Um Conto de Halloween
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Noite de Halloween de 1960
Saio do hospital e inspiro profundamente, ser voluntária não é bem a minha praia, mas precisava mostrar para meus que sei me virar.
Desço as escadas e ponho-me a caminho de casa. Várias crianças ainda estão pelas ruas, indo de porta em porta, incansáveis enquanto esperam por seus doces.
Minha família sempre foi muito careta e nunca quiseram que eu e meu irmão Roy participássemos desse tipo de coisa. Nossa casa sempre aparecia coberta de ovos, tomates, papel higiênico e tudo o mais que se tinha direito nas manhãs que se sucediam ao Halloween. Claro que era culpa de meus pais, que faziam questão de atender todas as crianças que batiam em nossa porta e pregar um sermão sobre como estavam "perdendo maravilhosas horas de descanso".
Além de mostrar que sou independente vou me poupar de ouvir esse tedioso sermão. O problema é que eu esperava ficar mais tempo fora, e eles resolveram liberar todos os voluntários mais cedo para que pudéssemos aproveitar o resto da data sendo "assustados rua afora".
-Fala sério, que tipo de médico diz isso? -falo comigo mesma.
-Doces ou travessuras! Doces ou travessuras! -três crianças fantasiadas param em minha frente estendendo suas abóboras em minha direção.
-Olá, crianças. Eu não tenho doces para vocês aqui comigo agora.
-Se não tem doces... -o menino do meio com máscara de caveira diz.
-Então vão ter travessuras! -o menino da esquerda que tinha uma corda pendendo do pescoço completa. Seu cabelo ruivo e suas sardas me fariam querer apertá-lo, se ele não estivesse me ameaçando.
-Última chance. Doces ou travessuras? -a menininha loira da esquerda me pergunta.
-Eu não tenho doces crianças.
-Travessuras! Travessuras! Travessuras! -elas saem correndo gritando.
Sigo meu caminho cantarolando uma música do Elvis.
-Que bom gosto você tem. -uma voz por trás de mim.
-Ah! -deixo escapar um grito e me viro rapidamente.
-Sou só eu Cindy, não precisa se assustar.
O dono da voz é Johnny, um amigo de Roy. A única vantagem de se ter um irmão gêmeo é que seus amigos bonitinhos têm praticamente a mesma idade que eu.
Johnny era um desses amigos bonitinhos. Seus cabelos pretos lisos estavam propositalmente desarrumados, caindo por sua fronte branca, atraindo a atenção para seus olhos, olhos de um verde intenso, que mesmo à noite eram incríveis. Ele estava de preto da cabeça aos pés, o que dava a ele um ar de misterioso.
-Caramba, Cindy! Você está um arraso!
Sinto-me corar e abaixo o rosto, observo minhas próprias roupas. Uma saia branca com bolinhas pretas, um salto médio preto e uma blusa também preta, contrastando com a pele branca de meus braços. Seguro minhas mãos em frente a mim e observo o esmalte, já desgastado, vermelho claro em meus dedos. Afasto o cabelo loiro que cai em meu rosto com uma mão e respondo-o:
-Você também está bastante apresentável, Johnny.
Ele ri, uma risada natural e atraente, novamente sinto-me corando.
-Não ria de mim.
-Não estou rindo de você.
-Do que está rindo então?
-Não sei. Mas sei que você fica muito linda com vergonha.
Eu novamente abaixo o rosto, sorrio de lado e afasto outra mecha de cabelo.
-Você está indo para casa?
-Sim.
-Sozinha?
-Eu por acaso pareço acompanhada?
-Parece.
-Você deveria ir a um médico. Está ficando cego.
-Lógico que não. Eu estou te acompanhando.
-Não, obrigada.
Saio andando, ele, porém, aparece ao meu lado.
-Sabia que é perigoso sair sozinha por aí?
-É mesmo, é? Eu sei me virar sozinha.
-Eu não disse que não sabia. A propósito, você canta bem.
Suspiro, parece que ele não vai desistir. Confesso que não é tão ruim.
Continuamos andando e conversando sobre coisas sem importância.
-Você gosta dos seus olhos, Cindy?
-Gosto, claro. Por quê? Por acaso não gosta dos seus?
-Não. Eles chamam atenção. Gostaria que eles fossem castanhos iguais os seus.
Fico sem resposta e andamos alguns metros em silêncio. Viramos uma esquina e ouvimos música vinda de uma casa.
-Quer dançar? -ele pergunta.
-No meio da rua? -surpreendo-me com a ideia.
-E por que não?
Sorrio e continuo andando.
-Vamos lá! Deixa de ser careta.
-Eu não sou careta!
Começa a tocar It's Now Or Never.
-Olha aí o destino, é agora ou nunca, baby.
Ele estende a mão para mim e sorri esperando.
Reviro meus olhos. Quando vou pegar sua mão seus olhos se arregalam e ele cai, em suas costas está presa uma flecha.
Grito horrorizada e me abaixo vendo se há algo que eu possa fazer.
-OH MEU DEUS! JOHNNY! JOHNNY!
Olho na direção de onde a flecha veio e vejo o menino ruivo com uma besta na mão. Ele me encara fixamente e, sem som, diz apenas "travessuras".
Eu saio correndo desesperada, sem rumo. Da esquina da frente ouço uma voz de criança cantarolando "travessuras", vou na direção oposta, porém vejo o menino da máscara de caveira com um taco de beisebol. Sinto-me presa e vou na direção de onde veio a voz, por não ver ninguém lá.
Tropeço em uma pedra solta e caio com tudo no chão. Sinto o sangue escorrendo. Estou muito fraca para levantar. Levanto a cabeça e vejo a menininha loira vindo em minha direção com uma faca. Me arrasto inutilmente para longe dela enquanto ela segue cantarolando "travessuras".
A última coisa que vejo são seus olhos encarando-me profundamente.
Acordo gritando. Sinto braços me envolvendo, olho para cima e vejo olhos cor de âmbar me encarando preocupados.
-O que houve, meu amor? Você teve algum pesadelo?
Faço que sim com a cabeça. Ele me aperta mais forte e eu afundo minha cabeça em seu peito.
-Está tudo bem, meu anjo. -ele sussurra enquanto acaricia meus cabelos- Foi só um pesadelo. Já passou. Eu estou aqui com você agora. Nada vai te acontecer.
Ficamos daquele jeito por muito tempo, até eu me sentir melhor. Até eu não lembrar mais do pesadelo.
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