Um Amor Shinobi
9 Dar Valor Ao Que Se Foi
Notas iniciais
Naruto estava á beira da loucura. Ele não conseguia pensar em outra coisa que não fosse Hinata. Não conseguia dormir, pois toda vez que fechava os olhos, imaginava as coisas horríveis pelas quais ela poderia estar passando.
Sua única satisfação era de quando se lembrava que ia salvar Hinata e matar o tal de Katsuo.
Naruto, Sakura e Sasuke partiram na missão de resgate, assim como todos os outros times e shinobis de Kirigakure. Eles foram ordenados para chegarem ao País da Chuva, lugar onde Ino e os outros jounins da Divisão de Inteligência haviam detectado sinais de chakra do inimigo. Só para entrar no país foi um sufoco — mesmo depois que Pain deixou de comandar o país, eles continuavam não tendo muita comunicação com o mundo exterior.
Mas Naruto se sentia muito incomodado ali. Aquele lugar era onde seu mestre havia sido morto.
Os três shinobis encontravam-se na entrada de Amegakure no Sato — e como o nome já diz, obviamente estava chovendo. Os três usavam capas brancas com uma faixa vermelha que cobriam todo o corpo. Eles estavam de pé sobre o grande lago que envolvia a vila, e podiam ver que o lugar era repleto de grandes edifícios.
– Lembrem-se que essa é uma missão discreta. Não podemos chamar atenção. — Sakura disse.
Os outros dois apenas assentiram, retiraram suas bandanas e adentraram na vila. Eles se separaram e fizeram o máximo para conseguir informações, pois as dos relatórios da ANBU de Kirigakure eram muito vagos e não diziam a localização do esconderijo com certeza. Fizeram o máximo para não serem percebidos, pois agora os três eram bastante conhecidos no mundo ninja.
Depois de uma hora, eles se encontraram na cobertura de um prédio.
– Eu não consegui nada. — Sakura disse.
– Nem eu. — Naruto reclamou, irritado.
– Tem que estar por aqui. Os sinais de chakra vinham dessa vila. — Sasuke falou.
– Mas e se enviaram esses sinais pra cá só pra despistar os times? Pode ter sido uma armadilha. — Sakura argumentou.
– Também acho que pode ser uma armadilha. — Sasuke disse, com a mão no queixo.
– Se é uma armadilha ou não, temos que procurar mais pistas — Naruto disse. — E se aqui for o lugar certo? A Hinata pode estar confinada nesse lugar.
Os outros dois observaram Naruto. Eles haviam percebido como o loiro andava mais angustiado que o normal.
– Você tem razão. Vamos continuar com as buscas. Em uma hora, nos encontramos aqui de novo. — Sasuke disse, e cada um deles foi para um lado.
Naruto continuou tentando tirar o máximo de informações possível, mas nenhum dos moradores tinha algo realmente relevante pra dizer. Ele já estava ficando frustrado quando avistou um prédio muito alto, o maior da cidade. Aquele parecia estranhamente suspeito.
Naruto aproximou-se de uma senhora que estava sentada na cobertura de uma loja.
– Com licença. — ele disse, e a mulher levantou os olhos para enxergá-lo. — O quê é aquele prédio?
O garoto poderia ter enrolado mais a velha com algum outro assunto antes de fazer a pergunta como qualquer outro ninja faria, mas espionagem e disfarce não eram o seu forte.
Porém, a mulher pareceu não desconfiar do rapaz:
– Aquele é o principal prédio onde o Pain costumava ficar quando ainda estava vivo. Ninguém nunca teve certeza se Pain realmente existiu, mas como o povo nunca teve permissão pra entrar lá, com certeza alguém importante viveu no prédio.
– Até hoje é assim? Não se pode entrar lá? — Naruto perguntou, interessado, agora que descobriu que era ali que Nagato costumava morar.
– O prédio está abandonado. Há rumores de que ele é assombrado, por isso ninguém entra lá. Não que eu acredite nesse tipo de coisa. — a senhora olhou para baixo por um segundo. — Mas por que quer saber, meu jovem...?
Quando a mulher levantou a cabeça de novo, Naruto não estava mais lá.
***
Naruto estava na entrada do grande prédio. Todas as vias que davam para o edifício eram fechadas por muros com arames, mas tudo parecia muito abandonado. Ratos passavam por ali a todo momento e muito lixo e sujeira podia ser visto. A entrada do lugar estava escancarada e terrivelmente escura.
Naruto havia ficado algum tempo acumulando energia natural pra se qualquer coisa acontecesse, ele já estaria preparado. Respirou fundo e entrou no edifício. Estava escuro e frio lá dentro, sem nenhum sinal de vida humana. Tudo fedia a mofo e Naruto quase chegou a pisar em um rato. O único barulho que se ouvia era do metal que compunha o prédio rangendo.
– Esse lugar tá um lixo... Não tem como alguém viver aqui. — Naruto comentou pra si mesmo.
No instante em que terminou de dizer isso, as portas da entrada se fecharam fazendo um estrondo, e agora estava tudo completamente escuro, já que a única luz que entrava era a do sol. Naruto entrou em posição de alerta.
– Quem está aí? — ele perguntou.
Sua voz fez um eco enorme e o metal continuou a ranger. Graças ao Modo Sennin, a visão de Naruto também melhorava bastante, permitindo que ele enxergasse melhor até mesmo no escuro. Deve ter sido o vento, ele pensou. Mas então Naruto ouviu o barulho de passos descalços, como se alguém estivesse correndo. Ele se virou na direção do barulho, mas este desapareceu. Quando Naruto virou-se para outro lado, tomou um susto enorme quando deu de cara com uma mulher muito branca e suja que o fitava.
Aí ele percebeu que aquela mulher não o fitava. Porque a mulher não tinha olhos. No lugar de olhos, haviam apenas dois buracos ocos sujos de sangue seco.
A mulher deu um passo na direção de Naruto, e ele recuou.
– Você está aqui? — a mulher perguntou, com a voz estridente.
Naruto engoliu em seco.
– Eh... acho que estou sim...
A expressão distorcida da mulher tornou-se em algo que beirava a angústia.
– Ajude-me. Me tire daqui antes que ele volte e... e... — a mulher pareceu ter engasgado.
– "Ele"? Ele quem? — Naruto respondeu, agora um pouco interessado (apesar de estar aterrorizado).
– Ele... ele... — a mulher virou a cabeça para os lados, como se estivesse procurando algo. — Por que está tão escuro? Eu não consigo ver. — ela então tomou uma expressão de terror. — Eu não consigo ver! Não consigo ver! Não consigo!
Ela começou a gritar descontroladamente e a se debater como se estivesse tentando se livrar de algo. Naruto tentou acalmá-la, e quando suas peles se encontraram e a mulher percebeu a localização dele, segurou-o pelos braços como se estivesse suplicando. Porém agora a voz dela estava diferente — estava mais grave.
– Me tire daqui! Ele vai voltar! Eu não consigo ver! Pessoas mortas... não consigo ver!
A mulher então fez algo surpreendente. Ela levantou o punho e foi socar a cara do Naruto, mas ele se esquivou e o punho dela foi parar numa pilastra que ficava logo atrás dele. A pilastra foi destruída com a força dela.
– Eu vou te matar! Vou te matar! – ela não podia ver, mas escutava a respiração pesada de Naruto e foi guiando-se por isso. Tentava desferir golpes nele, mas o rapaz desviava de todos.
Foi quando Naruto ouviu o som de mais passos e, de repente, ele estava cercado por dezenas de pessoas — todas elas estavam sujas e mutiladas e nenhuma delas tinha olhos. Aquelas pessoas gritavam e gemiam, murmuravam coisas sem sentido como se fosse loucas, e todas elas foram pra cima de Naruto com a intenção de matá-lo.
Todos ali tinham uma força surpreendentemente grande pra alguém que é praticamente um cadáver. Naruto foi destruindo-os um por um, e preparou um rasengan. Eles todos recuaram ao sentirem o chakra vindo da palma da mão dele, mas logo se recuperaram e voltaram a atacar, mas Naruto desferiu o ataque e acabou com vários deles com apenas um rasengan.
De repente, a porta abriu-se com um estrondo e fez todos as pessoas estranhas soltarem algo parecido com o grunhido de um gato irritado. Sasuke e Sakura irromperam pra dentro e, sem perguntarem nada, começaram a lutar com aquelas pessoas. Sakura soltou um gritinho ao perceber que eles eram todos mutilados e não tinham olhos, mas não parou até que todos foram derrotados.
– O quê aconteceu aqui? — Sasuke perguntou.
Naruto ainda estava um pouco atordoado, mas disse:
– Aqui costumava ser o prédio que o Pain vivia, por isso eu vim investigar, e de repente esse monte de gente estranha apareceu e...
Eles todos ficaram quietos quando perceberam que um deles ainda estava vivo. Era aparentemente uma criança, não devia ter mais de dez anos. Estava todo ensanguentado e também não tinha os dois olhos. O garoto estava batendo com a cabeça na parede freneticamente e sussurrando algo irreconhecível.
Naruto preparou-se para atacar, mas Sasuke o impediu.
– Espere, Naruto.- ele disse. — Esse garoto pode ter alguma informação importante. Devemos levá-lo para a Divisão de Inteligência e ver se eles conseguem arrancar alguma coisa dele.
– Tudo bem — ele disse.
Sakura foi até o menino e deu-lhe um golpe rápido, fazendo-o desmaiar. Eles deram um jeito de envolver alguns panos no garoto e pegaram-no no colo, se preparando pra voltar.
***
Já de volta a Konoha, o trio de shinobis foi diretamente para a Divisão de Inteligência com o menino ainda desmaiado. Encontraram com Morino Ibiki, que disse:
– Se já estão de volta, devem ter conseguido alguma informação.
Eles assentiram.
– Deve ter alguma coisa na mente desse menino que nos ajude.- Naruto disse.
Eles levaram-no pra dentro e colocaram-no em cima de uma maca. Quando tiraram os panos e a venda do rosto do garoto, Ibiki arregalou os olhos, meio que pedindo por uma explicação. Naruto explicou o acontecido no edifício de Amegakure.
– Tortura com certeza não vai funcionar nele. — Ibiki comentou. — Chamem Yamanaka Ino aqui.
– Eh? A Ino? — Sakura perguntou, surpresa.
– Ino provou ser muito boa com o seu jutsu, por isso ela está temporariamente ocupando o lugar do falecido Inoichi.
A garota entrou na sala, e Sakura notou que ela usava agora o sobretudo preto que os membros da Divisão usavam. Ino engoliu o vômito quando olhou para a cara do menino, mas disse:
– Eu vou ver o que consigo descobrir dele. Rápido, levem-no para outra sala. — ela disse, dirigindo-se a outros ninjas da Divisão.
Os três saíram de dentro do prédio da Divisão, atordoados.
– Por que alguém faria uma coisa horrível dessas com essas pessoas? — Sakura disse.
– Já vi coisa parecida quando andava com o Orochimaru, mas isso é realmente medonho.- Sasuke disse, mas apesar de suas palavras, seu tom era entediado. — Eles podem ser vítimas de experiências humanas.
– Experiências humanas? O Orochimaru pode ter feito isso? — Naruto perguntou, alarmado, mas Sasuke negou com a cabeça.
– Amegakure no Sato não fazia parte do território de Orochimaru. Acho pouco provável que ele tenha algo com isso.
– Mas aquela torre era do Pain, certo? A Ino me disse que quando o pai dela checou a mente de um genin da vila, o trabalho dele era levar cadáveres pra lá. Será que o Pain fazia experiências? — Sakura argumentou.
– Não, os cadáveres que o Nagato usava eram para criar novos Pain Tendos, sem contar que eles já estavam mortos. As pessoas lá dentro estavam vivas — Naruto falou.
– Eu não sei o que aconteceu, mas depois que a Ino terminar o trabalho dela e eu fizer a autópsia no corpo do menino, vamos ter uma ideia. — Sakura disse.
***
Já estava no fim do dia quando Naruto e Sasuke voltaram á Divisão de Inteligência. Sakura já estava lá com os cabelos presos e a roupa de médica, o que sugeria que ela já havia realizado a autópsia. A Hokage Tsunade também estava lá, junto com Shizune, que também participara da autópsia. Eles estavam na mesma sala na qual conversaram no dia do sequestro. Shikamaru e mais alguns jounins também estavam presentes.
– A mente daquele menino está muito estranha. — Ino começou. — Eu não consegui diferenciar muita coisa, mas é óbvio que ele tem algum tipo de distúrbio psicológico. Eu só consegui ver claramente em um momento em que ele provavelmente estava deitado numa maca e alguém aproximou-se dele, depois tudo ficou escuro. De resto, a única coisa que eu consegui captar foram vários rostos diferentes... e um deles era o rosto do Takahashi Katsuo.
– Então, não estávamos errados quanto ao rastro de chakra. Katsuo está mesmo envolvido nisso. — Tsunade disse, mordendo a unha do polegar. Depois, voltou-se para Shizune e Sakura. — E quanto á autópsia? Descobriram algo?
Shizune e Sakura entreolharam-se.
– Foi com certeza a autópsia mais estranha que já vi. — Shizune disse. — O corpo do menino estava cheio de perfurações em pontos não-letais feitos por alguma lâmina. Encontramos vestígios de um tipo de chakra que eu nunca vi antes.
– O por quê o menino não tem os olhos não conseguimos descobrir, mas uma coisa me chamou a atenção. — Sakura falou. — Quando tirei as amostras de sangue dele, percebi uma mistura sanguínea, como se o garoto tivesse recebido uma transfusão. Eu consegui separar as células dos dois tipo de sangue e procurei no banco de dados... e o segundo tipo de sangue tinha uma semelhança com o seu sangue, Naruto.
Todos ficaram surpresos com aquilo.
– M-meu sangue? Como assim?! — Naruto perguntou.
– Eu acho que sei porque seu sangue estava ali. — Tsunade disse. — Não exatamente o seu sangue, mas o de um membro do seu clã. Os Uzumaki são conhecidos por serem ninjas incrivelmente resistentes a qualquer tipo de dano. Talvez Katsuo tenha conseguido sangue Uzumaki e injetado no menino para aumentar a sua resistência.
– Pode ter sido isso, sim... — Sakura disse. — Porque se a intenção de Katsuo era aumentar a resistência do menino, ele conseguiu. Aqueles ferimentos dele não são nada recentes, marcam meses... Era pro garoto estar morto agora. Não tem chance de alguém continuar vivo por tanto tempo naquele estado.
Shikamaru permaneceu quieto absorvendo cada informação, quando enfim, disse:
– Katsuo já tentou várias vezes fazer um Jinchuuriki do Akuma. Pelo que vocês disseram, ele tentou colocar o espírito dentro do menino, mas falhou e, pelo que a Kyuubi disse antes, que a vítima deveria ter doujutsu e esse menino obviamente não tinha, os olhos dele caíram por causa disso. O espírito do Akuma deve ser tão perturbador que fez a mente dele ficar completamente conturbada, e isso é até bom para o Katsuo porque, já que os experimentos dele ficaram loucos, não havia chance de terem pistas.
– Nessa parte ele falhou. — Ino disse.
– Ou seja, esse homem desgraçado fez experiências naquelas pessoas e deixou-as pra trás pra apodrecerem, sem nem sequer se dar ao trabalho de matá-las... esse homem é mais cruel que o Orochimaru. — Tsunade falou.
– Aí é que está o ponto principal. — Shikamaru continuou. — Katsuo fez dezenas de experiências e todas falharam. Pra ele se dar ao trabalho de invadir uma vila e causar o que causou só pra capturar uma garota, significa que ele está certo do que está fazendo. Se ele saber mesmo o que quer fazer... significa que as chances de dar errado dessa vez são mínimas.
A tensão pairou no ar com as palavras de Shikamaru. Katsuo estava certo de que conseguiria fazer da Hinata a Jinchuuriki do Akuma. A respiração de Naruto ficou pesada.
– Não podemos deixar esse filho da puta fazer isso com a Hinata! — ele explodiu de repente, assustando a todos.
– Naruto, contenha-se. Estamos trabalhando nas buscas... — Tsunade tentou argumentar.
– Já faz dois dias, Tsunade-no-baachan! Ela pode estar passando por centenas de coisas horríveis nas mãos daquele cara! Não estamos fazendo o suficiente!
Os shinobis presentes apenas observaram o desespero nada comum no rosto de Naruto. Principalmente porque eles nunca o viram ficar tão angustiado por causa de um amigo.
– E o que você sugere que nós façamos? — Tsunade perguntou, lançando-lhe um olhar duro. Naruto não soube responder, e desabou de volta na cadeira.
–É um momento difícil pra todos nós, Naruto. A Hinata também é nossa amiga. Mas nós temos que manter a calma agora. — Shikamaru falou.
Depois disso os ninjas dali foram dispensados, e Naruto foi para uma escada que ficava ao lado as estátuas dos Hokages. O loiro não conseguia ficar parado, andava de um lado para o outro com a expressão cheia de preocupação.
Sakura o observava de longe, mas foi até lá. Naruto só olhou pra ela e não disse nada — o que era muito raro. Agora Sakura estava genuinamente preocupada com ele. Ela nunca viu ele tão angustiado em toda a sua vida.
– Tsunade-sama ordenou pra que passássemos a noite em Konoha e partíssemos amanhã. — ela disse depois de um tempo.
Naruto apenas assentiu e continuou andando pra lá e pra cá.
– Naruto... o quê você tem? — ela perguntou.
Ele olhou pra ela incrédulo.
– Como assim, o que eu tenho? A Hinata foi sequestrada! Imagine o que ela pode estar passando... — ele apoiou-se na grade na escada e olhou pra baixo. — Hinata sempre apareceu na hora que eu mais precisava... ela sempre se arriscou por mim, mesmo sabendo que iria morrer. E agora, ela foi sequestrada e eu nem pude impedir...
– Já entendi o que está acontecendo... — Sakura disse.
– Hein? Como assim?
Ela, que estava sentada em um degrau, levantou-se.
– Nunca te vi assim antes, Naruto, nem quando o Sasuke fugiu da vila. Não te vejo nesse estado desde que Jiraya-sama morreu. Você está genuinamente preocupado com a Hinata mais do que com qualquer um.
Naruto olhava-a, sem entender.
– E daí? Ela é uma amiga...
– "Amiga"? — ela fez que não com a cabeça. — O que está acontecendo aqui é que você gosta da Hinata, Naruto, e só agora está dando valor a ela, porque a perdeu.
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