Um Diário Nem Tão Querido
6 Papo de Tia
Notas iniciais

Pela manhã acordo com uma estranha sensação de estar sendo observada. Sento-me rapidamente e percorro meu quarto com os olhos buscando a fonte daquela sensação, e encontro ninguém menos que Azarado em cima da minha cama me observando com aquele olhar afiado:
–Como foi que você entrou aqui monstrinho? – indaguei, olhando intrigada para a porta do meu quarto. Estava fechada, exatamente como eu a deixei antes de dormir.
Aproximei-me da janela para verificar se ela podia estar destrancada, desse modo facilitando a entrada sorrateira do meu gato do mal. Quando olhei pela janela, notei que na casa ao lado (para onde a minha janela estava voltada) notei que havia um carro estacionado na porta. Curiosa, abri a janela e arrisquei uma olhada. Pude ver que minha mãe estava lá fora conversando com um casal, mas foi só o que deu para saber a respeito dos possíveis vizinhos, pois, eles estavam de costas para mim. Estava tentando me esticar para ver melhor, quando um objeto acertou a minha cabeça.
–Ai!
–Susan, pare de espiar – uma voz bastante conhecida me repreendeu.
–Tia? – disse estupefata – você me jogou uma pedra?
Natalie Donovan era a irmã caçula da minha mãe. Fisicamente elas eram bastante parecidas, mas mesmo assim era impossível confundi-las. Enquanto minha mãe fazia o tipo mulher séria e bem resolvida, tia Nat optava pelo estilo hippie de bem com a vida, com enormes saias multicoloridas, muitas pulseiras, e sandálias baixas.
Ela riu, e me respondeu:
–Era o único jeito de chamar sua atenção. Agora que tal você descer e abrir a porta para a sua querida titia?
***********
–Este café está uma maravilha – comentou Natalie erguendo a xícara de maneira apreciativa – sua mãe sempre foi ótima cozinheira.
–Tem razão – respondi concordando.
Natalie tinha me esperado enquanto eu tomava um banho rápido, e agora estávamos sentadas na sala tomando café e comendo rosquinhas (sou viciada em café) enquanto esperávamos o retorno da minha mãe.
–Você ainda não me disse se gostou do presente de aniversário – ela falou enquanto colocava a xícara sobre a mesinha de centro.
–Bom, — disse tentando soar educada – digamos que o seu presente foi um tanto surpreendente.
–Você não gostou não é? – ela perguntou calmamente – vamos Sue, pode ser sincera.
Respirei fundo e desabafei:
–Tia eu esperava que o seu presente fosse “excêntrico”, mas um gato? Jura?
–Eu achei que você precisasse de amigo, e os gatos são ótimos companheiros. Então eu pensei: porque não?
–Desde quando gatos são ótimos companheiros? Pelo que eu sei são uma espécie bastante ingrata – retruquei.
–Sua mãe adorou – disse ela tentando mais uma vez me convencer – e esse gatinho é bastante fofo. Nisso você tem que concordar.
–Fofo? – indaguei incrédula – ele me atacou assim que me viu!
Ela me olhou surpresa:
–Que estranho — ela disse.
Ficamos em silêncio. Eu tinha esperança que ela se desculpasse e dissesse que levaria o gato embora, mas tudo que ela disse foi:
–Vocês vão aprender a gostar e confiar um no outro, tenho certeza – disse ela olhando para as escadas – e por falar nele.
Azarado desceu as escadas calmamente e veio se sentar nos pés da minha tia. Ela lhe afagou a cabeça e me perguntou?
–Qual o nome dele?
–Azarado – respondi, sem nenhum humor – olha você pode achar que eu estou inventando, mas essa criatura é do mal. Ele some e aparece do nada feito uma assombração. Até mesmo me acordou às nove da manhã em pleno domingo! Fala sério, onde você encontrou uma coisa dessas?
Ela ignorou a minha pergunta e disse muito séria:
–Susan este gato é muito especial, acredite. Você tem que parar um pouco e observar aquilo que está ao seu redor. Há muito mais por aí do que apenas aquilo que você vê na sua “bolha” com seus livros, revistas e guloseimas.
–Eu o observei muito bem quando ele estava grudado na minha cara – resmunguei ofendida.
–Você já parou para pensar no porque de ele ter feito isso? – ela me perguntou.
–Porque ele é do mal? – respondi – como vou saber? Ele é um gato, não tem como perguntar.
–Talvez tenha – ela disse piscando para mim.
Quando eu ia perguntar o que ela queria dizer, minha mãe entrou em casa com um enorme sorriso no rosto.
Notando que eu não estava sozinha, minha mãe:
–Natalie! Eu não sabia que você estava aqui! – disse dando um abraço carinhoso em Natalie.
–Estávamos tendo um conversinha de tia para sobrinha preferida – respondeu Natalie apertando as minhas bochechas. Revirei meus olhos e disse:
–Sou sua única sobrinha.
Minha avó Clarissa (que morreu faz um bom tempo) tivera apenas duas filhas, e dessas duas somente a minha mãe teve um filho (filha que sou eu, no caso). Natalie nunca se casou e vivia sozinha numa casinha que ficava nos fundos de sua floricultura seu trabalho e paixão.
–Mas é a preferida e isso é que importa – ela insistiu.
Resolvi não discutir. Me virei para a minha mãe e perguntei:
–Então e os nossos novos vizinhos?
–Tudo certo – ela respondeu – os papéis estão organizados e eles já estão instalados. Pelo menos quase isso.
–Nossa! – disse surpresa – então eles vieram bem cedo né?
–Eles estavam com pressa – ela disse dando de ombros – e tem mais...
–Mais o que? – perguntei curiosa.
–Eles vem jantar conosco hoje – disse ela lançando um olhar conspirador para Natalie que sorriu.
–Não entendi a troca de olhares – falei.
–Você fica para jantar não é Natalie? – disse minha mãe ignorando meu comentário – você pode dormir se quiser. Que tal?
–Um um dia inteirinho com a família? – disse Natalie – não posso recusar algo assim.
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