Um Conto Leah e Bella
1 Capítulo Único
Notas iniciais
CAPÍTULO ÚNICO
— um sonho de leah —
Trêmula e ofegante, Leah Clearwater iniciou sua caminhada.
Sentia-se infeliz e miserável ao caminhar puxando de uma perna, manca como uma velha doente. Junto da sua própria miséria degustava da enfermidade. A perna dolorida era brincadeira de criança, comparada à febre que serpenteava por todo o seu corpo e o esforço que seus pulmões faziam para mantê-la respirando. Não sabia o porquê e, na verdade, nem conseguia pensar em como acabara ali e o que acontecera. Enxergava-se em todos os lugares. Esquerda. Direita. Norte. Sul.
“Ótimo! Espelhos!” — resmungou mentalmente, imaginando se aquilo seria uma espécie de castigo. Veja sua própria dor e impotência; chegava a ser masoquista. Leah mexeu os ombros e tentou não prestar atenção nos espelhos. Andou em linha reta e nem piscava muito, pois queria manter-se a tenta a qualquer ataque inimigo: jamais sentira tanto medo em toda a sua existência. Não tivera medo quando arrancara o primeiro dente e muito menos quando teve que engessar o braço após um tenebroso tombo. Era estranha a sensação do medo; como se fosse incompatível com a natureza de Leah.
Onde estaria a luz no fundo do túnel? Desesperadamente, Leah só queria achar a saída dali. Tornou-se persistente e andou, andou e andou. Os passos pareciam infindáveis e a outra perna já começava a doer. Os tremores da febre não cederam nem por um misero segundo e ela sentiu como se fosse se partir ao meio. Não aguentava mais aquela sala infinita e nem as dores ósseas causadas pela febre. Mal notara que estava entre lágrimas. Finalmente, despencou. Caiu sentada no chão, com a sensação da miséria cem vezes maior. Tornou-se pequena e frágil; propensa a ataques.
— Droga! — balbuciou Leah entre soluços e lágrimas. Com a mão esquerda esfregou o joelho e grunhiu de dor. Daqui a um tempinho surgiria um grande hematoma roxo ali e se fosse muito sortuda conseguiria andar sem mancar das duas pernas. Que inferno de vida era aquela? O que tinha feito?
Talvez fosse a rezada lenda de que “o mundo dá voltas”. Certamente, o Universo era amigo dos malvados e decidira atirar encima de Leah todos os prejuízos feitos pela humanidade nos últimos dois mil anos. Então, devia ser isso, pois Leah não se memorava de ter matado, injustiçado em vão ou furtado. Tudo que fazia tinha um proposito e agora não sabia o propósito de estar ali. Decididamente, afirmou para si mesma que estava certa. Era a resposta final: era um castigo do Universo.
Secou as lágrimas com as palmas das mãos e respirou profundamente. Não havia mais ninguém ali. Ninguém além de Leah com seu reflexo. Como gostava muito de pensar nas consequências de tudo — pensar além do futuro — Leah acabou por entender que aquele era seu fim. Não tinha saída, janela, comida, medicamento ou oxigênio para uma vida inteira. Terminaria ali: numa sala espelhada, refletindo sobre sua miséria e infelicidade, sua incapacidade em ter reações.
De imediato, uma lista de arrependimentos estendeu-se na mente da garota Clearwater. Arrependeu-se por não ter dado mais abraços em Harry, por responder feio para Sue e por ser grosseira com Seth. Por ter brigado com Jared e Quil e por ter falado dos dentes tortinhos de Sia. Mas, especialmente, arrependeu-se por não ter dito a Bella que… Ah, Bella!
No instante em que pensara na garota, os olhos de Leah iluminaram-se e ela sorriu pequeno. Como desejava poder estar com ela; amá-la e abraçá-la, nunca mais a libertando da cúpula de amor e proteção. De repente, um instinto apoderou-se de Leah e ela tentou ficar em pé. Bella, não… Precisava achá-la. Protegê-la. Ah! Como se esquecera daquilo? Esquecera-se de Bella? Não, não podia deixá-la só. Tinha a necessidade de mantê-la bem. Bella era sua vida, sua essência. Seria muito egoísta da parte de Leah deixar-se ser levada pela inutilidade. Outra vez, a loba transformou-se em lágrimas.
Tivera vontade, mas não força. Seus joelhos tremiam e não conseguia se mantiver em pé. Amaldiçoou a vida e resmungou umas obscenidades. Seria seu fim e o de Bella, que seria alvo de Victoria e seus comparsas. Sem esperança, Leah escorou a cabeça nos joelhos e fungou. A angustia bailava dentro do coraçãozinho Clearwater.
— Leah? — a voz de Isabella Swan ecoou pela sala e afundou-se na mente de Leah, que fechou os olhos e gemeu em prazer: escutara a mais feliz e maravilhosa eufonia de todas. Ergueu a cabeça e encarou Bella, que se encontrava parada em sua frente. Bella, que sorria carinhosamente, parecia em um melhor estado que Leah.
Leah estava surrada e maltratada num vestidinho roxo que mal lhe cobria dois terços das coxas. Bella, ao contrário, tinha os pés descalços e vestia-se complemente de preto: uma calça preta e uma regata. Os cabelos compridos lhe caiam com sutileza e aparentavam maciez.
— O que está fazendo aqui? — Bella, que sempre fora menor que Leah, acocorou-se e secou os últimos vestígios de lágrimas que escorriam pelo rosto Quileute.
O coração de Leah bateu loucamente e ela sentiu como se o mesmo fosse explodir. Era emoção demais e a alegria quase foi insuportável de tão imensa. Bella, que poderia estar correndo riscos, estava li, parada na sua frente e lhe secando as lágrimas. Leah pensou que fosse irreal e tudo fruto de sua imaginação, mas acreditou quando sentiu os lábios de Bella contra sua testa, como se sussurrasse baixíssimo: tudo ficará bem, meu amor.
E iria mesmo, pois estava com seu verdadeiro amor. Com a mulher que fez seu espirito voltar a sentir a vida.
Cuidadosamente, Bella passou o braço na volta da cintura de Leah e puxou-a para cima. Leah esperou tremores ou soluços, mas tudo que notou foi que parou. Seu corpo firmou-se e ela cercou o pescoço de Bella com seus braços, juntando-as num abraço apertado.
Desfrutar do perfume de Bella fez o pulmão de Leah aliviar e sua respiração voltar ao normal.
Apreciar do toque de Bella fez o corpo de Leah relaxar a dor sumir.
Refletido nos espelhos, Leah só encontrou amor e alegria. Toda a miséria havia sumido e a infelicidade parecia nem ter, sequer, um dia existido.
— O que aconteceu com você? — Bella riu roucamente, acariciando e tentando dominar os cabelos de Leah, que estavam desajeitados e duros. — Estive te procurando nas últimas três horas… — o olhar amoroso de Bella fez Leah derreter e fechar os olhos outra vez, aproveitando do momento de salvação. Antes que pedisse ou tomasse atitude, Bella juntou seus lábios de Leah.
Primeiro lentamente e com muita delicadeza: provando do gosto da boca da Clearwater com muito prazer, redescobrindo os cantos e deleitando-se com a submissão de Leah, que estava complemente mole e entregue ao toque. Alguns segundos mais tarde e Leah gemia durante ao beijo, agarrando-se aos cabelos de Bella e arrepiando-se a cada mordiscada no lábio. Quando deu por si, foi empurrada e suas costas caíram em algo macio e muito bem acolchoado.
Não deu importância ao fato de que havia surgido uma cama no meio da sala espelhada (e o quão estranho soava o fato). Bella estava com ela e a desejava; era o único fato importante. Leah só foi dar importância a algo quando uma batida baixinha e constrangida ressoou.
Bella saiu de cima de Leah e deitou-se na cama, rindo novamente e dizendo num tom bem humorado:
— Pode entrar amorzinho. — Leah negou a informação a si mesma e arregalou os olhos. Amorzinho? Bella estaria falando com ela? Não? Então, quem era o amorzinho? E para Leah foi impossível evitar a surpresa quando uma garotinha — cuja pele era indígena e os olhos castanhos achocolatados — entrou no quarto, trazendo nos braços uma boneca de pano.
Leah engasgou com o ar ao vê-la: era a cruza perfeita entre a genética de Leah e Bella; tinha a pele da loba e os olhos de Bella. Os cabelos lembravam os da garota Clearwater, mas eram compridos e trançados.
Não, não… Não tinha como ser verdade: Leah era estéril. E mesmo se não fosse jamais conseguiria engravidar de Bella ou engravidar Bella. Leah, sem dúvidas, acharia estranha a criança, isso se não tivesse olhado para o lado e enxergado uma versão mais velha de Bella. A Swan, que devia estar uns cinco quilos mais pesada, aparentava uns quarenta e cinco anos e já tinha umas marquinhas da idade na pele.
— Não consegue dormir, filha?
— Não. — negou a menininha. Leah tornou-se ofegante e tentou manter a calma: estava diante de uma vida perfeita e não conseguia acreditar na menininha, na idade de Bella e no quarto onde estavam. Como o tempo havia passado tão rápido? De resgatada de uma sala de espelhos para um quarto caro com a esposa e uma filha? Leah nem ficou surpresa quando notou que os seus cabelos eram compridos e que estavam presos no topo da cabeça num coque frouxo. E muito menos se assustou quando levantou a mão e viu uma grossa aliança de ouro no dedo. — Eu… — a garotinha largou a boneca e saltou em Leah, abraçando-a com força. — Não chora mamãe! Não, por favor! — pediu ela, apertando Leah com o máximo de força que seus bracinhos pequenos podiam exercer.
— Mamãe não está chorando, Susana. — disse Bella num tom confortante e então, inclinou-se: — Não está… Certo? — perguntou a Leah que começava a retribuir o abraço da menina.
— Claro que não. — respondeu Leah, com a voz chorosa que a entregou. Susana voltou-se para Bella e disse decididamente:
— Eu disse mãe: a mamãe está chorando! — e retornou sua atenção a mamãe, enchendo o rosto de Leah de beijinhos e abraçando-a, relembrando a mulher de o quanto a amava. Fez a Clearwater perder o fôlego e rir.
— Tudo bem, Lee? — a mão de Bella pousou com delicadeza sobre a de Leah, que ainda ria e era alvo dos beijinhos de Susana. Ela sorriu e simplesmente assentiu para Isabella:
Era muita felicidade para caber dentro de uma mera explicação.
***
Suando e respirando fora do ritmo, Leah Clearwater sentou-se bruscamente na cama e olhou para os lados, identificando o lugar. Tudo bem; era o quarto de Bella. Mudou o foco da visão e pode ver sua amada dormindo ao seu lado; Bella ressonava quase que inaudível. Leah levantou-se e andou até a janela, espiando a rua.
Uma loba branca e um lobo acastanhado estavam prostrados lado a lado na mata e pareciam estar numa conversa muito importante. Típico de Sia e Seth se perderem na própria relação. Suspirando, Leah se escorou na janela: sua cabeça girava e por mais que forçasse os pensamentos não se memorava do sonho. Sentia uma necessidade imensa de relembrá-lo, mas não conseguia. Nada.
— Leah? — Bella coçou os olhos e franziu a testa. — Tudo bem? — ela apoiou uma mão no colchão e sentou-se: havia sentido de imediato a falta da Clearwater. Tinha dormido desde o começo da noite com Leah: os braços ao redor da loba e sempre aconchegadas uma na outra. — Aconteceu alguma coisa? — Bella cobriu a boca com a mão e bocejou levemente.
— Não. — discordou Leah ao sorrir amorosamente: a preocupação de Bella fluía silenciosamente e escondia-se nela, que sentia tudo que a companheira sentia. Fosse a alegria, amor ou tristeza: Leah sentiria.
— Volte para a cama. — pediu Bella sonolentamente, atirando-se para trás outra vez. Leah anuiu com a cabeça e dirigiu-se a cama outra vez, deitando-se e sendo acolhida por Bella. Fechou os olhos e sorriu mais longo quando sentiu Bella lhe acariciando os cabelos.
O sonho lhe perdeu a importância e tudo voltou a parecer bem.
Na verdade, muito bem.
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