Notas iniciais
Postagem para as moscas em três, dois... Gente, gente. Não me matem. Tenho vida, pessoas que me amam e um cachorro para alimentar. Por favor, tenham pena do meu Athos. Capítulo totalmente desnecessário para quem: Não gosta de romance e fofuras (a fic toda, hehe). Quem não está muito afim de ver Jon com os filhotes dele (sim, filhoteS), se quer sangue, volte ao capítulo 16 - e fique por lá. Especialmente dedicado à Lorde White Walker, pela maravilhosa recomendação. OBRIGADA! E a todos vocês que favoritaram, deixaram reviews e me ajudaram em tantos momentos. (Odeio despedidas...) Boa leitura! Música: Hibernate - Lydia Cole / Peace - O.A.R.

Ele arfou pesadamente quando dobrou à esquerda. Na sua frente havia um lance de escada, mármore manchado em tons lustrados, e ele hesitou em subir – como hesitaria em pular de um abismo forrado com pedras afiadas. Apoiou uma mão na parede clara, pensando em dar uns segundos a si mesmo para respirar. Afinal, estava correndo há horas— bem, talvez estivesse exagerando – e precisava parar em algum momento. Mas quando ouviu passos nos patamares acima, recomeçou a correr. Seu coração batia rapidamente e seus músculos trabalharam para subir os degraus, usando apenas o peito do pé para não fazer nenhum barulho, mesmo que o solado da bota apenas sussurrasse contra o chão. Assim que avistou um relance prateado esconder-se rapidamente para trás de uma coluna, ele parou. Dobrou o tronco e colocou as mãos nos joelhos. Fingindo-se mais cansado do que realmente estava, respirou fundo e cambaleou de propósito para perto do material frio que encobria a coluna. Apoiou-se penosamente na pedra e esperou.

Esperou, esperou e esperou. Até que...

— Há! – Com um moimento ágil ele girou em torno de si, contornando rapidamente a coluna para agarrar uma pequena criatura que tentava fugir sorrateiramente.

— Ah! – Ela riu e debateu-se, agitando as saias até perceber que havia sido definitivamente capturada. Só aceitou a derrota quando ele a levantou e acomodou-a firmemente nos braços. – Assim não vale papai. Eu pensei que você estivesse cansado. – A menina amuou o rosto, com o lábio inferior levemente projetado para frente e as sobrancelhas franzidas. Ele sorriu e beijou-a na curva de seu pescoço que parecia cheirar a algodão macio. A barba curta e espertada provocou cócegas na menina, fazendo-a gargalhar. Rhaenya passou os bracinhos ao redor de seu pescoço e olhou-o com os seus olhos cinzentos – a única parte sua na filha. Seu sorriso doce reluziu aos raios de sol, da mesma forma que seus cabelos.

— Vamos de novo? – Ela pediu, beijando-lhe a face em uma artimanha que quase acabava com todas as suas ressalvas. Jon prendeu um suspiro. Correr a Fortaleza inteira pela sétima vez?

— Por que não vamos perguntar a sua mãe se ela não quer brincar também?

A menina pensou por sábios três segundos. – Não. – Ela abanou a cabeça prateada repetidas vezes, com toda a certeza de seus três anos. – Mamãe vai dizer que não tem tempo. E depois vai dizer que você tem que ficar com ela. Não, não.

Jon não pode deixar de sorrir tristemente pela resposta da filha. Era verdade que Daenerys estava na maior parte do tempo ocupada com o governo; as maçantes reuniões do conselho, as intermináveis audiências e os pedidos da corte sempre engoliam suas horas. Era cansativo, mas ele via que ela se encaixava ali, havia realmente nascido para ser rainha. Ao contrário dele, que era capaz de subornar Tyrion para que ele ocupasse seu lugar no Trono, quando eram seus dias de sentar nas espadas de Aegon. A filha nesses poucos anos já demonstrava a mesma aversão do pai ao governo. Isso é bom, não a quero brigando com Eddarys por uma coroa estúpida.

O menino era mais interessado a isso, ou tão interessado quanto um garoto com seis dias de seu nome podia ser. Dragões – era o que ele realmente gostava.

— E por que não chamamos seu irmão? – Ele arriscou, mentalmente rezando para funcionar. – Poderíamos brincar de voar com ele. – Voar era metafórico. Consistia em levantar os filhos o mais alto que podia enquanto eles fingiam se aventurar sobre Drogon, Rhaegal ou Viserion. Isso sempre terminava com seus braços mais pesados que marfins de elefantes e ele quase não conseguia erguer a espada nos treinos do dia seguinte. Qualquer coisa deve ser melhor do que correr este castelo inteiro mais uma vez.

Jon poderia pegar a menina rapidamente, esticar as mãos assim que ela desse seus primeiros passos curtos. Mas ela não se divertiria assim, então ele fingia correr atrás, por toda a Fortaleza antes de agarrá-la pela cintura e erguer seu corpo para um abraço cheio de cócegas. Apenas para escutar seus risos ecoarem nas paredes sérias.

— Sim! – Ela contorceu-se para sair e, sem muita escolha, Jon a colocou no chão. Segurou a mão do pai e fez força para arrastá-lo o mais rápido que suas pernas de bebê conseguiam. – Vamos chamar o Ned! – De repente Rhaenya parou e o olhou franzido a testa por debaixo dos fios claros. – Manda ele me emprestar os bonecos de madeira, papai.

— Se quer que eu faça algo, peça direito. – Ele olhou severamente, o tanto que podia ao dirigir-se à sua princesa. A menina piscou, parecendo lembrar-se da falta.

— Desculpa. – Ela olhou para o chão, parecendo apropriadamente arrependida, e refez-se: – O senhor pode, por favor, pedir para ele me emprestar os bonecos de madeira? – E claro que bateu os cílios três vezes para amolecer qualquer coração.

— Está melhor. Mas você já tem suas próprias bonecas. – Rhaenya não pareceu ouvir e olhou para uma das inúmeras janelas, sua curiosidade sendo atraída por uma libélula presa pelos vidros fechados. Largou o pai sem cerimônias e correu para a janela, encontrar-se com seu bicho favorito. Esticou-se de mãos na parede até ficar nas pontas das sapatilhas, o máximo que podia para tentar ver o inseto agitado. Ele sorriu e levantou a filha, que no mesmo instante estendeu o braço e esperou. A libélula desconfiada rondou, tocou as patas rapidamente nos dedos da menina e voou para o vidro azul, antes de pousar definitivamente na palma da princesa. Ela riu deliciada quando as asas delicadas bateram em sua pele, e concentrou toda sua curta atenção no animal estranho.

Jon viu o relance do brilho esbranquiçado dos flocos de neve. O dia havia começado com atrevidos raios de sol esticando-se pelas nuvens cheias, mas ele sabia que aquele dourado não iria durar muito. O Inverno era realmente mais leve ao Sul, as noites não eram tão longas e as tempestades não os faziam tremer até os ossos a cada trovão ensurdecedor que logo eram iluminados pelas luzes que mal duravam dois segundos; os raios aqui eram mais claros, e ele não gostava disso. Mas mesmo não sendo tão rigoroso, ele sabia que dias de sol não duravam muito, ainda que em Porto Real.

Rhaenya torceu mais uma vez o corpo para ser colocada no chão, aparentemente as duas haviam perdido o interesse uma na outra, e lembrou-se da sua ideia de ir chamar o irmão. Deixou-se assim ser puxado por sua pequena corredores abaixo, a mãozinha mal segurando dois dedos dele. Na pressa impaciente da menina, passaram pelos homens da guarda real que ele havia dispensado. Sempre preferia andar com os filhos sem a companhia muitas vezes inconveniente dos mantos brancos, tintilando armaduras a cada respiração dos herdeiros. Eles se levantaram do banco em que estavam sentados desleixadamente e apressaram-se em fazer reverências. Jon assentiu para os três guardas, pensando em como devia parecer ridículo ele ser arrastado por uma criatura que mal passava de seu joelho. Eles já devem estar acostumados de qualquer forma.

Subiram degraus e percorreram corredores mortos no frio que consumia os archotes espaçados, mas a menina parecia não se incomodar com os ventos cortantes que vazavam das janelas cerradas. De onde ela tira tanta energia? Era a pergunta que povoava sua cabeça sempre que podia passar o dia com a princesa. Quando deixou de sentir sua mão sendo puxada olhou para a porta em que haviam para parado em frente. Normalmente seu filho mais velho tinha aulas dos livros na grande biblioteca da Fortaleza, enquanto as danças – tanto a com espada quanto as com música – eram aprendidas no pátio de treinamento. Nem de longe tão comum como o de Winterfell, mas servia bem.

Especialmente hoje o menino estava tendo aula sobre as grandes Casas, se ele se lembrava bem disso, e o Meistre sempre preferia sua sala particular onde um grande e experiente livro sobre essas histórias estava exposto. Jon colocou o dedo indicador sob os lábios, pedindo silêncio para a pequena. Rhaenya imitou o pai e assentiu seriamente, com toda a solenidade que seria exigida para um velório talvez. Ele lutou com bravura para não rir daquela expressão contorcida no rosto rosado da menina, uma réplica fiel da rainha, mas sem o mesmo efeito intimidador.

Ao abrir a porta ele engoliu todo o riso preso, adotou sua face mais séria e pigarreou alto para chamar atenção. O Meistre interrompeu bruscamente seu discurso monótono – onde dissecava toda a história maçante dos Glover, que o que tinham de mais interessante era o nascimento de gêmeos. Seu mais velho se virou para a porta, o rosto sendo iluminado com um sorriso ao ver no pai uma possibilidade de fuga. Os cabelos de Eddarys eram tão escuros quanto os dele, mas tão lisos quanto os da irmã, e o corte – antes um pouco maior – lhe dava reminiscências do costume de passar a mão para livrar-se de fios, que agora não existiam. O menino preferia mais curto, segundo seu relato indignado, era completamente irritante ter que afastar do rosto cabelos longos todas as vezes que brandia a espada de madeira dos treinos. Daenerys ficara seriamente magoada por esse pequeno ato de rebeldia.

— Ele iria ficar tão bonito com o cabelo maior. – Ela reclamara a ele no dia do famigerado corte. Jon tentara acalmar a rainha dizendo que era apenas cabelo, crescia novamente, e talvez ele deixasse maior quando fosse mais velho. Ela se recusara a ficar na mesma sala e saíra meio irritada com o marido – que não via mal em apoiar o filho –, meio entristecida, enquanto a criança remexia-se na cadeira e recebia pedidos desesperados do homem com a tesoura para que se aquietasse no lugar. O rei preferira ficar com o primogênito, sem medo nenhum em parecer covarde, do que ir acalmar a fera sozinho.

Os olhos de Eddarys brilharam no violeta que herdara da mãe, onde Jon pode ver crescendo inúmeras ideias sobre como aproveitar-se da aparição e fugir. O rei manteve o rosto duro, encarando apenas o meistre.

— Oseics, eu terei que levar meu filho. – Sua voz estava séria, mesmo que ele estivesse segurando para fora a cabeça de uma menina curiosa, que seguramente havia se esquecido do acordo solene e queria espiar o irmão, para que ela não aparecesse ao Meistre confuso.

— Ah, bem... – O homem encarquilhado no manto cinza pareceu nervoso, como se tentasse decidir se o tom da voz do rei se caracterizava como ordem ou não. Rhaenya mordeu seu dedo, como um filhote irritado, mas ele de alguma forma conseguiu livrar-se de seus dentes afiados e continuar impedindo-a de surgir. Depois de muitas delongas, mordidas de sua lobinha, frases mal começadas e ranhuras com a garganta, ele disse: – C-Claro, Vossa Graça.

Eddarys não esperou pelo tratamento respeitoso, pulando da cadeira antes que “Vossa” fosse completado, e correu para o pai, largando a pena úmida sobre o pergaminho que escrevia tediosamente. Jon sorriu para o meistre, acenou em agradecimento e fechou a porta mais rapidamente do que não seria considerado suspeito. – Eu... – O menino foi interrompido pela mão do homem em sua boca.

— Espere. – Ele sussurrou e agarrou sem olhar as mãos dos pequenos, ficando sem entender muito bem como encontrara Rhaenya. Assim que pareceu longe o suficiente para que os ouvidos – grande seria eufemismo – de Oseics não escutassem, ele permitiu que o filho falasse.

— Ahh, eu não aguentava mais aquela morte lenta. – Ele retirou a escultura de um dragão de madeira do bolso da calça, verificando atentamente se não havia nenhum arranhão sob a superfície polida. Era de madeira clara, feito de um o miolo de um carvalho do Norte, e Eddarys jamais o largava. Possuía olhos de madrepérola, asas rígidas, espinhos que vinham dos chifres até a cauda, e ele não tinha ideia do quanto o menino iria gostar da lembrança que trouxera de Winterfell. Pedira a Mikkens para fazer na última vez que fora visitar sozinho as irmãs no Norte, quando seu filho ainda era pequeno demais para viajar sem a mãe. O ferreiro ficara indignado em operar o trabalho de um carpinteiro, mas o fizera. Era seu brinquedo favorito, que o pai dera a ele – e esse fato sempre deixava certa princesa enciumada.

Não sei se Mikkens conseguiria fazer uma libélula de madeira... Não, ele provavelmente me mandaria procurar um carpinteiro, ou fazer o brinquedo sozinho. Com palavras não tão bonitas, ele suspeitava. Observou Rhaenya pedir a peça de madeira e, como já sabia que aconteceria, Eddarys negar com fervor – como se ela estivesse lhe pedindo um braço emprestado. Ele sabia que a menina insistiria mais cinco ou seis vezes, até vir pedir uma intervenção sua, então resolveu evitar uma discussão. Sugeriu que eles fossem para o pequeno bosque interno e antes que houvesse terminado a frase, os viu correr, provavelmente apostando quem chegaria primeiro.

Ninguém havia lhe dito como era ser pai. Não soubera como era difícil saber se os choros infantis eram fome, sono ou atenção; como era exaustivo acordar até quatro vezes numa mesma noite, porque o bebê não sabia que todos dormiam; ou como era complicado e delicado formar a cabeça de uma criança com os valores certos. Eles poderiam ter deixado tudo a cargo de uma ama, mentores, e meistres, mas nem ele ou Daenerys queriam assim. Eram seus filhos, as dificuldades e os erros seriam deles também.

Mas as alegrias também eram suas. Bobas, e provavelmente tolas para quem não sentia na pele. Como a primeira vez que ouviu um “pa” sair mal formado da boca de um deles, Rhaenya o escolhera para ser sua primeira sílaba, e como sorrira e pensara que não seria má ideia espalhar aos quatro ventos que sua menininha começara a falar – e que balbuciara por ele; sem raciocinar que ela meramente imitara o que constantemente era repetido. Ou quando vira Ned arrastar-se em passos íngremes, mas sem se segurar em nada. Era tão estranho... Nunca poderia ter imaginado o quanto ficaria orgulhoso de ver uma criaturinha sorridente equilibrar-se nas duas pernas, bamboleando-se até ele de braços esticados e falando em uma língua não identificada.

Tyrion gargalhara incontrolavelmente daquele momento, em suas palavras entrecortadas por tomadas de fôlegos entre os risos: “Valia a decapitação rir de ver o rei ajoelhado comunicando-se como um bebê.” Mas Jon havia o flagrado utilizando-se daquela mesma linguagem ridícula para fazer seus filhos rirem para um anão feio, então não se incomodara muito com aquilo. E era verdadeiramente impagável observar como Rhaenya conseguia transformá-lo em um velho bonachão quando o chamava de tio e pedia algum doce.

Até hoje tudo era novo. Descobrir o que fazer quando um menino recusava-se a tomar banho e escondia-se nas masmorras, fazendo quase toda a guarda da cidade revirar pedra por pedra de uma fortaleza gigantesca. Entender que às vezes sua menina o odiaria por não a deixar sair para caçar coelhos em plena tempestade de Inverno, mas que aquilo não era ódio e passaria com uma noite de sono. Saber que mesmo que seu rapaz de seis anos se recusasse a ser colocado para dormir como bebê, ele adoraria receber um beijo de boa noite. Perceber que um abraço sem explicação quase sempre tinha um pedido de desculpas escondido e aceitar que ele tinha que deixá-los cair e se levantarem sozinhos – mas que precisava estar pronto para estender a mão.

Ele não imaginara, mas havia virado homem quando sentira o aperto no peito por ver o filho cair da cela de um cavalo e ainda mantivera a calma ao vê-lo sem conseguir respirar, não quando matara seu primeiro oponente. Assim como Daenerys virara mulher ao aceitar que Rhaenya morria de medo de chegar perto de Drogon, mas que segurando a mão do pai, conseguia até mesmo tocá-lo. Pequenas realizações, aceitações e frustrações, os fazendo crescer como família – essa reunião imperfeita de pessoas totalmente diferentes e ainda iguais.

Finalmente ele entendia os votos da Patrulha, entendia o que Aemon Targaryen quisera dizer há tempos. Nunca seria possível que ele conseguisse se manter lá, numa Muralha solitária, congelando nas longas noites, protegendo o reino para pessoas que nem mesmo acreditavam, se acaso um de seus filhos estivesse sendo ameaçado. Era o mais forte e perigoso tipo de amor, onde ele mataria e morreria para protegê-los sem nem ao menos pensar. Descobrir que aquele tipo de amor ainda podia existir dentro de si havia sido libertador, como ele nunca sonhara antes.

— Posso tocar nele, papai? – Rhaenya o olhou suplicante. Nem tivera tempo de chegar apropriadamente ao bosque, sentar-se em um banco gasto de uma gelada pedra sabão, antes de ser indagado pela pequena. Garantiu-se de olhar bem o animal que iria ser tocado, e assim que sua mente certificou-se três vezes que ele não faria mal à menina, um “sim” formou-se em sua boca. Mas então viu o que era, e Eddarys negou por ele.

— Claro que não. – Com a superioridade de irmão mais velho à flor da pele, ele foi bem mais rude que o rei seria. – Se você tocar nele, ele vai morrer.

Horrorizada com a possibilidade de matar um lagarto de gelo com um simples toque, a princesa tentou se defender. – Mas eu toco devagarzinho... Ele nem vai morrer tanto.

Jon achou que poderia fazê-la chorar se risse da frase há pouco dita, ou deixá-la extremamente irritada, então preferiu manter-se sério, mesmo que com certa dificuldade. – Você é quente, meu amor, e ele muito frio. Se você tocá-lo, ele pode derreter.

— Ah... – Ela continuou onde estava sentada sobre as pernas dobradas, mãozinhas assassinas de lagartos de gelo seguramente junto ao peito e olhos fixos no animal que cuidava da própria vida. Sobre a lama molhada como se encontrava, Rhaenya provavelmente estaria estragando mais um vestido, e suas aias enlouqueceriam com esse fato, mas ela não ligava. E se uma roupa a impedisse de ser criança, então Daenerys diria que ela não estava sendo vestida do jeito certo. Eddarys era mais crescido, assim havia conseguido subir em cima da raiz grossa de uma macieira murcha pela estação fria, e observava a irmã cutucar folhas e formigas, sem perder a oportunidade de dizer o que ela podia ou não fazer. A menina não o dava ouvidos, e sempre que tinha dúvida se realmente não podia fazer algo, olhava de sobrancelhas claras erguidas para o pai.

Jon gostava de trazê-los naquele bosque, onde no coração havia um antigo represeiro. E mesmo que houvessem sidos batizados pela luz dos Sete, os deuses antigos existiam em suas tardes de exploração. O sol fugia das nuvens pesadas, escondendo-se aos poucos atrás das grandes colinas do conquistador, e como lembrança deixava uma luz fraca, para ainda dizer que era dia. Duas mãos cobriram seus olhos, escurecendo seu mundo pálido, mas ele não precisou se virar para saber quem era. O calor e a textura macia dos dedos entregavam a rainha, assim como seu perfume quando ela ficava contra o vento que corria livre. Segurou os pulsos e trouxe as costas de suas mãos até os lábios.

— Sente-se comigo, Vossa Graça.

Daenerys beliscou lhe a bochecha levemente pela provocação, mas contornou o banco e sentou-se ao seu lado. Ela entrelaçou a mão por dentro de seu cotovelo, e encaixou a cabeça na curva de seu ombro, do mesmo jeito que Rhaenya fazia quando adormecia em seus braços. Permitiu que seus olhos se perdessem nas crianças que agora se curvavam sobre o pequeno lago, cutucando com varetas de madeira, deixando a água turva ao remexer o fundo. Jon pensou em mandá-los ter cuidado, mas o lago era raso demais para qualquer coisa além de muito espirro d’água e lama.

A rainha deixou escapar um suspiro de cansaço, aquele lado que apenas ele via. Jon apertou a mão em que ela segurava em seu braço, confortando-a e lhe dando um incentivo para falar. – Pensei que audiências não acabariam hoje. – Daenerys fechou os olhos, aproveitando o raro sol que banhava sua pele de calor. Os cílios pareceram fios de ouro, e por um momento ele quis tocar a maçã rosada de seu rosto. Encaixar sua face na palma da mão, e beijá-la até que ela perdesse o ar, antes que suas crianças chegassem para interromper. Mas ela moveu-se, voltando a esconder o rosto confortavelmente em seu ombro. Depois de alguns segundos ela o cutucou com força. – Como você pode deixar os pobres homens da guarda real sentados em bancos no corredor oeste? Para que eles servem se você não os deixa proteger a família real?

Jon encarou a esposa, inquirindo sem nenhuma palavra para aquelas íris constantemente quentes. Devia ser a centésima vez que eles tinham aquele tipo de conversa, por isso apenas esperou que ela mesma obtivesse sua resposta. Daenerys revirou as orbes claras.

— Muito bem. Eu já sei o que você iria me dizer. – O ar que ela soltou saiu como uma nuvem densa, para depois olhar indignada para o céu, como se reclamasse com o sol por ter se escondido cedo demais. Conformada de perdido sua tarde, ela voltou a apoiar-se nele. – Você é teimoso. Como uma porta. – Daenerys cutucou-o novamente, parecendo ter um espeto de ferro no lugar do dedo. – Eu já lhe disse isso?

Jon tentou reprimir um sorriso involuntário. – Hoje, ou ao longo desses anos?

— Ah, fazendo graça? – A rainha virou-se para ele, o sorriso em seus lábios traindo o tom repreendedor de sua voz. Ela tentou se soltar dele, mas o rei agarrou firmemente seus pulsos, impedindo a agressão que ocorreria. – Posso saber o que deixou meu digníssimo esposo tão feliz? Tyrion por acaso caiu do cavalo e não fiquei sabendo?

Jon gargalhou diante da acusação caluniosa. E sem muito esforço prendeu as mãos da mulher atrás das costas trançadas de seu vestido diurno. – Eu não rio de velhos caindo de cavalos, vai contra minha política.

— Ah, claro. – Daenerys puxou os braços em vãs tentativas de se soltar, com apenas uma das mãos ele a prendia bem. Desistiu de vencê-lo na força e aproximou-se do rosto do homem, perto o suficiente para que suas respirações quentes se misturassem. A rainha deixou que seus narizes se encostassem, falando em seu melhor tom provocador. – E chamá-lo de velho decrépito a todo o momento é uma ótima política, Jon Stark.

O homem sorriu, e inclinou-se ainda mais para a esposa, seus lábios não estando juntos apenas pelo espaço de uma brisa, mais ainda sem ceder à tentação e perder o jogo. Ele sussurrou languidamente para dentro de sua boca entreaberta. – Eu nunca usei a palavra decrépito. Vossa Graça está enganada.

A rainha fechou os olhos como se houvesse mergulhado em um transe passional, controlada por seu marido –, do mesmo modo que o sol guia a lua em seus caprichos suaves pela redoma do mundo. Completamente a mercê às vontades dele, Daenerys esperou silenciosamente enquanto o homem apreciava o controle instigante que tinha sobre ela. Uma chama perigosa era alimentada por aquela respiração suave, lábios implorando para serem acariciados e um rubor discreto, que talvez só pudesse ser totalmente consumida quando eles estivessem sozinhos. E não estavam.

— Rhaenya... – Por algum milagre ou instinto, o tom preocupado de seu filho perfurou a cúpula em que eles estavam imersos e os trouxe de volta à realidade com um baque. Quando localizou o menino, achou estranho não encontrar a pequena figura de cabelos prateados e tarde demais percebeu que o menino se dirigia para uma agitação na linha d’água do lago escuro. Seu coração pareceu parar, chocar-se contra seus ossos de ferro e ser comprimido por um peso esmagador. Sua mente turva não registrou como ele chegou até lá, e a água gelada enchendo suas botas e molhando-o até pouco antes do joelho pareceu prendê-lo de volta ao mundo.

— O que aconteceu? – Ele varreu a superfície da água, buscando algum traço de sua filha, o cabelo prata, o vestido azul como as rosas que Daenerys gostava de ver florescer no jardim, qualquer coisa. Não encontrando nada, ele virou-se para a rainha que estava prestes a repetir suas ações. – Segure-o. – Ordenou para a mulher antes que ela entrasse no lago. Daenerys agarrou firmemente os ombros do menino, para em seguida gritar aos guardas por ajuda. Eles estavam longe demais por culpa dele, não viriam. Jon forçou-se a encarar o menino e não apenas procurar desesperado. – Onde está sua irmã?!

— O dragão... – Ned soluçou, e buscou o olhar da mãe atormentada, com medo de encarar o pai furioso. – Ela deixou cair na água e eu m-mandei ela pegar... – Um rasgo profundo interrompeu sua fala, fazendo seu corpo tremer. Eddarys abraçou as pernas da mãe. – M-Me desculp-pe, mamãe... P-Por favor...

O rei avançou na água cortante, sem entender como sua menina podia estar desaparecida numa profundidade que não chegava aos seus joelhos. O frio encharcava suas roupas, e arrepiava sua alma, mas pareceu chegar ao seu coração quando um de seus pés não encontrou a areia rasa, e desceu para um buraco inesperado. Jon afundou-se, sendo envolvido pela água semicongelada até o diafragma. Rhaenya, por favor. Por favor. Minha filha não. Sem parar para tomar fôlego ele mergulhou, abrindo os olhos para a escuridão que se difundia através de juncos entrelaçados. Ele piscou rapidamente, a visão turva aos poucos se acostumando com a ínfima claridade, enquanto afastava com as mãos os caules finos e flexíveis. Por favor, deuses, por favor. Seus pés o impulsionavam para frente, lentamente demais para o medo que ameaçava dominar seus sentidos. Não sabia para que deuses rezava, seu pai sempre havia lhe dito que os Antigos não tinham como ajudar ao Sul, e ele nunca se dirigira aos Sete; mas agora ele apenas pedia. A qualquer força que pudesse salvá-la. Por favor.

À medida que o fôlego perdia-se em bolhas transparentes, o pânico apoderava-se dele, deixando suas extremidades dormentes e náusea na cabeça. Uma parte pequena de sua mente atordoada não quis encontrar o cadáver da menina, não queria encontra-la descorada, presa entre juncos traiçoeiros e mais fria que a neve inóspita que encobria todas as terras. Mas ele continuou procurando, livrando-se das plantas aquáticas para tentar enxergar minimamente melhor. Quando não pode aguentar mais, empurrou-se de volta para a superfície, encontrando a fagulha de esperança que morria no olhar da rainha assim que ela percebeu o homem de mãos vazias. Daenerys agarrou a criança inconsolável e correu para a Fortaleza, buscar a guarda real pessoalmente.

Rhaenya... Ele girou em torno de si, buscando algum relance da menina. Não me tirem minha filha. Antes que pudesse mergulhar novamente, o brilho pálido dos orbes do dragão cintilou quando a pequena peça emergiu devagar. O rei voltou a cercar-se da água barrenta, sentindo os olhos arderem pelo segundo contato brusco, e nadou até onde vira o brinquedo de madeira ressurgir. O cabelo Targaryen pareceu iluminar todo o lago quando ele a achou. Tentou não se desesperar quando a viu flutuar inerte, pálida e fantasmagórica naquele escuro verde. Arrancou com violência as plantas que haviam se prendido na perna da menina, e subiu o mais rápido que pode com o minúsculo corpo gelado o mais próximo ao seu.

A menina não puxou o ar quando ele a trouxe de volta à superfície, e a primeira coisa que fez ao chegar à lama escorregadia foi deitá-la ao chão. Por favor. A lembrança de outro afogamento agonizante passou por sua cabeça, e ele tampou o nariz da menina e abriu sua boca para encher seus pulmões de ar, como vira seu pai fazer com Robb. Depois de dois fôlegos que levantaram seu tórax, juntou as mãos uma sobre a outra e empurrou o diafragma em compressões rápidas. Por favor. Os lábios azulados de sua filha assustavam, e por um momento ele pensou o coração dela não estivesse pulsando, até que sua menina tossiu água em um espasmo violento.

Rhaenya arfou desesperada, colocando para dentro todo o ar que conseguia, até seu pai abraçá-la em alívio. Jon apertou sua pequena contra o peito, ouvindo-a tossir e começar a chorar aflita, sentindo-a tremer de frio, até que pudesse perceber nas pontas dos dedos um coração desesperado por distribuir sangue. Ele pressionou o rosto em seus cabelos molhados, garantindo-se de envolvê-la contra o frio o máximo que podia e acreditar realmente que ela estava ali, viva. Obrigado. Sua mente sussurrou para quem quer que o tivesse atendido, em uma gratidão eterna. Concentrou-se em acalmar a si mesmo, quando ouviu Daenerys chamar pela filha no mesmo alívio pleno que ele experimentara, e correr até eles. Obrigado.


*

Jon não soltou a menina por mais que cinco minutos, o tempo que a mãe e as aias haviam levando para vesti-la em roupas limpas e quentes, e depois a pegou nos braços ansiosamente. Rhaenya foi de bom grado, consolando-se do medo apenas com o calor do pai, e adormeceu em seu colo inúmeras vezes antes de ser acordada para jantar sopa quente. Aquela mistura laranja e asquerosa que Daenerys adorava tomar e enfiar garganta abaixo de quem quer que ameaçasse estar com um resfriado. A menina engoliu tudo obedientemente, sabendo que apenas seria pior caso ela virasse o rosto para uma colher sequer, mesmo que franzisse a face em repulsa todas as vezes que a mãe não estivesse olhando.

Depois da sopa de galinha, ele sentara-se perto da lareira crepitante, e recostara-se na madeira do apoio, sentindo-se tranquilo ao observar a princesa piscar os cílios espaçadamente, segurando-se para não adormecer. A rainha estava com o menino, que tinha um olhar perdido no tapete floreado em linhas vermelhas, mesmo que recebesse carinhos delicados da mãe. Agora notava o quanto ele devia estar amedrontado. Acreditava ele que a irmã quase morrera por sua culpa, e o modo como falara com o filho na hora do medo havia servido apenas para piorar tudo. Viu os olhos de Eddarys encherem-se de lágrimas e quis acomodá-lo em sua outra perna, junto ao peito também.

A irresponsabilidade havia sido sua, não de um menino de seis anos. Por um descuido sua princesa quase... Ele preferia não pensar daquela forma, as imagens de como a achara já seriam suficientes para ilustrar seus pesadelos. Falaria com Eddarys, não poderia deixar que ele assumisse tamanho peso.

Rhaenya remexeu-se em seus braços, esticando o rosto para melhor colocar o nariz avermelhado para fora do embrulho de cobertas que a rainha fizera dela. Depois de aspirar algum ar limpo, a menina escavou um caminho para libertar a mão. – Ned... – Ela chamou baixinho, como se acreditasse que o pai estivesse dormindo. O irmão ergueu a cabeça, completamente atento para o que ela tinha a dizer, e arrastou-se nas pontas dos pés até a cadeira deles. Jon viu por entre os cílios semicerrados a filha estender um objeto escuro. – Está faltando um olho e papai acha que ele se perdeu no lago... Desculpa.

Desconcertado por ver o brinquedo de novo, Eddarys o pegou sem falar nada, e não pareceu faltar olho nenhum pelo sorriso que ele abriu para a menina. – Está perfeito. Obrigado irmãzinha.

Um sopro cáustico de melancolia pareceu fazer tremular a chama que aquela cena acendera dentro de si. Arya... Resolveu não pensar na irmã com tristeza, não ali, e lembrar-se dela pelos momentos mais felizes de sua infância, como fazia com Robb. Era melhor assim. Menos doloroso para sua alma, que sofria todos os dias por aquela falta. Fechou os olhos, uma dor aguda dentro de seus orbes, e a ardência que anunciava lágrimas indesejadas. Apertou a filha contra si, vendo seu garoto afastar-se mais feliz com o dragão de madeira cerrado no punho.

Horas mais tarde ele ainda não havia dormido. Observava o azul frio e escuro da madrugada, forrado por um veludo costurado das cinzas, esperando o amarelo do sol tingir ricamente de esperança o vidro da janela de seu quarto. Havia aprendido a apreciar o nascer da luz, mesmo que ele sempre lhe trouxesse reflexões indesejadas. As réstias douradas alongar-se-iam através das cortinas, tentando tocar tudo do cômodo antes que alguma nuvem percebesse e, raivosa, interrompesse a brincadeira. Jon sentiu os lábios quentes da rainha em seu ombro, deixando a pele arrepiada pelo beijo.

— O que está lhe preocupando?

Daenerys bocejou preguiçosamente e forçou-se a não ceder ao sono que se agarrava a seu corpo. Ele olhou para suas íris, escuras na penumbra de estrelas longínquas, perguntando-se como ela podia saber que algo o incomodava apenas com um olhar demorado. Eu nunca lhe disse. Mas você deve saber... Meu amor. Ele procurou a mão pequena entre seus corpos e lençóis, entrelaçando seus dedos carinhosamente.

— Ned. – Respondeu simplesmente.

Ela não precisou de mais outra explicação, e apertou sua mão. – Por que não vai falar com ele?

Jon suspirou, desviando o olhar para o dossel. – Amanhã. Ele já deve estar dormindo.

A rainha mordeu sua carne, suficiente forte para machucar. – Vá agora, ele deve estar tão incomodado quanto você. E você não vai dormir enquanto não resolver isso.

Ele aceitou tudo que ela disse com um assentir sucinto, mas, antes de se levantar e ir beijou-lhe a testa. – Você me conhece bem demais. Isso não deve ser saudável. – O Stark deixou-a rindo, e chamando-o de mula insensível.

O corredor estava deserto, o tanto que podia ser com todos os membros da guarda real de vigília em três portas diferentes. Amaldiçoou-se por não ter vestido um manto, e ter teimado em vir apenas de calças grossas para aquela madrugada enregelante. O trinco estava quase tão frio quanto o chão, e ele abriu a porta lentamente, passando pelo meio de dois mantos brancos antes de entrar. Fantasma já o havia notado, e ele o encontrou de cabeça erguida e orelhas em pé.

Aproximou-se do animal que se espreguiçava longamente no chão. Seu lobo havia o abandonado pelos filhos – esse era mais um pensamento exagerado –, e a noite sempre era possível encontrá-lo em um dos quartos. Quase não conseguia acreditar, uma besta selvagem que mais parecia um cachorrinho quando suas crianças brincavam com ele. O cúmulo fora um dia achar um laço azul pendendo de uma de suas orelhas. O rei rira por dias, e Fantasma não o olhara amigavelmente durante esses mesmos dias, mas ele parecia se importar, e sim gostar muito, quando Rhaenya o usava de boneca. Ou Eddarys o levava para explorar quartos inabitados da Fortaleza, como um escudeiro silencioso.

— Pai? – Ele ouviu um sussurro trêmulo sair de detrás de uma cadeira, de frente para a janela principal, que desaparecia na cortina. O filho espiou de seu esconderijo com apenas um dos olhos cintilantes, para depois voltar para onde estava assim que confirmou quem era.

Jon respirou fundo e foi até o menino, sentindo o olhar do lobo o seguir preguiçosamente. Achou Eddarys enrolado em um manto conhecido, pernas encolhidas sobre a cadeira acolchoada e olhos vermelhos. Antes que pudesse fazer ou falar qualquer coisa, ele atirou nervosamente: – Você vai me bater?

O Stark franziu as sobrancelhas, colocando um joelho no chão. – Eu já fiz isso alguma vez?

O príncipe balançou a cabeça, finalmente descobrindo totalmente o rosto. – Tio Tyrion sempre diz que o pai dele batia... E depois de hoje eu pensei...

Jon pousou a mão sobre a perna do menino. – Vim falar sobre isso. – Viu a criança engolir em seco, completamente culpado. Tantas características minhas, e você pegou para si logo essa, meu filho...— Não quero que pense mais nisso como culpa sua. – Eddarys ergueu os olhos, nublados em confusão. – Você e sua irmã são crianças, meus filhos, são minha responsabilidade. Se houvesse acontecido o pior, nada teria sido por você. E sim por mim que não os preveni de se afastar, ou por não ter verificado a fundura do lago.

— Os dragões escavam. Eu já vi Drogon fazendo. Eles não gostam de beber no raso. Eu devia ter...

— Não. – Seu coração apertou-se quando percebeu que o menino ia chorar novamente. – Venha aqui. – Sentando-se no chão, ele recebeu Eddarys no colo, percebendo o quanto ele estava gelado. O príncipe agarrou-se nas roupas do pai, aproveitando o amor quente. – Você não vai pensar mais desse jeito, está me ouvindo? Não quero ouvir mais uma palavra de culpa sobre esse assunto, me entendeu? – Ele assentiu fervorosamente, e Jon sentiu os ombros dele aliviarem. Conhecia esse movimento, por si mesmo; um peso invisível e monstruoso indo embora.

Minutos mais tarde, antes que ele dormisse, o rei falou novamente. – Mas eu quero sua ajuda para protegê-las. Sua mãe e sua irmã.

— Você precisa da minha ajuda? – Eddarys pareceu incrivelmente espantado, os olhos claros arregalados como uma coruja. Jon riu.

— Claro que sim. Você vai me ajudar?

— Vou. – E assentiu seriamente com toda a energia que lhe restava, um pouco antes de se deixar amolecer em seus braços, sendo arrastado por um sono mais calmo. Cuidadosamente ele se ergueu do chão frio e o levou até a cama. Cobriu seu corpo com as mantas grossas e escuras. Pousou a mão em sua cabeça, gostando de reconhecer seus traços no menino, e abaixou-se para uma benção em forma de beijo na fronte. Encontrou os olhos marcantes do lobo, ainda muito vivos quando estava para sair, Cuide dele, rapaz, Jon sussurrou em sua mente. Fantasma farejou as pontas dos lençóis que sobravam da cama, mostrando que sabia muito bem o que estava fazendo. O homem assentiu e fechou a porta.

Ao voltar viu Daenerys parada de frente de um das grandes janelas, observando a neve cair furiosamente depois do vidro, como se irritada pela audácia do sol de mostrar-se tempo demais naquele dia em sua estação. Ele foi até ela, e envolveu sua cintura com os braços, ficando satisfeito ao juntar o corpo quente dela ao seu. A rainha descansou a cabeça em seu peito. Flocos disformes caíram, eles respiraram e seus corações pulsaram quietos, em um compasso só deles, unidos por um fio de silêncio reconfortante. Sendo eterno até que um quebrasse a harmonia, despedaçando o equilíbrio.

— Esse bebê já tem sorte. – Ela guiou a mão dele para seu ventre plano. Jon precisou de dois longos momentos para perceber que algo não fazia sentido naquela frase.

— Bebê? – Seu coração falhou uma batida, acelerando energeticamente com aquela palavra. Daenerys se virou dentro dos braços estáticos dele, e riu descaradamente.

— Eu adoro a cara que você faz. Poderia ser descrita como pânico, sabia? – A rainha retirou a brincadeira do olhar, aquecendo sua face com a mão macia. – Daqui a alguns meses, nós teremos outra, como Tyrion chama? Criaturinha de saltitância irritante para ocupar nossa vida. Acha que pode suportar? – Roçou-lhe os lábios tentadoramente. – Sem perder a sanidade, é claro.

Encarou-a, mergulhando naqueles olhos violetas que ficavam sempre escuros quando ela o desejava. Conhecia cada polegada daquele rosto puro, e poderia se considerar o homem mais feliz se pudesse viver suficiente até ver as linhas do tempo deixarem suas marcas. E viver para ver uma nova criança nascer, seria demais para ele. Preferia pensar nela depois, quando realmente fosse capaz de acreditar que merecia aquilo. Merecia-a. – Obrigado. – Foi tudo que ele disse antes de beijá-la. Obrigado. Seu corpo queria agradecer, e ele tentou expressar-se o mais fielmente que podia. Abaixou-se minimamente para segurar suas coxas torneadas, levantando-a nos braços. Daenerys sorriu nos seus lábios, enlaçando as pernas em sua cintura. Vez após vez ele a queimava, com toda chama que ardia dentro de si, e ao levantar o delicado tecido que cobria, invadindo pecaminosamente, pensou que poderia ser feliz fazendo isso também.

Desceu o corpo desejoso dela para as penas da cama, e a cobriu, querendo ser a única atenção da mulher, como todos olham para o sol para saber há quantas horas já vai o dia. Antes de enlaçar-se em carne, e indubitavelmente possuir lhe a alma, ele sussurrou mais uma vez. – Obrigado.

E isso foi a última coisa coerente que qualquer um dos dois disse por muito tempo. Mais tarde, já no outro momento de sua vida, Jon Stark se pegaria acordado, deslizando a mão distraidamente pelas curvas de sua mulher, a pele macia e quente como o cetim recém-retirado do corpo. Olharia a neve descer do céu, mestiça com o nascer do dia, mais brandamente que em tempos e suspiraria, pensando que se tudo o que recebera naqueles claros anos havia sido sob os ventos nublados do Inverno, ele apenas poderia imaginar como seriam as brisas límpidas da Primavera.

Notas finais
WHEEEEEEE Eu fiquei particularmente feliz com este capítulo, não sei se porque finalmente terminei a história ou por ter feito meu Jon-Jon feliz ao menos neste universo. "LYLI, COMO ASSIM ACABOU A FIC E A MULA NÃO DISSE QUE AMAVA A DANY?" Se acalmem, não é o fim do mundo. Para minha humilde opinião, ele nunca disse. Ama? Óbvio que sim, mas nunca disse. "POR QUÊ??" Juro que não sei, só sinto isso. (E não se preocupem, ela sabe disso. Ela é inteligente, hehe) Bem, eu inicialmente pensei em matar certas pessoinhas aqui (Uma princesinha mui fofa). E fui ameaçada de morte por certa tia... (SE RECUSOU A IR VER A BELA E A FERA COMIGO) E perguntei se queriam um epílogo alternativo onde a matança aconteceria. Alguns de vocês disseram que queriam, mas foram poucos, então vou guardar a ideia trágica que eu tive para uma futura história (chorei enquanto pensava nas cenas, foi lindo). Amo todos vocês, e espero aparições tão fantasmagóricas quanto eu. ATÉ! P. S.: "Lyli, você fará uma outra história?" Muitos perguntaram. A gente conversa no review, hehe. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!