Um Conto de Ônibus
2 Tensão
Notas iniciais
Nervosismo. Depois desse choque, dessa paixão instantânea, o garoto desceu e o motorista permitiu que ele entrasse por trás, e eu logo pensei no quão ruim isso seria para mim, que estava ali, perto da porta traseira, mas ainda à frente da saída pelo qual ele subiria.
E por quê? Porque o mais óbvio é que ele fosse ocupar um dos lugares traseiros mesmo. Mas fui surpreendido: quando ele subiu, caminhou até um dos bancos perto do motorista, logo atrás da primeira fileira esquerda de bancos preferenciais. Perfeito, eu o visualizava muito bem, mas de costas, claro. Naquele momento me era suficiente.
Como ele não podia me ver, eu o sequei horrores, afinal, não arranca pedaço, mas fiquei pensando onde ele iria saltar, se eu conseguiria abordá-lo, se eu conseguiria ao menos um nome. Pela primeira vez eu via que aquilo valia o risco, e ao mesmo tempo que estava empolgado por estar finalmente quebrando meus bloqueios, estava empolgado por achar o motivo que me faria quebrá-los.
A viagem passa, e a cada ponto fico mais e mais preocupado porque uma hora ele vai saltar, e talvez eu nunca mais o veja. Aquele colégio deve ter pra mais de cinco mil alunos. Mesmo pegando o ônibus no mesmo horário amanhã, nada garante que irei vê-lo. Afinal, um ônibus comporta, pelas normas, por volta de 80 pessoas, e pelo que é praticado, umas 250. Essa quantidade, ainda assim, poderia deixá-lo de fora na viagem de amanhã.
Meu ponto de aproxima, e me questiono se salto ou acompanho a viagem dele. Paro e racionalizo que isso poderia ser um pouco doentio, e então resolvo saltar e rezar com todas minhas forças para vê-lo amanhã. No momento em que me levanto e dou sinal, vejo ele se levantando lá na frente. Meu corpo estremece e eu mal lembro como é ficar de pé. Qualquer movimento que eu faça, e que eu saiba que será observado por ele, me põe em um estado de alerta tão grande pra não passar por nenhuma situação constrangedora que fico desesperado.
Ele se aproxima da saída bem devagar, dá tempo da minha descida antes que ele comece a descer a escada traseira. Nisso, sentei no banco do ponto e apenas o observei: desceu, olhou para trás, para frente, ajeitou a alça da mochila nas costas e começou a andar à minha frente, e não me notou.
Fiquei ali esperando meu próximo ônibus, sentindo um misto de sentimentos. Hora alegria, hora tristeza. É bom que eu finalmente resolva quebrar meus bloqueios e finalmente tente algo com alguém que acredito gostar. Também é bom que ele estude razoavelmente perto de onde moro, e que tenho chances de encontrá-lo novamente. Também é bom ele saltar aqui, no mesmo ponto que eu, assim, no dia que não nos virmos (pra ser mais exato, eu não o ver), poderei ficar sentado aqui, esperando.
Por outro lado, é ruim que eu fique tão ansioso pois não sei nome, se é gay, se não está compromissado e muito menos se iria querer ficar comigo. Ele pode ser o tipo de gente que odeio, e essa falta de informação geral me agonia muito.
Meu segundo ônibus finalmente passou. Entrei e fui pensando o caminho todo, simulando as inúmeras possibilidades que abordá-lo teria proporcionado. A que eu mais queria, claro, é que ele demonstrasse interesse também e dali mesmo partíssemos para algum programa. Fui martelando isso e nem percebi que o ônibus já estava virando a curva para o meu destino.
Na faculdade consegui me distrair um pouco. Primeiro dia de aula do novo semestre, todos se amando, se abraçando, contando sobre suas férias maravilhosas e eu ouvindo. Não considerei meu período enclausurado, lendo e conversando com gente na internet, tempo perdido. Por isso ouvia as histórias legais de quem foi para Nova York, Amsterdã e até Japão e Coréia do Sul com interesse.
Como em todo bom primeiro dia de aula os professores no máximo se apresentavam, então tivemos tempo para em um dia só por o papo em dia. Depois que Maria, Paula e Paulo Vitor, meus principais amigos ali, contaram suas histórias, questionaram o que eu fiz.
– Fui para a casa de uns parentes em Cabo Frio. Depois segui pra Fernando de Noronha, e encerrei passando uns dias na casa de uma amiga em Minas.
Repito: não acho que a maneira como usei minhas férias foram ruins. Mas a etiqueta social pede histórias padrões: viagens, ostentação e algum luxo, isso sempre falado com um certo desdém para que achem que considera toda aquela rotina normal.
– Amiga de outro estado? E você foi pra casa dela? Hum — disse Paulo
É, era agora. Do jeito que coloquei dei toda a brecha para Paulo dizer isso, então tentei pôr a informação de maneira bem discreta.
– Ah, não me entenda mal. Ela só me chamou exatamente porque sabe que não aconteceria nada. Mas suspeito que o irmão dela dormir fora nos dias que fiquei lá não foi coincidência.
Maria e Paula entenderam. Paulo ficou com uma expressão de "será que ele quis dizer isso?".
– Bem, gente. Contei. É isso aí
– Eu já desconfiava — disse Maria sorrindo
– Bem, eu já sentia algo diferente quando ainda pequeno escutava Girls Just Wanna Have Fun — digo sorrindo.
E meu dia termina com saldo positivo.
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