Um Amor que Cura
26 Uma história e muitas magoas
Notas iniciais
Adélia entrou na sala e o encontrou andando de um lado para o outro o clima tenso se sentia no ar.
–Meu amor está pálida... -ele se assustou quando percebeu que ela havia chegado.
–Por favor, Alberto quero que seja franco comigo e se não quiser ou não puder eu vou entender, mas chega de mentiras...
–Menina o chá...
–Ah obrigada...
Alberto observou a esposa pegar a xícara, estava um pouco trêmula.
–Menina quer mais alguma coisa?
–Não Joana, o chá está bom por hora.
Joana quis abraçar Adélia conhecia aquele olhar triste dela, o mesmo olhar que viu durante os meses após a morte do sobrinho, olhar de quem está perdida e precisa de um abraço, mesmo assim Joana saiu fazendo uma prece para que tudo se resolvesse.
–Temo por nosso filho você está tremendo precisa se acalmar... -
–Fique tranquilo, fiz uma avaliação médica no posto, está tudo bem, só preciso saber o que está acontecendo aqui.
–Não sei por onde começar...
–Comece pelo começo... Eu sei que não á fácil contar algo que é só nosso, mas pelo amor de Deus, não existe a possibilidade do homem que amo ter um filho e eu não saber como isso tudo aconteceu! Você sabe minha história, não vou julgar suas atitudes... Pelo menos não as antes do nosso casamento...
Adélia era pratica nas palavras, segura do que queria escutar, mas os dois sabiam que por dentro ela estava arrasada.
–Tudo bem... — então Alberto começou sua história, a voz carregada de emoção e os olhos focados em Adélia que apenas observava a xícara do chá que estava intacto em suas mãos.
“ Não sou bom com as palavras como você, e talvez minha história não seja de amor verdadeiro como a sua, mas na época parecia. Eu vi Gaia dançando no teatro pela primeira vez e foi como um furação na minha vida de estudante pacato, ela era viva, esbanjava alegria, fiquei dias tentando encontrar ela até finalmente conseguir, em pouco mais de duas semanas estávamos juntos, namorando, só que ela era mais velha e todo mundo eu sabia disso, mas achei que meu amor era suficiente para encarar meus pais e tudo que resultaria. Quando anunciaram que iria me casar com você, já estávamos morando juntos num apartamento alugado. Meus pais descobriram tudo, e fizeram a cabeça dela, prometendo trabalho e sucesso fácil, ela era leviana, não pensou muito em me abandonar, fiquei com raiva dela e de todas as mulheres... Quis sumir no mundo, quando vim para me casar só queria que tudo acabasse logo, achei que você era uma mimada como as moças que eu havia conhecido... Preciso que entenda que minha história de amor com Gaia, foi isso, ela me abandonou por seus sonhos, frustrado decidi obedecer meus pais... Quando fui convivendo com você, seus olhos foram me conquistando, sua voz invadindo meus pensamentos a qualquer hora do dia ou da noite, comecei a pesar o que eu tinha sentido antes e não tinha comparação, você mudou minha vida, quis você... Quero você como jamais quis nada nessa vida... “
Adélia continuava quieta sem olhar para ele, depois de um breve silêncio ele recomeçou.
“No dia que fizemos amor, foi o dia mais feliz da minha vida, foi uma renovação dos meus sentimentos... Não havia dúvidas eu te amava como nunca amei ninguém...”
–Então quando foi que começou a esconder um filho de mim? -disse categórica interropendo-o.
Finalmente ela o encarou, os olhos sérios e tristes.
–Tive medo de te perder, ir para capital enterrar Gaia foi a coisa mais difícil que já fiz, uma mistura de raiva e pena e depois o vazio do medo com o menino nos braços. Quando te vi tão linda na volta, não consegui falar nada...
–A culpa é da minha beleza? Ora Alberto! Que desculpa esfarrapada! -Adélia inquieta levantou exaltada, estava tão cansada e perdida que não aguentava mais.
–Adélia você não consegue entender? Tive medo da sua reação... Depois a gravidez requeria cuidados, foi tudo tão atropelado.
–Mas você devia ter me dito o que estava indo fazer na capital mas não... Devia ter chegado e dito o que havia acontecido mas não!
–Eu sei disso e não imagina a dor que tenho sentido esses dias, dividido entre cuidar de você e contar a verdade.
–Como pode conviver comigo, adular minha barriga enquanto escondia outro filho? Mandou sua irmã sair da cidade com seu amigo? Mandou-a mentir que a criança era de uma empregada? Dormiu comigo enquanto escondia tudo isso? Como conseguiu?
Alberto sentiu o peso das palavras da esposa e não soube o que dizer.
–Fale alguma coisa Alberto! Fale, ou então, minha mãe vem aqui e fala, e será muito pior!
–Sim eu fiz tudo isso! Eu fiz tudo isso! Escondi meu filho, menti e fiz minha irmã e Nestor mentirem... Mas foi pelo amor que eu sinto por você!
– Que amor é esse?
–Adélia, coloque-se no meu lugar...
–Não! Eu jamais, jamais esconderia algo assim de você, não depois que me tornei sua esposa de fato, antes até poderia pensar, jamais te contaria a minha história com Joab se não tivesse confiança em você!
–Claro o seu amor por ele era maior que tudo...
Adélia o olhou incrédula.
–Está falando o que? Que meu amor por você não é tanto quanto foi por ele?
–Não quis dizer isso... Mas é claro que você tinha algo muito mais forte...
–Não vamos discutir isso aqui... A questão é: você escondeu que tinha um filho e fui descobrindo isso por partes e não tem nada pior que isso!
–Eu só posso pedir que me perdoe, não posso mudar nada, todos me falaram que iria me arrepender, mas saber isso, também não muda minhas atitudes. Por Deus Adélia, estamos esperando um filho, me perdoe e vamos continuar nossa história!
Alberto segurou as mãos dela suplicando por perdão, Adélia no entanto não estava conseguindo absorver aquela situação.
–Alberto não sei o que te dizer... Não quero julgar o que viveu com essa mulher, respeito sua história, ao mesmo tempo não posso simplesmente fingir que nada aconteceu, você escondeu uma coisa muito séria de mim... Escondeu um filho, uma criança inocente nessa situação toda...
–Quer dizer que não vai me perdoar? — Alberto ficou arrasado, lágrimas vieram aos seus olhos.
–Não sei... Tudo que sei agora é que não consigo encarar você... Não consigo entender essa rede de mentiras que tramou...
–Adélia você é minha vida, sem você eu vou morrer!
–Não diga bobagens... Teremos um filho juntos e isso já é motivo suficiente para viver, além do mais, tem o Téo que precisa de você.
–Eu preciso de você! — ele venceu a pequena distância entre eles segurando os braços dela colocou seu rosto junto ao dela, podia até sentir a respiração dela acelerando. -Eu te amo, mais que tudo, por favor não me deixe.
–Alberto por favor... — ela tentou se afastar sem conseguir.
–Por tudo que é mais sagrado me dê uma chance de concertar essa besteira que fiz...
–A única forma de concertar seria se não tivesse acontecido! Agora me largue! Estou ficando tonta...
Ele a largou com cuidado e logo a ajudou a sentar-se no sofá.
–Preciso de água...
Alberto chamou Joana que em poucos minutos trouxe a água para Adélia. Ele a observava triste, enquanto ela se restabelecia.
–Menina precisa descansar, comer alguma coisa...
–Joana, vou só tomar uma sopa bem ralinha, estou com um enorme mal-estar. Preciso que arrume o quarto de hospedes vou dormir lá a partir de hoje.
–Não! Não faça isso... — a voz de Alberto demonstrava todo o desespero que estava sentindo.
–Por favor Alberto estou esgotada por hoje, só preciso e quero dormir...
–Então deixe que eu vou dormir no outro quarto.
–Como queira a casa é sua! — falou cortante.
–A casa é nossa! A não ser que eu deva ir embora... Quer que eu saia daqui Adélia?
–Não... — a voz dela enfraqueceu diante da ideia. — Não... Enquanto estiver grávida gostaria que estivesse por perto, depois veremos...
Ele concordou sentindo que o chão estava abrindo sobre seus pés.
–Joana ajude Adélia a se arrumar para dormir. Depois arrume o quarto de hospedes para mim.
–Sim senhor...
–Alberto... Eu te amo muito, nunca duvide disso, é um amor sem comparações, mas estou me sentindo traída... Preciso de um tempo para decidir o que fazer... — um pouco mais serena ela resolveu deixar seus sentimentos bem claros.
–Já entendi Adélia... Vou até a casa de minha irmã se não se opor, preciso conversar com ela e com Nestor.
Adélia apenas concordou observando ele deixar a sala.
–Ah Joana... — Deixou se afundar no colo da negra que tanto amava aos prantos.
–Chore menina, jogue fora todos esses sentimentos dentro de você, vai te fazer ficar melhor.
E ela deixou-se ficar ali com as lágrimas correndo livres e o leve ninar de Joana.
Fale com o autor