Notas iniciais
Eu não morri!!!!!!! Demorei um pouco (lê-se muito) pra terminar esse. Mas tá grandinho, pra compensar o último. E prometo que vou postar pelo menos um por semana daqui pra frente. Quer dizer, prometo tentar.

Rápida explicação pra quem não entendeu a história da fic: O mundo dos contos de fada foi dominado pelas quatro maiores vilãs existentes (em minha humilde opinião): a rainha má, da Branca de Neve, Lady Tremaine, da Cinderela, Malévola, da Bela Adormecida, e Úrsula, da Pequena Sereia. Na batalha para tomar o reino, a maioria dos personagens foi morta e, quem não, tornou-se escravo delas. Nessa época, Cinderela estava grávida de sete meses.

A fada madrinha, então, ofereceu a ela e ao príncipe encantado a chance de fugir para viver em paz, em um outro mundo. Nesse mundo, todos os personagens mortos renasceriam na forma de novas crianças, e era missão dos dois encontrar essas crianças e treiná-las para formar um exército que derrubaria as vilãs do trono e restauraria a paz.

As vilãs, com o tempo, ficaram cientes do plano da fada e fizeram um feitiço para atrair todos os renascidos para o mesmo lugar e, assim, matá-los e continuar com seu reinado.

Uma coisa que esqueci de dizer sobre Lisa é que ela tem miopia, ou seja, não consegue ver de longe. Além disso, tem heterocromia, que é ter a cor dos olhos diferente. Ela tem o esquerdo, azul, e o direito, castanho. Sim, eu fiz isso com a coitada.

Playlist: It's my Life - Bon Jovi
Be Our Guest - Beauty and the Beast

Não era uma boa manhã para Lisa Price. Para começar, ela foi acordada por um frisbee.

Foi tudo rápido demais para que pudesse distinguir: num minuto, dormia profundamente, deitada de lado no abrigo improvisado; no outro, uma coisa grande e dura atingia a parte de cima da sua barriga.

Com um grunhido, inclinou o corpo para frente e, ainda com os olhos entreabertos, apanhou o disco que a tirara de seu sono. Era fino, grande e de um rosa-choque escandaloso. Foi preciso aproximá-lo de seus olhos para ver um B gigante estampado e uma figura da Barbie.

Concentrou-se mais à frente. O sol já reluzia escaldante sobre o chão verde-claro e espetado de grama. Poucos borrões de pessoas andavam na pista de cooper que, noite passada, a garota nem havia notado a existência. Perto de onde ela estava, duas garotinhas a encaravam, encolhidas. Tinha que forçar muito a visão para decifrar suas feições, mas só pelo fato de perderem tempo estando ali, deduziu que o brinquedo as pertencia, então o jogou de volta. Elas a olharam por mais um segundo antes de ir.

Mas o que tinha de tão interessante para se ver? Até parece que nunca tinham visto dois adolescentes imundos dormirem no parque.

Ela esfregou os olhos e se obrigou a acordar totalmente. Sua cabeça não doía mais, o nó em em sua garganta se afrouxara e tampouco seus músculos fraquejavam. Aparentava ser uma pessoa completamente renovada, e quem dera fosse. No entanto, seu inconsciente se enchia de flashes e mais flahes da noite, que iam e passavam. Flashes que preferia esquecer.

Tateou o bolso de sua camisa. A bola de cristal que recebera de Charlie ainda estava lá, assim como seu diário e a espada de lâmina de aço comprida e larga descansando no solo do esconderijo. Olhando mais de perto, pôde notar que a empunhadura era feita de um material que se assemelhava ao cristal. A espada da Cinderella. Ironia? Não, imagina.

Aquilo, para a garota, foi como uma dose cheia e chocante de realidade líquida. Quando acordara, tinha reais esperanças de que o que viveram não passara de um grande e de mal gosto sonho. Ou pesadelo, sendo esta sua melhor opção. Algo que nem Alice no País das Maravilhas. Mas agora que acariciava um dos gumes extremamente cortantes e a ponta afiada da arma, se perguntava se havia sido, mesmo, o que pensara.

-Rider? Rider! Acorda!! -ainda sonolenta, chacoalhou o garoto que, até o momento, roncava tranquilamente, passando uma mão pela sua cintura. Sua aparência não melhorara: as ronchas em suas pernas não mudaram nem um pouco, e tinha uma cara de derrubado.

-Ah, deixa eu dormir... -ele empurrou a garota e virou de lado. Mas imediatamente levantou-se com os olhos arregalados. -Espera! Nós... Nós dois... Nós dormimos... Abraçados?

Os dois fizeram cara de nojo.

-Nunca mais falaremos sobre isso com qualquer outra pessoa na vida! -Lisa propôs.

-Fechado! -eles apertaram as mãos para selar o acordo. O garoto virou-se novamente, no intuito de voltar a dormir, mas não demorou a continuar a fala. -Ei, alguém trouxe isso de volta.

Rider estendeu as mãos para ela. Entre os dedos compridos e finos, estavam seus óculos, em toda sua glória: pretos, quadrados, brilhantes. Como novos. Lisa reprimiu um sorriso debochado. Nunca havia reparado como seu irmão tinha dedos de menina.

-Onde estavam? -perguntou ela enquanto pegava e ajustava a armação em seu nariz. Todo o cenário mais ao longe tomou forma assim que o fez: as palmeiras, as pessoas andando, um casal patinando, os muitos passarinhos que voavam pelo céu de um azul gritante e sem nuvens. Ainda bem, pois não aguentava mais ter que forçar para ver alguma coisa.

-Aqui, no chão, deste lado. E veio com um bilhetinho...

Com delicadeza, a garota sentou-se sobre as pernas, pegou o diário e começou a folheá-lo. Queria ver se o mesmo tinha algum dano maior ou mais preocupante fora a sujeira que cobria páginas, a capa e seu brasão com o leão de metal da grifinória.

Entre uma folha de papel amarelado e outra, saltou para fora um livrinho fino, de capa azul-claro e lisa, imperceptível, uma vez que escondido pelo caderno grosso e bagunçado. Pousou gentilmente no colo de Lisa, quem, ao senti-lo, o pegou, curiosa, e abriu em uma página aleatória.

Foi passando devagar e avançando a leitura. Mulan, Os Três Porquinhos, Peter Pan, A Bela Adormecida, A Pequena Sereia, A Princesa e o Sapo, A Bela e a Fera. Cada página continha o nome em negrito, um desenho e uma breve narrativa da história. A garota franziu a testa. Aquele livro era totalmente desconhecido para ela.

Com certeza, era um livrinho de criança. Daqueles que geralmente vêm em preto e branco, junto com uma caixa de giz de cera para colorir. Esse, porém, era colorido, de páginas mais finas e mais misterioso.A pergunta era: como ele veio parar lá? Que ela soubesse, era a única que poderia ter colocado...

Mas aí, uma vaga lembrança invadiu seus pensamentos. Mais uma pessoa tivera acesso ao seu diário. Só de pensar nela, um arrepio correu por sua espinha.

-Você ouviu alguma coisa do que eu disse? -Rider voltou a chamar por sua atenção, fazendo um gesto para que focasse nele.

-O quê?

-Ah, dai-me paciência. -ele levou uma das mãos à testa. Iria ter que falar tudo de novo. -O bilhete! Embaixo dos óculos! Tem escrito: "Tudo o que precisam está na mala do carro. As estrelas podem conceder qualquer desejo, se puro e sincero. Então, se tudo estiver perdido e nada mais fizer sentido, não hesitem. Nosso futuro depende de vocês." Assinado: FM. E também tem isso: "PS: nem sempre as coisas são o que parecem."

-Hmmm, bom. Bom pra você. Não! Meu diário, tá quase acabando! -disse a garota, em resposta. Abria e fechava o diário repetidamente, para ver se encontrava alguma página não usada. Era nítida sua falta de concentração. -Acho que preencho todas as páginas daqui para o começo das aulas! Que saco! Vou ter que comprar outro.

-OK, desisto. Toma. -Rider entregou o bilhete nas mãos dela. Esta o leu rapidamente.

-Mas o que isso significa? -ela olhou para ele, levantando uma das sobrancelhas. -O que vamos fazer agora?

-Bom, não sei o que significa. Mas de uma coisa eu sei: não há sombra de Charlie em lugar nenhum. E nós sabemos o que isso significa. -o garoto engoliu em seco. -Talvez o futuro dependa de nós, mesmo.

-Rider, aquele negócio do pai, de novo? -Lisa bufou. -Tá, mesmo que o que ele disse seja verdade, e eu não estou dizendo que é, o que vamos fazer?

-Acho que precisamos ir até o carro para descobrir! -ele saiu cuidadosamente do esconderijo e ficou esperando pela irmã. Ela, meio que hesitando, guardou a espada na bainha branca com detalhes prateados, prendeu-a no shopprt e abraçou seu diário. Juntou-se ao garoto e começaram a andar.

-Só espero que a lagartixa esteja bem longe daqui. -comentou ela.

Lisa provavelmente ficaria com vergonha de contar para alguém que um dia se perdeu no South Pointe Park. Uma vez que claro e iluminado pelo sol quente, podia-se ver claramente que as árvores deixavam um grande espaço entre elas, permitindo aos outros caminhar sem maiores problemas. Também não era tão grande assim, e possibilitava uma linda vista da praia a uns metros de distância e dos prédios altos e coloridos ao fundo. Tinha uma rede para se jogar vôlei mais atrás, uma pista gigante de cooper e quiosques vendendo comidas e bebidas. Não havia bancos, então várias famílias se sentavam no chão e faziam piqueniques.

Por onde passavam, atraíam todos os tipos de olhares curiosos e inconvenientes por parte de toda e qualquer pessoa, e não era por menos. Ao ser zombada por um grupo de adolescentes que margeava seu caminho, Lisa logo se acuou, tentando esconder o rosto. Rider, por outro lado, não dava a impressão de constrangimento ou desconforto. Ele seguia imune, em frente, o queixo para cima e semblante determinado.

Ela desejava ser um pouco mais assim, às vezes.

-Ali!! -Rider disse e correu longe. Lisa demorou um pouco para perceber que devia segui-lo.

Pararam em frente à casa. Ou pelo menos, o que sobrara dela. Depois do ataque, a Alameda dos Seixos transformara-se em nada, além de uma pilha de ruínas e brasas quentes, bem como tudo em um raio de cinco metros. Lascas e tábuas de madeira foram jogadas para fora dos muros destruídos. O solo tinha uma cor de marrom intensa, queimada. A construção inteira produzia uma aura de calor que aumentava à medida que se aproximavam.

Felizmente, o dragão aparentava ter ido embora. Não sentiam muita vontade de enfrentá-lo depois do estrago que fez.

O carro sedan vermelho sangue ainda estava estacionado no exato local onde o deixaram. Apresentava uns chamuscados aqui e outros ali, mas fora isso, estava intacto. Enquanto iam ao encontro dele, Lisa topava com uma série de seixos, pedrinhas desenterradas em decorrência do incêndio. "Então por isso o nome." Pensou ela.

-Já não era para a polícia ter chegado aqui? Ou os bombeiros? -fez uma observação. Tinham acabado de chegar ao porta-malas. -Não é todo dia que uma casa simplesmente pega fogo e vai pelos ares com os moradores.

-Melhor para nós. A última coisa que precisamos agora é perder tempo dando depoimento. -ele, então, deu um chute certeiro na tranca, fazendo a estrutura abrir. É, graças ao caratê que praticava há alguns anos, Rider era capaz de fazer esse tipo de coisa. -Ai, minha perna!

-Você está bem?

-Estou ótimo. -respondeu, tranquilizando-a, embora não estivesse tão bem assim. -Vamos acabar logo com isso.

Juntos, fizeram uma certa força para levantar a porta e abrir o porta-malas por completo.

-Tá vendo? Não tem nada aqui. -disse Lisa. -Vazio. Zero. Nada.

-Impossível! -Rider ajoelhou-se na borda e entrou dentro da mala vazia. -O bilhete dizia...

-Talvez você devesse parar de acreditar em bilhetes deixados por estranhos! -ela cruzou os braços.

-AHAA! -ele gritou, saindo do espaço. Mostrou para Lisa uma pequena alça de plástico grudada ao chão do porta-malas. -Isso deve resolver. Afinal de contas, as coisas nem sempre são o que parecem!

Puxou rapidamente a alça, que saiu, levando consigo parte do chão, como uma capa protegendo o que havia embaixo. Os dois ficaram boqueabertos.

O "pseudochão", ao ser retirado, revelou todo um compartimento secreto: um arsenal. Dentro, estavam guardadas espadas diversas, facões, punhais, um escudo pequeno, um arco e uma aljava cheia de flechas, cada um colocado em um bolso específico. Em um canto, uma mochila laranja era comprimida por uma adaga.

Rider esticou um dos braços compridos para pegá-la. Abriu o zíper com destreza. Como dissera o bilhete, lá estava tudo o que precisavam: roupas limpas, documentos, água e dinheiro.

-Você estava dizendo...? -o garoto insistiu em provocá-la.

-Tá! Você estava certo! -admitiu ela. -Mas o que fazemos agora, hein?

-O que mais? Vamos procurar esses tais renascidos, né? É a nossa missão, a partir de hoje. Pelo pai e a mãe. — antes de recolocar o plástico que escondia o arsenal e fechar o porta-malas, pegou dois punhais curtos, o arco e a aljava. Deu um dos punhais para Lisa. -Agora, se puder me dar rapidinho a espada...

-Sem chance! -ela tirou a espada de alcance. -Eu te conheço. Ele deu a espada para mim, não para você!

-Lisa, -Rider se aproximou devagar, um passo de cada vez. Tinha uma expressão de seriedade. -Sabe que eu sou mais forte que você e mais apropriado para a espada. Além do mais, o pai e a mãe gostam mais de mim.

-Como assim, garoto? É claro que não. Isso é ridículo! -defendeu-se ela.

-Pode mentir para si mesma o quanto quiser. O fato é que, para usar um arco, é preciso muito menos força que para uma espada. É a arma perfeita para uma garota! Especialmente como você.

-Eu ouvi direito? Está me chamando de fraca?

-Bom, não exatamente... Mas sim.

-Quer saber? Não tenho tanta certeza se vai conseguir segurar com essas suas... mãos de menina!! -disse, tocando o peito dele com o dedo, mais ou menos como se apontasse. Sua reação foi lançar um olhar repentino para as mãos.

-Ah, fala sério! Por que quer tanto essa espada, de qualquer jeito? -A expressão mudou de sério para bravo. -Você mesma disse que somos loucos por acreditar na possibilidade disso tudo que o pai falou estar realmente acontecendo, quando, na verdade, está! E bem na sua frente!

-Isso não é da sua conta! -a garota respondeu de imediato. Era verdade que não acreditava nessa história de renascidos. Ao menos, tentava não acreditar. Mas tinha seus motivos para não deixar Rider chegar perto do objeto.

-É, sim. Pense bem. -ele rebateu. -Vamos pegar, por exemplo... Jogos Vorazes! Quem é o arqueiro? Katniss. Garota!

-Sim?E?

-Deuses! Quem é o deus arqueiro? Ártemis!

-E Apolo! -Lisa acrescentou.

-Certo. Mas, cá entre nós, ele não é bem um exemplo de masculinidade.

-Claro, até porque você é que é. -ela revirou os olhos. -Francamente, que garoto usaria Jogos Vorazes como exemplo??

-Eu poderia responder essa pergunta agora mesmo, mas sabe como é. Estou ocupado demais pegando isso. -ele exibiu a espada, vitorioso. Lisa olhou para suas mãos, de repente, vazias. Como ele tinha pego tão rápido? -Parece que, no final, as mãos de menina serviram para alguma coisa.

Tentou, em vão, tomá-la para si de volta. No entanto, o garoto já andava rapidamente em direção à rua.

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Já fazia um tempo que os gêmeos seguiam pelas calçadas largas de Miami Beach. O sol estava a pino e sua luz ricocheteava no pavimento, ampliando drasticamente o calor que já sentiam desde o começo do dia. Lisa andava segurando a mochila, contendo o arco e a aljava, em sua opinião, mais inúteis que um casaco de pele na praia. Ia atrás do irmão, que examinava sem parar a arma que roubara dela.

-Olha, você queria a espada do papai. Conseguiu. Agora, quer abaixar, por favor? Está todo mundo olhando! -protestou ela, e com razão. A este ponto, chegavam na Ocean Drive, rua mais conhecida e mais agitada da cidade. Por isso, o fenômeno do parque se repetia. Eram alvo de vários olhares repletos de confusão e estranhamento. Ou seja lá como alguém reagiria se visse uma pessoa saindo de casa com uma espada.

-Deixa olhar! -ele respondeu, relaxado, mas, ao mesmo tempo, curto e grosso, a fazendo cerrar os punhos. Ainda estava com um pouco de raiva pela discursão anterior, mas manteve a cabeça baixa de constrangimento.

A paisagem era dividida entre duas partes: à direita, onde se estendia uma praia grande e animada, de areia branca e maré verde-azulada; e à erquerda, onde lojas, bares, baladas, clubes e hotéis estavam em sequência ao longo da calçada pela qual se movimentavam. Na rua, passavam os carros mais mirabolantes e luxuosos. Mercedes, Ferraris... Eram só um mero exemplo. Lisa imaginava como tudo ficaria à noite, com as luzes de neon acesas. Se já era bonito de dia...

Um gemido tornou-se audível. A garota, por instinto, mirou seu condutor, que andava, agora, com a espada presa ao cinto. Era engraçado ver o jeito que se movia, o jeito como suas pernas eram curtas em relação ao tórax. Este era comprido e de uma força moderada, diferente dos ombros estreitos que ela possuia. Na verdade, não conseguia achar uma única semelhança entre Rider e ela, apesar de muitos jurarem que elas existiam.

Mais um gemido. A garota percebeu, então. Vinha dele. Seu andar estava engraçado demais para ser natural.

-Há quanto tempo está mancando? -ela perguntou, como quem não quer nada.

Ele virou a cabeça para trás, a fitou rapidamente. Sua expressão era de surpresa. Fechou a cara e voltou a olhar para frente.

-Não é nada demais.

-É claro que é, Rider! Você está machucado! -ela insistia. -Precisa descansar!

-Já descansei o bastante! -teimou, apertando o passo. -Temos trabalho a fazer! Responsabilidades! Não podemos parar! E você não manda em mim!

-Mas você manda em mim o tempo todo! -ela se esforçou para o alcançar. Chegou à sua frente, fazendo-o frear. -Sabe ao menos por onde começar? Quer dizer, a procurar esse tais coisas da missão fictícia do pai?

-Não é fictícia. -ele disse singelamente, tentando abrir caminho pelo seu lado.

-Sabe ou não? -parou-o novamente.

-Não.

-Pois é, né? Eu sugiro que deixe de ser teimoso! -normalmente, ela não agiria assim, tão preocupada com ele e seu bem-estar. Contudo, não conseguiria aturar por muito tempo o surto de loucura, ainda mais com Rider naquele estado. Precisava de mais uma dose de realidade.

-E eu sugiro que deixe de ser chata! -respondeu, com secura.

-Você não me deixou terminar. Sugiro que a gente ache um lugar para passar a noite, tomar banho, cuidar das feridas. Não tem porque ficar aqui agora. Ou tem? Amanhã, quando estiver descansado e de cabeça fria, decide se vai continuar a par ou não dessas suas "responsabilidades".

Permaneceram imóveis por um tempo. Calados, se encaravam, quietos como estátuas.

-Tá ouvindo isso também? -Lisa quebrou o silêncio.

-O quê? -o outro indagou.

-Essa música. Não está ouvindo? -ela apurou os ouvidos. Acabara de chegar até eles uma música em baixo volume, muito boa. Relaxante.

-E o louco sou eu!

-Não, é sério! Vem cá! -puxou o garoto pelo braço, o guiando pelo som de a melodia cativante que se espalhava. Se estivesse certa... tinha de estar. Não tinha muito o que percorrer, por isso chegaram rápido ao prédio.

No meio das construções coloridas, estava plantado um prédio baixo, que lembrava a versão Las Vegas de um antigo hotel de beira de estrada. Nas cores azul-claro e branco, tinha apenas dois andares com poucas janelas. Estavam dispostos vários toldos azuis no exterior, impedindo a visualização da porta. Na frente, dois letreiros, um em pé e um deitado, continham, respectivamente, as palavras "Colony" e "Hotel".

Os músculos da garota se amoleceram ao ler a última palavra. A verdade é que sonhava com uma cama macia, um travesseiro, um lençol. Um lugar onde pudesse parar, respirar e organizar suas ideias. O lugar certamente não era a calçada.

Fez uma cara pidona para ele.

-Ah, vá lá! Só por uma noite! -ela puxava seu braço, convidando-o a segui-la. -Vai dizer que não está sentindo esse cheiro de comida? Eu estou morrendo de fome. Não comemos desde a manhã! Depois a gente pode fazer tudo o que quiser!

-Não temos tempo para isso, Lisa! -Tirou um segundo para escutar a música tocada. -Além do mais, eu odeio Bon Jovi.

-Você ama Bon Jovi! Tipo, louco viciado, mesmo.

-Tem razão. Eu amo Bon Jovi. -Rider se rendeu.

-É um sim?

Ele soltou um longo suspiro.

-É um sim.

-Isso! -ela comemorou baixinho enquanto passavam pela porta automática da entrada.

O Lobby era, sem mais palavras, comum. O chão era de madeira escura; as paredes alternavam entre branco e um verde suave. Logo na entrada, era visível uma pequena escada ao lado esquerdo, que levava a um mini bar, com direito a cadeirinhas e televisão. O outro lado era composto por mesas e cadeiras de palha entrelaçada. Lisa pensou fazerem parte do serviço de café da manhã.

No corredor que dava acesso à recepção, colocaram vários banquinhos para se sentar e vasos de plantas tropicais. A música tocava no bar, onde uma certa quantidade de pessoas já tomava seus primeiros drinkes do dia.

Havia uma moça alta e espigada de trás do balcão de recepção, também trabalhado em madeira escura. Falava no telefone, bem a tempo de duas criaturas estranhas, castanhas e sujas tocarem o sininho de ouro à sua frente. Discutia sobre uma determinada suíte especial, serviço de quarto e outros assunto dessa natureza. Tinha os cabelos compridos e a cara repuxados em um rabo de cavalo alto e liso. Preso à sua roupa preta de funcionária, usava um broche cujo nome "Srta. Gonsález" estava em verde berrante.

Notando a tentativa de Rider de tocar o sino, dissecou-os com os olhos, da cabeça aos pés, sem nem desligar o aparelho. Tinha olhar forte, assim como o maxilar.

Ao final da ligação, se dirigiu a eles:

-Colony Hotel, o que desejam?

-Nós gostaríamos de fazer o check-in, por favor? -Rider tomou a iniciativa, embora a moça prestasse muito mais atenção em Lisa, deixando-a extremamente sem graça.

-Já fizeram reserva? -ela puxou de lado uma embalagem pequena e rosa de chiclete, abriu e jogou um deles na boca. O som dela mastigando aquilo beirava o insuportável.

-Não, mas se pudesse ver se tem algum quarto disponível... -Rider tentava convencê-la educadamente. -Aceitamos qualquer um! Grande, pequeno. Nós até nos viramos bem no aperto!

-O aperto nos deixa mais unidos.

-Oi? -a Srta. Gonsález falou, parando de mascar.

-Nada! Eu só... estava pensando alto. Lembrando de uma coisa. -Lisa disfarçou, evitando mais perguntas. Não sabia por que aquela frase saiu de sua boca. Apenas saiu.

-Por quanto tempo pretendem se hospedar, senhor? -a mulher continuou a conversa, mas ficou, por um tempo, observando-a antes de desviar o rosto.

Estava bastante interessada em Lisa, dava para ver. Estranhamente interessada. Como se tivesse acabado de mastigar um filhotinho de beagle junto com o chiclete, e ela fosse a próxima. Podia-se dizer que ela tinha razões para se assustar.

-Uma noite, só. Está bom assim, não é, Lisa? -Rider a consultou e ela assentiu.

-Vocês dois são... São...? -apontou seu dedo gorduroso e com unhas compridas, cheias de cutículas para os dois. Ainda mascava irritantemente o maldito doce. Os gêmeos se entreolharam.

Eles entenderam o que ela queria saber. Queria saber se tinham alguma espécie de envolvimento. Envolvimento amoroso.

Em resposta, soltaram uma gargalhada simultânea. A de Rider era estabanada, brincalhona e orgulhosa. A de Lisa, um pouco mais tímida, mas era uma gargalhada. A moça se sentiu instantaneamente desconfortável.

-Hahaha desculpa, dona. Nós só hahaha queremos um quarto hahahaha. -o garoto tentou dizer, mas não conseguia parar de rir. Era quase como um desabafo: estavam precisando daquilo. -Nós dois! Hahahahahahaha!

Por trás da moça, surgiu um homem que acompanhou as risadas com a sua própria. Ria alto, forçado, quase gritando. Tinha a pele clara, cabelos entre o castanho e o cinzento e gordura de sobra. Lisa o olhou meio torto. O homem era estranho, mas um estranho bom. Um estranho fofinho.

Enquanto riam, passava os dedos pelo queixo redondo e o cavanhaque castanho e nojento que possuia. Logo contatou a moça, que permanecia séria e sem entender nada, olhando para o chão.

-Haha Frankie, meu bem! Não vê que esses dois adoráveis fregueses são irmãos? Hahaha -ele deu pequenos tapinhas em suas costas, o que ela estranhou. -Me desculpem, crianças. Sabem como são esses funcionários de hoje em dia. Hahaha!

Os dois cessaram o riso assim que o homem gordo voltou a gargalhar.

-Me desculpe, senhor. -Frankie tentou se recompor.

-Tudo bem, Frankie. Está dispensada. -disse ele, e a moça se encaminhou para uma porta ao lado. Lisa imaginava se fora dali que o homem nojento aparecera.

Provavelmente não, pois ele não tinha cara de empregado, mas de gerente ou chefe.

-Então, senhor, como vão vocês? Tem uma reserva, imagino. -ele se apoiou no balcão e deu um sorriso, para tentar ser simpático.

-Na verdade, estávamos perguntando agora mesmo se tinham algum quarto disponível. -disse o garoto.

-hmm sim, claro. Me digam, o que os traz à nossa linda cidade... E desse jeito tão exótico? -perguntou o homem, indicando as vestes imundas deles. -Não andaram brincando pelo quintal dos Roberts, andaram?

Rider e Lisa simplesmente o encararam com olhares confusos, até que falasse o que queria dizer com isso.

-Ah, então quer dizer que vocês não ficaram sabendo? -esboçou um rosto surpreso. -Todos ficaram sabendo!

-Com licença. -começou Lisa. — Do que exatamente todos ficaram sabendo?

-Do incêndio da casa dos Roberts, é claro. Aconteceu à noite, numa casa próxima ao parque. A casa pertencia à família dos Roberts. Só fazem falar sobre isso pelo bairro. Foi devastador. Algumas pessoas até relataram a presença de um ser gigante saindo de lá... Vai entender.

-Mas não... -Lisa quase falou, mas sua boca foi fortemente tapada pelas mãos ásperas do irmão.

-O que ela está dizendo é que... Nós somos os Roberts! -Rider falou a primeira coisa que veio em mente. -É, isso! Nós somos os Roberts! Eu sou o Michael, e essa é minha irmã... Kors.

-Michael e Kors? Estranho... Não lembrava que os Roberts tinham filhos.

-Pois é, eles têm! Estávamos... Fazendo intercâmbio na... Áutria. -o garoto precisava achar uma saída, rápido. -Como o senhor mesmo disse, nossa casa foi incendiada e nós não temos onde ficar. Nossos pais chegarão daqui a um tempo... Disseram algo sobre pagar qualquer preço pelo quarto. Com gorjetas. Algo assim.

-Hmmm pois bem, -o homem acariciou a barriga cheia de banha enquanto lançava um olhar desconfiado. Mas logo deu outro sorriso simpático. -Nesse caso, acho que temos um quarto de sobra. As chaves devem estar em... Aqui.

Abriu uma das muitas gavetas e retirou o objeto. Entregou nas mãos de Lisa um par de chaves prateadas.

-Depois discutiremos sobre diária, serviço de quarto e essas coisas. Meu nome é Carl. Sou o dono, se precisarem de ajuda. Tenham uma excelente estadia. -ele disse e entrou pela mesma porta que Frankie, provavelmente para chamá-la.

Rider, finalmente, tirou as mãos da boca de Lisa.

-Blah! Malditas mãos de menina. -reclamou ela. -Michael e Kors?

-Ah, para. -ele abriu um sorriso brincalhão. -Só vamos. Nós dois sabemos que ele não engoliu essa.

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17 de Dezembro de 2012, domingo, 21:00

Querido Diário,

O que você faria se, um dia, chegassem para você e falassem que nada do que vem ouvindo em toda sua vida é verdade? Que tudo o que você conhece e crê não passa de uma mentira, um esquema, e que a verdade é uma coisa muito mais estranha e fantasiosa?

Mas eu não estou falando de desconhecidos, não. Estou falando de uma pessoa próxima a você, de confiança. E se essa pessoa lhe dissesse uma coisa que, tecnicamente, fosse completamente impossível? Algo além dos seus mais loucos devaneios. E se, de repente, essa coisa se tornasse possível? Você resistiria, ou pularia de cabeça?

Não sei se ainda terei tempo para lhe contar como, do dia para a noite, minha vida deu um salto mortal triplo e caiu de bunda no chão. Tudo o que posso dizer, por enquanto, é que estou, junto com meu irmão idiota, largada à minha própria sorte no meio de uma das maiores cidades do mundo.

O motivo? Eu contaria, mas não considero a hipótese de que encararia como um acontecimento normal. Basicamente, minha casa foi destruída; meus pais sumiram com as respostas para as inúmeras perguntas que rondam meus pensamentos; e para completar, Rider ficou obsecado por uma ideia completamente doida. Uma missão.

Mas quem sou eu para julgar o que é normal, não é? Afinal de contas, eu finjo que você é real. Pelo menos até suas páginas acabarem, o que prevejo não estar muito longe. É bom eu ir me preparando para dizer adeus.

Sei lá. Mesmo deitada aqui, nesta cama de hotel confortável, não me sinto segura. Sinto como se não estivesse segura de jeito nenhum...

Duas camas de solteiro eram separadas por uma mesa de cabeceira no quarto. Em uma delas, Lisa deitava de bruços e escrevia, compenetrada em seu diário. Na outra, Rider passava seu tempo brincando com algo bem menor.

Ele não entendia. Realmente esperava que, ao pegar a bola de cristal, esta preencheria o quarto com uma luz prateada brilhante. Porém, a passava entre as mãos, entre os dedos, e ela continuava transparente.

Afastou o pensamento da cabeça. Não era possível. Ele era um renascido, sim. Depois de tudo o que passara, não podia não ser...

Foi o barulho do armário que o fez ficar de pé. O barulho de um objeto batendo no armário. Curioso, voltou-se para as portas de madeira rústica em frente ao pé da cama. Poderia estar enganado, mas jurava que vira se mexerem.

Foi andando devagar até lá, na ponta dos pés. Tinha experiência suficiente para saber que não deveria ficar muito animado com a variedade de possibilidades que poderiam estar lá dentro. O que era, desta vez, um gigante? Ou só um cabide?

Apertou as maçanetas de metal geladas. Fechou os olhos, respirou fundo e puxou-as.

Abriu os olhos.

-TEM UMA PESSOA NO ARMÁRIO!!!!!!!!!!!!

Notas finais
Se tiver algum erro no cap, me avisem que n tive tempo de revisar.

Leitores lindos, se quiserem, ajudem a divulgar a fic!! Mostre pro seu pai, mae, avó, amigos, cachorro, aquele tio chato... Todo mundo!!! Em terra de fanfics, quem tem leitor é rei!!

O colony hotel existe, sim! Procurem no google!!

Dessa vez, vou fazer diferente: quero que deixem nos comentários qual, na sua opiniao, é o momento mais magico da disney?

Não, magico não é a palavra. Sabe aquele pedacinho de filme que chega dá arrepios de tão perfeito? Vale qualquer momento: heroico, romantico, de vilão... Incluindo de filmes de gente, como cavaleiro solitario ou piratas do caribe.

Se realmente comentarem, proximo capitulo eu digo qual é o momento mais magico na minha opiniao.