Um Dezembro Entre Nós
1 Aeroporto de LaGuardia, East Elmhurst, NY 11371
Notas iniciais
Sentada na beirada do colchão, eu encarava o visor do celular.
Passagem comprada, sem reembolso. De Nova York para Port Angeles.
É isso. Eu desisti. Larguei a toalha. Soltei a corda.
Noites sem dormir, estresse em excesso, preocupação com notas e pesquisas, sofrendo por antecedência pela residência médica prevista para o próximo semestre. Tudo estava tão pesado, tão difícil — e ainda podia piorar.
A clareza de um futuro em que eu me tornaria uma médica de prestígio, como meu avô, deixando meus pais orgulhosos, já não existia mais como certeza. Talvez fosse apenas um sonho de criança que deixou de fazer sentido. Mas certeza? Não.
Eu não tinha mais certeza de nada.
De absolutamente nada.
Malas prontas.
Chamei o Uber.
O destino era o aeroporto LaGuardia, no Queens.
No carro, o motorista ouvia Loose Ends, de Half Moon Run. Uma piada de mau gosto do destino — ou seria do karma? Dei uma risada irônica, despertando um olhar confuso do motorista pelo retrovisor.
— A senhorita pretende pegar um voo agora?
— Sim.
Arqueei as sobrancelhas ao perceber o olhar preocupado do homem.
— Tem uma tempestade vindo aí. Talvez seja melhor remarcar sua viagem, se me permite aconselhar.
Neguei com a cabeça.
— Impossível. Eu preciso sair dessa cidade hoje.
No fundo, eu sentia que não ia conseguir. Mas o sentimento de falha já existia e preenchia cada pedacinho de mim. Não faria diferença, faria?
Cheguei ao aeroporto com uma hora de antecedência para o embarque e, até então, não havia sinal de cancelamento de voos, embora uma neve fina caísse constantemente sobre a cidade. Atravessei os corredores sem pressa, observando a paisagem pelos vidros vez ou outra, despedindo-me dos detalhes — aliviada por não precisar encarar tudo outra vez.
Era vinte e quatro de dezembro, e o lugar estava bastante movimentado. Lojas de presentes lotadas de pais e avós comprando lembrancinhas de última hora, famílias inteiras desembarcando e se reencontrando. Uma loucura.
Depois de comprar algo quente para beber, sentei-me em um banco ao lado de uma senhora de meia-idade. Ela atendeu uma ligação, discutiu com o filho — ele não passaria o Natal com ela. Após encerrar a chamada, a mulher derramou algumas lágrimas, levantou-se e foi embora.
Pensativa, encarei a tampa do meu café, manchada com meu gloss.
“Nessie, o Papai Noel trouxe um presentão para você!”
Eu quase podia ouvir a voz animada da minha mãe. Suas mãos cobriam meus olhos enquanto ela me levava até a sala de estar para a surpresa. Um enorme presente ao lado da árvore me aguardava. Minha primeira bicicleta. Eu tinha cinco anos, e tudo era tão simples.
“O que você quer ser quando crescer, Nessie?”
Uma pergunta frequente na minha infância.
“Grande!”
Era sempre minha primeira resposta, até que os adultos insistiam:
“Qual profissão você vai ter quando for adulta?”
Eu me lembrava de encarar meu avô, Carlisle, sempre que respondia:
“Médica, como o vovô!”
Eu gostava de ver seu olhar orgulhoso. Depois que ele se foi, nunca mais tive a chance de dizer que me inspirava nele. Carlisle sequer me viu entrar na faculdade de medicina, mas eu persisti na promessa que fiz no dia em que ele partiu.
A realidade voltou a se impor quando houve uma movimentação ao meu lado. Um homem sentou-se falando ao telefone, mas não prestei atenção à conversa. Eu ainda estava acorrentada às memórias, ao passado.
Os sons do aeroporto — conversas, anúncios, aviões decolando, passos apressados, rodinhas de bagagem — tornaram-se cada vez mais altos, mais indistinguíveis.
Fechei os olhos, respirando fundo para afastar a ansiedade. Foi então que ouvi meu nome.
— Renesmee Cullen?
O frio no estômago cresceu quando reconheci a voz. Era a mesma que falava ao telefone, bem ao meu lado.
Umedeci os lábios e, lentamente, abri os olhos.
— Oi, Jake.
Ele abriu um grande sorriso que tomou seu rosto todo.
— Uau! Há quanto tempo!
Mal tive tempo de reagir antes de Jacob me puxar para um abraço apertado. Sentir seu calor me arrancou um suspiro surpreso, trazendo à tona lembranças de quando os abraços dele eram meu porto seguro.
— Sim! São… Quase seis anos.
Afastei-me e sorri quando nossos olhares se encontraram.
— Vai passar o Natal em Forks, Ness?
— É… mais ou menos. — Esquivei-me da pergunta. Não queria entrar em detalhes com ele. — E você? O que faz por aqui?
— Vim visitar a Ronnie, em Newark…
Jacob foi interrompido pelo anúncio que ecoou por todo o aeroporto: todos os voos estavam cancelados devido ao mau tempo.
A notícia se assentou sem alarde dentro de mim. No fundo, eu já pressentia que o voo não ia acontecer como o planejado. O motorista do Uber disse sobre o mau tempo e a previsão de nevasca.
Contudo, nem todos estavam dispostos a aceitar a sina de passar a véspera de Natal no aeroporto lotado.
Uma comoção se espalhou. Seguranças iam e vinham, tentando organizar o caos — tão festivo quanto se espera de uma data como essa.
Encarei Jacob, que demonstrava irritação enquanto digitava rapidamente no celular. Logo em seguida, recebeu uma ligação, mas recusou.
— Acho que vamos passar o Natal juntos.
— Você trouxe presentes, senhor Black?
Ele riu, balançando a cabeça.
— Como pode ver, só tenho uma mochila com pouquíssima coisa.
— Então nada de Natal para nós.
Ficamos em silêncio por um instante, ambos olhando para o nada, absorvendo algo que ninguém mais podia ver — mas que era perfeitamente palpável entre nós dois.
O silêncio foi quebrado por mais um aviso nos alto-falantes, desta vez informando sobre filas para remarcação, vouchers de hotel e assistência aos passageiros.
— Isso vai demorar — murmurei.
Jacob assentiu, passando a mão pelos cabelos curtos.
— Provavelmente horas. Talvez até amanhã.
A palavra amanhã caiu entre nós como um peso extra. Eu não tinha planejado existir além daquela noite.
— Você está sozinha? — ele perguntou, a voz mais baixa, cautelosa.
Senti que havia uma dualidade proposital na construção da pergunta.
— Estou.
Ele hesitou por um instante.
— Eu também. A Ronnie viajou ontem. Ia passar o Natal com ela e voltar, mas tive que adiantar o retorno.
Jacob sempre teve planos simples e diretos. Diferente de mim, que vivia presa a cronogramas, metas e expectativas que nem sabia mais se eram minhas.
Sorri de canto. Veronica, ou Ronnie para os íntimos, era sua namorada. Eu tentei não saber sobre a vida dele depois que deixei Forks e tudo o que descobri sobre a nova garota foi sem querer — em conversas casuais com mamãe e o vovô Charlie, principalmente.
Não era por incômodo ou ciúmes. Apenas por crença. Eu acreditava que quanto menos eu soubesse, quanto menos eu pensasse a respeito, mais fácil seria esquecer tudo.
— Quer sentar em outro lugar? — sugeriu. — Aqui vai virar um caos.
Concordei com a cabeça e caminhamos lado a lado até uma área mais afastada, perto de um grande painel de voos agora dominado pela palavra cancelado. Sentamos em cadeiras próximas, sem nos tocar, mas conscientes demais da presença um do outro.
— Você mudou — ele comentou, observando-me com atenção.
— Você também.
— Acho que não tanto quanto você imagina.
Desviei o olhar. Talvez fosse verdade. Jacob sempre foi… Jacob. Firme, inteiro. Eu, não.
— Mas agora eu uso o cabelo curto e você deixou o cabelo crescer. Não me lembro de deixá-lo tão comprido assim.
Era verdade, meu cabelo estava mesmo longo.
— Medicina ainda? — ele perguntou, casual demais para ser casual.
Meu peito apertou.
— Não sei.
Ele franziu o cenho e me estudou por alguns segundos.
— Como assim, não sabe?
Suspirei, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu achava que sabia tudo. Achava que era isso ou nada. — Ri sem humor. — Mas hoje… eu só sei que estou cansada. Só quero ir para casa.
Jacob me observava como se tentasse ler algo além das palavras.
— Você sempre foi forte, Ness.
— Ser sempre forte cansa — respondi, antes que pudesse me conter.
Ele permaneceu em silêncio por um momento. Então falou, baixo, mas de forma certeira:
— Você não precisava ter ido embora daquele jeito.
— Eu sei.
Meu coração acelerou. Aquela conversa estava guardada havia anos, esperando o momento errado — ou talvez o certo.
— Você simplesmente sumiu — ele continuou. — Um dia a gente fazia planos de viajar para o Canadá, no outro você não atendia mais minhas ligações nem respondia minhas mensagens. Era dezembro também, lembra? Quando você finalmente criou coragem para me comunicar que… já havia me deixado para trás.
Engoli em seco.
— Eu estava com medo.
— De mim?
— De tudo — corrigi. — De falhar. De escolher errado. De ficar.
Jacob soltou um suspiro pesado.
— E achou que ir embora resolveria?
— Achei que doeria menos.
Ele me encarou, sério.
— Doeu igual. — Completei.
Nossos olhares se prenderam por tempo demais. Havia tanta coisa ali: mágoa, carinho, cumplicidade, saudade… um tipo de amor que nunca foi embora, apenas ficou quieto.
— Eu não esperava te encontrar aqui — confessei. — Não hoje. Não agora.
— Nem eu — respondeu. — Mas parece muito com a nossa história. Sempre nos cruzando quando não é conveniente. Sempre em dezembro.
Sorri, apesar de tudo.
— O que você vai fazer? — perguntei.
Jacob pensou por alguns segundos.
— Provavelmente vou tentar um hotel. E você?
Olhei ao redor: pessoas irritadas, crianças chorando, anúncios confusos. Depois, para ele.
— Não faço ideia.
Ele se levantou.
— Tive uma ideia. Vem comigo.
Hesitei. Tudo em mim gritava para fugir, para manter distância, para não abrir feridas antigas. Mas outra parte — mais honesta, mais cansada — queria ficar.
Assenti.
Talvez aquela tempestade não tivesse vindo apenas para cancelar voos.
Talvez tivesse vindo para me obrigar a parar.
E a encarar o que eu deixei para trás.
Encontramos um guarda-volumes para nossas bagagens e, em vez de irmos para a fila em busca de um voucher, Jacob nos levou até uma lojinha de presentes.
— Vai, escolhe uma coisa.
Encarei-o, incrédula.
— Como assim?
— Escolhe um presente. É o meu presente de Natal para você.
Observei a loja. Havia pelúcias, canecas, itens de decoração, acessórios de viagem. Mas, entre tudo aquilo, algo chamou minha atenção.
— Olha só… uma pelúcia de lobinho.
Eu já não estava mais na fase de colecionar pelúcias, mas aquele lobinho era realmente fofo. Remetia-me a um evento da nossa infância, quando Jacob e eu encontramos um filhote de lobo ferido na floresta, nas redondezas de La Push. Levamos o animal para a reserva e ajudamos a tratá-lo. Acompanhamos sua recuperação de perto e, quando ele foi devolvido à natureza, foi impossível não nos emocionarmos.
— Você se lembra do lobo Ahanu?
Jake observou a pelúcia em minhas mãos e acariciou a cabeça do lobo, como se lidasse com um animal de verdade.
— Claro que lembro. Ele comeu parte do meu cabelo no verão de dois mil e dez. Tive que cortar na altura dos ombros por causa disso. Usei o cabelo curto pelos anos seguintes, temendo outros acidentes.
Rimos.
E fazia tempo que eu não ouvia minha risada soar tão natural, tão leve.
— Eu aceito essa pelúcia de presente — disse — se você me deixar te presentear também.
Ele pareceu surpreso, mas assentiu e se afastou pela loja, observando os produtos com atenção, dando-me espaço para admirá-lo de longe.
Jacob Black sempre fora mais alto, mas já não era o adolescente magrelo de cabelo comprido em quem dei meu primeiro beijo. Estava mais atlético; o cabelo curto lhe caía muito bem, e a barba feita deixava em evidência seu maxilar bem desenhado.
Sob a jaqueta de couro, eu via os músculos de suas costas se moverem conforme ele pegava um objeto ou outro das prateleiras.
Sorri ao vê-lo sorrir, mas me contive em seguida, para não ser descoberta.
Ele se aproximou com uma caneca de porcelana nas mãos. A frase estampada em lettering colorido e divertido dizia: É fazendo merda que se aduba a vida!
— É uma ótima caneca, de fato!
Não aguentei e comecei a rir. Jake não teve escolha a não ser me acompanhar.
O riso foi diminuindo aos poucos, até restar apenas um silêncio confortável entre nós. Um daqueles que não pedem explicação.
E as memórias me arrastaram para meu quarto. Dezembro de dois mil e quinze.
“Meu pai vai acabar com a gente se pegar você aqui a essa hora!”
“Eu sei, eu precisava me despedir de você direito antes de ir para São Francisco.”
“Jake, nós nos despedimos há algumas horas, depois do jantar na casa do vô Charlie. E são só duas semanas. Você volta antes da neve derreter.”
“Eu não quero esperar mais, Ness. Podemos por favor parar de fingir que não somos loucos um pelo outro?”
Então ele me beijou. Pendurado pelo lado de fora da minha janela, Jacob Black me beijou pela primeira vez.
A realidade veio a mim quando Jingle Bell Rock começou a tocar dentro da loja.
Jacob segurava a caneca com cuidado, como se fosse algo frágil demais para o ambiente caótico ao redor. Apertei a pelúcia contra o peito sem perceber, os dedos afundando no tecido macio.
— Obrigada — murmurei, quebrando o silêncio. — Pelo presente. Por… tudo isso.
Ele deu de ombros, mas havia algo diferente em seu olhar. Mais atento. Mais calmo.
— Eu devia ter feito isso antes.
— Antes quando?
Jacob pensou por alguns segundos.
— Quando ainda dava tempo.
A frase ficou suspensa entre nós. Não como acusação, mas como constatação.
Pagamos os produtos e caminhamos até uma área próxima às janelas, onde o movimento parecia menos intenso. Do lado de fora, a cidade continuava coberta por um cinza espesso, e os aviões, imóveis, pareciam tão perdidos quanto eu me sentia horas antes.
Encostei no vidro frio, observando as luzes distantes da pista. Jacob parou ao meu lado, próximo o suficiente para que nossos braços quase se tocassem. Quase.
— Você está bem? — perguntou, baixo.
Abri a boca para responder automaticamente que sim, mas a palavra não saiu.
— Não — admiti. — Mas… estou melhor do que estava quando cheguei ao aeroporto.
Ele assentiu, como se aquela resposta fosse suficiente.
Ficamos ali por alguns instantes, apenas respirando no mesmo ritmo. O barulho do aeroporto parecia distante agora, abafado, como se o mundo tivesse diminuído o volume para nos dar espaço.
— Eu pensei em você — Jacob disse de repente. — Mais vezes do que gostaria de admitir.
Meu coração deu um salto discreto, silencioso demais para ser notado. Apertei a pelúcia nos meus braços.
— Eu também — confessei. — Mas sempre achei que fosse mais fácil fingir que não.
Ele virou o rosto devagar, me encarando. Seus olhos eram os mesmos. O mesmo castanho-escuro quente que eu conhecia tão bem.
— E foi?
Senti as bochechas esquentarem. Neguei com a cabeça.
— Não.
Jacob sorriu de leve. Sem dizer nada, estendeu a mão.
Hesitei por um segundo. Então encaixei meus dedos nos dele.
O contato foi simples, quase inocente. Mas foi o suficiente para fazer algo dentro de mim se aquietar pela primeira vez em muito tempo.
— Sabe, Jake… eu tenho uns chocolates que podem nos ajudar a passar o tempo.
— Uns… chocolates? — Ele arqueou as sobrancelhas, desconfiado. — Ness, da última vez que você falou assim…
— Você está com medo agora, Jacob Black? — provoquei. — Quando tinha quinze anos, não parecia ter medo de um chocolatinho especial.
As memórias pulsaram vivas dentro de mim.
— Medo? Não, Ness. Eu sou cauteloso.
— Medroso.
— Não, eu só não acho seguro fazer isso aqui.
— Maricona.
— Ness, não começa…
— Cocó-varde.
Ele revirou os olhos e começou a me puxar pela mão.
— Você continua a mesma diabinha de sempre!
— E você continua não aguentando ouvir minhas provocações!
Embora tentasse manter a expressão fechada, notei que Jake estava se divertindo. O que era ótimo — porque eu também estava.
E, pela primeira vez naquele dia, eu não estava pensando na universidade, nos meus pais ou nos problemas que me aguardavam quando saísse daquele aeroporto.
Jacob me puxou por corredores menos movimentados, desviando de filas e grupos aglomerados, até encontrarmos uma área quase esquecida do aeroporto. Uma porta branca, sem identificação chamativa, apenas um aviso de uso restrito. Ele testou a maçaneta. Destrancada.
O espaço era pequeno, funcional demais para ser confortável. Prateleiras metálicas, caixas empilhadas, um carrinho de limpeza encostado no canto. Mas havia silêncio. Um silêncio raro naquele lugar.
Jacob fechou a porta com cuidado.
— Ok… — Ele olhou ao redor. — Definitivamente não era assim que eu imaginava passar a véspera de Natal.
— Nem eu — respondi, rindo baixo.
Sentamos no chão, encostados em caixas diferentes, mas próximos o suficiente para que nossos joelhos se tocassem de leve. Tirei os chocolates da bolsa como se estivesse revelando a magia do Natal.
Dividimos o chocolate em pedaços pequenos. O gosto era familiar no começo, doce demais talvez, até que algo diferente começou a se espalhar devagar.
O tempo pareceu desacelerar.
Encostei a cabeça na parede fria, fechando os olhos por um instante. Meu corpo relaxou antes que eu percebesse. Quietude.
— Você sente isso? — perguntei.
— Como se o mundo tivesse parado de gritar — ele respondeu, após alguns segundos. — É estranho. Um estranho bom.
Sorri.
O silêncio voltou a se instalar, mas agora era diferente. Não era pesado. Nem tenso. Apenas… cheio.
— Eu fiquei muito bravo com você — Jacob disse de repente. Não havia acusação na voz. Apenas verdade.
Abri os olhos e o encarei.
— Mas não do jeito que achei que ficaria — continuou. — Não era raiva. Era… falta. Como se você tivesse levado um pedaço de mim. A sua ausência corroía partes minhas que eu nem sabia que existiam.
Meu peito apertou.
— Eu achei que, se fosse embora rápido o suficiente, não sentiria nada — confessei baixinho. — Achei que me afastar de você tornaria tudo mais fácil. Mas sei que eu só estava fugindo. De mim mesma, de você, das renúncias que eu teria de encarar, independentemente das escolhas que fizesse.
Jacob respirou fundo.
— A gente era só dois adolescentes tentando não decepcionar ninguém — disse. — Inclusive a nós mesmos.
Ri, baixo.
— Continuamos sendo.
Ele me olhou de lado, os olhos mais suaves, mais abertos.
— Talvez. Mas agora a gente sabe nomear as coisas.
Ficamos em silêncio novamente. O tipo de silêncio que não pede fuga.
Senti o ombro dele tocar o meu, dessa vez sem o “quase”. Não me afastei. Jacob também não.
— Ness… — Ele hesitou. — Se você não tivesse ido embora hoje… eu ainda teria te encontrado?
A pergunta ficou suspensa entre nós.
— Acho que não — respondi, honesta. — E isso me assusta.
— A mim também.
Nossos olhares se encontraram, próximos demais para ignorar, distantes demais para exigir algo. Não havia promessas ali. Apenas reconhecimento.
— E a Ronnie? — pigarreei, desviando o olhar para uma pilha de caixas. — Não a conheço, mas seu pai parece gostar dela.
Jake soltou uma risada sincera e triste.
— O velho tentou — balançou a cabeça, ainda sorrindo. — Mas ele sempre a comparou muito com você. E a Ronnie… ela veio pela pesquisa. Isso sempre esteve claro.
Franzi o cenho, encarando-o.
— Você não sabe?
Neguei.
— Eu conheci a Veronica em La Push. Ela estava hospedada em Forks para realizar uma pesquisa sobre os Quileutes. Um mapeamento linguístico, segundo ela.
Minha expressão denunciou surpresa. E, no fundo, um incômodo que se parecia muito com ciúmes.
— Ah… então ela é linguista. Pesquisadora. Que chique. — Forcei leveza. — Parece ser inteligente.
— Muito inteligente — ele concordou, encarando as próprias mãos. — E muito soberba também. Mas não a julgo. Eu sou só um mecânico de motocicletas que vive numa cidade minúscula.
Toquei seu braço, arrepiando-me com o contraste das nossas temperaturas.
— Jake, sinto muito.
— Não sinta, Ness.
Ele pareceu buscar forças antes de continuar.
— Foram dois anos de pesquisa. Ela concluiu tudo no fim do verão e se mudou para Newark para finalizar o documento. — Respirou fundo. — Eu fui passar o Natal com ela, como combinamos, mas encontrei um apartamento vazio. Quando eu estava lá, ela ligou para o telefone fixo. Não atendi. Ela deixou uma mensagem na secretária eletrônica.
Meus dedos se apertaram de leve em seu braço. Sua pele quente queimava sob meus dedos gelados, mesmo através da jaqueta.
— Um término bastante…
— Covarde — completei, sem pensar.
— Eu ia dizer prático — ele sorriu de canto. — Mas sim. Covarde.
Encostei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos.
— Eu devo ter algum problema, Ness. Devo ser algum tipo de âncora que prende as pessoas. Por isso elas fogem de mim.
— Claro que não — respondi de imediato. — Você é incrível, Jake.
Nossos dedos se entrelaçaram, e ele apertou minha mão, aquecendo-a.
— Uma âncora que mantém tudo no lugar — murmurei, inspirando o perfume amadeirado de suas roupas. — Que mantém o barco seguro. Mas você não é só âncora… você é porto. E farol.
Ergui o olhar, ainda com a cabeça apoiada em seu ombro. Nossos olhos se encontraram.
— Mas você também foi embora, Ness.
As lágrimas se acumularam, obrigando-me a fechar os olhos.
— Eu queria ter ido embora de mim, Jake. Mas, como isso é impossível, eu fugi de você.
Ele esperou, paciente, enquanto eu respirava fundo por longos segundos.
— Quando me mudei para Nova York e você ficou em Forks, eu achava que sua maior prova de amor era ir viver comigo. Ignorei quem você era, tudo o que te prendia a La Push, seu pai, seu trabalho, sua luta para manter viva a tradição dos Quileutes. — Uma lágrima escapou, e eu a limpei rápido. — Fui egoísta por exigir isso de você. E covarde por não ser clara sobre o que eu esperava.
♫ The Last Beat Of My Heart – Siouxsie And The Banshees
O silêncio voltou a nos envolver, até que Jake o quebrou:
— Pensei que você não me amava mais.
— Eu nunca deixei de te amar, Jacob Black.
— Eu tentei te odiar para sufocar o amor — confessou. — Mas não deu certo.
Abri os olhos. Ele me olhava.
— Eu posso te beijar? — Ele perguntou em um sussurro.
Meu coração disparou, e uma onda de calor percorreu meu corpo.
— O que você pretende com esse beijo?
Eu não queria machucá-lo. Nem me machucar mais.
— Nada — respondeu, honesto. — Eu só… sinto a sua falta, Ness.
As lágrimas desceram livres, sem que eu tentasse contê-las.
— Eu ainda não sou boa o suficiente para estar com você — desabafei. — Não sei qual caminho seguir, ainda acredito em contos de fada, não sei o que quero para o meu futuro… não sei mais se quero ser médica. Eu não sei de nada, Jake. E tenho medo o tempo todo.
— Ness, é normal ter medo. Medo não é covardia, é coragem e consciência dos perigos. Somos jovens, você é jovem, não dá para cobrar de si mesma algo que vem com o tempo, com a maturidade… Por favor, não seja injusta consigo mesma.
Jacob segurou meu rosto com cuidado e me beijou.
Só então percebi o quanto desejava aquele toque. Seus braços me envolveram, puxando-me para perto, e eu me encaixei nele por puro reconhecimento — como duas peças que nunca deixaram de pertencer ao mesmo quebra-cabeça.
O beijo, inicialmente cuidadoso e carregado de nostalgia, tornou-se mais profundo, mais urgente. Como se qualquer espaço entre nós fosse demais. Como se cada segundo juntos precisasse ser vivido.
Em poucos minutos, o mundo lá fora deixou de existir — nossas roupas estavam espalhadas pelo chão e nossos corpos se amavam em sincronia até o ápice do prazer.
[...]
O silêncio era reconfortante. Nossas respirações se misturavam. Éramos um só de novo.
— A heart that's full up like a landfill…
A mão de Jake acariciava meus cabelos enquanto eu permanecia deitada em seu peito, de olhos fechados, sentindo que havia finalmente atracado o barco no meu porto seguro. O único que, de verdade, sempre me passou segurança.
— A job that slowly kills you…
Um arrepio percorreu minha espinha quando seus dedos deslizaram sem pressa pela pele nua das minhas costas, da lombar até a nuca, como se estivesse memorizando cada centímetro de mim.
— Bruises that won't heal…
Parei de cantar, abri os olhos e encarei Jake.
— Eu vou desistir da faculdade de medicina.
Ele me olhou com atenção, sem surpresa.
— Você já se decidiu?
Assenti.
— Então você tem meu apoio.
Respirei fundo.
— Percebi que estive perseguindo um sonho que não é meu.
— E qual é o seu sonho, Renesmee?
O interesse genuíno em seu olhar me arrancou um pequeno sorriso.
— Parece bobo, mas… eu gosto de botânica. Adoraria cultivar uma estufa.
— Não parece bobo — ele respondeu de imediato. — Parece muito a sua cara, na verdade.
— Você acha? — sorri, apoiando o queixo na mão. — Eu já pensei em fazer Ciências Biológicas uma vez.
— Acho que você vai encontrar o seu caminho, Ness. Seja na biologia, seja cuidando de uma estufa no quintal da sua casa. — Ele se inclinou e beijou minha testa. — E eu vou estar ao seu lado para te apoiar, qualquer que seja a sua decisão.
Assenti, contendo o sorriso que ameaçava se espalhar demais.
— Eu ia passar o Natal escondida em Port Angeles para não estragar o feriado da minha família — confessei. — Se eu não tivesse encontrado você, ainda estaria com essa ideia tosca na cabeça.
Jake sorriu com doçura.
— Quando você vai entender que a sua família só quer o seu bem?
— Tenho medo de decepcioná-los, Jake. Tudo o que eu quero é orgulhar meu pai e minha mãe… retribuir a vida maravilhosa que eles sempre me deram.
Ele suspirou, sério, e segurou meu rosto com cuidado.
— Ness, você já é o maior orgulho deles. Você é a filha não planejada mais desejada que eu conheço. — Seu polegar acariciou minha bochecha. — E não volte a pensar que sua mãe engravidou no colégio e deixou de fazer faculdade por sua culpa. Isso não é verdade. Ela escolheu você. E nunca se arrependeu disso.
Engoli em seco.
— Obrigada… por me lembrar disso.
Beijei-o de leve, sentindo o peito se aliviar, e soltei um longo suspiro quando seus braços me envolveram de forma aconchegante, como se nada pudesse nos alcançar ali.
Nossa paz, porém, foi interrompida quando alguém tentou abrir a porta.
Nos afastamos em sobressalto, levantando apressados para vestir as roupas, mas a funcionária da manutenção entrou antes que estivéssemos completamente vestidos. O constrangimento foi imediato, quente, impossível de ignorar.
Ela nos lançou um olhar surpreso, depois constrangido também.
— Eu… — pigarreou. — Vou fingir que não vi nada se vocês saírem daqui agora, sem fazer alarde.
Aceitamos de imediato.
Saímos às pressas, tentando conter risos nervosos e a sensação agridoce de sermos devolvidos à realidade — ainda com o coração acelerado e a certeza de que algo entre nós tinha, definitivamente, mudado.
O corredor parecia mais estreito agora, como se o aeroporto tivesse decidido nos lembrar de que o mundo continuava ali, indiferente às nossas epifanias tardias.
Caminhamos lado a lado até o saguão principal. O barulho voltou aos poucos: anúncios metálicos, rodinhas de malas, vozes impacientes. Tudo parecia mais alto depois do silêncio que dividimos.
Jacob andava próximo o suficiente para que nossos braços se tocassem de vez em quando. Nenhum de nós recuava.
Quando chegamos ao saguão principal, um novo aviso soou pelos alto-falantes, mas dessa vez não houve vaias nem suspiros impacientes. Houve silêncio.
— Atenção, passageiros… Devido à melhora das condições climáticas, alguns voos começarão a ser reprogramados.
Meu coração acelerou sem aviso.
Jacob se levantou de imediato, caminhando até o painel. Segundos depois, voltou com um sorriso que eu reconheci bem rápido.
— Port Angeles. Escala em Seattle. Embarque em uma hora.
Fiquei parada, tentando processar.
— Hoje? — perguntei, quase sem voz.
— Hoje — ele confirmou. — Se você quiser.
Olhei para fora. A neve havia parado. O céu ainda estava pesado, mas havia clareiras. Luz suficiente para seguir.
Olhei para ele.
Não para o passado e nem para as expectativas. Para o agora.
— Eu quero.
Jake sorriu e me puxou para um abraço apertado, daqueles que não prometem o mundo, mas garantem abrigo.
♫ Back To December — Taylor Swift
Enquanto caminhávamos pelo aeroporto, pensei no quanto eu havia tentado fugir daquele lugar — não de Nova York, mas de mim mesma. E, ainda assim, o destino me trouxe de volta do jeito mais improvável possível: não como alguém derrotada, mas como alguém que finalmente permitiu ser acolhida, pelo outro e por si mesma.
No avião, sentamos lado a lado. Nossas mãos se encontraram entre os braços das poltronas, discretas, firmes.
— Vai ser estranho voltar — confessei.
— Vai — ele concordou. — Mas não quer dizer que vai ser ruim.
Jake olhou seu relógio de pulso e sorriu.
— Meia-noite. Feliz Natal, Ness.
— Feliz Natal, Jake.
Fechei os olhos quando o avião decolou. Não havia mais aquela sensação de queda no estômago. Apenas um cansaço bom. Um descanso merecido.
Forks não era só o lugar de onde eu tinha fugido.
Era o lugar para onde eu estava escolhendo voltar.
E, desta vez, eu não estava fazendo isso sozinha.
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