Um Conto de Páscoa - Gabriel precisa de heróis

2 Sexta-feira Santa: a tartaruga e o convite para a reflexão


Notas iniciais
Para não ficarem só na introdução, um pouco mais de ação. O terceiro capítulo também não deve demorar. Boa leitura.

Já haviam se passado quatro anos desde que Amélie saiu de casa. Muita coisa aconteceu na vida do jovem Adrien, que agora estava concluindo o ensino médio e rumaria para faculdade. Ao longo dos anos o jovem dedicava parte do seu pouco tempo livre à filantropia. Envolvia-se com entidades de proteção aos animais, do direito das crianças e adolescentes, de apoio aos refugiados de guerra, de cuidado aos idosos... Adrien queria ajudar a quem necessitasse.

No sentido oposto, Gabriel não dedicava tempo nem às pessoas próximas. Toda vez que era abordado pelo filho para participar de alguma ação de caridade, esquivava-se. Achava uma grande perda de tempo do rapaz ajudar tantas pessoas. Em sua mente, essa gente abusava da boa vontade e da inocência de Adrien e ele temia que, a qualquer momento, alguém iria trair a confiança do jovem e magoá-lo. Mas não seria ele a impedir Adrien de se decepcionar com pessoas de má índole. O mundo ensinaria.

Com a aproximação da semana santa, Gabriel já podia esperar que Adrien aparecesse com algum evento de caridade para convidá-lo. E, então, armou-se de afazeres que o deixariam bastante ocupado. Por consequência, toda a sua equipe estaria fadada a trabalhar exaustivamente, talvez até mesmo no feriado. Mas o loiro não iria desistir tão fácil, então para aquele ano decidiu ele mesmo organizar um evento ao qual o pai não poderia faltar. Juntamente com sua amiga Marinette, fariam um desfile de modas, com criações de jovens estilistas locais, para revelar novos talentos e, de quebra, angariar fundos para uma ONG que contratava refugiados sírios como costureiros, lhes oferecendo capacitação, oportunidade de emprego e cidadania. Era a oportunidade perfeita para ajudar ao próximo com algo que Gabriel amava: a moda.

Então Adrien partiu para apresentar o projeto a Gabriel, esperançoso. Mas nada do que dizia mobilizava o homem. Adrien seguia otimista:

− Pai, o senhor tem muito a oferecer para o mundo! Deixe que as pessoas recebam conhecimento, ajuda, ou, ao menos, atenção.

− Não tenho esse tempo, Adrien.

− Bem... é uma pena. Mas o desfile seguirá e será um sucesso. Se o senhor acredita em mim, apareça e ilumine o evento com sua maestria em moda. Será muito bem recebido.

− Não adianta me bajular.

− Sua cadeira ficará lá, reservada. Na primeira fila – Adrien mantinha o sorriso no rosto.

− Não insista! – Gabriel ocupava-se com papéis na mesa, para nem olhar o filho.

− Até lá, pai... – Adrien deixou o escritório ainda falando.

Gabriel permaneceu impassível. Mas sua mente trabalhava constantemente em convencer a si mesmo que nada daquilo que Adrien disse tinha verdadeira importância. E para provar, reuniu sua equipe de trabalho e delegou as funções que todos realizariam durante a Semana Santa. Em TODOS os dias, inclusive o feriado. Aquela seria uma coleção muito importante para esperar.

Os dias que antecediam a sexta-feira santa corriam. Adrien e Gabriel mal se viam, de tão ocupados que estavam. Nathalie pagava de interlocutora entre eles, passando recados. “Sr. Agreste, Adrien pediu para relembrá-lo do desfile na Segunda de Páscoa”. “Adrien, seu pai disse para você parar de persegui-lo”. “Sr. Agreste, Adrien disse que não vai desistir”. “Adrien, seu pai disse que vai manda-lo pentear macaco se insistir”. E assim seguiram. Na sexta-feira, Adrien depositou por baixo da porta do escritório do pai um lindo convite impresso do desfile beneficente. E nele constava o nome de seu pai, como convidado especial. Ainda que desejasse muito a presença do pai, o jovem sabia o quão difícil (para não dizer impossível) seria convencê-lo de ir, então essa edição era apenas para Gabriel – os demais convites distribuídos não tinham essa informação. Mas Gabriel não sabia desse detalhe, e viu nisso uma afronta de seu filho. Então foi, bufando, tirar satisfações. Chegou no quarto de Adrien já empurrando a porta, aos berros:

− Como você pôde ser tão baixo? Me comprometeu com esse seu desfilezinho, mesmo depois de todas as minhas negativas?

− Pai, eu não...

− Cale-se, eu ainda estou falando! Essa petulância sua... você puxou completamente à sua mãe! E isso sempre foi muito irritante nela!

− Não fala assim da mamãe!

− Eu falo como eu quiser, de quem eu quiser na minha... MINHA casa! E você? Vai passar o ridículo de ter enganado seus convidados, porque eu simplesmente NÃO vou a esse desfile.

E, sem ouvir qualquer explicação, ignorando totalmente a expressão de susto e tristeza no rosto de Adrien, Gabriel deu as costas e saiu do quarto. Antes de fechar a porta, deu seu ultimato:

− Nunca mais faça isso, Adrien. Na próxima eu não serei tão complacente.

− Complacente? Quem? Quando? – Adrien perguntou para si mesmo, agora sozinho no quarto.

Gabriel seguiu para seu escritório, mas já não conseguia mais se concentrar no trabalho. Então decidiu ir para sua suíte, para relaxar. Tomou um banho, colocou seu pijama, deitou-se em sua cama e logo dormiu. Mas, como sempre, tinha o sono agitado e acordava várias vezes pela madrugada. E num breve despertar, enquanto se aconchegava sob o cobertor, sentiu seu tornozelo tocar em algo gelado. Instintivamente esticou seu braço direito para o lado da cama que costumava ser de Amélie e que, por hábito, mantinha vazio. E assim deveria estar, mas o estilista sentiu algo. Estranhando, virou-se para a esquerda, acendeu o abajour, virou-se para a direita, esfregando os olhos embaçados e... o viu: um velho e pequeno homem, calvo, de cavanhaque e, aparentemente, de pés bem frios. Gabriel deu um pulo da cama, com o susto que tomou.

− Quem é você? Como entrou aqui? Gorila! Gorila! – Gabriel gritava, enquanto se afastava da cama até bater contra a parede ao lado.

− Calma, homem. Não adianta gritar. Estamos sozinhos aqui – respondeu senhorzinho, enquanto se levantava da cama tranquilamente, pelo lado oposto.

− Como assim, sozinhos? O que fez aos meus seguranças?

− Nada. Apenas estamos, no momento, em uma espécie de dimensão paralela, entre a realidade e seu sono.

− Estou sonhando?

− Não exatamente. Você está em seu quarto, na sua mansão, mas isolado do mundo, como já deseja há muito tempo.

− Socorro! – gritava Gabriel, ainda sem entender muito. – Tem um velho louco no meu quarto!

− Pare de gritar e se acalme. Olhe bem para mim. Você acha mesmo que eu pareço uma ameaça? – O velho tinha um sorriso estranhamente tranquilizador e absolutamente pacífico.

− Não, não parece. Mas não sei quem está com você. Não te conheço. E eu não confio em você. Não confio em ninguém.

− Sei disso. E esse é um dos motivos de estarmos aqui.

Fez-se então silêncio naquele quarto. Gabriel entendeu que nenhum pedido de ajuda foi atendido, então, de alguma forma, aquilo só podia ser um sonho. Mas como poderia estar consciente de suas ações? Pegou então o par de óculos sobre o criado mudo e o colocou para encarar o homenzinho, na tentativa de reconhece-lo.

− Bem, senhor...

− Fu. Mestre Fu.

− Mestre Fu, certo. Como estou sonhando, vou voltar para minha cama e lá aguardar os próximos acontecimentos. Espero que esse sonho não se torne um pesadelo. Já tenho muitos sonhos ruins.

− Sim, eu sei. Mas o que está se tornando um pesadelo é a sua vida. E a de seu filho. Você está perdendo momentos inestimáveis com ele. Não o vê crescer e se tornar o homem maravilhoso que ele está predestinado a ser. Por sorte, esse menino é precioso e está, por conta própria, trilhando um bom caminho.

− É, parece que esse é o pior tipo de pesadelo que posso ter. O pesadelo com lições de moral. Que horas são? Será que demoro muito a acordar?

− Você não acha que sonhos são influenciados pelos acontecimentos do dia-a-dia? Sendo assim, se você estivesse mesmo sonhando, minha mensagem seria resultado do seu peso na consciência, não? – o homem argumentava com constante sorriso nos lábios.

− Não tenho peso na consciência. Nunca fiz nada errado. Tenho uma vida exemplar, penso bem minhas atitudes e me cerco somente das pessoas certas.

− Então você achou certa a forma como tratou Adrien há pouco? Não lhe doeu ver seu filho triste?

− Adrien... sabe que esse é meu jeito de falar. Com certeza não se ofendeu.

− Eu vim aqui para tentar lhe mostrar como suas atitudes o levarão para um abismo. Mas você está tentando fazer comigo o que faz com todos a sua volta, me tratando como inimigo. Está escondendo seus verdadeiros sentimentos. Quando Amélie foi embora, você não deixou que as pessoas vissem seu sofrimento e se aproximassem para lhe consolar. E também não demonstrou seu amor a Adrien no momento difícil da perda da mãe. Vestiu-se com uma armadura de desamor, para se proteger de novas decepções. Mas também não se regozija com nada. De que adianta viver assim?

− Minha vida está muito boa, obrigado!

− Ah, Gabriel. Você não escuta ninguém. Então vou mudar minha estratégia, antes que seja tarde demais para você. Por três manhãs você receberá três visitantes. Como eu, cada um porta um Miraculous: uma joia que contém poderes de super-heróis. E esses heróis virão para salva-lo de si mesmo. O primeiro virá nesse sábado.

− Estarei ocupado. Estou trabalhando em uma coleção que... espere. Estou me justificando com um sonho!

− Você não está sonhando, Gabriel. Amanhã, quando acordar, terá um herói a sua espera. E você não terá outra escolha, senão recebe-lo. Então sugiro que durma e descanse bastante.

Mestre Fu deu um salto que o lançou da lateral direita da cama para o lado esquerdo, onde estava Gabriel. Colocou sua mão dentro do bolso e tirou de lá um gongo que, apesar de pequeno, não poderia caber em sua calça. Pôs a mão no outro bolso e tirou uma baqueta fina, de cabo muito longo que, igualmente, não caberia em bolsos de calças simples. Gabriel se sentiu num desenho animado, diante essa cena absurda. Mas mal teve tempo de pensar, pois Mestre Fu soou o gongo com força, fazendo um barulho perturbador. Gabriel cobriu os ouvidos e, em seguida, sentiu-se tonto. Rodou sobre o calcanhar e caiu em sua cama, adormecido.

Notas finais
Quem virá na manhã de sábado? Espere até o próximo capítulo e verá.