O sol estava se pondo quando pai saiu da casa e me viu. MEU DEUS COMO EU ESTAVA COM SAUDADES! Corri em volta dele, pulei, abanei a cauda com todas as minhas forças, como se minha vida dependesse disso. Me joguei ao chão implorando por carinho. Ele me pegou no colo e me abraçou. E eu sou grande! Mas pai sempre foi muito forte. O filhote, por alguma razão, parecia feliz também.

Fui levado para dentro de casa e quando mãe me viu, se ajoelhou e me abraçou enquanto eu lambia e pulava nela. Ela chorou muito, mas não parecia triste.

Ouvi comentarem que eu estava muito magro e devia estar morrendo de fome. O filhote estava curioso em relação a mim, dava pra ver pela linguagem corporal dele, mas eu o ignorei. Pai disse que deveriam me levar ao moço da sala fria, mas pela primeira vez na vida, não liguei. Só queria comer, dormir com eles e amanhã ainda lidaria com o tal filhote.

Mãe me serviu uns pedaços de carne juntos daqueles biscoitos de sempre e eu comi como se não houvesse amanhã. Que falta que uma comida de verdade me fez! Pipa definitivamente apreciaria muito a carne.

Queria poder dizer aos meus pais como Luz estava bem e feliz, que ela quem tinha tomado a decisão de ir embora e não se perdido acidentalmente. Também queria contar todas as coisas que as pessoas ruins fizeram, todas as vezes que apanhei e sobre tudo que aprendi com Pipa.

Mas aquele filhote… como assim um outro cachorro? Eu fico um tempo fora e puff, me trocam. Não é possível! Devem ter pensado que morri. É.

É, deve ter sido isso. Eles me amam demais.

No dia seguinte me colocaram a guia e parecia que tudo havia voltado ao normal, com exceção do filhote que tinha muito mais brinquedos que eu e passou a noite toda batendo com um dinossauro de pelúcia em mim, até eu deitar em cima do brinquedo.

O curioso foi terem me colocado no carro, mas eu amo andar de carro também! Então tudo bem. Eu babava de tão animado que estava. Acharam que era sede e me ofereceram água, é claro que não ia negar, mas era só ansiedade, mesmo! Era um passeio em família! E sem aquele filhote esquisito.

Coloquei minha cabeça para fora da janela, mas, pela primeira vez, não foi pelo vento ou cheiros e sim pela melancolia daquelas ruas que eram minhas e eu tanto já havia marcado. Notei algumas diferenças, como a minha moita favorita ter sido podada! Que absurdo! Mas estava linda, como sempre, mesmo as pessoas insistindo em querer que tudo — até as plantas — sejam como eles querem.

Então o carro parou e quando eu entrei ERA COMO SE EU ESTIVESSE ENTRANDO NO CÉU! Quer dizer, não dá pra entrar no céu, de acordo com o que a Luz já me explicaram, mas era quase isso! Porque, se eu pudesse voar, definitivamente voaria para todos aqueles brinquedos, cães e aquela árvore no meio daquela loja. A árvore. A grande árvore mágica que nunca recebeu um xixi. Sim, tinha uma árvore no meio da loja!

Realmente, uma coleira e guia e não pareciam tão boas agora. Pipa tinha razão. Eram delimitantes. Aprendi essa palavra com ela!

Mas aceitei meu destino de ser mantido longe da santíssima árvore mágica e cedi aos meus pais, que me levaram até o balcão de atendimento. Pelo que entendi, era um sábado de manhã.

Ah, é! Eu estava aprendendo os dias da semana graças à Pipa.

Pegaram minha coleira e meus pais vieram atrás. Não entendi. Então meu pai me pegou no colo e me colocou em uma banheira. Uma. Banheira. Tinha um troço que nunca vi, me lembrava uma mangueira, já que também saía água dali. Prenderam um cordão no meu pescoço. Não conseguia deitar nem nada com aquele cordão, era agoniante. Até sentar era difícil. O tio dali colocou uns troços esquisitos no meu ouvido.

Meu pai sempre erguia minha bunda quando eu sentava, mesmo, então decidi ficar em pé. Não demorou para que eu estivesse todo encharcado e ensaboado. Aquilo ardeu os olhos!

Depois de muito tempo, mas muito tempo mesmo, de tortura, fui levado pra uma mesa. O tio passou uma toalha em mim, mas ele não era gentil e delicado como minha mãe. Na verdade, ele podia tentar a sorte como um cavalo, de tão pesadas que eram suas mãos.

Aí um vento gelado. GELADO. FRIO. CONGELANTE. Eu estava todo molhado e mãe sempre usava jatos de vento quente com aquele troço esquisito de barulho alto. Esse parecia mais o aspirador que meus pais tinham. E era um vento frio! Certeza que esse cara nunca havia se secado com isso.

Porém, o sofrimento valeu à pena, porque saí de lá bem mais confortável. Só odiei aquela gravatinha e o fato daquele cara ter beliscado minha bunda. Sem contar que aquele perfume me incomodava demais, ele também passou um pó branco estranho. Já vi gente cheirando pó branco, mas passar no corpo?

Já em casa, dei de cara com aquelas bolitas gigantes. Sentei na sala, meu pai tirou minha guia. Ele pulava e rolava. Eu o encarei. Ouvi meus pais falando baixinho sobre eu avançar no filhote. É, era uma boa ideia, na verdade. Aquela coisinha bicolor e peludinha bem que merecia.

Mas ele pulou em mim, tropeçou na minha pata e caiu. Bocejei.

Estava velho demais para brigas.

Deitei e comecei a lamber o filhote, ele botou as orelhas para trás porque doeu cair, o que mais eu podia fazer?