Notas iniciais
Pobre Vinícius. Tudo que achava sobre Lucas era uma mentira? Como o jovem reagirá após o que o colegial dirá para ele ali, naquele fast-food? E com uma tempestade daquelas, Vini conseguirá chegar em casa? Ele se fechará novamente? Ele lembra que tinha um seminário para apresentar na faculdade hoje?

Congelado. Era como eu me encontrava naquele momento. Ele sabia esse tempo todo? Estava apenas brincando comigo? Ou me dando corda para ir adiante mesmo?

Enquanto eu ficava me perguntando isso tudo, ele apenas me fitava de maneira séria com aquele olhar que tanto me cativava. Eu precisava destravar. Cheguei a abrir a boca para esboçar uma reação, mas não vinha.

– Você tenso desse jeito é ainda mais fofo. — Diz Lucas.

Fofo? FOFO? Esse foi o termo que me ajudou a esboçar respostas para as minhas indagações anteriores. Era um sinal verde que as chances dele estar querendo algo comigo eram reais.

– Mas... não me entenda mal. Não é como se eu não gostasse. É que, bem, eu namoro.

Ruínas. Quando ele disse isso, tudo aquilo que eu começara a acreditar veio abaixo. Agora eu não conseguia falar tamanha era a decepção com o que acabara de ouvir da boca de Lucas.

– Você está passando mal? Você está roxo.

– E-e-eu e-estou b-b-bem... — Respondo.

– Enfim. Resolvi ter um diálogo franco com você porque... bem, na verdade nem existe um motivo. Você é apenas um estranho. Mas apenas senti vontade de ser franco.

– Compreendo. E agradeço a franqueza. Porém, posso te perguntar uma coisa sobre esses últimos dias? — Indago.

– Claro.

– Você estava realmente dando corda para mim?

– Claro. — Responde ele, rindo.

– Por que, se isso não chegaria a lugar algum, afinal?

– Quem não gosta desse tipo de coisa? Ser admirado por alguém? É inato do ser-humano a busca por reconhecimento perante outros da espécie. O ego é algo incontrolável e, mesmo que de algum modo a gente supra essa necessidade de ser o centro das atenções frequentemente, em algum momento ela se manifesta de outro modo.

Chocado. Aquela era a total desconstrução do Lucas do qual eu vinha sonhando. Além de termos como empecilho um atual flerte dele, descubro que o cara é completamente pirado, sádico, e que estava rindo às minhas custas nos últimos dias.

Eu não sabia nem como respondê-lo, mas fui subitamente tomado por um sentimento de indiferença, talvez um mecanismo de defesa para conseguir passar por tudo aquilo.

– Compreendo. Bem, então desculpe tomar seu tempo e espero que seu ego esteja inflado o suficiente. Aqui seus dvd's, acho que depois disso não quero mais olhar para a sua cara. E muito menos assistir algo que você assiste.

Ele fica com uma cara de quem não esperava por aquilo. Provavelmente queria me sacanear mais, mas consegui fugir daquele labirinto onde eu era um rato de laboratório, e Lucas o cientista que executava a experiência.

Me levanto, pego minha mochila e não me despeço. Apenas vou andando em direção à saída. Enquanto ele, dali, fica me observando.

Eu estava tão distraído repassando todo aquele filme de terror do qual acabara de ser apresentado que simplesmente quase dava esbarrões em todos na rua.

Só podia ser carma. Pela primeira vez resolvo ser quem eu sou, vejo uma pessoa que cataliza o processo de liberdade dentro de mim, e ela é a mais sádica da qual já tive contato nesse universo.

Eu só conseguia pensar, agora, que tirar minha fuça do Rio de Janeiro seria a melhor coisa mesmo. São Paulo, vida nova. A mudança de casa já não me assustava, e agora me parecia estúpido pensar abandonar um futuro por causa daquele garoto.

A única coisa que me trazia receios agora era como eu reagiria com o mundo. Se por um lado Lucas definitivamente me trouxe para fora do armário, tomar aquele glorioso fora dele me fez pensar que talvez eu pudesse voltar para lá, e dessa vez melhorando a fechadura.

O tempo fecha, e o céu, até então parcialmente nublado, com nuvens brilhando e exprimindo com maior força suas formas, cede espaço para um completo breu indicando que o mundo poderia acabar a qualquer momento.

Começa, então, a chuviscar. Para a minha sorte, já estou alcançando meu ponto de ônibus, que estava completamente vazio. Conforme o tempo avançava e eu ali esperava o coletivo, a chuva apertava mais e mais.

Chegou ao ponto da rua ganhar alguns milímetros em camada de água. Os carros passavam e jogavam aquele aguaceiro nos meus pés, e eu simplesmente não conseguia me importar. Começa, então, a trovejar. Algo que não sei se contei, tenho pavor. Simplesmente pavor.

O comércio então começa a abaixar suas portas temendo que a água entre e estrague as mercadorias. Eu começo a ficar um pouco assustado, e penso que talvez seja melhor voltar e esperar no shopping, mas já era tarde demais: a rua havia cedido espaço para um mar, e ao menos que eu tivesse um pequeno barco, passar por ali seria uma péssima ideia.

Resolvo, então, sentar no banco do ponto. Boto minha mochila no colo, a envolvo em meus braços, e abaixo minha cabeça nela, apenas aguardando que aquele dia chegasse ao fim.

O vento também soprava forte e, por conta disso, não fui poupado das gotículas que estavam sendo despejadas lá de cima. Em pouco tempo fico encharcado, e com a certeza de que naquelas condições, meu ônibus nunca conseguiria entrar na rua. E é então que a situação parece ficar pior.

– Você vem sempre aqui? — Diz Lucas, também encharcado, recém-chegado ao ponto, provavelmente querendo rir mais um pouco de mim.

– Não riu o suficiente? — Digo, levantando minha cabeça da mochila e fitando ele com um olhar de ódio, que estava ali, sentado ao meu lado.

– E se eu te dissesse que era tudo mentira, que apenas queria ver até onde você iria para me alcançar?

E novamente eu entro em um estado profundo de aflição e começo meu monólogo mental. O que ele queria comigo?

– Mas digamos que suas reações tão tranquilas e racionais no shopping me convenceram. — Diz Lucas, que se aproxima e me rouba um beijo.

Um. Beijo. Um beijo. Um. Beijo.

Eu não esperava por aquilo, ainda mais depois de tudo que havia acontecido na última hora. Não sabia o que pensar, era muito para processar. E no meio disso, ele diz:

– Eu moro no final dessa rua. Vamos lá, eu tenho roupas secas e você pode esperar a chuva passar.

Notas finais
Levei uma semana para planejar o desfecho daquele diálogo, no último capítulo, e posso dizer que estou... ehr... satisfeito. Acabei criando um texto querendo causar pequenos sustos no leitor, e consegui ainda fazer um gancho para a próxima parte da aventura dos rapazes. Essa semana saiu mais cedo porque não consegui programar a postagem, e no horário que geralmente libero, não estaria online para fazê-lo manualmente. Até o próximo!