Um Bonito Amor
23 Busca-se abrigo onde menos cogitaria :)
Notas iniciais
Encarar as pessoas na faculdade não estava sendo algo fácil. Estava com tanta vergonha que tudo que eu mais queria era sair dali, mas graças a Ronaldo e a Lilian que buscaram me distrair até o final da aula, não me importei muito com os olhares maldosos sobre mim. Novamente Raul buscou-me e me levou diretamente para seu escritório, ele tentou me mimar ao máximo, mas eu o disse que isso não era necessário porque eu já havia esquecido do ocorrido.
— Eu devia processar a sua irmã! — Ele diz enquanto me oferece um copo d´água.
— Não é para tanto, basta esquecer. — Digo calma, tomando um gole daquela água.
— Você é boa demais para Raquel, por isso ela faz o que faz. — Ele parecia estar mais irritado do que eu.
— Talvez eu seja mesmo, mas também seja porque eu não queira brigas.
— É, é melhor evitar brigas, mas da próxima vez não a perdoarei. — Ele diz emburrado, beijo sua bochecha o achando fofo, ele me dar um lindo sorriso.
— Ah, as entrevistas para nova secretária é hoje, não é? — Pergunto e ele assente sentado em sua poltrona, começando a ver seus arquivos no computador.
— Você quer participar da entrevista? — Pergunta-me com olhar focado no computador.
— Não, não, ficarei organizando a sua agenda para quando escolher a nova secretária, eu passar para ela. — Dou-lhe um sorriso e ele fez o mesmo.
O meu celular começa a vibrar e então vejo quem seja. É mãe Cecília.
— Oi mãe! — Digo feliz em receber sua ligação.
— Filha, Raquel não entrou em contato com você? — Em sua voz havia um tom de preocupação.
— Não, e por que ela faria isso?
— Ontem tivemos uma briga, ela acabou saindo de casa com sua mala, já a liguei várias vezes e seu celular nem ao menos chama, estou desesperada. — Diz ela aflita.
— Nossa, mas para onde ela foi? Ah, talvez está na casa de alguma amiga. — Tento tranquilizá-la.
— Não está, já liguei para todas as quais eu tenho o número, mas nenhuma confirmou de que ela estaria em suas casas, ai filha estou arrependida. — Confessa com voz embargada.
— Mas por que brigaram? — Pergunto me sentindo aflita já.
E então ela relata o que havia acontecido no dia anterior, eu não imaginava que Raquel tivesse algum ressentimento em relação a mãe Cecília, e eis que ela me declarando isso eu realmente me encontro surpresa.
— Acho que irei contatar a polícia, Raquel nunca passou tanto tempo longe de casa, ainda mais sem dinheiro, temo porque também não levou nada de dinheiro. — Ela diz preocupada, e eu também acho difícil Raquel sobreviver sem seus cartões por aí.
— Mãe, calma, ela irá aparecer, talvez esteja fazendo birra porque você a bateu, então não se preocupe tanto. Não acione polícia agora, espera mais um pouco.
— Esperarei mais o anoitecer, senão tiver nenhuma notícia, acionarei as autoridades. — Ela diz com sua voz ainda trêmula.
Desligamos, e eu não sei se também me preocupo com esse sumiço de Raquel, acredito que ela saiba se virar muito bem sozinha e que só está querendo se vingar de mãe Cecília.
— O que aconteceu? — Raul me surpreende me abraçando por trás.
— Ah, minha mãe está muito aflita porque ela brigou com Raquel e ela acabou saindo de casa. — Respondo-o me virando para ele.
— Hum, essa menina não cansa de chamar atenção! — Ele diz voltando para seus afazeres como se Raquel realmente não importasse para ele.
— Ela não está com dinheiro, e não está em nenhuma casa de seus amigos, e isso me preocupa. — Digo, já sentindo uma preocupação por ela.
— Meu amor, não se preocupe, Raquel não é digna da preocupação de ninguém, ela está bem e como eu disse só quer chamar atenção. — Assinto sem querer mais falar sobre isso com ele, pois sei que ele seria indiferente, ainda mais porque estava zangado ainda por ela ter aprontado comigo daquele jeito na faculdade.
— Tudo bem, acredito que seja isso mesmo. — Digo e então alguém bate na porta. — Oh, acho que são as moças da entrevista, eu irei indo.
— Ok!
E então eu saio de sua sala e uma moça estava esperando para entrar.
— Você veio para a entrevista? — Pergunto amigável, e ela assente. — Pode entrar! — Dou passagem para que ela entre e em seguida fecho a porta, deixando com que Raul inicie a entrevista.
As horas iam passando e nesse tempo Raul já havia entrevistado umas cinco moças, todas pareciam ser competentes e eram bonitas e eu só queria que ele escolhesse uma que realmente eu pudesse me dar bem, uma que fosse totalmente o oposto da Mariza.
A última candidata sai da sala de Raul e se despede de mim, logo volto para minhas anotações. De cabeça baixa não havia visto a moça que tinha acabado de chegar para ser entrevistada, mas logo ela me reconhece.
— Gilda? Você trabalha aqui? — Ela fala empolgada e então levo minha atenção para ela.
— Yamilex! O que você faz aqui? — Pergunto confusa ao ver a irmã de Raimundo ali.
— Vim para a entrevista, não fazia ideia que você trabalhava aqui. — Ela parecia estar bem contente, logo eu a dou um abraço, pois fazia um tempo em que não a via.
— Sim, eu trabalho aqui, mas que bom ver você!
— Eu digo o mesmo, desde que terminou com meu irmão não a vi mais, soube que está namorando o dono deste escritório. — Diz sem nenhum pudor, e eu fico tímida. — Ah, não fica assim boba.
— Ah, é que é meio estranho uma vez que fui namorada de seu irmão- Digo ainda tímida e ela me dá um leve tapa no braço.
— Ah que bobagem, vocês terminaram, mas ainda a quero como minha amiga.
— Eu também aprecio muito que sejamos amigas. — Concordo.
— Então pronto. Será que já posso entrar? — Pergunta-me mudando de assunto.
— Ah, deixa só ele ligar aqui, e então você poderá entrar. — Digo animada, era realmente bom ter alguém amigo para trabalhar junto. — Mas me diga você tem curso de secretariado?
— Não, mas sou formada em recursos humanos e já trabalhei de secretária enquanto estudava, então tenho experiência no ramo. — Me diz orgulhosa.
— Ah legal, isso realmente é um diferencial, mas, porque quer trabalhar? — Até parece que estou realizando a entrevista, mas, é que havia ficado curiosa, uma vez que Yamilex não precisa trabalhar, principalmente em algo em que não é formada.
— Não gosto de depender dos meus pais, diferentemente de Raimundo. — Nós rimos. — Sempre gostei de conquistar minhas coisas e isso arranca orgulho de meus pais, e eu realmente gosto de trabalhar e como me formei há pouco tempo e não havia encontrado emprego na área, essa oportunidade me surgiu e então me candidatei. — Explicou-me sorridente.
— Nossa, você é bem parecida comigo. — Falo, percebendo nossa semelhança quanto a independência.
— Acho que eu sou sua verdadeira gêmea. — Ela brinca e gargalhamos com isso. Seria realmente muito bom ter Yamilex aqui.
O telefone toca e é Raul pedindo para que a próxima moça entrasse, e então digo para Yamilex entrar a desejando sorte e torcendo para que Raul se agradasse dela, queria muito que ela fosse escolhida para trabalhar conosco. Ela teria grande chances, mas isso logo diminuiria quando Raul descobrisse que a mesma era irmã de Raimundo, o meu ex, o mesmo que planeja nos separar porque agora resolveu de que quer voltar comigo. Mas se Raul usar esse pretexto para não contratar Yamilex, eu irei intervir.
Algum tempo depois, Yamilex saiu da sala de Raul, ela parecia bem animada por acreditar ter feito uma boa entrevista, e eu mais animada ainda porque era ela que eu queria que fosse contratada. Acabei por entrar na sala onde Raul revisava alguns papéis.
— E então se agradou de alguma? — Pergunto ansiosa.
— Sim, todas me pareceram competentes, mas tenho minhas dúvidas- Diz ainda olhando os papéis.
— Quanto a quê? — Indago curiosa.
— Todas tem namorados! — Rapidamente meu sorriso some.
— E porque está duvidoso quanto a isso? — Pergunto séria, mas ele não me olha.
— É só que não seria legal esses caras vindo aqui atrás delas, é realmente perturbador no local de trabalho. — Parece compreensível, então desfaço minha insatisfação.
— E de qual você achou mais apropriada? — Pergunto curiosa. Ele finalmente me olha.
— Uma tal de Regina, ela tem 28 anos, tem formação em secretariado com experiência de uns 3 anos e pelo seu Curriculum ela pareceu bem responsável.
— Ah, parece ser muito boa. — Digo desanimada por não ter sido Yamilex, mas logo ouso. — E sobre a Yamilex Landaeta?
— Hum, a última moça? — Pergunta e eu ligeiramente assinto. — Ah, ela me pareceu ter muita vontade de trabalhar, mas não sei porquê, mas, o rosto dela não me é estranho e eu sinto que não é uma coisa boa, sei lá, é só o que senti a respeito dela. — Confessa e fico desapontada.
É claro que o rosto dela é familiar, ele foi na festa de aniversário dela com Raquel, aquele dia em que me beijou erroneamente.
— Na verdade ela é....ela é irmã do Raimundo Landaeta. — Digo tímida, e ele se levanta vindo em minha direção.
— Eu sabia! — Diz como se tivesse se lembrando. — Ah, mas ela já é carta fora do baralho. — Diz voltando para sua mesa. — Contratarei essa Regina mesmo.
— Não, Yamilex pode ser irmã de Raimundo, mas são completamente diferentes. — Digo rapidamente me aproximando de sua mesa, apoiando minhas mãos ali. Raul me olha de cima a baixo.
— Então vocês são amigas? — Aceno positivo com a cabeça. — Mas isso não seria demais, ela aqui apenas para pegar informação e passar para aquele metidinho?
— Não, Yamilex não é assim, confia em mim, eu não pediria por ela senão fosse assim, confia. — Praticamente imploro e ele parece ceder.
— Muito bem, enquanto ao profissional acredito que ela possa fazer bem. — Ele para e me olha outra vez ainda duvidoso quanto a Yamilex, e logo sorrir. — Está bem, amanhã a ligarei para contratá-la.
Rapidamente dou a volta na mesa e o abraço, ele sorrir.
— Obrigada, vai ser muito bom trabalhar com uma pessoa amiga. — Digo contente, sentada em seu colo.
— É, depois da experiência com Mariza, acho que você merecia alguém realmente amiga. — Ele esboça um sorriso e beija a minha mão. — Ela sabe que você está fazendo isso por ela? — Balanço a cabeça negativamente. — Ah bom, então amanhã a contatarei para que comece logo.
Eu o abraço outra vez e ele finalmente me beija calorosamente. Eu estava feliz por Raul ter concordado com isso, talvez era um capricho, mas poderia me sentir mais à vontade com alguém que já conhecesse.
....
POV RAQUEL ON:
Eu nunca havia me sentido tão pobre quanto agora, estar tomando o café da manhã com pão e ovo, café com leite ainda nessa espelunca, realmente, isso era bem perto da pobreza. O dono dessa banheira, permitiu que eu tomasse café, mas já foi logo avisando de que não seria de graça, ele é um nojento aproveitador, espero não precisar passar outra noite nisso que ele chama de hotel.
Saio a procura de alguém para me emprestar algum dinheiro até que eu consiga meus cartões de volta, busco meu celular e me recordo de que havia o jogado no mar. Uma ideia me surge, ir até Raimundo, sei que ele me deve muitos favores, então não recusaria a me emprestar um mísero dinheiro.
— Raquel? Você não estava sumida? — Diz surpreso ao me ver ali.
— Quem disse que eu estava sumida? — Indago, adentrando a sua casa me sentando ali pelo o sofá da sala.
— Bem, sua mãe ligou esta manhã, disse que você tinha saído de casa. Queria saber se estava aqui. — Relata.
A essas alturas todos já devem saber, já que minha mãe está dando uma de arrependida agora, ligando para todos para saber da minha pessoa.
— Porque ela se importa? — Pergunto para mim mesmo.
— Mas, o que aconteceu para você ter saído de casa? — Raimundo me pergunta sentando em um outro sofá à minha frente.
— Isso não é da sua conta, eu só vim aqui porque quero te pedir que me empreste um dinheiro. — Ele rir e se encosta no sofá cruzando as pernas com se me observasse.
— Emprestar? — Ele se aproxima de mim. — E pra quê?
— Já disse que não é da sua conta, vai me emprestar ou não? — Pergunto já furiosa.
— Não, já que não quer me dizer para o que seja. — Fala debochado e isso me irrita.
Me levanto para sair dali, esse moleque não deveria me recusar algo assim.
— Você é um idiota, deveria de me emprestar sem pestanejar, já que fui bastante útil na sua mísera vida acadêmica. — Digo alegando mesmo.
— Ah, não vem com essa. Você me ajudou, mas eu também fui seu escravo, recorde disso, e outra, faz um tempo em que não me ajuda com os trabalhos, uma prova disso é o último resumo que pedi emprestado e cadê? Você me emprestou? Não! Então não emprestarei dinheiro a você.
Fuzilo-o com meu olhar, ele estava se achando já que eu estava em desvantagem por agora. Mas não me rebaixaria mais para ele.
— Não sei o que você faz em uma faculdade já que é tão burro a ponto de não conseguir fazer seu próprio resumo. Engula e morra engasgado com seu dinheiro, seu idiota! — E rapidamente me viro para sair dali.
— Ei, sua louca! Não me ofenda em minha casa... — Ainda o ouço dizer, mas não volto para respondê-lo.
Como se nada quisesse dar certo, eu volto para o maldito hotel bufando de tanta raiva, aquele idiota do Raimundo ainda vai me pagar caro.
Já era fim de tarde quando retorno àquela espelunca, de cabeça baixa, completamente frustrada por não ter conseguido o dinheiro para sair dali, e então começo a subir as escadas, mas ouço alguém pigarrear, e então vejo aquele senhor barrigudo parado na recepção com minha mala ao seu lado, corro de encontro à minha mala.
— O que faz com minha mala aqui? — Pergunto, checando se ele não havia mexido em algo.
— Me paga e então deixarei que suba com sua mala. — Fala ríspido, eu o olho séria.
— Ainda não anoiteceu, e eu disse que ia arrumar.
— Já é noite querida, e então, arrumou? — Eu limpo a garganta tentando encontrar alguma desculpa, mesmo não querendo ficar ali era único lugar em que teria no momento.
— Espera só mais um pouco, eu vou conseguir amanhã. — Digo quase implorando e isso me dar uma raiva de mim mesmo.
— Conheço caloteiras como você, e não vai ser esse rostinho bonito que vai me fazer cair nessa sua mentira, ou me paga agora ou pega estrada. — Disse-me firme.
Fico um tempo em silêncio tentando pensar em algo e nada me vem à cabeça. Pensei em voltar para casa, mas meu orgulho estava muito maior, e logo me vem a ideia de implorar mais um pouco, mas nunca fui de me humilhar para ninguém e não vai ser para esse açougueiro que irei fazer isso.
— Eu não queria mesmo ter que ficar nesse casebre caindo aos pedaços. — Digo firme pegando minha mala. — E esse lugar teria de ser avaliado, pois com certeza seria fechado por más condições, desejo toda a má sorte pra você! — Falo furiosa.
— Mas ainda é abusada essa pirralha, vá! — Ele grita, apontando para a porta de saída.
Saio pisando fundo, pois de toda forma eu fui humilhada. Ando sem rumo arrastando minha mala, e por várias vezes eu quis voltar para casa, mas eu não conseguia simplesmente voltar. Cheguei em uma praia qualquer e me sentei na areia por não ter mais energia para simplesmente continuar andando, não fazia ideia das horas, mas parecia ser tarde pelo o pouco movimento que havia ali.
Fico olhando aquele mar, e meus pensamentos começam a se fazer presentes me deixando triste fazendo com que lágrimas escorram pelo meu rosto. Penso em minha mãe e acredito que ela esteja mesmo preocupada, mas quando me vem a lembrança de que ela me desafiou e me bateu por causa da Gilda, tento não pensar mais nela, buscando obstruir aquele choro.
Meu peito dói, mas não é uma dor recente, isso se deve às lembranças antigas. Sinto uma raiva por estar chorando por algo que eu segurei tanto tempo, pois por um longo tempo evitei chorar, mas agora isso se acumulou e não era algo mais que eu quisesse segurar, e dessa maneira agarrei meus joelhos e os pressionando contra o peito, chorei, chorei como se me libertasse daquelas lembranças em que eu odiei Gilda mesmo sem ela ter feito nada, só em ela ter nascido me fazia odiá-la porque mesmo não estando ali conseguia mais a atenção de minha mãe do que eu mesma, a que estava ao seu lado. Junto com aquelas lágrimas saíam todas essas lembranças, talvez eu não precisasse mais ter que me sentir assim, já que não teria que vê-la mais, nem a ela, nem a minha mãe, eu tentaria viver longe delas.
— Raquel? — Alguém me chama, com muita dificuldade ergo minha cabeça.
— Ah, não! O que você quer? — Falo irritada, era Gilda. Ela simplesmente senta-se ao meu lado.
— De todos os lugares, esse era o menos em que eu imaginaria te encontrar. — Fala olhando para o mar, posicionando-se ao meu lado.
— Não pedi para que me procurasse, na verdade eu não quero nem ver você! — Digo indignada, e tento me levantar, mas ela me segura pela mão me fazendo sentar na areia novamente.
— Não vá. Eu juro que não estava te procurando, essa praia é perto do meu apartamento e de vez em quando costumo vir aqui a noite, só isso. — Ela me diz serenamente.
Suspiro fundo, não sei como fui parar justamente perto do apartamento de Gilda, sinceramente quero sair dali, mas minhas pernas me traem, pois não consigo caminhar mais nenhum 1 metro que seja, então espero que ela saia dali.
— Pois saia daqui eu quero ficar sozinha!
— Onde passou a noite? E porque está aqui com essa mala? — Ela pergunta, ignorando totalmente o meu desejo de que ela saia dali.
— Não é da sua conta, só me deixe sozinha! — Digo séria sem olhá-la enquanto ela me encarava.
— Não me diga que dormiu aqui na praia e...
— Ah, se você não sai, eu saio! — E rapidamente me levanto, e ela outra vez me segura pela mão.
— Por favor não vá, fica, eu prometo ficar calada e logo irei. Só fica.
Suspiro outra vez. Me solto bruscamente de sua mão e me sento novamente na areia. Ela ficou um bom tempo calada, e ficamos as duas encarando o mar, mas sei que ela queria me encher de perguntas.
— Eu não dormi aqui, estava em um hotel... — Faço uma pausa ao me lembrar da espelunca a qual eu estava, mas ela não precisava saber. — Com o dinheiro que eu tinha consegui alugar por aquela noite. — Ela então me olha, não sei dizer a expressão dela, já que não a encaro.
— Entendo, mas porque não volta pra casa? Não acha que já castigou demais a nossa mãe? — Pergunta-me e eu esboço um sorriso irônico.
— Isso não passa nem perto do castigo que passei por viver sua sombra. — Confesso, mas em meu rosto não havia nenhuma expressão, eu só continuava encarando o mar.
— Ah, isso... — Ela pausa, como se escolhesse as palavras certas. — Eu peço desculpas. — E então a encaro, mas ela desvia o olhar, olhando agora para a areia. — Eu não fazia ideia que em algum lugar alguém sofria por mim, eu realmente sinto muito. — E com semblante triste, me olha. — E peço que perdoe mãe Assunção também, pois se ela não tivesse me escondido de mãe Cecília, talvez nada disso seria assim.
Ela volta a olhar o mar, e eu fico pensativa a olhando, não sei o que está acontecendo no momento, mas não faz sentido ela me pedir desculpas.
— É... Você estava chorando? — Ela me tira dos meus pensamentos e logo tento cobrir meus olhos com a franja.
— Claro que não! Porque está falando tanto? Disse que ficaria calada. — Recordo, buscando fugir de explicar o choro.
— Ah, me desculpe. — Lamenta.
— Por que tem que ser boa desse jeito? Isso me faz ter mais raiva de você! — Digo, irritada por ela ser compreensível comigo.
— Ah, desc... — Ele para de falar ao ver que eu a fuzilei com o olhar. — É, digo... Onde vai passar essa noite? — Pergunta ao ver minha mala ali.
Não sei para que ela se preocupa tanto, pensa que ficarei de bem com ela só porque estou em desvantagem agora? Pois ela está muito enganada.
— Não importa! — Falo ríspida, sabendo que eu não teria para onde ir.
— Ah... — Ela então se levanta. — Volte para casa, mãe Cecília mais do que qualquer outra pessoa quer que volte, ela pensa em chamar a polícia para procurá-la caso não apareça, então volte para casa. — Diz calmamente. — Eu vou indo.
E então dar um passo saindo dali.
— Não posso voltar, eu não consigo voltar! — Falo alto. Não era minha intenção que ela ouvisse, mas então ouço seus passos retornarem e se agachou até mim.
— Se está sendo difícil pra você, venha para meu apartamento, você pode ficar lá até que se resolva, eu não me importo.
— O quê? Jamais, vá, você estava indo não estava? Então vá! — Digo sendo rude, e ela apenas suspira.
— Sim, já vou indo... — Ela se levanta outra vez, mas fica parada. — Essa praia fica perto do meu apartamento, andando você chega lá. Não irei te explicar porque sei que sabe onde fica, então se quiser, pode ir para lá. Agora já vou indo.
E então ela sai dali me deixando pensativa. Eu não sei o que ela pretendia bancando a boa comigo, porque sei que ela não gosta de mim, já fiz tanto mal a ela que não acredito que tenha sangue de barata. Mas não me arrependo de ter feito o que fiz, de alguma forma ela merecia passar pelo que eu a fiz passar eu penso dessa maneira, mas agora não sei o que sinto, até porque meus pensamentos estão desorganizados e eu não estou pensando direito.
Meu estômago grita por comida e então me recordo de que fazia horas de que eu havia comido algo, exatamente só no café da manhã, eu realmente estava ficando fraca por falta de me alimentar. Eu não teria mais nenhum dinheiro para comprar qualquer coisa que forrasse o estômago, me sentia uma mendiga ao relento. Tento pensar em alguma coisa, em qualquer outro lugar que eu pudesse comer e passar a noite, e só me vem à cabeça a minha casa, mas para lá eu não quero voltar, e então infelizmente só me resta somente um lugar que em outros tempos eu nem sequer poderia cogitar em ir...
— Ah, você veio. — Ela me diz sonolenta, acredito que já estava dormindo, a julgar por seu traje e expressão.
Não acredito em mim mesma por ter tido toda essa audácia de bater em sua porta e pedir para ficar para passar a noite, eu realmente me odiaria depois que tudo isso passasse. Ela fica esperando que eu entre, e fico estática ainda hesitante, ela espera e eu respiro fundo falando para mim mesma de que isso não mudaria em nada, ela só me deixaria ficar por uns dias e eu continuaria a ser sua inimiga como sempre foi, nada mudaria.
— Já que me convidou, eu vim, mas não pense que as coisas mudam pra você! — Digo tentando ser o mais natural possível. — Onde fica seu quarto? — Ela aponta para o quarto. — Ah, eu ficarei lá, você dorme por aí.
E então sem esperar eu me apresso em ir para seu quarto, fechando a porta evitando que ela fale qualquer coisa.
Sei que fiz errado dessa maneira, mas eu não queria me sentir humilhada, porque é definitivamente uma humilhação. Esperei por um momento, porque talvez pudesse me tirar dali e exigir condições uma vez que estava em sua casa, mas ela nem sequer bateu na porta. Olhei todo o quarto e era acessível, melhor digamos que aquela pocilga em que estava antes, me dar até arrepios só de pensar. Me dirigi para o banheiro, lavando todo o meu corpo e minha alma inclusive, pois parecia que fazia séculos de que eu não tomava um banho digno. Busco na minha mala algo para dormir, e encontrei meu pijama, em seguida o vesti me sentindo confortável.
Me sentei na cama e um edredom já estava ali, acredito que Gilda estava embrulhada nele antes de eu bater em sua porta porque estava bagunçado sobre a cama, então penso onde ela possa estar dormindo já que dominei seu quarto, então pego o edredom e saio do quarto, algumas luzes estão apagadas, vejo Gilda deitada no sofá dormindo, me aproximo, mas meu estômago dá sinal de vida outra vez, logo desvio o caminho indo para a cozinha procurando alguma coisa para comer. Forro o estômago com leite e um sanduíche, ao terminar passo novamente pela sala e lá Gilda estava encolhida, então deixo o edredon em cima da mesinha de centro para que quando ela acordasse pela noite se embrulhasse. Acabo por topar em alguma coisa, e Gilda se remexe no sofá.
— Você está bem? — Pergunta-me ao ver que eu choramingava por ter batido o dedo do pé em alguma coisa.
— Sim...é...bem... — Não entendo porque estou gaguejando. — Ah, esse lençol é seu não, é? — Pergunto-a apontando para a mesinha de centro onde eu havia deixado o edredom.
— Sim, mas...
— Então pronto, vou dormir! — Digo ligeiramente, saindo dali.
Fechei a porta rapidamente, eu agia estranho porque estava na casa dela, e não queria ter que pensar que estava ali, era muito humilhante e a ideia de que não me sai da cabeça de que ela possa usar isso contra mim depois, não me deixa em paz. Penso em sair dali, mas para onde iria? O jeito era permanecer ali, até me organizar, eu ignoraria e a trataria como sempre foi, sim, farei dessa maneira. Repeti diversas vezes de que isso era o que faria e buscava acreditar nisso, até que sendo vencida pelo o sono, acabei adormecendo...
POV RAQUEL OFF...
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