADA DE GAROTOS!!
Atônica, Alexa olha pra ele, sentando no chão logo em seguida.
Risos, era isso o que John estava ouvindo. Ou melhor, gargalhadas. A gargalhada de Alexa ecoava no pequeno apartamento como se não houvesse um amanhã, ela chorava de tanto rir. Sem entender nada, ele ficou parado observando-a e esperando que se acalmasse, para lhe dar uma explicação do que foi aquilo.
Assim que ela se acalmou, John continua:
— É a sua primeira experiência menstruando e isso significa uma nova etapa na sua vida. Agora, mais do que nunca...
— Pai — Alexa tenta falar
— ... você precisa ser o mais cuidadosa possível. Você sabe a quantidade de remédios e absorventes diferentes que existem?? Eu nem sabia que dava pra ter tantos diferentes, tem um tipo de absorvente para o início, um menor para o final. Cada ciclo demora, em média, 28 dias e...
— Pai — ela tenta novamente
— ...as cólicas podem ser insuportáveis. Tem muitos remédios para tomar, mas uma bolsa térmica que esquente parece fazer muito bem e...
— PAI! — Alexa grita, ele para e ela continua — eu te amo, sabe disso. Mas eu sou minimamente responsável, então relaxe, pois não vou te dar um neto tão cedo. Além disso, pode parar com A conversa, porque eu já sei essas coisas.
— Como você já sabe sobre tudo isso? — John pergunta
— Internet. E você?
— Uma mulher chamada Milena. Conheci a uns 40 minutos atrás.
— Olha, tomarei cuidado daqui para frente, o que não necessariamente quer dizer que eu nunca vou sair com ninguém.
— Mas...
— Mas nada! Prometo que farei apenas o que o senhor faria, mas não pode me privar de tudo e todos só porque não quer que eu cresça. — ela abraça seu pai com força e ele beija sua testa
— Minha garotinha, — ele funga — está crescendo.
Deixando um beijo no rosto do pai, Alexa avisa:
— Vou para o meu quarto, escutar um pouco de música.
— Espera um pouco... — John lembra — VOCÊ NÃO PODE FAZER O QUE EU FAZIA. DE JEITO NENHUM. — e só deu tempo de escutar as gargalhadas preenchendo o apartamento mais uma vez, enquanto a porta de Alexa se fechava.
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