Um Amor Complicado.
4 Capítulo 4 - Sentindo-o.
Notas iniciais
Capítulo 4 — Sentindo-o.
Estou estático. Não tenho palavras. Não consigo pensar em nada. Não, é impossível. Só pode ser zoeira.
– C-C-C-Cego!? – grito, gaguejando de um jeito vergonhoso. – Espera. Não. Sério?
Sanji simplesmente ri.
– Sim, é sério. Eu não enxergo. – confirma, e eu coloco a mão na testa. Sento-me ao lado de Chopper. – Tudo que vejo é uma imensidão sombria.
– Espera. Tem alguma coisa errada. – interrompo-o. – Você diz que não enxerga, mas... No tempo que nós passamos juntos, eu não te vi esbarrar nenhuma vez.
– Viu sim. Hoje de manhã eu esbarrei naquela cadeira pesada. – fala ele, e me lembro que realmente, ele quase caiu. Lembro-me também da noite passada, quando ele bateu a perna no mármore, dentro do banheiro. – Como eu não conheço seu apartamento direito, não consegui visualizar muito bem, mas... Como eu disse, eu sinto a presença das coisas.
– E essa coisa de amar tanto as mulheres? – pergunto, curioso. – Quer dizer, você nunca viu uma mulher.
– Eu nunca vi merda nenhuma. – diz ele, e eu tenho que concordar. – Eu gosto das mulheres porque são as batalhadoras da humanidade e, sem elas, homem algum vive. Além do que... Elas são muito macias. Não é, Nami-swan?
– Se você diz. – fala ela, sorrindo.
– Mas que... Porra... – murmuro, ainda descrente. – E eu aqui, reclamando da vida. A pessoa tem que ter muito azar, para já nascer desse jeito.
– Como eu disse, é realmente muito raro de acontecer. – fala Chopper.
– Mas não tem nenhum jeito de melhorar isso? – pergunto.
– Bom, nós temos alguns métodos que testamos no Sanji, mas não foi eficaz. – responde a rena, e eu apenas assinto, esperando-o continuar. – Mas para explicar esses métodos, eu preciso antes explicar como ocorre a cegueira. Preparado?
– Claro. – respondo, e ele suspira.
– O descontrole do diabetes provoca fissuras, também chamadas de “micro aneurismas”, nos vasos da retina. – começa ele. Em seguida, pega um caderninho e começa a desenhar sobre o papel, ilustrando sua explicação. — Por elas, escapam líquidos como gorduras e o sangue, que ficam infiltrados dentro das camadas da retina e são responsáveis por comprometer as células nervosas visuais e provocar a cegueira.
– Entendi. – asseguro.
– Normalmente, um oftalmologista consegue diagnosticar essas fissuras com as pupilas do paciente dilatadas. Mas, por incrível que pareça, o Sanji conseguiu passar em um oftalmologista totalmente irresponsável, que disse que sua visão era impossível de reverter, além de só ter visto as fissuras depois de dois meses de tratamento.
– Cacete. Sanji, acho que, na hora que você nasceu, um urubu cagou na sua cabeça. Não é possível uma coisa dessas. – falo, e ouço sua risada.
– Honestamente, eu também não encontrei uma cura para ela ainda, mas vou continuar tentando. – fala ele, e sorrio com sua persistência.
– Certo. E os métodos? – pergunto, voltando à questão anterior.
– No estágio inicial da doença, o tratamento com laser consegue queimar as fissuras e restaurar a visão. Em fases mais agudas, elas não se fecham por completo e é preciso complementar com injeções aplicadas no próprio globo ocular, a cada 30 dias, durante três meses. As injeções favorecem a absorção de sangue e gordura infiltrados e corrigem o dano. – ele diz.
– Ele não tomou essas injeções?
– Sim. Inclusive, fui eu que tentei o laser. Depois, tentei as injeções direto nos olhos, durante oito meses – fala – Sanji, você conseguiu ao menos ver alguma mancha?
– Não. Nada. – responde ele.
– Mas ele também não ajuda. Esquece as injeções de Insulina e, ainda por cima, fuma. – Chopper parece levemente irritado.
Suspiro e encosto a cabeça nas mãos. Vejo quando Chopper vira a cabeça lentamente na minha direção, seus olhos cheios de ideias mirabolantes.
– Que foi? – pergunto.
– Zoro, você acabou de me dar uma ideia magnífica. – diz ele, sorrindo. – O que você acha de me emprestar seus braços?
– O que quer dizer?
– Não deixe o Sanji fumar. – conclui. – E também não pode deixa-lo ficar muito bêbado.
A ideia me deixa interessado.
– Vou ganhar alguma recompensa? – pergunto, sorrindo um pouco.
– Claro que vai. – fico ainda mais interessado. – Daqui três dias, vou viajar para Singapura para comprar drogas medicinais fortes. Se você fizer o que estou te pedindo, vou te trazer o Rum mais caro que encontrar. O de melhor qualidade.
– Rum? É bebida de pirata. – observo, e ele concorda, sorrindo de volta. – Trato feito.
– Então, deixo Sanji aos cuidados de vocês três durante as duas semanas que ficarei fora. – fala Chopper, satisfeito.
– Três? – pergunto.
– Você, Nami e Robin. – explica ele, e eu concordo.
Ele se levanta, arruma o jaleco e pula na cama.
– Sanji, eu vou te dar um comprimido de Paracetamol e vou pingar algumas gotas do meu colírio. Tudo bem? – pergunta.
– Merda. Aquele colírio arde muito mais do que cebola. – reclama o louro. – Mas tudo bem, fazer o que.
Chopper sorri e, depois de dar o comprimido para ele, pinga cinco gotas do colírio em cada olho. Em todo o processo, não vejo o rosto de Sanji.
– Pronto. Pode se levantar. Você está liberado. – finaliza o médico.
– Certo. Obrigado novamente, Chopper. Vou aplicar minhas injeções direito, prometo. – assegura Sanji, com os olhos ainda tampados. Agora, ele está com os olhos vedados por tampões de algodão.
– Que bom.
Nami coloca os óculos escuros em seu rosto, cuidadosamente.
– Bom, eu preciso atender mais pacientes. Vou sair antes de vocês. – fala Chopper. – Se cuidem!
– Sim, doutor!
– Eu não gostei nada do seu elogio, seu bobão! – responde ele, e eu rio.
A camiseta molhada começa a me dar calafrios.
– Onde foi parar minha camiseta? – pergunta ele.
– Está dentro do carro, no banco de trás. – respondo. – Tive que tirar, porque você estava todo suado.
– Ah, entendi. – murmura. Em seguida, passa o braço por cima da Nami, abraçando-a. – Nami-swan! Porque você não me guia?
– Nem a pau! – grita Nami, se separando dele. – Eu sei muito bem que você pode andar sem problemas, tarado!
– Você fica tão linda quando está brava...
Linda? Cara, você... Tem algum problema mental. Não é possível.
– Então... Você pode pelo menos me emprestar o seu braço? – pergunta ele, sorrindo. Putz, ele está triste. – Afinal, eu nunca vi para esse lado do hospital, então não posso me posicionar.
De repente, o celular dela toca, e ela atende rapidamente.
– Sim? – pergunta. – Ah, Luffy! Que milagre, você está usando o celular!
– Diga a ele para comer vegetais. – fala Sanji, e eu tenho que rir. É difícil imaginar o Luffy comendo legumes, verduras e qualquer outra coisa além de carne e frutas.
– O Sanji-kun pediu para você comer vegetais. – fala Nami, tirando o celular do ouvido e colocando no alto-falante.
– Hã? Vegetais? – pergunta ele, com uma voz de puro desgosto. – Não gosto!
– Não é para gostar, Luffy. É só pra comer. – responde Sanji.
– Não! Me recuso a comer qualquer coisa, além de carne, que você não tenha feito! – Luffy responde.
– Estou lisonjeado. Mas... Isso quer dizer que você só tem comido carne? – pergunta ele.
Segue-se alguns segundos de silêncio.
– É! – assume ele, rindo. Sanji dá um tapa na própria testa.
– Da próxima vez que eu for na sua casa, vou cozinhar para você. Ok?
– Sério!? Quando? Hoje? Amanhã? – pergunto Luffy, ansioso.
– Não sei. Mas eu vou. – promete o louro.
– Ei, Luffy! Avisa para a Nami que eu usei aquele dinheiro para comprar umas sementes! – grita Usopp, de longe.
Nami aperta o telefone com força.
– Você usou o meu precioso dinheiro para comprar sementes!? – grita ela.
– Mas o dinheiro estava comigo! – grita Usopp, de volta. – E além do mais, eu não estava mais te devendo nada!
– Estava sim! Esqueceu que eu cobro juros? – pergunta. – Ah, meu Deus! Luffy, segura o Usopp aí na sua casa. Estou a caminho.
Então ela desliga o telefone e o coloca no bolso.
– Pessoal, tenho que ir.
– Eu posso te levar de carro... – começo, mas ela interrompe.
– Não precisa, Zoro. Eu vou pegar o táxi. Se demorar muito, vou de ônibus mesmo. – diz ela. – Vou sair pela emergência.
– Okay! Até mais, Nami-san! – despede-se ele, enquanto eu apenas a observo correr até a saída.
– Certo. Vamos embora, então. – concluo. – Ero-Cook, prefere o braço direito ou o esquerdo?
– Pode ser o esquerdo. – responde, e eu passo para o outro lado de seu corpo. Sanji põe a mão na dobra de meu cotovelo, e sem querer, sente a manga de minha camiseta. – Está molhada?
– É. Eu tive que molhá-la para aliviar sua febre. – explico, já caminhando pelos corredores do hospital. Procuro as placas de sinalização.
– Não está molhada. Está encharcada. – comenta, e eu dou de ombros.
– Pelo menos foi útil. – observo, e ele concorda.
Minutos depois...
– Nós não estamos demorando demais para sair? – pergunta.
– Não é culpa minha. Esse lugar parece um labirinto. – falo.
– Quando nós chegarmos perto de algum segurança, me avise.
– À sua esquerda tem um.
– Com licença! – fala ele. – Onde fica a saída?
– É só seguir reto e depois virar à direita. – responde o homem. Ao perceber que Sanji não enxerga, ele especifica. – Conte mais ou menos cinco passos para a frente, vire à direita e conte mais uns doze.
– Obrigado.
Sanji, ao contar cinco passos para frente, me força a virar no corredor da direita.
– Agora mais doze. – murmura. Em seguida, começa a soltar pequenos sussurros. – Um, dois, três, quatro, cinco, seis...
E, por fim, estamos fora, no estacionamento.
Um vento frio passa por nós, forte. Minha pele se arrepia ainda mais e minha camiseta parece mais gelada do que nunca.
– Merda. – olho para a minha esquerda e vejo que, apesar de não demonstrar, Sanji também sente o frio do vento forte. – De onde veio esse frio?
– Cadê seu carro? Nós viemos nele, certo? – pergunta ele, e eu assinto.
– Vamos. Você deve estar com mais frio do que eu. – falo, e puxo-o.
Tiro o alarme do bolso e aperto o primeiro botão. Ouço o apito do alarme há alguns carros de distância e, quando chegamos, dou a volto com Sanji e abro a porta do carona. Então, vou para meu assento de motorista.
– Colocou o cinto? – pergunta ele. Puxo o cinto de segurança e travo.
Procuro o GPS no banco de trás e, ao acha-lo, grudo-o no para-brisa.
– Certo. Você quer ir para a sua casa direto ou quer passar em algum lugar antes?
Ouço seu suspiro.
– Por favor, me leve para casa. – pede.
Espera aí. “Por favor”? Como assim? Ele está me pedindo “por favor”? O que aconteceu?
– Por favor? – pergunto, espantando. – O que aconteceu?
– Só... Liga essa porcaria de carro. – resmunga, e aquilo me ofende.
– Ei! Meu carro não é porcaria! – reclamo, ligando-o. – Eu paguei muito caro!
– Ah, quem liga? Se você não souber dirigir, é a mesma coisa de dirigir um Fusca. – rebate. Uma familiar veia começa a latejar na minha testa, e eu travo o maxilar.
– Eu sei dirigir. – falo, e ele ri.
– É, sabe. Vamos chegar à minha casa quando? Daqui dois dias? – debocha. Que filho da puta!
– Eu vou colocar seu endereço no GPS, Ero-Cook. – explico, me controlando para não dar com o aparelho na cara dele. – E não é a mesma coisa de dirigir um Fusca. Meu carro é macio.
– Grande bosta. – responde.
– Você ama me provocar, não é? – pergunto, vendo seu sorrisinho. – Sobrancelha de Bigode.
– Me chamou de quê? – pergunta. Olha, um desafio.
– Sobrancelha de Bigode. – repito. – Vai fazer o quê? Me bater?
– Não. Vou guardar para quando eu estiver fora do carro. – diz ele, e eu tenho que rir. – Agora, pelo amor de Deus, tem como me levar para a minha casa?
– Sou agnóstico.
– Foda-se! – grita ele. Em seguida, tampa a boca e vejo um rubor se espalhar por seu rosto.
Seguro uma risada, e quando algumas lágrimas começam a brotar em meus olhos, solto-a.
– Não ria! – grita ele, novamente.
– Ah, caramba. – resmungo, limpando algumas lágrimas. – Desculpe. Só achei engraçado, porque você ficou fofo, envergonhado.
Seu rosto fica ainda mais vermelho.
– Não me chame de fofo! – manda.
– Sabe, eu não ligo se você gritar um ou dois palavrões. Nós somos amigos, porra. – falo, ligando o GPS. – Agora, me diz onde você mora.
– Esquina da Avenida 7 com a Travessa 5. – responde, e trato de escrever.
– Certo. – espero o aparelho calcular a rota. – Hm... Em maios ou menos quarenta minutos estaremos na sua casa.
Engato a ré e saio da minha vaga, mudando o câmbio para o “D”.
Saímos do estacionamento do hospital e ganho a rua, conseguindo passagem para o trânsito.
Aproveitando o farol, tiro a camiseta encharcada e jogo no chão, atrás do meu banco.
– Que frio! – comento. Ligo o aquecedor do carro e sinto o vento morno me esquentar um pouco. – Melhor?
– Sim. – responde, mas percebo que ele ainda treme.
– Eu estou com uma blusa de moletom atrás de você, no banco de trás. Se você não se importar em sentir meu cheiro, pode vesti-la. – falo. – É só se esticar um pouco para trás.
Sem dizer nada, ele se estica um pouco e pega a blusa grossa, vestindo e cruzando os braços.
Enquanto dirijo, vejo-o encostar o nariz na gola da blusa e respirar fundo, soltando um pequeno e baixo... Gemido.
Esse gemido me faz lembrar de quando ele, bêbado, se tocou dentro do meu banheiro e me deixou duro apenas com esses sons que saíam de seus lábios. Consequentemente, me lembro do sonho mais erótico da minha vida, em que ele está pressionado na parede.
– É sério, cara. Para com isso. – peço, num resmungo.
– Parar com o quê? – pergunta.
Merda, esqueci que ele tem ouvidos super-biônicos.
– Nada. – respondo, imediatamente. – Só acho que você está meio... Para baixo.
– Não estou “para baixo”. É só que ser cego já me é tão familiar... Que eu não ligo mais para cura nenhuma. Se não conseguiram uma solução até hoje, depois de 22 anos, não creio que ainda conseguirão.
– Entendi. – falo, suspirando. – Isso é um problema seu, e eu não gosto de me intrometer na vida dos outros, mas... Eu penso diferente. Acredito que o Chopper vai conseguir curar seus olhos. Porém, acima de tudo, penso que parte desta cura tem que vir da sua fé de que você vai conseguir ver algum dia.
Pelo canto do olho, percebo que ele está com o rosto virado na minha direção, como se estivesse me observando.
– E eu falo isso, porque já passei por meus momentos de “cura”. – continuo. – Como você já deve ter percebido, eu tenho uma cicatriz no tronco. Quando ela foi aberta, Chopper me socorreu e me costurou bem firme, mas não adiantava, porque o corte foi realmente muito fundo. Então ele, com a determinação que já falei, conseguiu licença para usar a primeira máquina cirúrgica à laser do país.
– Você tem uma cicatriz? – pergunta. Ah, é mesmo. Ele estava bêbado.
– Sim. — respondo. Sorrio quando uma ideia brota em minha mente. – Quer tocá-la?
Ele hesita.
– Não vou ficar passando a mão em homem. – declara, e eu rio.
– É exatamente por que somos homens que você não deveria se importar. Deixa de frescura. – brinco – Ou você acha que pode se apaixonar por mim, só pelo toque?
– Nem fodendo. – responde, e em seguida suspira. – Tudo bem! Eu sou homem. Guie minha mão.
Ainda rindo um pouco, pego sua mão e ponho sobre a cicatriz em meu tronco.
Ele a sente com a ponta dos dedos, mas a palma de sua mão roça em minha pele, deixando um leve rastro de calor.
– Você foi atropelado, ou algo assim? – pergunta.
– Não. – respondo. – Foi o Mihawk. Conhece?
– Já ouvi falar. Ele deteve o título de Melhor Espadachim durante muito tempo. – fala, e eu confirmo. – Ele te cortou?
– Sim.
– Numa luta?
– Sim. Eu... Perdi. Quando ele ia dar o golpe final, eu me virei de frente e abri os braços, falando algo como: “Uma cicatriz nas costas é a vergonha de um espadachim.” – falo, e ele solta um riso de deboche. – Não me arrependo. Na verdade... É uma das poucas coisas que me orgulho.
– Que profundo, Roronoa Zoro. – fala ele, subindo a mão lentamente. – Dá para perceber que o corte foi bem fundo porque a cicatriz é muito grossa. É insensível?
– Não, pelo contrário. É um dos lugares mais sensíveis do meu corpo. – respondo. – Sanji, você disse que não liga se não voltar a enxergar?
Ele dá de ombros, tirando a mão de mim.
– Sinceramente, não.
– Você é burro? – pergunto, vendo sua cara de irritação. – Nunca pensou em ver uma mulher nua?
– Já. Mas não é como se eu não pudesse imaginá-las, por meio do toque. – responde.
– Olha, eu juro que, quando você voltar a enxergar, vou te levar no melhor puteiro do Japão e pagar uma mulher para fazer um Strip Tease para você.
– Agora você está falando a minha língua. – fala ele, com uma cara de bobo. – Vou ver peitos...
– E bundas. E pernas. Além de várias outras coisas. – completo.
– Droga, fiquei duro.
– Só com imaginação? – pergunto – Me pergunto o quão rápido você gozaria se pudesse ver uma mulher.
– Ah, vai à merda. Seu porra. – xinga, enquanto eu continuo rindo baixo.
– Ontem, quando você bateu punheta no meu banheiro, foi bem rápido. – falo, observando sua reação. Seu rosto cora por completo e ele fica muito desconcertado.
– O-O quê? Eu? – pergunta. — No seu banheiro?
– Sim. Você estava muito bêbado, mas conseguiu essa proeza. – falo. – Mas você parecia estar bem envolvido, se me permite dizer.
– Que tosco. – fala.- Foi mal, Zoro. Quando eu estou bêbado, não meço minhas atitudes.
– Não, tudo bem. – falo. – Mas se te serve de consolo, faz oito meses que eu não transo com ninguém.
– Oito? – pergunta, espantando. Em seguida, começa a gargalhar.
– O quê?
– Você deve estar até atrofiado. – fala ele, me provocando.
– Ah, pode apostar que não. Quer sentir? – pergunto, devolvendo a provocação. – Sabe, estou há tanto tempo sem, que não ligaria se você batesse uma para mim.
Espero-o retrucar minha brincadeira de mal gosto, mas ele não diz nada. Só... Fica em silêncio. Merda. Ele deve estar puto comigo, agora.
Então, decido não falar nada por mais alguns minutos.
– Você... Não levou a sério o que eu disse, né? – pergunto, hesitante. – Eu não estava falando sério, cara. Foi mal.
– Não se preocupe. – responde, e tira os óculos. – Você é um desgraçado.
– Você não é o primeiro a dizer isso. – falo.
Vejo-o levar as mãos até o rosto e passar os dedos sobre os tampões.
– Você não tem ideia do quanto isso está ardendo. Parece que meus olhos estão sendo corroídos. – comenta, me causando uma agonia muito desagradável.
– Não preciso de detalhes.
– É sério. Eu preciso de alguma coisa para tirar isso dos meus olhos. Eu não aguento mais. – fala. Até sua voz está repleta de dor. Para que não expressa fraqueza... Seus olhos devem estar caindo.
– Certo. Vamos parar numa farmácia. – aviso. – Você usa o que? Água?
– Soro Fisiológico. – responde.
Na primeira farmácia que vejo na rua, estaciono.
– Deixa eu ver. – peço.
Virando o rosto em minha direção, ele me deixa ver as lágrimas molhando embaixo dos tampões, chegando a escorrer um pouco para a bochecha.
– Puta merda, viu. – comento. – Sanji, você ia esperar quanto para me avisar? Você é idiota?
– Não me xingue, Montanha de Músculos.
– Tem uma caixa de lenços no Porta-Luvas. Eu já volto. – falo. Saio do carro e entro na farmácia, passando direto pelo aviso de “Proibido entrar sem camisa!”.
Procuro pelo soro nas prateleiras, mas não o encontro. Então, vou até o balcão.
– Com licença. Você tem soro? – pergunto, numa educação forçada, tentando esconder minha urgência.
– S-Sim. – gagueja a mulher, corada. Ela não tira os olhos de mim. – Aqui está.
– Obrigado.
Caminho até o caixa e pago a garrafinha com o líquido, voltando ao carro.
– Estranho. Não reclamaram por eu estar sem camisa. – falo, e ele ri.
– É, aposto que não. – responde.
– O que você quis dizer com isso? – pergunto, sorrindo um pouco.
– Nada.
– Certo. Você usa isso como? – pergunto.
– Eu preciso lavar os olhos com isso e depois limpar com algodão.
– Então, vamos para a sua casa. – concluo, ligando o carro novamente.
A viagem dura mais meia hora e, no meio do caminho, ele tira os tampões e procura o lixo, jogando-os.
– Esse colírio é realmente muito bom. Mas ele arde. E se eu abrir os olhos no sol, arde mais ainda.
Resolvo não falar nada.
– Falta muito?
– De acordo com o GPS, falta uns três minutos. Você mora em casa ou prédio?
– É um prédio. Número 57.
– Então, chegamos. – falo, e ele assente.
– Estaciona o carro ali, na rua lateral.
– Certo. – acato. Por fim, desligo o carro e tiro a chave da ignição.
– Você não dirige mal, quando usa o GPS. – fala.
– É claro que não. A Nami é muito exagerada. – respondo. — Vamos?
Quando entramos no prédio, pessoas me encaram no saguão.
– Estou me sentindo um pedaço de carne.
– Para muitas mulheres, é. – responde, sorrindo.
Não consigo evitar corar com seu comentário.
Uau, ele é muito direto.
Entramos no elevador.
– Qual é o andar?
– O último. – responde. Fico paralisado.
– Você mora na cobertura? – pergunto, e ele da de ombros.
– Não é grande coisa. Não posso vê-la. – responde. Uma dor invade meu peito.
– Estou me sentindo mal. – confesso.
– Está com pena de mim?
– Não. – respondo, sem nem pensar. – É como se eu... Sei lá. Como se eu tivesse aproveitado pouco da minha vida. Ver você agindo normalmente mesmo sem a visão. Honestamente, você é um ótimo exemplo de superação. Talvez o melhor.
– Obrigado. Mas eu não superei nada. Eu convivo com isso, sei lidar com isso. Mas eu odeio não poder enxergar. Eu treinei a minha vida inteira, e hoje em dia, poucas pessoas percebem que sou cego.
– Sim. Eu sou um desses.
– E é uma merda, quando peço informações na rua. – continua. – Se eu pergunto onde fica algum lugar, as pessoas respondem por formas, cores. “Fica perto de um hidrante azul.” Eu sei o que é um círculo, sei o que é um quadrado. Mas o que diabos é “azul”? Eu não faço ideia de cor nenhuma.
– Você quer dizer que consegue sentir formas com as mãos, mas não cores. – resumo, e ele assente.
– Um exemplo é que eu converso muito com você, mas não faço a mínima ideia de como você é fisicamente. – termina, e eu suspiro. – Zoro, que horas são?
Puxo o celular do bolso.
– 12:30. – respondo.
– Está com fome? Vou fazer o almoço.
– Vai colocar algum tipo de veneno na minha comida? – pergunto, rindo.
– Não. Mas não é má ideia. – responde, brincando. Vejo seus olhos ainda fechados, por baixo das lentes escuras dos óculos.
O elevador se abre no nosso andar e saímos.
– Só tem três portas no seu andar?
– É. Sim. Três apartamentos, sabe?
– Muito engraçado. – ironizo.
Ele anda até a primeira porta à direita e passa a chave, abrindo-a.
Meu queixo cai. Isso não é normal.
– Caralho. – solto, maravilhado com o tamanho e beleza do lugar. É tudo muito simples, mas dá para perceber que as coisas são de qualidade. Realmente combina com o Sanji. – Ero-Cook, sua casa é muito legal.
– Você acha? – pergunta, jogando as chaves sobre a mesa de centro, na sala. – Eu gosto do posicionamento. No começo eu trombava muito nas coisas, mas agora isso não acontece.
– Interessante. – confesso. Me alongo e, sorrindo, corro e pulo em seu sofá escuro, recebendo o conforto do móvel em troca. – Com licença, vou tirar um cochilo.
– Idiota. Vá colocar uma camiseta, pelo menos. – fala ele, tirando minha blusa. – Vou deixar sua blusa em cima da minha cama. Venha comigo, para você não se perder.
– Ok. – respondo, me levantando.
Sanji me guia por seu apartamento, e depois de ver mais dois quartos grandes e um de hóspedes, chegamos à sua suíte.
A cama de casal é a maior que eu já vi. Caberia umas quatro pessoas facilmente. O quarto é composto pela cama, uma escrivaninha, um criado-mudo e um guarda-roupas. Sobre a escrivaninha, há um vidro de perfume importado, um pacote de algodão, uma caixa de tampões e um colírio. Além disso, uma foto em que Nami e Robin estão de braços dados, sorrindo amigavelmente.
Espera. Por que ele tem uma foto? Ele não pode vê-la... Certo?
Ele entra no banheiro, depois de jogar minha blusa sobre a cama.
– Zoro, tem como me trazer esse pacote de algodão? – grita ele, e eu atendo seu pedido.
– Sanji, posso fazer uma pergunta?
– Já fez. – responde, abrindo a torneira da pia.
– Não, é sério.
– Depois disso tudo, você me pergunta se pode perguntar alguma coisa? – pergunta, fazendo um nó em meu cérebro. – Fala logo.
– Porque você tem uma foto da Nami e da Robin, se você não enxerga? – pergunto. Ele sorri minimamente e suspira.
– Bom, eu... Tinha a esperança de que, algum dia, acordaria enxergando tudo, como mágica. E as primeiras mulheres que queria enxergar, são essas duas.
– Que fofo. – comento, vendo-o corar novamente.
– Não me chame de fofo! – grita, me dando um chute. Quase voo para fora do banheiro, e mesmo assim, não consigo não me divertir.
– Se te serve de consolo... Elas estão lindas na foto. – falo, e ele se acalma.
– Sim, eu sei que estão.
Percebo que o amor que ele sente por elas não é só a paixão de um homem por uma mulher. Além disso, é um amor afetuoso e muito bonito, que eu não vejo acontecer há muitos anos. Ou talvez nunca tenha visto.
Chego à conclusão de que nunca fui amado dessa forma. Nami e Robin são mulheres sortudas.
Estou irritado.
Merda. Estou com um sentimento tão infantil e gay, que eu poderia rir de mim mesmo. Estou morrendo de inveja.
Ele fecha a porta do banheiro e eu vou abrindo as gavetas de seu guarda-roupas, procurando uma camiseta que me sirva. Infelizmente ele veste um número menos que o meu, então a camiseta maior que encontro ainda fica um pouco apertada.
– Sanji, peguei uma camiseta sua, ok? – pergunto.
– Tudo bem! – grita, de dentro do banheiro.
Em segundos ele sai e, com os olhos fechados e com algodões encharcados de soro, ele esbarra em mim, tentando chegar à escrivaninha.
– Ah, merda. Saia da frente. Você parece uma porta, cara. – fala.
– Vou considerar um elogio. O que você quer?
– A porcaria do tampão. – responde.
– Eu pego.
– Não precisa, eu tenho mãos.
– Deixa de ser teimoso, Sanji. – falo, alcançando a caixa.
– Me dê. – manda, estendendo a mão. Quase obedeço.
– Ero-Cook, deixa eu colocar? – peço, pegando dois dentro da caixa.
– O quê? Não! – responde, imediatamente.
– Alguém já fez isso para você? – pergunto.
– Não.
– Olha, estou roubando sua primeira vez. – brinco.
– Baka.
– Posso? – ele hesita e, segundos depois, assente.
Com cuidado, tiro os algodões molhados de seus olhos e jogo no chão, em algum lugar.
– Tem que pingar alguma coisa antes? – pergunto.
– Não. O soro já age por si só. – explica.
Dou mais um passo para frente e seguro sua mão, fazendo-o se sentar na cama.
Sanji inclina o rosto para cima, com seus olhos fechados. Sua boca se abre levemente, e é como se estivesse esperando por um beijo.
Foco, Zoro. Foco.
Então, me dou conta de que nunca o vi de olhos abertos.
– Sanji, abra os olhos. – peço, baixo.
– Por que? – pergunta.
– Estou curioso. – respondo. Vejo quando um arrepio percorre seus braços e suas bochechas coram.
Ele respira fundo.
– Okay.
Lentamente, suas pálpebras se abrem. Honestamente, tenho que admitir que uma ansiedade toma conta de mim.
Então, eu perco quase todo o ar de meus pulmões. Não consigo pensar em nada, não consigo olhar para mais nada.
São... Absolutamente lindos.
Seguro seu rosto com uma das mãos.
Seus olhos são tão vivos e transmitem tanto sentimento e emoção, que me hipnotizam. Brilham.
– Que foi? Meus olhos são muito estranhos? Ou são normais? – pergunta. – De que cor são?
Meu filtro de palavras desativa sozinho.
– Seus olhos absolutamente não são estranhos. – asseguro, encarando-o bem fundo. – E “normais” seria um insulto, no seu caso. Não consigo parar de observá-los.
Ele pisca várias vezes e o rubor em seu rosto se intensifica.
– De que cor são? – repete.
– Azuis. – respondo. Em seguida, tiro minha mão de seu rosto. – Sanji, você usa óculos porque é inseguro?
– Não. Não exatamente. – responde. Depois, reconsidera. – Quem eu estou querendo enganar? Sim, eu sou inseguro. Merda, eu não enxergo. Porra.
– Não se preocupe com isso. – peço.
– Sabe, é a primeira vez que abro os olhos para alguém, tirando o Chopper. – comenta, e dessa vez, eu coro.
– Estou honrado. – brinco.
Surpreendo-me com o pensamento que assola minha mente a seguir.
Não quero que ninguém mais veja esses olhos.
Fale com o autor