Atrás do volante, no frio indiferente do ar condicionado e seguindo entre as curvas de Vegas freneticamente iluminada à uma cena de crime, quase me fez esquecer o que aconteceu nos últimos dias, quase me fez acreditar vagamente que estava de volta a normalidade.

Mas eu sabia que não isso não mais existiria para mim, eu senti o gosto da pele da liberdade, da vida para além daqueles caminhos, para além do padrão e da minha própria normalidade, me perguntei internamente quanto tempo mais me enganaria achando que continuaria sendo sufocada por Las Vegas, por aquela rotina de viver para os mortos, quanto tempo mais me prenderia ali por uma boa ilusão.

Avistei as luzes vermelhas e azuis das sirenes, sangue tingindo a calçada, os corpos inertes já sendo atendidos pelos legistas e a van que eles levam os corpos estacionando ao lado da faixa de custódia.

Quando desci do carro já fui em busca do material e ainda mais rápido que imaginei estava invadindo a faixa perguntando ao David onde estava o Grissom, ele apontou para dentro do restante e eu me meti dentro.

Propositalmente ou não, Grissom estava de costas à entrada banhando o balcão com a luz UV em cima da madeira.

-Por onde eu começo?

Perguntei secamente, olhando a bagunça a nossa volta, cacos de vidro espalhados por todos os lugares onde minha vista alcançava brilhavam com a fraca luz que penetrada da entrada, estava calçando a proteção dos sapatos quando ele finalmente resolveu notar minha presença.

-No canto de lá.

-O que aconteceu aqui?

-Uma briga, ninguém sabe como começou e não entenderam como o outro morreu.

-Que outro?

-Esse aqui. – Eu me aproximei dele e me inclinei sobre o balcão vendo o corpo inerte do outro lado.

-Certo, crime por oportunidade, talvez?

-Eu também achei, quero saber como conseguiu vir para trás do balcão.

-Acho que o jogaram por cima, esse balcão não é muito alto. – Eu o medi com minha cintura, ficava pelo menos uma palma abaixo dela. -De que lado aconteceu a briga?

-Ainda não vi e Brass ainda não conseguiu pegar todos os depoimentos, vamos precisar das câmeras de vigilância, poderia depois pegá-las?

-Certo.

Eu olhei em volta para cima, avistei três ao todo, na entrada, na porta que dava para a cozinha e no caminho do banheiro.

-Esse é um ponto cego.

-O assassino conhecia o lugar.

Liguei uma lanterna que Grissom deixara no balcão, atirando a luz para o outro extremo da sala, a formação das mesas desfeitas como um buraco profundo em uma rodovia uniforme.

-Algo me diz que foi ali que começou. Vou ver o que consigo, depois vou atrás das fitas de vídeo para mandar pro Archie.

Meu passos foram bem mais rápido que imaginei que aconteceriam, eu estava agindo tão profissional que me surpreendi, do nada meus problemas com Grissom estava se tornando insignificantes diante do trabalho para fazer. Quando comecei a me arrumar o que restara das cadeiras de alumínio e o tampo de mesas basicamente feitas de vidro e madeira, espreitando-me com cuidado entre os cacos afiados e reluzentes de vidro e vi pelo rabo do olho Grissom se aproximar.

-Sara, podemos conversar?

Eu estreitei perigosamente os olhos, claro que podíamos, o problema é sobre o que.

-Desculpa o Lion ter atendido o telefone. – Disse sentindo minha voz minguar, sua secura era quase palpável, estava ligeiramente abalada e não fazia questão de demonstrar o contrário.

-Ele deu trabalho quando desapareceu. Achei que ele tinha fugido ou algo do tipo... Então, ele atende seu telefone... – Eu me virei e encarei os olhos azuis, assustados, evasivos, cansados e na minha inabalável surpresa, não estavam distantes, estava mantendo um tipo de contato estranho comigo.

-Eu te esperei de noite, eu te esperei... Eu pensei que assim que você desocupasse ia para minha casa, eu fiquei te esperando como sempre... Você não pareceu, e de novo Lion estava lá...

Ele não sabia falar ou ele não queria falar? Ele estava lá, me olhando, lutando contra a exaustão, comigo pronta para aceitá-lo e mesmo assim não o fazia.

-O que passou pela sua cabeça quando leu a carta? – Ela perguntou de uma maneira tão calma que parecia um tipo de questionamento normal. Ele tinha as mãos nos bolsos e tentava passar uma calma inexistente.

Na minha equação mental eu não havia previsto aquele comportamento, ele estava ressentido, magoado e cansado e nunca me ocorreu dele ficar interessando em meu novo conhecimento a partir daquela carta. Engoli a seco piscando e tentando ganhar tempo, não sabia o que responde e se sabia estava cansada de desencadear brigas, eu ficaria na defensiva enquanto minha paciência aguentasse.

-Muito bem... – Concordei com sua acusação implícita, sim, eu havia pego a carta, eu havia lido a carta. –Em que isso faz diferença?

Pela primeira vez o peguei de jeito sem querer, seu cenho franziu irritadiço uma descrença quase palpável cobria seu face e me encarava com um olhar: “Você está brincando?”

-A diferença é que você sabia o que eu sentia e mesmo assim estava com Lion... – Ele cuspiu tudo de uma vez, estávamos percebendo que se apenas jogássemos as palavras, garganta a fora seria mais simples para sair daquela estagnação em nosso relacionamento, se apenas falássemos o que vinha a cabeça seria mais fácil, mais simples a conversa fluir.

-Eu estava esperando por você e Lion apareceu... Eu me agarrei ao que tinha na mão... – Meus olhos não sustentaram sua inquisição e vi-me com os lábios curvados. –Grissom, eu não esperei o bastante por você?

Nós dois exalamos fundos e quando eu encarei novamente seu olhar a confusão o lotava de uma maneira que nunca vi antes, ele estava em uma mistura digna de pena, fadiga, confusão, desentendimento, mágoa, o mais próximo que o cheguei ver como um homem de carne e osso que entendia o quanto havia errado – malvadamente aquilo aliviou meu coração, talvez, só talvez, estivéssemos chegando a algum lugar.

-Você sabia o que eu estava sentindo e mesmo assim dormiu com ele? — Sua voz quebrou todo o caminho que minhas ilusões criaram, era uma voz inacreditavelmente fria, de dor maciça, ele havia errado tanto que não conseguiria admitir a culpa e a jogaria para cima de mim?

-Eu sabia que eu não podia mais te esperar, eu sabia que você não iria... Eu não sabia o que faltava para ser você batendo naquela porta.

Ele engoliu a seco, dando de ombros, levemente sua cabeça balançou, assentindo sobre o que eu queria dizer. No seu silêncio fúnebre ele deu as costas saindo do restaurante, não recolheu seu material, não disse para onde iria, apenas saiu, recolhido em sua bolha íntima de solidão da qual ninguém jamais poderia se atrever a entrar.

Eu não entendi o que aconteceu, era apenas aquilo? Ele me daria as costas e sairia da cena de crime me deixando sozinha com o vazio e com a raiva que eu estava? Deixei o látex que envolvia minhas mãos tocar-me os cabelos e com suas costas enxugar o suor frio que brotava daquela desavença.

Ele tinha ido embora por que não queria conversar ou por não ter mais o que conversar? Aquela mania surpreendente de Grissom de sempre tirar minha paz, de sempre me deixar com raiva, de sempre me jogar nos braços tão conhecidos da confusão.

Wish I may,

Queria poder,

Wish I might find my one true love tonight

Gostaria de ter podido encontrar o meu verdadeiro amor esta noite

Do you think that he could be you?

Acha que ele poderia ser você?

If I pray really tight,

Se eu rezar fortemente,

Get into a fake bar fight,

Entrar em uma falsa briga de bar,

While I’m walking down the avenue.

Enquanto eu estiver descendo a avenida.

If I lay really quiet

Se eu deitar bem quieta

I know that what I do isn’t right,

Eu sei que o que faço não é certo

I can’t stop what I love to do.

Eu não posso parar o que amo fazer.

So I murder love in the night,

Então eu assasinei o amor na noite

Watching them fall one by one they fight,

Observando-os cair um por um eles lutaram,

Do you think you’ll love me too?

Você acha que me amará também?

On the warpath,

Em um caminho de guerra

‘Cause I love you just a little too much

Porque eu te amo só um pouco demais

Serial Killer – Lana Del Rey

Como se já não bastasse estar entupida de pensamentos desnecessários havia a parte do trabalho, que por mais resmungos que eu soltasse ainda me ajudavam a esquecer um pouco o que tinha acontecido.

Eu tinha tornado meu lado um campo gigantesco de xadrez, quadrados uniformes se estendiam por todo o carpete vermelho, o lado que obviamente começara a briga, eu recolhi de cada quadrado numerado pedaços de vidro, restos de comida, lascas de madeira e alumínio. Tinha passado um pente fino encontrando em cada mesa pelo menos três digitais diferentes, no decorrer de quase três horas e meia não avistei Grissom nem de longe.

David já havia retirado o corpo do outro lado do balcão e quando lhe perguntei sobre Grissom disse que tinha saído sem dizer nada e perguntou se daria o relatório da autopsia dos corpos à mim... Eu não sabia o que responder apenas aceitei sem pestanejar.

Percebi como havia irritado Grissom, como aquilo tudo era volátil e inflamável, obviamente proibido para quando estivéssemos trabalhando uma vez que logo em seguida seria abandonada, esquecida em meio ao nada com um restaurante seis vezes maior que meu apartamento para periciar.

Continuei meu trabalho fazendo uma promessa solene a mim mesma que jamais voltaria a tocar nesse assunto enquanto estávamos trabalhando. Não pude deixar de me perguntar que outro oportuno momento eu reiniciaria aquela conversa sem direção aparente, e me pareceu ainda mais evidente que esse outro momento jamais chegaria – vivíamos no trabalho, só haveria esse momento.

Eu fiz o que meu bom senso me mandava, pela primeira vez escutei aquela voz irritante que rondava minha cabeça, as instruções que ela me dizia eram sensatas de o jeito que eu estava pareciam ser adequadas e facilmente cumpridas, deixar o assunto quieto, enquanto os ânimos se acalmavam, enquanto minha história com Lion era esquecida aos múrmuros dos corredores no laboratório.

Foi ligeiramente fácil, a princípio uma vez que mal via Grissom, foi quando dei conta que as horas estavam se transformando em dias, semanas, a cada novo caso nada de realmente novo acontecia, a hora nunca chegava, e um reencontro explosivo com Grissom sempre era adiado, sempre haviam pessoas demais, sempre sua sala estava fechada, sempre longe demais para eu alcançar e minha súbita infinita paciência reinava. Eu não deveria estar tão surpresa uma vez que eu deixei a conversa para depois ele seguiu a mesma linha, esquecendo-a de uma vez por todas.

Notas finais
Gente... Pois é... Estamos nos aproximando de um final... ~Não antes de vocês quererem tirar minha cabeça pelo que vai acontecer no próximo capítulo...