Um Conto de Natal Muito Louco
1 Krampus
Notas iniciais

25 de dezembro (século X)
Nicolau era um homem de negócios.
Começou com a caridade. Doava presentes para pessoas pobres europeias, sobretudo crianças, numa época onde a revolução industrial não era sequer uma sugestão. Passado-se os séculos, adaptou-se às mudanças mundiais, continuou sua obra beneficente, aumentou as suas terras, construiu o seu império.
O bom velhinho teve muitos anos de vida para preparar tudo isso. Iniciou com as pessoas da europa e, depois, expandiu para o mundo. Todavia, durante essa experiência, percebeu que não deveria presentear todas as crianças, pois algumas eram egoístas e precisavam abdicar desse comportamento. Queria que os pequenos fossem felizes e seguissem a sua boa obra, o que não poderia acontecer na sua concepção se continuasse distribuindo presentes para crianças más. Foi aí que lhe surgiu a ideia de selar um pacto com uma criatura terrível.
Estava em seu escritório feito de madeira com cheirinho de cedro e decoração em verde e vermelho. Era noite, havia marcado um encontro.
Lentamente a porta se abriu, mas não havia nada do outro lado. Aguardou, impassível, era um homem de fortes convicções religiosas e olhar penetrantemente bondoso, nada o abalaria naquele momento, mesmo que aquele pacto estivesse sendo acordado entre ele e seu próprio inimigo.
As luzes de velas se apagaram. Nicolau pacientemente buscou mais fogo para acender o seu candeeiro e suas demais velas coloridas, quando, assim que o fez, ele estava lá, ele em carne e osso.
— Atrasei…?
Deixou uma risada baixa escapar. Nicolau não retribuiu, continuou calmo e pacífico, enquanto acendia as suas velinhas.
Ali, encostado na parede e de braços cruzados, estava um homem muito estranho. Alto, forte, cabelos longos e negros, a pele morta e acinzentada, os olhos cinza cintilantes, os caninos inferiores proeminentes, as unhas longas e pretas, as orelhas pontiagudas e o semblante predatório. Usava roupas fora de época, expostas demais para o frio do lugar e consideradas de modelo indecente e vulgar. Em seu peitoral, havia uma tatuagem que marcava exatamente a sua maior especialidade: maldade.
O velhinho voltou a se acomodar em sua poltrona e fez um sinal para que a criatura se acomodasse na outra cadeira, mas ele não obedeceu.
— Não posso dizer que tenho prazer em lhe conhecer, mas fico satisfeito que tenha aceitado este encontro.
— Se você fosse um pouco mais atraente, eu poderia dizer o mesmo.
Provocou a criatura, em seguida puxou aquela cadeira e se sentou ao seu modo, com o móvel de frente para o seu corpo.
— Pois bem. Sou o Nicolau, falei com o seu superior. Você irá trabalhar para mim.
— É, eu sei. A ideia é boa, apunhalar crianças sem nenhuma interferência divina, isso é bom.
— Mas deve fazer isso apenas com as crianças más. As crianças cuja maldade se encontra no coração. Aquelas que foram cruéis com os pais, os amigos e os animais durante o ano.
A criatura revirou os olhos e aquiesceu.
— Tanto faz. Está tudo liberado?
— Não pode matá-las. Está de acordo?
Estendeu sua mão, a fim de selar o pacto. A criatura sorriu discretamente e, então, lambeu os beiços ao ouvir aquela frase. Sua língua era estranha, de cor arroxeada, extensa e pontiaguda, como um monstro saindo de seu abismo.
Logo, levou a mão à dele, não sem antes arranhar a própria palma e, em seguida, a dele, com suas garras escuras. Nicolau não estava prevendo essa, fez uma expressão de dor que sumiu logo após o demônio lhe dar o aperto de mão. Agora, haviam unido os seus sangues.
— Está feito, vovô.
Nicolau suspirou, esperava ter tomado uma decisão correta. Quando afastou a mão daquele ser, percebeu que sua palma não sangrava mais. Ele arqueou a sobrancelha e o encarou em seguida.
— Antes de começarmos a trabalhar… como devo lhe chamar?
A criatura sorriu com a pergunta e, então, seus olhos brilhantes cintilaram.
— Krampus… anti-noel.
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25 de dezembro de 1947 — 00:00 hrs
Após o término da Segunda Guerra Mundial e a criação da ONU, os natais do Krampus nunca mais foram os mesmos.
Estava entrando na casa de uma criança da lista de malcriados do Papai Noel. Chegou sorrateiramente pela janela, detestava ser confundido com o velho ao usar a chaminé. Esgueirou-se pela sala de estar, porém ignorou completamente as meias de natal coloridas e penduradas.
O que ele queria estava no andar de cima.
Subiu as escadas em passos bem generosos. O menino ouviu e logo se empolgou, havia dito o ano todo que não acreditava naquelas bobagens, e que pegaria o ladrão no flagra assim que ele chegasse, iria provar a todos que não havia Papai Noel algum. Correu até o seu baú e catou seus dardos de brinquedo, no qual substituiu por pontas de verdade. Quando virou-se para ir até a porta, deparou-se com algo no escuro.
— Toma essa, idiota!
Atirou, porém assustou-se ao perceber aquele ser permitir que sua mão fosse atingida pelo objeto. Não gritou de dor, mesmo que o dardo tivesse perfurado a sua palma e o feito sangrar. Alguns respingos resvalaram até o chão, e então o menino percebeu que aquela mão era pálida como a de um morto.
— Q-quem é você…?
A criatura sorriu.
— Feliz natal, Charles.
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— O que você tinha na cabeça?! E como ficará minha reputação?!
Nicolau andava de um lado para o outro, em passos frenéticos, muito nervoso. Já havia passado a madrugada natalina em todos os países do Globo e agora sua fábrica estava apenas em tempo de faxina. Ele estava novamente em seu escritório, cheio de jornais de diversas partes do mundo, todos em línguas diferentes, espalhados por sua bancada. Krampus suspirou e revirou os olhos.
— Você fez o pacto com um demónio e espera que eu aceite ser rebaixado a colocar carvões nas meias das crianças?! Que ideia idiota! Por que você mesmo não faz isso?
— Mesmo com os duendes e as renas, ainda são muitos lugares para se passar em tão pouco tempo, e você, mais do que ninguém, sabe que eu o faço pontualmente, nunca mandei ninguém no meu lugar! Sem você para cuidar da parcela de crianças malcriadas…
— … você não conseguirá lidar com as crianças boas, é, eu sei, e é por isso que as coisas serão do meu jeito ou pode esquecer esse acordo.
O homem suspirou e foi até um dos jornais.
— Você torturou esse menino!
— Sim, e esfolei e sufoquei. Ele me machucou, merecia uma punição maior.
Mordeu os lábios com prazer ao relembrar as cenas de horror. Nicolau sentou-se em sua poltrona e passou a mão no rosto, aflito.
— No nosso tempo, isso até era permitido, mas você sabe que não podemos mais, o mundo mudou, Krampus.
— O meu mundo não! O pacto tem as suas condições desde o século dez, ele não pode simplesmente ser revogado por causa daqueles humanos imprestáveis!
O homem não revidou, ficou em silêncio, era inútil trocar ideias com um demônio, sobretudo se ele estivesse decidido. Suspirou e se levantou, em seguida caminhou até a porta de seu escritório.
— Está certo disso, não está?
— O que você acha?
Indagou, com um ar de deboche. Nicolau assentiu e lentamente abriu a porta.
— Assim seja.
Se retirou. Krampus arqueou a sobrancelha e tentou abrir a porta, sem sucesso. Não se desesperou, usou os seus poderes para se teletransportar, porém eles não funcionaram. Começou a achar aquilo muito estranho, até que Nicolau, do outro lado, desfez a magia de encanto que havia posto na sala.
O feitiço veio abaixo. Krampus não estava no escritório do velhinho, do contrário, estava em uma sala interditada da fábrica. Estava quase vazia, havia uma cadeira velha, uma pia, uma mesa bagunçada e outras poucas coisas inúteis. Aquilo o havia simplesmente enfurecido. Mais do que prendê-lo em uma sala, Krampus estava sentindo sintomas cujo problema ele sabia bem qual era: seus poderes estavam limitados, estava preso como se estivesse acorrentado. Ele havia sido selado.
— NOEL, SEU…!!!
Nicolau se afastou da porta logo após definir um código. Quando se virou, deparou-se com o seu único filho, Nicolai, que naquele ano tinha seus exatos 202 anos com uma aparência jovem de 24.
— N-Nic…
— O que foi isso, pai…?
Ele suspirou, sabia que um dia precisaria contar a ele, mas não agora, não naquele momento.
— Quando você tiver idade para tomar conta dos negócios do seu pai, saberá de todas essas coisas, meu filho. Agora, vamos ver como está o Rudolf…
Caminhou em passos calmos, ao lado do rapaz, para fora daquele corredor.
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