Um Conto de Natal
10 O Espírito dos Natais Futuros - Parte 2
Notas iniciais
"Tudo tem começo e meio. O fim só existe para quem não acredita no recomeço"
Zíbia Gasparetto
_________________________
Aterrissei quase violentamente num terreno escuro e desgastado, cujos muros estavam puídos e cheio de plantas trepadeiras lhe ocultando os tijolos.
Ainda aflita com o terrível e angustiante funeral que presenciara na casa dos Weasleys, hesitei em erguer o rosto para o céu. As nuvens estavam cinzentas, combinando com a atmosfera hostil do lugar. A vegetação crescia fantasmagoricamente ao redor.
No entanto, tudo parecia ser fruto de algum feitiço. Apesar da destruição, nada ali aparentava ter mais do que três anos de abandono.
Porém, embora não conseguisse enxergar através das amuradas, e também não soubesse por que, aquele local me era muito familiar.
– Onde estamos, Espírito?
Em mortal silêncio, o Espírito voltou a erguer o braço, apontando para uma casinha de madeira mais adiante.
Já me familiarizando com os métodos ortodoxos do Espírito, me encaminhei em direção á pequena cabana, que parecia ter sido cruelmente maltratada por uma tempestade.
Enquanto adentrava de modo imaterial lá dentro, ouvi risos de escárnio vindos do miserável depósito.
Haviam dois homens trajados com capas, remexendo em várias sacolas ali dentro.
– Pode acreditar na sorte? – um dos homens gargalhou, jogando um pouco de cinzas de seu cigarro no chão – um bando de Comensais invadiu o lugar, matou quem estava lá e largou todas essas maravilhas lá dentro!
O outro homem assentiu, rindo, balançando uma taça de ouro em sua mão.
– Alguém irá ao enterro deles?
– A família está de viagem. Não vai chegar a tempo... bah, como se fossem comparecer – ele riu de novo – desistiram de ficar por uma esperança inútil... foi o que ouvi falar. Estão na Escócia procurando um lugar para se mudar... ninguém virá atrás dessas belezinhas. Nem atrás da casa... ainda mais do jeito que os Comensais a deixaram – esfregou as mãos, extasiado – o que quer dizer que tudo isso será nosso!
Enrijeci quando o ar se anuviou, transportando-nos para outro cenário.
Enquanto me adaptava ao novo panorama, tão cinzento quanto o local que havíamos acabado de deixar, pensei, intrigada, no que aquilo significava. O que o futuro tinha a ver com aqueles homicídios em massa?
– Espírito... – franzi o cenho, confusa – aquele casebre abandonado... foi atacado por Comensais? É disso que esses ladrões estão falando?
Pela primeira vez desde que aparecera, o Espírito me respondeu com um mínimo meneio do capuz.
– Que coisa horrível – guinchei – não basta as mortes que aconteceram... ainda aparecem esses vermes roubando aquelas coisas... como podem fazer isso?
Minha atenção foi desviada quando o cenário nos engoliu, fazendo-nos reaparecer dentro de um quarto escuro e maltratado.
Reconheci o vulto que estava diante de uma cama de ferro, com a expressão penalizada.
– Marcus Stark? – falei, pasma – o que ele faz aqui?
Foi quando percebi que os sulcos disformes, de um lençol branco disposto na cama, formavam um feitio terrivelmente semelhante á de um ser humano.
– É uma das pessoas assassinadas, não é? – exclamei, arrepiada.
Outro vulto se aproximou de Marcus, segurando seu braço. Tinha traços jovens – parecia ser mais nova do que eu – embora usasse a jaqueta característica do Ministério da Magia.
Era muito parecia com Marcus. Devia ser sua filha.
– Foi uma tragédia terrível – suspirou a garota – chegamos tarde demais para pegar qualquer Comensal. O lugar parece ter sido abandonado há anos – ela deu uma risada amarga – fizeram questão de mostrar a destruição. Conseguimos apanhar apenas dois ladrões que adentraram depois... – ela se virou para Marcus — por que fizeram isso, se não foi pelo ouro?
– Não sei, querida – Marcus afagou a mão da garota – eu pensaria num acerto de contas... mas quem...? Por que...? E mataram todos. Inclusive os funcionários. Alguns poucos deram sorte de não aparecer.
– Ela fez muitos inimigos também, não foi?
– Ah, Oliviene – Marcus balançou a cabeça, se dirigindo ao lençol disforme na cama – mesmo assim... nada justificaria isso. Ninguém conseguiu se defender... foi covarde... mais covarde do que qualquer coisa que ela tivesse feito no passado.
Oliviene titubeou, parecendo discordar, mas a vi permanecer em silencio, aparentando compaixão com a situação do pai.
Ele baixou o braço, retirando, de dentro do lençol – para meu horror – uma mão pálida e inerte.
O homem afagou os dedos gélidos, suspirando.
– Tão jovem... – Marcus arfou – se eu tivesse alguma idéia...
O cenário se distorceu outra vez.
Eu já estava encolhida de terror antes mesmo de perceber o ambiente sepulcral ao meu redor.
O Espírito ainda me ladeava, imóvel e silencioso.
– Espírito... não estou compreendendo... – abracei meu próprio corpo – isso tudo é realmente horrendo... mas que ligação isso tudo tem comigo?
Ele meneou outra vez a cabeça, desta vez indicando os túmulos abertos, alguns metros mais á frente, dispostos numa fileira inteira do cemitério.
Suspirei, angustiada. Devia ser os jazigos dos pobres coitados que haviam sido assassinados covardemente pelos Comensais.
O medo me invadiu.
Eu temia ter certa idéia do que aquilo tinha á ver com o futuro que se ligava a mim.
Reconheci, entre alguns corpos cobertos ali perto, uma forma pequena demais para ser humana.
A pequena cauda bifurcada que se revelava para fora do pano negro pareceu só confirmar minhas medonhas suspeitas.
Um crupe...
– Edgar? – ciciei, aterrorizada.
Senti meu estômago afundar num buraco sem fim.
Cabisbaixa, sentindo meu corpo estremecer, recusei-me a olhar para o ponto onde o Espírito apontou, imperiosamente, o braço carcomido.
– Por favor, Espírito... – tremi, soluçante – de quem é esse túmulo?
O Espírito me encarou, e consegui enxergar, dentro do capuz, o formato cadavérico de seu rosto oculto, emoldurado por um vazio que havia no lugar de seus olhos.
Desalentada com a falta de resposta, sentindo meu peito se esfarelar e minhas pernas bambearem, forcei-me a encarar a lápide diante de mim.
Numa voz rouca e ácida, o Espírito por fim me respondeu, enquanto eu encarava, lívida, as letras da lápide...
Que formavam meu nome.
– É o seu túmulo, Helena!
O chão se abriu debaixo de meus pés, e fui engolida pela escuridão.
Caindo em abismo na direção de meu próprio caixão.
Fale com o autor