Notas iniciais
Gente, hoje tenho muitas coisas para dizer. 1 - Esse capítulo é dedicado a duas pessoas lindas. Primeiro, Raelle Hawkstark, MINHA TIA, que está fazendo aniversário hoje. (Feliz aniversário, tia!!) E segundo, a maravilhosa Pomba Selvagem que... Ta-dãã! Recomendou a história!! Ah deuses, eu fiquei tão feliz! Muito obrigada amore! 2 - Os capítulos estão crescendo e eu não estou controlando isso, juro. É sem querer, me desculpem. 3 - Dois flashbacks hoje (eu estava sem ideias para o capitulo e comecei o primeiro, e o segundo eu pensei logo em seguida). Para quem não gosta muito de flashbacks... Desculpas. Bem, boa leitura!!

O acampamento era grande, com homens correndo e andando para todas as direções, ocupados em afiar espadas, polir escudos, preparar cavalos, alinhar catapultas. Não sabia como, mas sentia que todos os homens e mulheres desde Correrrio que pudessem segurar uma lâmina estavam ali. Isso explica porque o caminho para o Norte estava tão vazio como se apenas fosse habitado por fantasmas. Ela pensou. Mas quando ergueu a vista, viu que todos eram insignificantes em comparação com a Muralha. Muito mais alta que a pirâmide de Meereen, ela erguia-se toda em gelo, chegando a encobrir o sol que lutava para nascer por entre as nuvens pesadas. Ainda estavam longe, e ela estava cansada depois de meses atravessando os Sete Reinos devastados pelo gelo que descia impiedosamente como uma hera rasgando uma parede. Mas ela não iria parar, não agora que estava tão perto.

Uma sombra escureceu o mundo sob sua cabeça e ela viu um de seus filhos descer do céu cinza. Viserion encolheu as asas ao pousar e um pequeno jato de fogo saiu do fundo de sua garganta em direção as próprias asas translúcidas que tinham um fina camada de gelo nas bordas. Ela apertou os calcanhares nos flancos da égua para que ela corresse.

Chegou perto do dragão de escamas brancas. Elas reluziam fracamente em comparação aos chifres dourados. Aquele ainda era um filho que não a respondia perfeitamente, como Drogon fazia, mas era bem melhor que Rhaegal. Ele continuou esquentando as escamas enquanto ela se aproximava. Parecia perceber sua presença, apenas estava com outras prioridades.

— Onde está seu irmão? – Ela perguntava pelo outro, Drogon ela via sobrevoando sua coluna de imaculado, mercenários e outros homens que a seguiam desde Dorne. Homens que viam nela a rainha que ela esperava ser.

Viserion a olhou, abriu as enormes asas e, assustando sua égua, subiu nos ares novamente para se juntar ao irmão negro. Ele sempre respondia melhor a Tyrion, mesmo que ela não entendesse isso muito bem. Com as entranhas contorcidas, ela voltou para seu lugar a frente de seu exército.

Horas de macha lenta de seus homens cansados haviam se passado antes que ela avistasse o grupo pequeno. Todos montados, 6 homens a esperavam. Um deles mais a frente, ladeado por mais dois, um desses segurando o estandarte que ela vira em um castelo que passara dias atrás. Um lobo cinzento correndo em um capo de neve. Segundo seus conselheiros, era a Casa Stark, e aquele homem com uma pele de lobo sobre os ombros era Jon Snow.

Quanto mais se aproximava daqueles homens, mais ela sentia-se apreensiva. Em sua cabeça misturavam-se todas as informações que recebera sobre ele, auto denominado Rei no Norte. Varys dizia que ele havia sido criado no castelo da casa dos lobos gigantes, Winterfell, como bastardo de Lorde Eddard Stark, antigo protetor do Norte e apoiador do Usurpador. Havia ido para a Patrulha da Noite, a irmandade que guardava a Muralha, e subira ao cargo de Senhor Comandante. Apartir daí os sussurros começavam a se tornar estranhos e ela preferia ouvir a verdade da boca do próprio homem. Sentia que ele era mais um a querer tomar seu Trono, mas tanto Tyrion quanto a Aranha concordavam que ele não era seu inimigo.

Quando ela chegara com seus dragões e seu exército, ele não pronunciara-se de nenhuma forma, nem com armas, nem com palavras. Mantivera-se no mais Norte que se podia ir, com seu reinado falso e intenções fantasiosas sobre defender o Reino contra mortos que caminhavam. Ela se concentrara em exterminar os inimigos mais próximos e agora subia para conversar com o bastardo do Norte. Varys lhe dizia que esse era o melhor meio. Os nortenhos eram um povo duro, meio selvagem e seguiam apenas os filhos do próprio país. Seria mais proveitoso para ela entrar em acordo com Jon Snow do que sangrar ainda mais os Sete Reinos.

Antes que chegassem ao Norte, ventos gelados haviam trazido palavras confusas. Os passarinhos da Aranha contavam histórias sobre o falso rei ser bastardo de outra família.

— Dizem que ele é filho do seu irmão Rhaegar, minha Rainha. – Varys confidenciou a ela certo dia, uma manhã mais cinzenta do que todas que ela já havia visto. O eunuco continuou. – A loba donzela, Lyanna Stark, foi sequestrada por ele antes da rebelião do Usurpador, como Vossa Graça deve saber. Meus passarinhos me contam que por entre os castelos do Norte correm rumores. Falando que o irmão dele, agora supostamente primo, Brandon Stark, antes considerado morto, voltou do outro lado da Muralha. Trazendo lembranças de suas visões. Tais lembranças apontam Jon Snow como fruto do famigerado sequestro. Os nortenhos acreditam neles, minha Rainha, os chamados videntes verdes, acreditam e os temem.

Dany havia desenhado daquilo. Rhaegar não sequestraria ninguém. Pelo o que ouvia dele, o irmão havia sido honrado acima de tudo, um cavalheiro. Não se envolveria com outra mulher tendo um filho com ela, poderia tê-la feita de refém, mas nunca a levaria para aquecer sua cama, sendo casado, e ela uma loba selvagem. Você amou um selvagem, por que ele não? Mas ainda não acreditara na descendência do bastardo, como sabiamente não acreditara no falso dragão trazido pelo Grifo. Agora, entretanto, contorcia-se de dúvidas. E se ele realmente fosse seu sobrinho? Ainda que um bastardo, ele fosse sua última família?

Daenerys Targaryen ergueu a mão, fazendo todo o exército parar gradativamente. Como acordado antes, Missandei, Verme Cinzento e 5 de seus imaculados seguiram ao seu lado quando ela continuou a mover-se em direção ao grupo parado mais a frente. Escutou um trote rápido e Tyrion estava a seu lado.

— Ele gostará de me ver. Sou sempre uma visão inspiradora.

Parando à 3 pés de distância ela o olhou. Tinha um rosto marcado de cicatrizes e, apesar da barba, sabia que ele ainda era jovem, tão jovem quanto ela. Cabelos escuros com cachos estavam presos rigidamente atrás da cabeça e seus olhos eram do cinza que as nuvens apresentavam naqueles dias. Era bonito, mas em qualquer aspecto que se analisasse ele era diferente dela. O isso dizia sobre quem ele era?

A voz doce e forte de Missandei soou abafada no campo que ventava.

— Todos saúdem Daenerys da Casa Targaryen, Primeira de Seu Nome, Rainha dos Sete Reinos, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Nascida da Tormenta, a Não Queimada, Rainha de Meereen, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Rompedora de Algemas e Mãe dos Dragões.

O silêncio tomou o campo após aquelas palavras. Jon Snow a encarava sem mudar nenhum músculo em sua expressão. Parecia um homem cansado e torturado. Ele olhou para o meio-homem ao seu lado e a sombra de um sorriso brincou em seus lábios. Dany virou-se para Tyrion e o viu com a língua estirada. Suspirou. Ninguém vai apresenta-lo?

Daenerys limpou a garganta. – Quem é você?

— Jon Snow, Vossa Graça. Bem-vinda ao Norte. Sinto por não tê-la recepcionado mais cedo, como pode ver – ele indicou o acampamento atrás de si –, tenho estado ocupado.

Sentiu a voz rouca dele ecoar em seus ouvidos e em seu âmago, mas ela manteve-se impassível. Dany olhou os homens que ele falava. – Você aponta suas espadas para uma parede de gelo, não se ajoelha perante mim e ainda clama a si mesmo com Rei no Norte. Tomando de mim um reino que é meu direito de nascença. Acho que suas boas-vindas já foram acolhedoras o suficiente. Que motivo eu teria para não dar-lhe o mesmo tratamento que dei aos outros usurpadores?

Jon Snow correu por entre os dedos o comprimento das rédeas de seu palafrém. – O único que clamou a si mesmo de Rei de alguma coisa, foi Vossa Graça. E essa é uma pergunta que eu gostaria que a Rainha respondesse. – Ele falou tranquilamente. – Mas eu agradeço a oportunidade de conversa antes que incinerasse a todos nós.

Ela rangeu os dentes. Como ele se atreve? Impedindo que ela retrucasse com ameaças, Tyrion pigarreou.

— Com toda certeza é bom vê-lo inteiro, Snow. Por que não descemos de nossos cavalos e tomamos uma boa taça de vinho enquanto conversamos amigavelmente? – O senhor sua Mão lançou aos dois um olhar significativo.

Sem esperar sua resposta, o bastardo desmontou de seu animal e depois entregou as rédeas a um de seus homens. Tyrion pulou de seu cavalo, xingando ao cair sem equilíbrio na neve rígida. Ela sentiu vontade de amarrar o anão a um de seus filhos por ele ter feito aquela oferta sem sua permissão. Contrariada, ela desceu da égua e escutou Verme Cinzento segui-la.

Jon Snow esperou que ela fosse a frente antes de começar a andar. Felizmente, Tyrion sabia para onde ir, simples alguns pés de distância do grupo. O líder dos imaculados a seguia silenciosamente, como uma sombra, mas nenhum dos homens do Snow o seguiu. Ele acompanhou o meio-homem sozinho, armado com uma espada longa e apenas um punhal visível em seu cinto.

Pararam em frente a uma árvore da cor do leite, com folhas vermelhas como o sangue. Essas árvores com rostos estão por toda a parte aqui.

— Muito bem, explique essa história de seu um dragão. – O Lannister inqueriu apoiando-se na árvore, as costas contra o rosto esculpido.

Jon Snow franziu a testa para o homenzinho. – Não disse que era um dragão, ainda sou um bastardo, não nego isso, nem nunca disse que não era. – Ele retirou a luva de couro e passou a mão nua pela boca. Seus lábios tingiram-se de vermelho com o movimento. – Na verdade eu nunca disse coisa alguma sobre isso. Aquele vinho, Lorde Lannister?

Tyrion pegou seu cantil ao lado do corpo, e o entregou para o homem com se fossem velhos amigos. Dany deu um passo em direção ao bastardo.

— E como essas mentiras chegaram até mim?

Ele sorveu dois goles da bebida antes de responder. – Acho que a Aranha pode lhe responder isso. – Ele ergueu os olhos nebulosos para ela. – Não preciso me preocupar com seus pequenos passarinhos, Vossa Graça, eles podem circular por entre meus homens desde que não lhe façam mal. Meu inimigo não quer saber dos meus movimentos ou sobre de onde meu sangue veio. – Jon Snow olhou por entre as árvores, como se esperasse algo vindo das profundezas geladas da floresta. – Eu sei o que a rainha quer. Vossa Graça quer o Norte, e eu não tenho nenhum problema em lhe dar já que é seu por direito de nascença. Mas não agora. Eu não me auto proclamei Rei no Norte, como a rainha enfatizou, eu fui escolhido sem nunca ter pedido isso. – Ele tomou mais vinho. – Os Lordes que me elegeram, eles confiam em mim. E eu preciso deles. Para vencer inimigos que Vossa Graça provavelmente não acredita. – Seu último gole de vinho foi cuspido na neve como se ele quisesse se livrar de um gosto ruim.

— Ei, não estrague! – Tyrion arrancou o cantil das mãos do homem.

Dany estreitou os olhos para ele. Diferente de todas as vezes que ela encontrava com possíveis inimigos, agora algo dentro de si indicara que ele não era com quem ela iria lutar, mesmo que ela quisesse, imaginava que ele não revidaria. Simplesmente não parecia disposto.

Jon Snow abaixou-se, colocando um joelho na neve, e seus lábios se esticaram em um sorriso. Dany parou de respirar e repentinamente sua boca ficou seca. Não era em sua direção, ele virava-se para as árvores, mas ela não pode deixar de admirar a beleza rústica que fez um pedaço de seu coração, há muito congelado, agitar-se.

Um lobo branco, maior do que qualquer um que ela já vira, surgiu por entre as árvores. Sem fazer nenhum ruído, o animal aproximou-se do homem ajoelhado até quase tocar em seu nariz. Os pelos ao redor da boca estavam vermelhos de sangue e os olhos eram da mesma cor.

Tyrion assobiou. – Ele está muito maior do que eu lembro.

Dany observou, fascinada, Jon Snow levantar a mão desprotegida da luva até o pescoço da fera. – Você esteve sumido, rapaz. – Ele tocou o sangue na boca do lobo gigante, parecendo não se importar em sujar os dedos de sangue. – Sabe que eu odeio quando caça, certo? – O lobo lambeu a mão dele, mostrando um relance de deus dentes mortalmente afiados.

Daenerys piscou, para voltar seu foco. – Quem é esse?

Snow se levantou, uma mão entre as orelhas do lobo.

— O nome dele é Fantasma. Nós podemos entrar em um acordo? – Ele estendeu a mão e a encarou com seriedade, seus olhos cinzentos cintilando.

Ela olhou para Tyrion e ele assentiu com um pequeno sorriso. Assim, ela ergueu a própria mão e eles apertaram o antebraço um do outro sob a vigília da árvore de folhas de sangue.

Ela sentiu uma mão apertar seu braço. Abriu os olhos e viu o rosto de Missandei pairando na penumbra.

— Pediu-me pra acorda-la antes do nascer o sol, minha rainha. – Ela falou em um sussurro.

Dany assentiu, esticou os braços e assim que lembrou do porque quisera acordar cedo, levantou-se da cama em um pulo. Missandei teve trabalho em ajuda-la a se vestir, lutando contra toda a sua agitação.

— Tem certeza, Vossa Graça? – A mulher terminou as amarras de seu vestido.

Ela segurou as saias pesadas e abriu a porta. – Absoluta.

Colocando a cabeça para fora, ela observou os dois lados do corredor escuro. Assim que se certificou de que não havia nenhuma alma viva perambulando tolamente naquele frio cortante da madrugada, saiu do seus quarto fechando a porta atrás de si.

Mais cedo, quando ainda era noite daquele dia, ela havia memorizado o caminho, sentindo as pedras rústicas e quentes das paredes de Winterfell. Contara quantas portas, quantas vezes virava a esquerda ou a direita e sabia quais archotes estavam acesos. Fazer o caminho de volta estava sendo mais difícil do que ela imaginara, mas conseguia identificar tudo relativamente bem e seguia a passos silencioso, macios e certeiros.

Quando chegou na porta que queria, seu coração deu um salto, ela mordeu o lábio e impediu-se de bater. O vento uivou por entre os corredores vazios como sussurros vindos de uma terra distante. Será que eu devo? Suas entranhas se reviraram com a apreensão. Talvez ele me ache louca. Ah bobagem, ele já deve achar mesmo. Fechou a mão em punho e bateu com os nós dos dedos na porta 3 vezes.

Segundos depois, com o ouvido colado na madeira, ouviu pés calçados tocarem o chão e em seguida passos se aproximarem de onde ela estava. Rapidamente desencostou-se e manteve uma postura reta com o rosto rígido quando a porta foi aberta.

Jon Stark abriu a boca, surpreso, quando a viu.

— Vossa Graça? – Ele balbuciou e o interior de Dany regozijou-se de alegria. Ela nunca o vira balbuciar como uma criança, era maravilhosamente interessante.

A Rainha correu os olhos pelas roupas dele. Vestia uma calça grossa e escura, botas mal colocadas e uma camisa de lã completamente desarrumada. Segurava a espada na bainha em uma das mãos e o manto pesado de pele de lobo na outra. Seus cabelos estavam livres e selvagens, cachos escuros entrelaçando-se entre si. Parecia pronto para qualquer coisa, mesmo que tivesse acabado de acordar.

— Sinto incomodá-lo, meu Lorde, mas eu não viria se não fosse importante. – Discursou solenemente. Não pode deixar de espiar o quarto dele por detrás de sua cabeça. Parecia militarmente arrumado, excetuando-se a cama que estava uma confusão de peles, como livros organizados em uma estante, uma cômoda de pinho que servia para guardar as roupas e um pequeno móvel em que descansava uma jarra de barro. O lobo branco deitava-se no chão, ao lado da cama, parecia mais sonolento que o dono, mas seus olhos vermelhos estavam abertos, brilhando à luz do fogo da lareira.

Jon a encarou e depois correu o cinto da espada pela cintura. Dany mordeu o lábio, aquele gesto displicente dele levando ondas de calor ao seu ventre.

— O que aconteceu? – Ele entrou dentro do quarto e pegou um gibão cinza com um lobo preto bordado em seu peito. Jogou por cima da cabeça e levantou o olhar para ela enquanto ajustava o cinturão. – Por que a Rainha de Westeros veio me chamar para uma emergência? E não qualquer outra pessoa?

Ela já estava prepara para isso. Ainda com o rosto sério, ela respondeu:

— É um assunto meu, não gostaria de envolver outras pessoas. É algo só com você.

— Antes do nascer do sol? – Ele agora cobria-se com o manto, passando as faixas de couro pelos ombros e peito.

— É um assunto urgente.

O lorde lhe lançou um olhar mais que desconfiado. Terminando de se vestir apropriadamente para o frio calçando luvas, ele tocou a cabeça do lobo. – Fica. – Acariciou as orelhas pontudas do animal. – Acho que não vou demorar.

Dany lutou para não sorrir. Dependendo de mim, vai sim.

Jon Stark segurou o freio, fazendo o garrando fincar as patas na neve suja. Com um movimento rápido ele fez o animal se virar para ela.

— Muito bem, pode dizer o que realmente está querendo.

Daenerys olhou para trás, as muralhas imponentes de Winterfell já haviam se tornado apenas pequenas manchas cinzentas na paisagem branca. Conseguir trazê-lo tão longe era uma vitória, estavam sozinhos, e, a não ser pelos cavalos, as árvores congelados e um ou outro lagarto de gelo, não havia nenhuma criatura viva por perto.

Ela suspirou satisfeita e desmontou da égua, fazendo a neve afundar sob suas botas e as saias do grosso vestido. Sabendo que era observada, ela levou a égua pelas rédeas de couro até uma árvore cheia de galhos nus. Passou a corda presa a sela em um galho especialmente grosso e deu um nó apertado. Retirou uma bolsa de couro de dentro do compartimento da bagagem e escolheu um carvalho baixo, em que sua copa fazia uma proteção, para sentar-se nas raízes proeminentes.

— Bem, você vai ficar ai em cima? – Perguntou para o homem enquanto arrumava as saias ao redor de si até ficar confortável. Ela escutou o lorde descer do cavalo e, resmungando, amarrou o animal na mesma árvore que a égua. A passos pesados, ele foi até ela. Dany ergueu os olhos, tímida. – Você pode se sentar também.

— O que é isso? – Ele ainda estava de pé, braços cruzados e olhos cinzas desconfiados.

Dany retirou uma maçã de inverno da bolsa e ofereceu outra a ele. – Se você não aceitar a maçã e sentar aqui, eu não direi uma palavra.

Jon respirou fundo, pegou a fruta esbranquiçada e sentou-se na mesma raiz que ela estava. – Agora fale.

Ela resolveu não ser pedante e lembra-lo que ele não ordenava nada para a Rainha. Sorriu por ter conseguido irritá-lo e olhou para o céu que estava alaranjando-se a leste, mas as estrelas ainda podiam ser vistas por entre as nuvens.

— Eu gosto do nascer do sol. – Ele me lembra recomeço, que é sempre uma coisa boa. – Voltou seu sorriso para ele, que estava de testa franzida. – Acho que minha cor favorita é o laranja das chamas. O laranja que sai do fundo da garganta de um dragão. Não há nenhum outro laranja como esse. Qual a sua cor?

— Eu não estou entendendo. Óbvio que não existe nenhum assunto urgente, mas o que é isso?

Daenerys suspirou. – Diga-me, quando é que eu poderia pegar você em seu tempo livre?

— Tempo livre? – Ele inclinou a cabeça, incerto.

— Você é o lorde de Winterfell, e eu sou a Rainha de Westeros, que temporariamente estou sem milhares de ocupações. Quando é que teríamos tempo para nos conhecer de fato? – Ela mordeu a maçã e sentiu o sumo agridoce escorrer um pouco por entre seus lábios. – Gostaria de saber mais sobre meu futuro marido do que sua copeira sabe.

Ele a analisou por alguns segundos e Dany sentiu-se tola. O que eu estou fazendo? Ele a deixava assim, envergonhada por todas as suas tolices. Como se ele fosse o adulto e ela, ainda uma criança perdida. Mas antes que ela acusasse a si mesma de outras depreciações, Jon esticou as pernas e cruzou as botas sujas de neve, apoiando as mãos na raiz. Sua mão esquerda tentadoramente próxima ao corpo dela e ainda terrivelmente longe.

— Não precisava fazer isso numa madrugada fria. – Ele olhou para o céu. Sua expressão parecia mais leve do que ela jamais vira. Seu coração aqueceu-se e ela sentiu vontade de segurar sua mão e sentiu o calor, mesmo com as luvas entre eles. Mas não o fez. – Nunca pensei nisso. Mas acho que é preto.

Dany assentiu, parecia previsível, mas ela gostou de saber. Eles observaram o sol nascendo opaco por entre as nuvens nebulosas e seus raios fracos perfurando as copas cobertas de neve. Em algum lugar ao longe, ouviram um pássaro bater as asas para fora de seu ninho. Os cavalos escavavam a neve em busca de algumas folhas perdidas de capim seco.

— O que você gosta de fazer? – A pergunta saiu suave como a brisa que brincava com os cabelos escuros dele. Ela percebeu que os preferia assim, soltos e selvagens, sujeitos aos caprichos do vento. Dany imaginou como eles ficariam espalhados no travesseiro de penas, com as raízes molhadas de suor, depois de uma noite de prazer. Ela o observaria por cima, montada em...

— Eu gosto de lutar. – Jon olhou pra ela, completamente alheio às perversidades de sua imaginação. – Gosto de senti o peso da espada nas mãos.

Ela molhou os lábios, sentindo o rosto esquentar. – Entendo. – Disse sem realmente ter prestado atenção. É só o cabelo dele e você já estava pensando no corpo dele nu? Repreendeu-se, desviando o olhar para as saias escuras.

Dany respirou o ar gelado, mas ele não bastou para acalma-la. Quando voltou a olhar para ele, viu, com certa alegria, que o Stark a observava de cenho franzido.

— Você ficou vermelha. – Ele comentou intrigado. Mesmo achando que não fosse possível, Daenerys corou ainda mais.

— Não foi nada. – Murmurou mordendo a maçã. Infelizmente a fruta pouco serviu como escudo, ela ainda o viu olhando-a como se visse sua alma.

Como ele faz isso? Olhando-a daquele jeito, Jon Stark a acendia internamente, fazendo-a querer colar seu corpo ao dele sem todos os empecilhos daquelas peles. Mas por outro lado, deixava-a sem palavras, com a garganta seca e o coração descompassado. Despertava nela sensações que ela nunca sequer sonhara antes sem ao menos tocá-la. Não era parecido com o que sentira por Drogo, era completamente novo e arrebatador. Como ele tinha tanta influência nela? Esse sentimento era como um nó, que a cada segundo se tornava mais apertado, esmagando qualquer outra emoção quando ele estava simplesmente perto. E isso só havia afrouxado quando...

... ela o havia beijado. Daenerys segurou sua mão esquerda e levantou-se da raiz. Sem tirar os olhos dos dele, ela moveu-se até estar entre as longas pernas dele. Abaixou-se até que seus narizes estivesse na mesma altura e, devagar, ela pegou sua outra mão levando as duas até sua cintura. Uma nuvem branca flutuou entre eles quando respiraram. Dany entrelaçou os dedos na nuca aquecida do Stark e esperou. Movia os olhos ao contornar as curvas diabólicas que eram os lábios ele, com o desejo corrompendo cada pensamento lúcido.

Pensou em ordenar que ele a beijasse, como já havia feito com outros homens mais fracos. Mas não foi preciso. Jon já havia inclinado a cabeça e selado seus lábios. Ele a beijava com a ferocidade que ela ansiava e precisava, enviando ondas escaldantes por seu corpo, mesmo que a neve os rodeasse. Sem conseguir sentir ou pensar em mais nada além da língua macia e quente dele contra a sua, Dany correu os dedos pelos livres cachos sedosos e juntou seu corpo ao dele, sentindo cada polegada do homem envolver seus braços, sua cintura até que sentiu-se cair.

No instinto, ela abriu os braços para segura em algo e quase gritou ao sentir o impacto. Ela abriu os olhos assustada. O lado bom era estar deitada sobre o corpo dele, o ruim... Era que aparentemente seu futuro esposo batera a cabeça em uma raiz mais baixa.

— Ah! – Jon parecia mais surpreso do que machucado. Levou as mãos até a própria nuca e fechou os olhos ao tocar o lugar. Dany o escutou soltar um impropério. Ele apoiou-se em um cotovelo, deixando uma mão atrás da cabeça. Quando abriu os olhos pareceu perceber a Targaryen esparramada em cima de si. – Você está bem?

Ela juntou as sobrancelhas. – Sou eu quem deveria perguntar. Deixe-me ver. – Ela moveu-se para olhar e ele gemeu de dor.

— Não se mova muito, essa neve não é tão macia quanto parece. – Resmungou ainda massageando a parte ferida. – Acho que tem uma pedra nas minhas costelas.

Ao ouvir isso, uma risada subiu de dentro de si e ela não pode segurar. Tentou impedir-se, colocando uma mão sobre a boca, mas a vontade era forte demais, incontrolável, como nada que ela tivesse sentido antes. Sua gargalhada assustou os cavalos e os espasmos fizeram o homem abaixo de si gemer dolorosamente, mas segundos depois ele estava rindo com ela. Eles riram até que suas barrigas ficassem doloridas e lágrimas brotassem em seus olhos. Do que riam, nenhum dos dois sabia.

Dany respirou fundo, controlando-se, e pensou que não havia nada mais belo do que Jon Stark sorrindo. Sua risada foi tornando-se mais branda até que apenas um leve sorriso iluminasse seu rosto. Ela sentiu-se fervilhar de alegria quando ele, espontaneamente, colocou uma mecha prateada de seu cabelo atrás de sua orelha.

— Vamos voltar. – Inesperadamente ele tocou os lábios dela com os próprios, rapidamente em um gesto precioso. – Antes que congelemos.

Ela riu, mais feliz do que se lembrava de um dia ter sido, e olhou para o céu clareando. – Ainda não. – E o beijou mais uma vez.

***

— O nome é represeiro. – Ele colocou a espada ao lado do corpo. Seus olhos subiram para a árvore branca. – Eles representam nossos deuses. Os deuses antigos, como chamam.

Dany correu os dedos pelos olhos da árvore. Os sulcos da madeira já eram escuros e parecia que o velho homem chorava de olhos fechados e boca escancarada. Como se sofresse com tudo o que havia visto e tivesse resolvido não ver mais.

— Mas você não acredita que árvores são deuses, acredita? – Ela virou-se para ele sorrindo de descrença, mas seu rosto estava mais duro que uma pedra.

— E por que eu deveria acreditar que sete estátuas de madeira o são? – Ele não esperou que ela respondesse. – Cada um de nós tem sua própria crença, não vamos discutir por isso.

Ela assentiu e observou seus dragões ao longe. Drogon e Viserion planavam placidamente, aproveitando as correntes de ar e mantendo-se longe da Muralha. Ela e o Snow estavam na borda da mata, o mais afastado que podiam do acampamento. Sabia que todos os olhos estavam neles, então queria privacidade.

— Sobre seu irmão, – ela começou incerta. Ainda não acreditava que ele fosse realmente filho de Rhaegar, mas estava disposta a ver o que Brandon Stark tinha para lhe mostrar. Mas sua voz foi cortada por uma repentina rajada de vento. Dany olhou para cima e viu Rhaegal sair das copas pesadas das árvores. Ela já o havia visto há dois dias, mas apenas agora ele resolvera chegar perto. Com um rugido ensurdecedor ele pousou, o mais rebelde de seus filhos. Suas escamas verdes estavam mais brilhantes do que nunca, parecendo esmeraldas encontrando luz para reluzir em um sol quase inexistente.

Rhaegal levantou o pescoço e andou apoiando-se nas garras das asas. Chegando perto de Dany, ele a farejou e bufou ar quente em cima dela, fazendo seus cabelos soltarem-se das presilhas. Ela ergueu a mão, esperando tocar suas escamas, mas ele afastou a cabeça de perto dela, colocando-se em toda sua altura e tamanho, abrindo as asas. Seus olhos dourados estavam cravados no homem, como se ele fosse um novo tipo de cordeiro a ser abatido.

Dany olhou com preocupação para o Snow, ele estava de pé, com as mãos no punho da espada, mas sabiamente, não havia puxado o aço ainda. Ela tentou pensar no que fazer, se um de seus dragões comesse o Rei no Norte, ela poderia ter alguns inimigos. Mas o que faria? Aquele dragão nunca a obedecia, nem quando ela levava comida para ele.

— Rhaegal. – Tentou, mas ele sequer pareceu escutá-la. Abriu a boca e sua língua bifurcada apareceu para correr ao redor das centenas de dentes. Dany prendeu a respiração quando ele abaixou a cabeça em direção ao homem...

... para cheirar seu rosto. O dragão farejou os cabelos e as roupas, suas mãos e as partes baixas. Jon Snow manteve-se imóvel como uma pedra de gelo sem ao menos ousar respirar ou piscar. Rhaegal afastou-se algumas polegadas, mas deixou a cabeça perto o suficiente do homem para arrancar sua cabeça fora. Eles passaram segundos inteiros com os olhos fixos um no outro e Dany só ousou respirar novamente quando a nuvem quente saiu por entre as narinas do dragão e envolveu o Snow como uma manta.

Ela franziu a testa, surpresa. – Ele... Gostou de você. – Sua frase soou como uma pergunta até para ela. Rhaegal nunca gostava de ninguém.

Jon Snow não olhou para ela. Ergueu uma das mãos e tocou as escamas verdes do dragão. Por 5 segundos ela viu o homem tocar Rhaegal, os dois com os olhos mergulhados um no outro, como se só existissem eles no mundo. Pareceu uma eternidade até o dragão afastar-se mansamente e levantar voou para junto dos irmãos, desiquilibrando a ambos com o bater de suas asas. Dany olhou para ele.

— Como você... – Antes que completasse a frase, o Snow havia desabado na raiz que estivera sentado. Passou a mão no rosto e respirou fundo.

— Acho que eu nunca mais vou morrer. Depois disso, com certeza nada mais me mata. – Seus olhos estavam arregalados e seus dedos tremiam. Daenerys engoliu em seco, sentindo seu coração palpitar sem controle, ela observou o filho de seu irmão.

Notas finais
D-I-G-A-M o que acharam. Principalmente sobre os flashs. (Os reviews de vocês me fazem muito felizes e, o que mais interessa, me fazem escrever mais rápido.)