Notas iniciais
BOA LEITURA E POR FAVOR LEIAM AS NOTAS FINAIS!!!!!!

-Chegamos, crianças! -disse Charlie, sem conseguir reprimir um sorriso de alívio por finalmente poder estacionar aquele carro, digamos, problemático. — Bem-vindos à nossa casa por quinze dias!

Lisa logo tratou de pular para fora do automóvel, a fim de examinar a tal casa. E que casa!

Claro, não era nada tão demais. Mas considerando a escassez de economias do ano, devido ao desentendimento do pai com seu chefe, na firma, ou o afastamento da mãe de seu emprego para se dedicar mais à família e sabendo que não alugariam uma gigante, impressionante ou que se destacasse no meio dos prédios localizados na rua Inlet Boulevard, estava bem acima de suas expectativas e não deixava o charme de lado. Era uma residência de dois andares muito bem cuidada, com as paredes pintadas de um bege escuro, detalhes em branco, assim como a grande porta de entrada e as janelas. Tinha, também, um quintal na entrada, um terraço, onde estavam dispostas mesinhas e cadeirinhas confortáveis, feitas em madeira, um telhado grande e escuro, sob o qual se penduravam lindas pequenas luzinhas para fora, e uma garagem ao lado, onde poderiam deixar o carro. Aos fundos, dava para ver uma leve brecha do famoso South Pointe Park, um dos mais movimentados da cidade, e na parte de fora do muro, lia-se, em letras maiúsculas e destacadas: ALAMEDA DOS SEIXOS.

-Você vem??! -gritou Rider, atraindo sua atenção. -As malas não estão ficando nem um pouquinho mais leves aqui!

-Já vou! -respondeu, correndo em direção à parte de trás do sedan.

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Quando, enfim, já estava tudo guardado e todos acomodados, a noite já ameaçava cair sobre aquela ruazinha silenciosa. Tudo estaria em perfeita calmaria, se não fosse por corredores longos e brancos sendo freneticamente percorridos por uma Jane Price aflita. Aquela havia sido uma tarde longa para ela: limpou a casa, fez o jantar, desarrumou as malas, entre outras tarefas. Não que não estivesse habituada a realizar trabalhos assim; na verdade, tinha muito mais prática do que gostaria. O fato é que acabara de descobrir que gastou muito tempo os fazendo, e não tinha visto nem sinal de seu marido a tarde inteira. E isso não era lá uma coisa muito boa.

No fundo, no fundo, sabia que não havia cabimento se inquietar por causa disso. Provavelmente, Charlie estaria dando uma olhada na casa, no quintal ou nos fundos. Ou saíra para dar uma volta pela cidade ou pelo parque e esquecera de lhe avisar. Todavia, se tinha alguma coisa que vinha notando sobre si mesma, era que desenvolvera uma ótima intuição nesses últimos anos, a qual dizia, mesmo sem motivo aparente, que chegava a hora de começar a se preocupar. Afinal, não fazia esforço para pensar em um par de coisas ruins que, embora improváveis, já vira acontecerem com pessoas que sumiam subitamente.

Em suas andanças, acabou ouvindo um barulho vindo de um dos quartos, o segundo à direita da escada. Sem hesitar, andou até lá. Abriu devagar a porta. Dentro, Lisa e Rider sentavam, cada um em uma das duas camas que lá havia, quietos, olhando um para a cara do outro, como se competissem para ver quem desistia primeiro.

-Crianças, viram seu pai? -perguntou. Lisa, ao vê-la, correu ao seu encontro. Usava um short jeans desbotado e uma camiseta preta por baixo da camisa xadrez verde. Os cabelos castanhos, emaranhados e extremamente cacheados estavam presos em um rabo de cavalo baixo.

-Mãe! Ainda bem que chegou!! Que história é essa de nós dois ficarmos no mesmo quarto????! Eu não posso dormir com ele, eu sou uma garota!! -reclamou, indignada.

-Claro que pode, querida. Fazia isso o tempo inteiro, quando era bebê. -Jane deu alguns tapinhas carinhosos na cabeça da filha, mas sua atenção estava voltada para o corredor.

-Só que nós não somos mais bebês. Tanto ele quanto eu precisamos de privacidade!

-Eu concordo com ela! -interferiu Rider. Vestia jeans e uma camisa de manga comprida branca sobreposta por uma camiseta vermelha de gola "v". -Eu acho que, se está tão incomodada, VOCÊ devia ir para outro quarto. Ou, quem sabe, dormir no quintal?

-Eu, não. Vai você! -Lisa respondeu, apontando para o irmão. -Lugar de cachorro é o que é o quintal, não é mesmo?

-CRIANÇAS!!! -Jane falou com severidade, interrompendo a briga. -Será que podem ao menos FINGIR que têm uma relação fraternal saudável, só enquanto estamos aqui, de férias???!!! É pedir demais???!

-Mas...

-Sem mas, Elisabeth!! -encerrou. Já estava irritada com a atitude dos dois. -Vão dormir no mesmo quarto, sim. E vão gostar! Preciso encontrar seu pai... Quero os dois bem bonitinhos, comportados e sem brigas quando eu voltar, entenderam?

Os dois concordaram. Ela, então, fechou a porta com cautela e desceu as escadas para o andar de baixo, onde se encontravam a cozinha e a sala. A cada minuto que passava, sua preocupação aumentava.

-Charlie!! Charlie!! -chamava-o, na esperança de que a respondesse. Sem obter a resposta, seguiu para a parte de fora da Alameda dos Seixos, abrindo a porta, desta vez, com pressa. -Charlie! Charl... Oh!

Sim, lá estava ele. Limpo, cheiroso e lindo, com um sorriso brincalhão de orelha a orelha, uma camisa social branca enfiada por dentro do jeans e sapatos bico fino marrons. Sentado em uma das cadeiras do terraço, tinha na mesa à sua frente petiscos variados, como queijos, torradas e frios, duas taças e uma garrafa de champanhe. Tudo a luz de velas. Ela não fez nada, além de levar as mãos à boca e sorrir de surpresa.

-Encantado... -disse baixinho, com um tom de excitação.

-Shhh. Sabe que eu odeio quando me chama assim. -respondeu, convidando-a a sentar. Esta obedeceu.

-É por isso que eu o chamo. -A mulher sentou-se e sorriu novamente. Afinal de contas, ainda guardavam lembranças dos velhos tempos, e, isso, ela não queria perder. -Isso é lindo.

-Vou aceitar como um obrigada. Então, de nada. -disse, fazendo uma reverência. -E desculpa por não ter avisado. Eu tive que sair para comprar essas coisas, mas não queria estragar a surpresa.

-Não, sem problemas. Mas se eu soubesse, teria me vestido melhor. -Jane chamou a atenção para as roupas que usava, as mesmas de horas atrás: uma calça branca e uma camisa de manga comprida azul-escura.

-Você está linda. -Charlie fez carinho em seu rosto. -Este é o começo de um novo ano para nós. Eu sei que, depois de tanto tempo, nem deve fazer tanta diferença assim, mas de qualquer jeito, é uma conquista! E devemos comemorar! -encheu as duas taças com o champanhe e entregou uma à esposa. -A férias em família?

-A ter uma família. -assim, os dois brindaram e tomaram um gole. Parou e suspirou. -Precisamos conversar.

-O que foi? -perguntou, já mudando de expressão. Sabia bem que, quando Jane Price queria "conversar", o motivo era sério.

-Já faz um tempinho, encontrei Elisabeth e Rider brigando de novo.

-Uhum. E...?

-Ai, Encantado, não sei se aguento mais um dia disso! É tão cansativo ficar por perto, assistindo a eles discutirem, discutirem, discutirem. Só estou dizendo que já são bem grandinhos! E não quero que as brigas bobas os impeçam de se divertir esse mês!

-Entenda, querida. Eles são adolescentes. São praticamente de outra espécie!! Pensam de uma maneira maluca, diferente da nossa. E é comum terem um pouco de desentendimento entre si. É natural. Nunca teve quinze anos?

-Não desse jeito. -resmungou, repousando a cabeça sobre as mãos. -Se bem que não sou a pessoa ideal para falar de relacionamento entre irmãos.

- Viu só? Relaxe e curta o momento, ao invés de ficar reclamando por nada. Quer dizer, por nada, não. Por aquele anjinho ali. -respondeu o marido, apontando para a casa. Jane seguiu seu olhar, e encontrou uma Lisa tranquila e despreocupada, iluminada com a luz fraca do lustre da sala enquanto assistia tv. Sentava de pernas cruzadas no sofá grande e laranja de camurça e arquiava uma sobrancelha, usando uma das mãos para ajeitar os óculos tortos. Suas maçãs do rosto sardentas se destacavam no rosto redondo.

-Ela é linda, não é? -admirou-se Jane. Charlie assentiu, sorridente. -Puxaram a você, os dois. Não têm nada meu. E é uma pena que não tenhamos conseguido economizar tanto assim esse ano. Estava pensando em comprar aquelas lentes de contato coloridas que ela tanto queria. Sabe? Para aquele seu... Pequeno probleminha.

-Que pequeno probleminha?

-Ah, Charlie, não me diga que não sabe do que estou falando! -mas, claro, ele não respondeu. Jane instantaneamente se perguntou o que havia feito para merecer um marido desligado como aquele. Mais silêncio mortal e ela teve que falar. -A heterocromia, amor!

-Ah, tá. Estranho. Nunca vi nenhum problema nisso. Me parece até legal. Certamente, é meio esquisito, mas isso é o que faz combinar com ela! -ele ponderou, tentando fazer graça. Entretanto, a mulher permanecia rígida.

-E isso, senhor, é porque você é homem! Não sabe como é! -disse, brincalhona, logo ficando séria de novo. -Não sei, às vezes acho que ela fica insegura por circunstâncias como essa. Que é por isso que é tão fechada, que a maioria das pessoas não fala com ela na nossa cidade. Que, por causa disso, garoto nenhum a tenha beijado. Ah, é complicado. Só quero que nossas crianças tenham uma vida normal e boa. Quero que vivam felizes para sempre!

-Não, agora chega. Escute aqui. Nós criamos ótimos filhos e pessoas maravilhosas. -Charles deu um sorriso doce, moveu sua mão livre para o rosto da mulher e foi se aproximando lentamente, até parar subitamente quando suas testa já se encostavam -O resto não importa. Não precisa se preocupar com essas besteiras. -seus olhos se fecharam automaticamente, antes de seus lábios se tocarem em um leve beijo.

-Bem, não é só isso que me aflige. Quer dizer, é, um pouco. Talvez usei como desculpa para esconder o motivo real do meu estresse. -ela suspirou, acariciando os cabelos curtos e grisalhos do outro. -Encantado, desde antes da viagem... Tenho tido... Um pressentimento, sabe? Um pressentimento ruim... Venho sentindo-o há um tempo. Já te falei sobre minhas intuições, não falei? E depois de todos esses anos... Já faz um tempão, entende? Sei lá, só... Só acho que...

-Só acha que o quê? -ele colocou as mãos sobre os joelhos, mostrando que estava aberto a ouvir o que ela tinha a dizer.

-Que devíamos contar a verdade a eles. -cuspiu as palavras de uma vez só.

-Oh! A verdade? -decorreu uma longa pausa. -Bom, sabíamos que este dia chegaria, mais cedo ou mais tarde, não é? — Charlie se pegou levando as mãos à nuca e franzindo a testa. Era, realmente, um assunto complicado. Engoliu a seco. -Mas não acho que acreditariam em nós se os contasse. Pelo menos não agora. Achariam que somos loucos, ou coisa parecida.

-E o que planeja, então? Que guardemos o segredo para sempre??! Eles tem o direito de saber! -ela se virou, mais uma vez, para a filha. -Eles PRECISAM saber.

-Poderíamos esperar um pouco mais, minha linda. -ele segurou rapidamente as mãos de Jane, usando a outra para virar seu rosto e olhar profundamente em seus olhos.-Até ficarem mais velhos, ou adultos, talvez. Com idade o bastante para receber melhor as informações e lidar com o choque.

-É. Acho que está certo.

-E não estou? Agora, venha. -levantou-se da cadeira com um pulo. Pegou um objeto na mesinha, apertou o que parecia ser um botão, e uma música suave começou a tocar. Estendeu uma das mãos para ela.

-O que está fazendo?

-Te convidando para dançar. -Charlie respondeu, sorrindo. -Lembra do nosso primeiro encontro?

-Como poderia esquecer? Eu perdi o meu sapato. -disse rindo, ao passo que dava as mãos a ele e era puxada para uma valsa.

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Dentro do cômodo pequeno e quadrado, dotado de um sofá, um chão de madeira clara, um tapete colorido, mesinha de centro retangular de vidro, paredes brancas e uma prateleira com televisor grande, também conhecido como sala, Lisa estava compenetrada no programa que passava. Mais um daqueles filmes de romance melosos e clichês que as pessoas repugnavam. Mas, como a romântica incorrigível que era, tinha o maior prazer em assisti-lo. Em um certo instante, pegara uma das almofadas, alaranjadas, assim como o sofá no qual sentava, encostado na parede, e passou a apertar a coitada com cada vez mais força, acompanhando o ritmo e a tensão mostrada pela tela, e mordia seu lábio inferior compulsivamente. Já estava quase no final, em uma das partes de maior conflito. Como chamam mesmo? Clímax.

-Lisa!! -interrompeu quem ela, sinceramente, já esperava. -Ah, aí está você! Me dá o controle, vai passar a luta no canal 27!

-Ah, tá. -ironizou ela. -Você acha mesmo que é só chegar aqui com esse seu cabelo arrepiado e essas orelhas de abano, me pedindo para dar o controle, que eu vou obedecer?

-É, isso mesmo. -o irmão respondeu na cara-de-pau.

-Irmãozinho, irmãozinho. -ela suspirou. -Foi uma pergunta retórica. Mamãe pode até nos obrigar a dividir o quarto, mas não vou dividir a televisão com você. Eu cheguei primeiro, e, além do mais, essa é a melhor parte do filme.

-Você pode ver o filme depois. E eu não posso perder essa luta.

-Que pena. -sorriu, virou-se e voltou a assistir.

-Ah, não, agora é a minha vez de assistir!! -Rider pulou em cima da garota, tentando puxar o controle de suas mãos.

-Isso já tá ficando repetitivo!! -murmurou Lisa, puxando o controle de volta. Nesse meio tempo, a tv mudava loucamente de canal, por causa dos botões apertados sem querer na briga. Num minuto, passou do canal de culinária, para série policial, novela mexicana, telejornal, My Little Pony e o filme de novo. De repente, Rider deu um puxão que derrubou-a do sofá, fazendo-a cair de encontro com o chão e de mãos vazias.

-HAHA! Obrigado, senhoras e senhores! -riu, comemorando e colocando no canal que queria. -Ah, vamos Lisa! A culpa não é minha se isso sempre acontece! Como dizem, é a lei do mais forte!

Lisa o ignorou. Levantou-se, foi até a janela da sala. Pensara ter visto alguma coisa. Ao chegar lá, observou atentamente o quintal grande, verde e de iluminação fraca, até que as velas do terraço chamaram sua atenção para outra coisa. Lá atrás, meio que no escuro, duas sombras dançavam alegremente e perfeitamente ao som da música suave. Demorou um pouco para perceber que aqueles dois eram seus pais.

-Sabia que nossos pais dançam? -perguntou inocentemente ao garoto, enquanto franzia as sobrancelhas espressivamente.

-Que tipo de pergunta foi essa? -respondeu, sem tirar os olhos da tv, mas deixando claro que não estava muito interessado em saber.

-Nada, não. É só que... Eles nunca me disseram que sabiam dançar valsa bem assim. Já te disseram?

-E eu sei lá. Faz alguma diferença?

-Faz toda a diferença do mundo! -dirigiu-se ao irmão, estupefata. -Eles são tão apaixonados, Rider. Como se estivessem em um conto de fadas. Tanta gente aí fora se divorciando, se traindo. Mas eles conseguiram encontrar o amor verdadeiro! Isso não te dá uma sensação boa por dentro? Meio quente, piniquenta, sem dúvida, mas boa?

-Lisa, -começou a falar, ainda concentrado na tv. -Eu, absolutamente, não faço a mínima ideia do que você está falando.

"Insensível!", pensou ela, sacudindo a cabeça em reprovação. Voltou a se debruçar sobre a janela, apoiou a cabeça sobre os braços e ficou lá, observando de longe. Agora que tinha parado para pensar, percebeu que nunca tinha visto seus pais dançarem. Eles nunca falavam sobre isso, e não tinham nenhuma foto ou vídeo para comprovar, nem sequer do casamento. Na verdade, também nunca falaram sobre seu casamento. Era estranho. Como se suas vidas, antes dela e Rider nascerem, não passassem de um borrão, um vazio. Como se não tivessem existido.

Mas o que ela estava pensando? Sacudiu a cabeça. Devia estar ficando louca. Precisava ocupar sua cabeça. Foi aí que algo lhe ocorreu: apesar de não ter feito muitas coisas relevantes o dia inteiro, tinha certeza de que conseguiria uma ou duas que valesse a pena mencionar para seu fiel confidente. Não podia mantê-lo desinformado de suas ações e pensamentos, além de ser uma ótima forma de quebrar o tédio que começava a avançar sobre ela.

Correu da sala, passando pela cozinha e chegando no pé da escada, e seu irmão gritou:

-Vai aonde??

-Só pegar meu diário! -respondeu.

-Ah, tá no quarto, na prateleira de cima.

-Aahn... Ah, não quero nem saber como você sabe onde ele está. Se me dá licença, vossa majestade. -fez uma falsa reverência, logo voltando a subir as escadas.

Entrou pelo corredor, contou duas portas, abriu a segunda da direita e penetrou o escuro. Tentou procurar pelo bendito diário, mas não conseguia ver nada além de uma grande bola roxa e fluorescente no meio do quarto. Sem saber o que era, acendeu a luz, para tentar ver melhor.

Esse foi seu maior erro.

Notas finais
Relaxem fichas daqui a pouco

Preciso muito que vocês, leitores, me digam qual o tamanho de capítulo que querem: grande, pequeno, médio, com quantas palavras mais ou menos

E não se esqueçam de comentar. Mesmo que seja pra reclamar!!! Eu consigo lidar com críticas, eu acho kkkk