Um Amor Complicado.
3 Capítulo 3 - Desvendando-o.
Notas iniciais
Capítulo 3 — Desvendando-o.
Os raios de sol batem em meu rosto, passando pelo vidro da porta da sacada. Viro-me na cama, tentando sair daquela claridade indesejada. O calor do sol bate nas minhas costas nuas, o que me faz arrepiar de uma forma até gostosa.
Sinto outro calor, só que dessa vez, na minha frente. Instintivamente estico os braços e trago o corpo para mais perto de mim, enterrando meu nariz em seus cabelos. Sinto o cheiro de meu próprio shampoo. Com as pontas dos dedos, acaricio a pele do braço, sentindo a maciez.
Hm... É tão bom. Sinto falta disso.
– Uh... – ouço. Um resmungo rouco, baixo.
Assustado, abro os olhos imediatamente e descolo nossos corpos. Respiro com um pouco de dificuldade, e ainda sinto seu calor em meu corpo.
Ah, merda. Que droga. Eu estava gostando de dormir de “conchinha” com um cara que conheci ontem. Está foda, a vida.
Viro-me de costas para Sanji , sentindo o sol em meu rosto novamente.
Porra. Eu só queria dormir. É domingo, merda.
Levanto-me lentamente, para não acordá-lo. Vou até a sacada e me sento na grande cadeira macia, de frente para o límpido céu do Japão. O sol, ainda fraco, bate nas árvores, fazendo-as ainda mais bonitas do que o normal. O clima um pouco frio do outono me agrada por conta disso. Nessa estação, o sol não me queima e nem me faz suar como um porco.
– Ohayo, Zoro. – ouço, da sacada ao lado. Viro meu rosto em direção à voz doce e feminina que me cumprimenta.
– Ohayo, Robin. – respondo, sorrindo um pouco. Não deixo de admirar seu belo corpo coberto apenas por uma camisola curta, de seda. – Não está meio cedo? Seis e meia da manhã.
– Digo o mesmo. – responde ela, sorrindo. Logo em seguida, vira o rosto, olhando para o céu e bebericando sua xícara de café. – Eu só acordei cedo porque vou trabalhar. A Arqueologia me espera.
– Entendo. – respondo, me levantando. Alongo-me e solto um bocejo. – Bom, eu vou voltar a dormir. Bom trabalho, Robin.
– Muito obrigada. – responde, e adentro ao quarto, observando o ambiente.
Dou a volta na cama e me certifico de que ainda está um pouco molhada.
– Ah, foda-se. – murmuro, deitando-me na cama. – Vou acordar lá para as 10:00.
Alcanço meu celular sobre o criado-mudo e pressiono meu polegar contra o botão principal, desbloqueando-o por meio da leitura de digitais. Programo-o para despertar às 10:00 e, suspirando, volto a dormir.
A música desgraçada do alarme me acorda no susto.
Sento-me na cama e esfrego os olhos, incomodado com a luz acesa do quarto. Quem acendeu essa porcaria?
– O café está na mesa, preguiçoso! – ouço, da cozinha. Sinto uma veia começar a pulsar em minha testa.
– Você está na minha casa, seu folgado! – grito de volta, me levantando. Ando até a cozinha e o vejo enchendo duas xícaras de café, da mesma forma como fez ontem.
– Você dorme demais. – reclama. Puxo uma cadeira e me sento, observando sua cara de ressaca.
– Aposto que você está com dor de cabeça. – falo. — Eu tenho remédio, se quiser.
Ele assente, colocando a mão na testa.
– Vou tomar. E acho que estou com um pouco de febre também. – resmunga.
– Depois que a gente comer, eu te empresto meu termômetro. – ofereço.
– É digital? – pergunta, e eu reviro os olhos.
– Não. É de... Mercúrio. Ou algo assim. – respondo, desinteressado.
– Não seja burro. – responde, o que causa ainda mais irritação em mim. – Um litro de Mercúrio pesa mais de 13 quilos. Se fosse de Mercúrio, você teria muita dificuldade até em segurar o termômetro, de tão pesado.
– Ah, cala essa boca. O termômetro é meu. Se eu quiser que ele seja de água de esgoto, vai ser. E ponto final. – respondo, rindo de minha própria afirmação sem noção. – Para que você quer saber se é digital ou normal? Quanta complicação.
Ele não resiste e ri um pouco também.
– Certo. Você gosta mesmo de arroz, hein? – pergunta.
– Sim, gosto. Especialmente Onigiri. – respondo. – Mas como sabe disso?
– Fucei na sua geladeira. – confessa, dando de ombros.
– Está explicado, então. – concluo. Neste momento, ele tira um bolo perfeito do forno. – Uau. Você pensa em tudo.
– É meu trabalho. – responde.
– Algum dia eu vou almoçar no restaurante que você trabalha. – falo, e ele sorri um pouco. – Aposto que a comida é ótima.
– Então, que tal hoje? É meu dia de folga. – sugere, e minha barriga já ronca.
– Acho que eu vou aceitar. – respondo. – Mas você dirige.
– Dirigir? Eu? – pergunta. Encaro-o e tento enxergar por baixo de seus óculos escuros. — Não. Impossível.
– O que? Por quê? — pergunto, mas ele nada diz. Seu rosto sustenta um leve rubor. – Você não sabe?
– N-Não é bem assim... – murmura, envergonhado.
– Não, sem problemas. Eu dirijo. – tranquilizo-o, segurando uma risada.
– Não ria. Não tem graça. – diz ele, envergonhado.
– Tem sim. – respondo, suspirando para não rir. – Mas eu não vou te zoar, nem nada parecido. Sabe, aquelas duas dizem que eu tenho um péssimo senso de direção. Claro que é mentira.
– Só elas duas? – pergunta, se sentando na cadeira ao meu lado. Vejo alcançar a faca e cortar dois pães, me entregando um deles.
– Obrigado. – agradeço. – Bom... Não só elas duas. O Usopp também acha. Franky, Chopper... Até mesmo a Vivi.
– Ah, Vivi-chan... Faz tanto tempo que eu não a vejo... – ele comenta, com a mesma voz de apaixonado.
– Você a conhece também? – pergunto. Ele assente.
– E os outros dois. Luffy e Brook também. – esclarece.
– Me pergunto por que nós dois não nos conhecíamos.
– Talvez seja porque nós dois somos competidores. – considera, e eu concordo.
– Qual vai ser sua próxima competição? – pergunto, curioso para vê-lo lutar. Não é todo dia que você vê pessoas com essa habilidade nas pernas.
– Hm... Eu ainda não tenho certeza, mas provavelmente será nas próximas Olimpíadas de Verão. – responde.
– Eu também. Infelizmente, não pude ir competir em Sochi. Em Olimpíadas de Inverno não há modalidades com Katanas. – falo, abocanhando meu pão.
– Nem Taekwondo. – observa, e eu concordo.
– Vai ser no Brasil. Do outro lado do Pacífico. – lembro.
– Sim. Ouvi dizer que lá tem belas mulheres. E que os biquínis são muito pequenos. – diz ele, o que me faz rir.
Pego um pedaço de bolo e provo.
É de milho.
– Muito bom. – elogio. – O bolo está muito bom.
– Eu sei.
Convencido.
– E o café também.
– Sei disso. – responde.
Ele me irrita, mas eu gosto disso. Me causa uma sensação boa.
Como mais um pouco e, quando me sinto cheio, deito-me no sofá, esticando-me.
– Zoro, o que eu faço com a louça? – pergunta ele, e eu resmungo, com preguiça.
– Deixa tudo na pia que depois eu lavo! – grito de volta, alcançando o controle do vídeo-game.
Ligo o aparelho, entrando no meu utilizador.
Segundos depois, Sanji chega e se senta no outro sofá.
– Está a fim de jogar? – pergunto. – Eu tenho Mortal Kombat, God of War Ascension, Guitar Hero Legends of Rock e Assassin’s Creed.
– Mais algum?
– Tenho Naruto Storm 3, mas eu emprestei. – respondo.
– Hm... Não, não quero.
– O que quer fazer, então? Temos umas duas horas até o almoço. – falo.
– O que você quer fazer? – pergunta, de volta.
– Sexo. – respondo, sincero. — Se uma mulher estivesse comigo, eu não estaria jogando vídeo-game agora.
Ele sorri.
– É, eu também.
Fico mais alguns segundos em silêncio.
– Vou pegar o termômetro. – aviso. Busco o termômetro e, quando volto, entrego-lhe. – Acha que está com febre?
– Sim. Talvez... 38°C.
– Porque? Você está doente? – pergunto, curioso. Ele coloca o termômetro embaixo do braço e fica imóvel.
– Bom, digamos que eu... Tenha alguns probleminhas de saúde. – murmura, sorrindo minimamente.
É estranho, mas... Quando ele fala assim, sinto uma aura sombria nele. Não sei o motivo, mas me sinto estranhamente ligado a esse Ero-Cook.
E aparentemente, ele não gosta de falar desse “probleminha de saúde”.
– Esse “probleminha” é sério? – pergunto, curioso e preocupado ao mesmo tempo.
– Sim. Bastante. – admite.
Decido não entrar em mais detalhes. Afinal, se ele quisesse me falar, já o teria feito.
– Vou pegar um pouco de sakê. Quer? – pergunto. Ele nega com a cabeça.
Ando devagar até a cozinha e abro a geladeira, pegando uma das minhas garrafas da bebida.
Ouço a música de um celular, e corro até a porta da cozinha.
Espera. Não é o meu.
– Oi. Ah, Chopper. – ouço, tão baixo que tenho que aguçar minha audição. Sanji está quase sussurrando.
Ele fica alguns minutos sem falar.
– Sim, estou medindo agora. – Vejo-o tirar o termômetro do lugar e olhá-lo. – 40°C.
Do outro lado da linha, Chopper solta vários gritos.
– Eu sei, eu sei. Ontem eu bebi. – diz Sanji. E após alguns minutos, volta a falar. – Okay. Estou indo para aí.
Entro na sala, com a garrafa na boca.
– Você vai ao consultório? – pergunto. Por acidente, algumas gotas da bebida caem em meu peito e escorrem até minha cueca. – Merda. Babei. Tem sakê na minha cueca.
Ele ri. Sigo seus movimentos quando ele se levanta e vem em minha direção.
– Deixe-me prova-lo. – pede. Eita. Calma. Provar o que? Ele vai me lamber?
– O que?
– O sakê. Me dê a garrafa. – pede, e eu suspiro, entregando-lhe.
Por um momento, me sinto decepcionado por não receber lambidas.
– Hm. Você tem bom gosto para bebida. – elogia. – Agora, me empreste umas roupas. Preciso ir ao consultório.
– E se eu não quiser? – pergunto, provocando-o. – Sabe, não gosto muito de emprestar minhas roupas.
– Se você não quiser, vou pegar de qualquer jeito. – responde, indo em direção ao quarto. Sem querer, esbarra numa das cadeiras da mesa de jantar e segura o quadril, fazendo uma careta de dor.
– Você está bem? – pergunto, correndo até ele.
– Sim. – responde. – Só está doendo. Merda, porque essa cadeira é tão pesada?
– Na verdade, eu não sei. Foi a Nami que decorou meu apartamento.
Ajudo-o a andar até o quarto e pego uma calça minha dentro do guarda-roupa. Jogo-a, e ele a pega no ar.
Procura uma camiseta simples e faço o mesmo, jogando-a por cima do ombro.
Em segundos, ele já está completamente pronto.
– Só um minuto. Vou tomar um banho e já volto. – falo, e ele concorda.
–-----X-------
Saindo do apartamento, entramos no elevador e eu aperto o botão do subsolo.
– Espera, espera! – ouço, e seguro as portas do elevador. Nami aparece e se surpreende. – Ah! Bom dia!
– Nami-swan! – fala Sanji. – Você está tão cheirosa!
– Obrigada, Sanji-kun. – agradece. – Vocês estão indo aonde?
– Ao hospital. Sanji vai passar no Chopper. – respondo, e ela parece entender tudo, sem precisar de explicações. Minha conclusão é a de que ela sabe o “probleminha” dele.
– Entendo. Mas... Quem vai dirigir?
– Eu. – respondo, e ela faz uma cara de horror que me assusta. – Quê isso, mulher!?
– Sanji-kun, o Zoro não pode dirigir. Ele DEFINITIVAMENTE não pode dirigir! – grita ela, sacudindo Sanji, que só falta desmaiar de tanta paixão.
– Espera um pouco aí, Peituda Mercenária. Porque eu não posso dirigir meu próprio carro? Foi muito caro! – reclamo, irritado.
Levo um cascudo que quase afunda minha testa.
– Porque se você dirigir, Zoro... Vocês vão acabar no Egito! – grita, brava.
– Se você não sabe, tem muita água entre o Japão e o Egito! – respondo.
– Pois é. E mesmo assim, vocês chegariam lá. – diz ela, me irritando mais ainda.
– Então porque você não dirige? – pergunto. — Já que eu sou tão ruim, porque você não o faz?
Ela parece ficar com um pouco de peso na consciência.
– Tudo bem, desculpa. – pede ela. – Mas eu dirijo.
– Foi o que eu disse.
O elevador desce até o subsolo e ela sai primeiro. Dou os primeiros passos para fora e percebo que Sanji não está nos seguindo.
Olho para trás.
– Ero-Cook? – pergunto.
Com a mão na testa, ele permanece apoiado na parede de aço, com o rosto corado e suando. Parece ofegante, e com algum tipo de dor forte.
– Acho que... Não estou muito bem. – assume. Ao tentar dar um passo, cambaleia e se segura novamente. Suas pernas tremem, e seus óculos escuros caem no chão. – Merda. Meus óculos.
Seus olhos viram para trás e ele paralisa ao tentar pegar o óculos. Como que em câmera lenta, vejo-o cair no chão e começar a tremer, inconsciente.
– Sanji-kun!! – grita Nami, ao tempo que começo a correr de volta para o elevador. Chego ao cubículo e, desesperado, fico sem reação.
Merda. Ele não para de tremer. O que eu faço?
– Nami, corre até o carro e ligue-o! Toma a chave e o alarme! – grito, jogando os dois em sua direção.
Volto minha atenção para o homem deitado no chão. Me ajoelho e observo-o. As veias de seu pescoço estão violentamente saltadas, e a pele está muito vermelha. Os olhos estão totalmente brancos, de tão virados.
Encosto minha mão em seu rosto e tiro rapidamente.
- Mas que porra é essa? Minha mão queimou! – falo, sentindo minha mão ardendo. – Nami, anda logo! Ele vai morrer! Está ardendo em febre!
Ouço várias derrapadas e uma buzina.
Pego Sanji no colo com facilidade, pegando seus óculos com a ponta dos dedos. Corro até o carro e entro no banco de trás.
– Corre, Nami! – grito, e ela passa pelo portão automático rapidamente. – Quanto tempo vai demorar?
– Dez minutos, se não houver trânsito. – responde. – Como ele está?
– Como você quer que eu saiba? Ele estava tendo tremeliques até agora a pouco! – falo, tirando os cabelos molhados de suor da testa de Sanji.
– Ataque Epilético. Acontece quando a febre está muito alta. – explica ela.
– Ele está muito quente. – comento.
– Certo. Faça tudo o que eu mandar, daqui para frente. – fala, e eu apenas assinto, desesperado. Porra, ter uma vida por um fio no seu colo não é fácil. – Ele por acaso mediu a febre lá em cima?
– Mediu. E falou com o Chopper por telefone. Pelo que ouvi, deu 40°C. – respondo.
– Merda! Imbecil! – grita, desviando de um motociclista que a fechou. –Zoro, tire a camiseta dele e use a sua para secar o suor!
Tiro sua camiseta molhada e também a minha, pressionando-a contra sua testa e depois, seu peito.
– O coração dele está parecendo uma Escola de Samba, Nami. – falo, e ela me olha pelo retrovisor.
– Sim, eu sei. Agora, ouça sua respiração. Quantas por minuto? – pergunta, e eu encosto o ouvido em seu nariz. Ligo o cronômetro do meu celular.
– 70 por minuto. – respondo. – Ele está muito ofegante. Qual é o normal?
– Por volta de 40! – grita, desviando de um carro e entrando no acostamento.
– Quarenta!? – grito, assustado.
– Zoro, cadê aquela garrafa de água que você deixou no carro há três semanas?
– Está no porta-luvas. – respondo. Ela se estica e pega a garrafa, passando para trás.
– Molhe sua camiseta com ela e pressione na testa dele. Talvez melhore um pouco. – diz ela. – É uma droga, mas... Teve um acidente lá na frente. O trânsito está horrível.
– E como você sabe desse acidente?
– Estou vendo pelo GPS. Merda. – reclama.
– Mete a mão na buzina, Nami! Faz alguma coisa! – grito, molhando a camiseta.
Para a minha surpresa, Nami coloca metade do corpo para fora do carro e começa a gritar pelo policial, que corre até nós.
– O que houve? – pergunto o homem.
– Estamos com uma emergência no banco de trás e precisamos chegar ao hospital. Policial, tem como usar uma das suas motos para abrir passagem para nós? — pergunta ela.
O policial analisa toda a situação, hesitante. Por fim, aceita.
E em dez minutos, chegamos ao hospital.
– Você estaciona. Eu vou entrar com ele. – falo, e ela assente.
Corro com Sanji até a entrada do hospital, mas sou barrado por dois seguranças.
– Sem camisa não entra, senhor. – diz o mais velho.
– Como é? — pergunto, inconformado. – Eu estou com uma pessoa morrendo nos braços e você me pede para colocar uma camiseta? Vai se foder!
Usando pouquíssima força, me desvencilho dos dois.
– Por favor, ajuda! – grito, alarmando todo mundo. – Ele está passando mal!
– Senhor, você não pode gritar dentro de um hospital. Vou pedir para se retirar. – diz uma recepcionista, colocando as mãos em meu braço.
– Era só o que me faltava. Ao invés de me encher o saco, traga um médico! – grito, bravo. – Um médico! Só um!
– Infelizmente, estamos lotados hoje. O senhor tem que pegar uma senha e aguardar. – fala outra recepcionista.
– Lotado? – pergunto, e olho no rosto de cada paciente à espera. Revoltado, solto todas as verdades que encontro. – Isso é desculpa. Vocês têm ideia de quantos médicos estão, neste momento, parados dentro do consultório, jogando Flappy Bird!?
Em seguida, olho novamente para a mulher.
– “Lotação” é só uma desculpa esfarrapada. Então, ao invés de ficar enchendo linguiça, traga-me um médico!
Sanji começa a tremer em meus braços.
– Vocês querem que eu ponha uma camiseta? – pergunto. Me desculpe, mas é preciso. Deito Sanji no chão do hospital e coloco minha camiseta molhada de água, pegando-o no colo novamente, ainda tremendo. – Aqui. Uma camiseta. Agora, você vai lá e busca a porra de um médico, sua desgraçada!
A mulher fica realmente assustada e sai correndo. Não vou deixa-lo morrer. Não enquanto eu puder fazer alguma coisa para impedir isso.
Em instantes, aparecem oito médicos no saguão do hospital.
– “Lotação”, né? – pergunto, irônico.
Chopper sai do meio deles, em sua forma “Heavy Point”.
– Chopper! – chamo, aliviado.
– Eu acabei uma cirurgia agora... O que aconteceu? – pergunta ele, e em seguida olha para o corpo em meus braços. – Sanji!
– Eu não sei o que aconteceu, ele simplesmente...
– Tudo bem. Venha comigo. E vocês, médicos... Atendam, ao invés de ficar no Facebook. – bronqueia ele, também nervoso. Chefe dos médicos com muitos méritos.
– Zoro! – grita Nami, da porta. Chamo-a com a cabeça e ela me segue.
Entramos nos corredores do hospital, e Chopper nos conduz até a Emergência.
Quando deito Sanji na cama, Chopper já encosta vários pontos em sua pele, medindo seus batimentos cardíacos. Pega também a máscara de oxigênio e coloca nele.
– Certo. A febre dele está muito alta. – constata ele. – Algum ataque?
– Um. – diz Nami.
– Dois. – corrijo. – Um no elevador e outro aqui no hospital.
– Vou pedir para que vocês dois saiam. Quando eu terminar de cuidar dele, chamo. – diz Chopper, e nós dois concordamos.
Sentamos nas cadeiras de espera, no corredor. A camiseta molhada gruda em meu corpo quente, e em segundos, estou com frio, por causa do ar condicionado. Nami percebe.
– Droga. Pior é que eu não tenho nada para te emprestar...
– Tudo bem. Não vou ficar gripado nem nada parecido. – asseguro.
– Não tenho tanta certeza disso. – murmura ela, e eu reviro os olhos.
– Nami, há quantos anos nós somos vizinhos? – pergunto, e ela pensa um pouco.
– Vários anos. – conclui, e eu assinto.
– Isso. – concordo. – Alguma vez você já me viu doente?
– Não. – admite.
– Além do mais, o sakê que tomei de manhã ainda está correndo nas minhas veias, me esquentando o suficiente. – resmungo, coçando a cabeça. — Estou com sono.
– Conta uma novidade, agora.
Ignoro seu comentário.
– Nami, esse negócio de ataque epilético... Ele os tem com muita frequência? – pergunto, curioso. Ela pensa na resposta.
– Não digo com muita frequência, mas geralmente acontece quando ele bebe muito. – explica.
– O que a bebida tem a ver com isso? – pergunto, e nesse momento, a porta é aberta.
– Podem entrar. Ele está melhor e acordado. – anuncia Chopper, em sua forma normal de rena fofa e redonda.
Nos levantamos e, ao entrar na sala, sinto um alívio enorme ao vê-lo bem.
– Sanji-kun! – solta Nami, dando-lhe um abraço carinhoso. – Eu estava preocupada!
– Obrigado, Nami-san. – agradece ele. Usa um tampão de olhos, desses de dormir. – Não lembro muito bem do que aconteceu, mas estou melhor.
– Sanji, eu preciso conversar com você. – fala Chopper, se sentando em sua cadeira. Seu tom de voz é mais formal que o normal. – Você precisa parar de dar essas escapadas para baladas. Quando você vai em festas, sempre acaba bebendo muito.
Espera. O quem tem a ver? Alguém me explique, por favor!!
– Chopper, eu tenho apenas 22 anos. Eu sei que tenho meus problemas, mas preciso viver minha vida também. – responde ele. Inconscientemente, concordo com ele.
– Sim, você só tem 22 anos. Mas você tem que se lembrar de que a sua doença é a mais avançada que já vi na minha vida. – rebate o doutor. “Probleminha” é o cacete.
– Desculpa a interrupção, mas... Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Não entendi nada até agora. – digo.
– Sanji... – murmura Chopper, como quem pede permissão. Sanji hesita e assente.
– Então? – pergunto, impaciente.
– Zoro, o Sanji tem uma doença que é muito comum, mas mortal se não for cuidada. – começa Chopper. – Por causa dessa doença, ele não pode nem sonhar em comer coisas muito calóricas.
– Sanji tem diabetes. – diz ele. Fico surpreso.
– Só isso? – pergunto.
– Só que é um caso raro. – continua. – Acontece que a mãe dele tinha diabetes tão forte que, ao engravidar, passou a doença para ele. Graças a isso, Sanji já nasceu com a doença muito avançada. Porém, ela só foi diagnosticada há três anos, por mim. Devo dizer que é um verdadeiro milagre ele não ter morrido antes disso.
– Certo. – murmuro, assimilando a história e a explicação. – Mas qual é o motivo da febre e os ataques?
– Os ataques aconteceram por causa da febre muito alta. Da hora que eu liguei até a hora do ataque, aumentaram mais dois graus. Quando o corpo humano chega aos 42°C, o ataque epilético é uma reação normal. – explica. – E essa febre foi causada por que esse Cabeça de Vento esqueceu de uma das doses da Insulina.
– Ah. Então, ele simplesmente esqueceu de aplicar uma das injeções que o mantém vivo. Entendi.– comento, irônico.
– Você acha mesmo que eu lembraria, com toda aquela cachaça rondando meu cérebro? – se defende.
– É por isso que eu não gosto que você beba. – reforça Chopper.
– Mas e mãe dele? A doença dela é tão forte quanto a dele? – pergunto.
– Não tão forte quanto a dele, pois ela cuidava. Por causa da falta de coagulação sanguínea, ela morreu algumas horas depois do parto. – explica ele. Sinto um aperto no peito e olho para o homem deitado na cama. Entendo. Ele é como eu.
– Sinto muito. – falo, e ele sorri um pouco.
– Sente mesmo? – pergunta. – Tem ideia do que é nunca ter visto o rosto de sua própria mãe? Daquela que deu a vida pela sua?
A sala fica com um ar pesado e triste.
– Minhas únicas memórias da minha mãe são de fotos, Ero-Cook. – falo.
– Pois é. Eu nem isso pude ver. – resmunga, me confundindo.
– O que? Como assim? – pergunto. – Você não tem fotos da sua mãe?
– O que ele quis dizer, Zoro... – diz o médico – É que ele realmente NUNCA viu o rosto da mãe. Entendeu?
– Não. – assumo.
– Ele contraiu e desenvolveu um diabetes tão forte, que a doença afetou também sua visão. – fala Chopper, e finalmente pego a mensagem nas entrelinhas.
– O QUÊ!?
– Sim, Zoro. Eu sou cego. – fala Sanji. – Nasci assim.
Minha surpresa não me permite formar palavras.
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