Um Conto De Natal
1 Capítulo único
Notas iniciais
A noite de natal estava próxima, toda a cidade enfeitada com luzes e os corais a todo tempo surpreendiam as pessoas em lojas e praças, mas havia ali uma pessoa ranzinza em meio de tanta alegria. Ele era jovem, muito jovem e morava com a mãe no centro de Tateyama numa casinha pequena e aconchegante, não era mais rico que os outros meninos, nem mais bonito e também não era o mais forte, porém tinha um grande talento... talento que a senhora Hayashi não conseguia controlar, a rebeldia.
Há três dias para a noite de natal, a senhora corria para preparar os bolos e docinhos para entrega, queria ganhar algum dinheiro extra para comprar algo especial ao seu filho já fazia tempo que o menino lhe pedira uma bateria nova, uma só para ele, mas como estava sem condições começou a fazer falsas promessas e foi ai que os problemas começaram. Ele já não ia com a freqüência necessária para a escola, os amigos tinham se afastado e tinha brigado até mesmo com seu melhor amigo, Toshi; entender o que se passa na cabeça de uma criança de 14 anos era muito difícil mas sabia que não podia exigir tanto de um menino que perdera o pai de forma tão trágica e ainda enfrentavam crise com os parentes e com dinheiro.
Ela soltou um longo suspiro, seu filho ainda estava nas ruas e logo menos ia escurecer, rezava para que não estivesse metido em gangues ou algo do tipo. Seu pensamento foi interrompido pelo carteiro, no bairro onde morava a comunidade combinou de receber as cartas de natal das crianças mas como já era de se esperar, Yoshiki não escrevera nenhuma.
- Sinto muito, acho que meu filho não acredita no natal...
- ... não fique triste, senhora Hayashi _o carteiro sorriu gentilmente, era um antigo amigo de seu falecido marido e tinha muita compaixão pela família _ terei o maior prazer de receber sua carta.
- Minha? Mas... olha eu não tenho mais idade _ficou sem graça por um momento.
- Vamos, escreva um recadinho afinal, milagres de natal existem!
- ... um minuto _saiu correndo em busca de uma caneta e rabiscou numa folha de caderno arrancada de seu livro de receitas.
“Papai Noel, preciso de um milagre de natal, algo que faça meu filho deixar de ter todos aqueles pesares e voltar a ser a boa criança que sempre foi.
Hayashi-san.”
- Aqui está! _voltou meio desconcertada e entregou a carta
- Feliz Natal!
- Feliz Natal! E muito obrigada!! _acenou para o amigo.
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Yoshiki andava pelas ruas sozinho, o frio do inverno o fazia se sentir ainda mais solitário; usava um sobretudo preto combinando com as botas e o cachecol, os cabelos longos e rebeldes ao vento faziam seu charme. Odiava todo aquele falso amor, luzes para todos os lados, a magia no natal.
- ... _olhou para o sol se pondo, não queria voltar para casa mesmo sabendo que sua mãe logo ficaria preocupada _ quero que tudo suma...
- Oi.
- ...
- Oi!
Um menino, aparentemente mais novo, tentava chamar sua atenção do outro lado da rua, Yoshiki por sua vez o ignorou e voltou a sua caminhada.
- Espera!! _o menino atravessou a rua correndo.
Foi tudo muito rápido, Yoshiki se virou quando foi chamado pela segunda vez e viu um carro muito veloz se aproximar daquela figura sorridente e pela primeira vez sentiu seu coração parar. Ele correu para tentar parar o carro mas assim que deu seu segundo passo o veiculo conseguiu desviar e parou mais a frente, o motorista xingava muito os meninos e fazendo um gesto obsceno voltou ao seu caminho.
- Você é maluco?! Não de trabalho para os outros que nem conhece!!
- ... _se mantinha abaixado com as mãos na cabeça
- Está me ouvindo moleque? Seu idiota!!
Yoshiki parou de gritar e observou o garoto que não se mexia, talvez estivesse machucado ou algo do gênero e resolveu dar uma trégua, afinal fora só um acidente.
- ... se machucou?
- Não... _olhou para Yoshiki muito assustado _ eu sinto muito pelo trabalho...
- O que você quer?
- ... eu só queria uma informação _se levantou batendo a poeira de sua roupa _ é que nunca vim pra cá e estou perdido...
- Perdido nessa cidade de merda? Você é mesmo idiota.
- Ah... _deu um sorrisinho sem graça _ devo mesmo ser... hum _fez uma expressão de dor e levou a mão na barriga.
- Ei você está bem? _descruzou os braços e tentou ajudá-lo.
- Fome... _sussurrou
- O que? Fale mais alto.
- Estou com fomeeee _fez voz de criança
- ORAS! _deu um soco no ombro desse. _vou embora.
- ... aaaah você ainda não disse como eu saio daqui! _correu trás e segurou uma parte do sobretudo de Yoshiki.
- Pega o trem! É tão difícil assim...
- A pé. _interrompeu
- ... o que?!
- ... fui assaltado quando desci da estação... e o endereço da oba-chan estava na carteira... e ai eu fiquei procurando mas vim parar aqui _abaixou a cabeça.
- Como ganhou esse machucado no rosto?
- O ladrão...
- Mentira, foi feito por uma katana de madeira.
- ...alguns meninos, quando fui pedir informação...
- E então porque me julgou confiável? Estou vestido iguais a eles provavelmente.
- ... ah eu não sei.
- Você é mesmo muito imbecil _soltou seu sobretudo e virou de costas. _ vamos, tem uma loja de conveniência ali na frente.
- Desculpa pelo trabalho e...eu não posso pagar nada, obrigado por tudo mesmo assim.
- Também estou com fome, eu pago um oniguiri pra você.
- Mesmo?! _seus olhos brilharam e Yoshiki de repente sentiu seu coração bater mais forte.
A loja era 24 horas, os rapazes estavam sentados em uma mesinha do fundo, por causa da aparência de marginal de Yoshiki, assim ninguém os incomodaria.
- ... estava mesmo com fome.
- Hum! Efe é minha comida peferida _falou de boca cheia feito uma criança.
- Bolinho de arroz com furikake é sua comida preferia? _soltou uma risada de escárnio _ tsc... acho que pode agradecer dizendo seu nome agora.
- Ah! Me desculpe!! Me chamo Matsumoto Hideto _estendeu a mão mas Yoshiki não a apertou.
- Entendi... está no pré primário ainda?
- ... tenho 15 anos.
- O QUE?! _cuspiu o chá na cara de hide, a criatura era um ano mais velho que ele.
- Quando eu voltar para cá eu prometo que pago...
- Não volte! Já estou satisfeito com isso.
- ... _ficou sem graça _ bom, acho que é melhor eu ir embora, já é quase meia noite.
- A pé? Deixa de ser...aaaah senta ai e fica quieto até os trens começarem a voltar a circular.
- ... hoje é dia 24!
- 23.
- 24, já chegou a meia noite.
- Ah... grande merda. _olhou para o relógio que hide lhe mostrava.
- Não gosta do natal?! Não é possível... _olhou para o, agora amigo, como se esse fosse um ET.
- ... _se arrependeu por não ter ido embora por um momento _ vamos, preciso sair para fumar.
- Aaah que bom _se levantou _ eu estava morrendo de vontade, hehe.
- Nossa, pela primeira vez você não parece uma criança.
- O que você gosta de fazer?
- ... bateria, eu toco bateria.
- SERIO?! Eu toco guitarra, tenho uma muito louca... sabe, gosto de rock, tipo KISS! Eles são demais!
Os dois continuaram a conversar a madrugada toda, por fim hide pegou o trem logo de manhãzinha e foi embora, Yoshiki, agora mais calmo voltou para casa.
- Onde estava a noite toda? _sua mãe estava sentada na mesa da cozinha tomando café e enrolando docinhos.
- Fazendo uma boa ação...
- Hum. _sentou ao lado de sua mãe e roubou um brigadeiro _... doce.
- Está gostoso? _mexeu nos cabelos despenteados do filho.
- Ano passado não fez doces para vender.
- Deixarei a louça para você, agora vai descansar.
- ...
O cansaço tomou conta do garoto que logo adormeceu no sofá mesmo, sua mãe terminou os doces e também fora descansar. No dia seguinte o sol estava apontado direto para o rosto de Yoshiki, um pouco incomodado desistiu de continuar dormindo, já tinha passado das 2 horas e sua mãe tinha saído para fazer as entregas.
Fuçava no armário, quase vazio mas sua busca foi atrapalhada pela campainha estridente.
- Olá!
Um mal humorado Yoshiki bateu a porta na cara de hide e voltou para a cozinha continuando sua busca por comida.
- Yoooo-chan! Eu só quero agradecer...! _como um fantasma hide agora batia na janela da cozinha.
- Me deixe em paz! Assombração!!
- Eu disse que viria lhe agradecer, vamos... minha avó mandou uma coisa pra você! _mostrou a cesta que carregava nos braços.
- ... acho que não vai ter jeito, não é? _abriu a porta e deixou o amigo entrar.
- Salvou a minha vida ontem, muito obrigado _fez um gesto de respeito.
- Ah... não foi nada de mais _corou _sente-se, estou procurando algo para comer.
- Minha avó mandou um prato de oniguiri... ah... ela não tem muita idade de fazer coisas difíceis...
- Jura? Não precisava se incomodar, tenho suco de uva e...ah, minha mãe deixou um bolo.
- Uao! Um banquete e tanto ah... sabe eu estava pensando, vamos tocar juntos qualquer dia?
- ...
- Eu... disse algo errado? _ a expressão de Yoshiki mudou ao ouvir tais palavras.
- Meu amigo é vocalista e eu até compus uma canção... e toco piano também, mas eu não tenho bateria para ensaiar.
- Hum... trouxe minha guitarra, vamos fazer algo muito bom.
- Eu não tenho bateria!
- Calma, é um sonho para o futuro ainda...
- ... eu não penso muito no futuro.
- Mas por que? Eu ainda quero ser muito famoso!! E vou levar a oba-chan nos meus shows.
- Ah... pff... _segurou o riso ao imaginar a velha vendo um show de rock.
- Quando sair da escola irei pintar meu cabelo de vermelho e vou fazer aquelas maquiagens doidas!
Yoshiki ouvia sobre os sonhos de hide como se fossem os deles, viajou por horas naquela pessoa tão alegre e bonita; seu amor pela avó, sua atitude de criança mimada as vezes e seu imenso coração o tocaram que alguma forma, sim, ele lembrava muito o próprio Yoshiki de antigamente quando ainda brincava com o seu pai. Pai, mãe... Toshi que era quase seu irmão, esqueceu de todos aqueles sentimentos, mas a quanto tempo?
Hide fora embora ainda de dia e eles nunca mais se viram, Yoshiki ficou por mais algum tempo refletindo sobre o natal e todas aquelas coisas que tinham acontecido, tomou coragem então para voltar a falar com o seu melhor amigo e começou com o sonho de uma banda, uma banda que fosse mudar o mundo e ajudar as pessoas como estava o ajudando naquele momento.
Era noite de natal, a família Hayashi jantava vendo um programa de musicas na TV.
- ...estou feliz por estar comigo na noite de hoje.
- Hum... _sem graça _ eu vou sair com Toshi mais tarde, tudo bem?
- Claro mas acho que na verdade ele vai levar um cano do seu melhor amigo hoje.
- ...por que? A senhora já falou que eu posso sair!
- Mas não sou eu quem vá impedir _apontou para o segundo andar _ vai lá.
O coração do garoto disparou, correu para seu quarto no segundo andar e encontrou algo que fez seus olhos brilharem, uma bateria, nova e linda. Ficou sem saber o que dizer para a mãe, de repente ele se sentiu uma criança como antes e até se envergonhou por ter feito tantas coisas ruins aquele tempo todo.
- Desculpa a mamãe por demorar tanto para comprar seu presente...
- Por isso fiou fazendo bolos a noite toda?!
- Hum... _concordou _ sei que ficou chateado com muitas coisas... a escola, os amigos, o papai que não está mais aqui, mas te amo muito, é o meu FILHO.
- ... a senhora é tão boba quando ele.
- Quem?
- Ah... um idiota ai que eu ajudei antes de ontem.
- Nossa _se espantou, nunca viu seu filho ajudar ninguém por uma noite toda. _ ele parece que mexeu com você.
- ... ele só devolveu um sonho antigo _sentou no banquinho do seu novo presente e pegou uma das baquetas _ deve ter custado uma fortuna.
- Mas eu também ganhei algo do papai Noel _sorriu _ meu milagre de natal.
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- Então EU sou um milagre de natal?! _um hide agora anos mais velhos e aninhados no peito de Yoshiki ouvia aquela historia.
- Sim _deu um beijo na testa do amante _ quem salvou minha vida foi você afinal...
- ... eu te amo, fico feliz em ter ajudado a pessoa que veio me encontrar anos depois e que agora gosto tanto.
- Também te amo, meu anjo... feliz natal.
- Hum...feliz natal!
FIM
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