Um Anjo
1 Um Anjo
Notas iniciais
Um Anjo
Um demônio andava pelo deserto. Só havia ele, a terra ressecada e o céu azul, nada mais.
Seus pés batiam, ritmados, no solo rachado. A paisagem toda de um amarelo sem vida, o solo dividido como um quebra-cabeça. Tudo seco. E cheio de poeira.
Poeira. A maldição de sua existência. A poeira cobria tudo, sua pele, suas asas, o chão, deixando tudo com a cor do deserto. A poeira era carregada pelo vento constante, batendo contra seu corpo, entrando em seus olhos se ele ousasse erguer a cabeça. O demônio odiava a poeira.
Por causa dela, ele andava de cabeça baixa, ombro curvado, olhos semicerrados. Suas asas reptilianas, antes negras e brilhantes, estavam amarelo-escuras. Ele as mantinha semifechadas e frouxas, suspensas a poucos centímetros acima do solo, quase a serem arrastadas pelo chão.
Fazia muito tempo desde a última vez em que ele as abrira. Há muito o demônio não voava. Não sentia vontade. Não parecia valer o esforço.
De repente, ele parou, ainda olhando para o chão. Com algum esforço, ergueu a cabeça, protegendo os olhos da poeira com uma mão, e olhou para o céu azul com a vã esperança que nunca conseguia afastar totalmente. Quase esperou ver um lampejo de asas brancas. Quase esperou ouvir uma voz o desafiando, chamando-o de “cão dos infernos” e provocando uma luta.
Em vez disso, uma imensidão azul sem nuvens o encarou de volta. O demônio suspirou. Baixou a cabeça. Seus passos ritmados voltaram a soar no silêncio do deserto.
Não havia anjos.
…
O demônio ainda andava pelo deserto. Não media mais o tempo. Não sabia há quantos dias estava caminhando sem direção, nem a distância que já percorrera. Apenas arrastava os pés, um passo atrás do outro.
De repente, movido por um impulso, ergueu os olhos e mirou o horizonte. Para sua surpresa, algo interrompia a imensidão do deserto. Lá longe, na linha do horizonte, pequenas construções se erguiam.
Uma cidade. Uma cidade humana. Algo estranho se contorceu dentro dele.
Provavelmente, deveria evitar a cidade. Lembrou de seu ódio pelos humanos. Ódio recíproco.
Ele parou. Olhou ao redor, apertando os olhos para protegê-los da poeira. Só terra ressecada. E, lá longe, a cidade.
O demônio suspirou e recomeçou a andar em direção às construções, lentamente.
…
A cidade era pequena e miserável. E, como tudo no deserto, coberta de poeira. Construções de sucata erguiam-se de todos os lados. Os humanos vagavam pelas ruas, parecendo perdidos.
Eles eram diferentes do que o demônio lembrava. Ele se lembrava de seres de olhos brilhantes, corpo ereto, gestos cortantes. Rostos corados, corpos fortes. Mas os homens eram agora cinzas da chama que costumavam ser.
Eles usavam roupas esfarrapadas e estavam amarelos de poeira, da cor do deserto. Andavam curvados, olhando para o solo. Seus rostos eram pálidos e com bochechas chupadas, os corpos magros e fracos, quase não gesticulavam. Seus olhos, a parte que antes mais chamava a atenção neles, eram agora encovados nos rostos. Pareciam orbes vazios, como se olhassem, mas não vissem. O único brilho ocasional que o demônio reconhecia era o brilho do medo. Ou da fome. Mas mesmo isso era raro.
Eram seres patéticos, que inspirariam pena em qualquer um. O demônio agora os odiava ainda mais.
Alguns ergueram os olhos enquanto ele passava, e ali ele via raiva. E medo. Alguns poucos resmungaram. O demônio os ignorou.
Ouviu alguém murmurando “Matador de Anjos”. Ele ergueu os olhos e encarou a mulher. Ela se encolheu e entrou em uma das construções de sucata.
Seres tolos. O demônio teria rido, se ainda tivesse sobrado algum sarcasmo em seu ser para tanto. Tão burros e ignorantes. Achavam que ele havia acabado com os anjos. Ele e os outros de espécie.
Mas, não, tinham sido eles, humanos patéticos. Eles haviam acabado com os anjos. Haviam transformado seu planeta em um inferno na terra. E haviam deixado, pouco a pouco, de crer. E sem a crença, os anjos haviam desaparecido.
Hoje em dia, os humanos só acreditavam em demônios. E, por isso, só os demônios existiam.
Subitamente, um som interrompeu os murmúrios da cidade. Um homem gritava. Ele apontava para o céu.
O demônio ergueu os olhos e viu um avião. Ele aparecera na linha do horizonte e se aproximava rapidamente. Era um avião de guerra, negro como suas asas.
Os humanos se juntaram no centro da cidade, olhando para o veículo e murmurando, amedrontados. O demônio os observou de longe, indiferente. Já sabia o que ia acontecer. Eles estavam todos mortos.
Ele devia sair dali. Salvar-se. Mas alguma curiosidade mórbida o manteve parado, olhando.
Só quando o avião passou acima da cidade e abriu suas portas de baixo foi que os humanos começaram a gritar. Só então eles perceberam que a morte acabara de ser liberada, e estava caindo dos céus em sua direção.
A morte era negra e caía, veloz. Quando ela atingisse o solo, toda aquela cidade miserável iria pelos ares, junto com os humanos desprezíveis. O avião já sumia no horizonte, cumprida sua tarefa.
Qual era a razão daquilo? O demônio nunca entendera os humanos.
Ele observou a reação dos que estavam no solo. Alguns corriam sem direção. Outros caíam de joelhos, olhando desesperançosos para o céu, para a morte que se aproximava.
Um filhote de homem era abraçado pela mãe, que gritava e chorava. Os olhos dele estavam grandes de medo no pequeno rosto ossudo. Era uma criaturinha fraca, com talvez cinco ou seis invernos nas costas. Não podia compreender exatamente o que estava acontecendo, mas sentia a proximidade da morte.
De repente, seus olhos encontraram os do demônio. Os dois se encararam. O filhote não desviou o olhar. O demônio sentiu-se subitamente desconfortável. O que aquela criatura estava esperando dele para encará-lo daquele jeito? Havia algo nos olhos do menino que ele não conseguia identificar. Não estava na sua esfera de sua compreensão. Ele não entendia o que estava sentindo.
Subitamente, o demônio sentiu vontade de voar.
Ele abriu as asas e as sacudiu, derrubando a poeira. Pela primeira vez em um muito tempo, elas brilharam, negras. Alguns humanos ergueram os olhos para mirá-lo.
Com um impulso, ele se lançou aos céus. Suas asas batiam velozmente, como há tempos não faziam. Ele subiu em direção à morte que caía.
Um segundo antes de colidirem, ele ergueu as mãos. O demônio a agarrou. A morte tentou arrastá-lo para baixo. Ela tinha pouco tempo para que a destruição dentro de si fosse liberada. E queria detoná-la nos humanos.
Mas o demônio resistiu. Com a força de seus braços e suas asas, ele a parou. E, lentamente, começou a subir.
Ele levou a morte para cima e para longe. Sentia o caos dentro dela, a detonação mais perto a cada segundo que passava. O que ele estava fazendo? Não sabia. Mas continuou subindo.
No segundo antes de a morte levá-lo, liberando sua destruição vingativamente em cima dele, o demônio pôde jurar que sentira mais uma vez os olhos do filhote em cima de si. Mais uma vez ele sentiu aquela emoção que não conseguia identificar. Fechou os olhos.
Ele nunca soube, mas lá embaixo, os humanos o olhavam e apontavam. No último segundo, o sol refletiu em suas asas negras, e elas brilharam, brancas. E no solo, entre os homens, mãos apontaram, corpos se levantaram, olhos brilharam. E uma voz de menino se ergueu:
– Um anjo!
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