Um Amor Arranjado
17 As Sete Cores do Arco-íris
Notas iniciais
– Sakura, não seja teimosa. – pediu o seu marido, se aproximando. Sakura dera um passo para trás, pendendo o seu corpo para frente.
– Não se aproxime, por favor. — suplicou pausadamente. Shaoran a fitou incompreensivo. Sentira o seu coração oscilar, faltando-lhe palavras a serem ditas no momento.
– Sakura. — murmurou o rapaz. A jovem apenas balançou a cabeça, ainda em busca de ar.
– Eu vou ficar bem, deve ser apenas uma crise de asma. Por favor, deixe-me. – falou a flor almejando uma grande quantidade de ar esbaforida por entre os seus lábios.
– Por favor. –sussurrou a moça por fim.
O Li abaixou o seu olhar, sentindo a ausência do sentido em seus pensamentos. Acolhe-la em seus braços não era uma escolha mental, e sim uma escolha que o seu coração implorava e o seu corpo necessitava.
– Perdoe-me. – pediu o rapaz em um fio de voz. Sakura sorriu amarelo, apoiando as suas costas na árvore.
– Nã-o-o se preocup-e. – disse sentando-se com dificuldade sobre a grama.
– É claro que eu me preocupo. – falou Shaoran exasperado e sentando-se ao seu lado.
– Cuidar da senhorita, é um dever que preciso cumprir. E eu mesmo devo fazê-lo. – sussurrou abaixando a cabeça, porém rapidamente levantou-a novamente, e colocou a sua mão sobre a de sua esposa.
– Confie em mim. – falou fitando-a nos olhos. A jovem assentiu, deixando transbordar um dos seus sorrisos mais sinceros. Shaoran sentira o seu coração encher-se novamente de um material incerto. Aproximou-se a abraçando calorosamente. Sakura manteve a sua cabeça sobre o ombro do rapaz, esforçando-se em preencher o seu pulmão com o oxigênio.
– Mantenha a calma. – sussurrou Shaoran docemente, em seu ouvido. Sakura assentiu o abraçando mais forte. O rapaz passara os seus dedos para o rosto da moça, acariciando-a delicadamente. Sakura sentira toda a tensão esvaecerem-se, amolecendo todos os seus sentidos nos braços do chinês.
Esqueceram-se por completo de onde se encontravam, a esta altura, não era um fato de grande importância quando se deparavam um com o outro de tal forma. Shaoran a levara ao chão esverdeado, enlaçada em seus braços e sobre o seu corpo.
Colocou-a mais perto de si, travando-lhe os lábios aos seus. Alimentando cada vez mais o coração que se recusara a negar o estranho sentimento. Sakura não percebera a volta do ar atravessando-lhe pelo pulmão, e não seria agora que notaria este pequeno detalhe. Fechou os olhos, prestes a aceitar o carinho dado pelo seu marido, enquanto suas mãos subiam delicadamente pelo pescoço do rapaz, dirigindo-se ao cabelo acastanhado e enterrando-se ali.
Shaoran suspirou, afastando-se aos poucos daqueles lábios cheios que a sua esposa continha. Fitou-a, suspirando pesadamente. Vislumbrando a beleza de sua flor, posicionou a sua testa colada com a da mesma. Sakura abrira os olhos esfregando os seus cílios na bochecha de seu parceiro, dando-lhe um beijo borboleta involuntário. O rapaz alargou o seu sorriso, rindo baixinho, e apertando-a mais para si.
– Minha mãe sempre distribuía beijos de borboleta sobre a minha bochecha. – sussurrou ainda a sorrir. Sakura corou em resposta, desviando o seu olhar.
– Como é o seu relacionamento com a sua mãe?
– É complicado. Depois que o meu pai faleceu, minha mãe enlouquecera, deixara de dar-me a atenção devida, afastou-se de mim. Recusava-se a sair do quarto, sempre melancólica. – respondeu abaixando a cabeça.
–Então, quando completei 18 anos, a senhorita Li decidiu morar em outra cidade para espairecer. Deixou-me para tomar conta dos negócios da família, muito novo.
Sakura abaixou a cabeça apreensiva. A vida de seu marido fora uma verdadeira turbulência. Culpou-se por achar que o rapaz sempre fora o errado, sempre o incoerente. Porém está linha de sua vida era inexorável, inevitável. Era sua obrigação manter a palavra. A jovem sentira o seio queimar no ritmo das batidas de seu coração agonizante.
– Sinto muito por tudo. – sussurrou a flor. Shaoran a fitara, sorrindo amarelo. Permaneceram com o típico diálogo visual. Nenhum dos dois ousou quebrar um silêncio tão gracioso como este. Assim, as horas se passaram, e permaneceram ali sobre o chão coberto de variáveis folhas.
Shaoran arregalara os olhos ao reparar na situação que fora posta para o casal. Levantou-se rapidamente, olhando para os lados. Sakura juntamente ao seu marido acordara de seus devaneios, amedrontada.
– Oh meu Deus, o que faremos agora? – indagou. Shaoran coçara a sua nuca, em busca de uma resposta verdadeira, porém que não a levasse ao pânico.
– Eu... Não sei. Não conheço este local. – respondeu contorcendo os seus lábios. Sakura se encolheu ainda ao chão, abraçando os seus joelhos.
– Mas irão nos encontrar, rapidamente, creio. – disse o Li rindo nervosamente.
– Irei procurar mantimentos. Permaneça aqui, não saia. — suplicou o rapaz. A moça assentiu. Shaoran afastou-se com hesitação, procurando algum fruto pertencente à natureza, que poderia vir a calhar aos seus estômagos.
Sakura permanecera quieta, sem mover o seu dedo mínimo. Nunca se sentira tão desamparada em toda sua vida, nunca parara para refletir o quanto que este mundo poderia ser perigoso e injusto para o ser do coração mais puro.
Abaixou a cabeça pensando em seu pai, ele fizera tudo àquilo por amor. “E todos ali a julga-lo” pensara consigo, enquanto balançava a sua cabeça. O conforto de sua casa era o seu porto seguro, sempre fora.
Shaoran retornara com as mãos vazias, e o seu rosto estampado com a frustração.
– Não fui feito para viver do solo. – disse revirando os olhos.
– E se não nos encontrar?
– Não seja boba, Sakura. Irão nos encontrar logo. – falou o rapaz tentando conforta-la.
– O que devemos fazer? — perguntou levantando-se. Shaoran fixara os seus olhos em uma árvore, reflexivo. Logo se voltando a sua mulher, respondeu encabulado por não ter uma solução.
– Vamos permanecer aqui, até nos encontrar. – sentou-se novamente ao lado de sua mulher, observando o excesso de verde naquele local.
Rapidamente a escuridão contaminou a atmosfera, impossibilitando a visão do casal, causando a deficiência da coragem sobre uma flor a estremecer. Shaoran colocara os seus ambares em sua pequena garota, percebendo o terror reinar o coração da mesma.
– Sakura, acalme-se. – pediu Shaoran a envolvendo em seus braços. Sakura assentiu, apesar de sentir o seu corpo estrebuchar aos poucos, em meio ao medo.
– Acalme-se. – repetiu o rapaz, passando os seus dedos delicadamente pela pele da moça. Sakura suspirou.
– Desculpe-me, mas está tão escuro e nem sequer temos o conhecimento de onde estamos.
– Não estamos completamente no escuro, veja, olhe para o céu. Veja como é lindo. – disse o rapaz a sorrir, apontando para o céu. Sakura levantou a sua cabeça em êxtase, deparando-se com inúmeras reservas luminárias em um céu escuro.
– Lindo, não é mesmo? Olhe a lua. – disse Shaoran boquiaberto ao fitar o céu.
– Linda. — confirmou a jovem aos sussurros. Shaoran voltou os seus olhos para a moça, observando-a a assistir o fenômeno da natureza.
– É... linda. – sussurrou o rapaz, fitando-a docemente. Sakura sentira olhos sobre sua pele, voltando-se para o seu marido. Vira aqueles olhos ambares tocar-lhe a alma, sentindo suas bochechas queimarem. Shaoran balançou a cabeça debilmente, voltando às estrelas que pairavam sobre o céu, apontara para uma específica.
– Consegue ver aquela? – questionou apontando para um enorme ponto de luz. Sakura assentiu, observando-a.
– Seu nome é Sirius. É a estrela mais brilhante do céu noturno. – disse sorrindo. Suspirou pesadamente, dando continuação a sua fala. – Queria poder dá-la a você.
A jovem flor arregalara os seus olhos em espanto, ainda a observar a Sirius, fora pega desprevenida. Sentira o seu coração entrar em reboliço, até perceber uma pequena risada vinda de seu marido.
– O que foi? – questionou confusa.
– Mas do que adiantaria dar-lhe esta estrela? Você é a mais brilhante que os meus olhos já viram. O teu sorriso cabe perfeitamente no universo. – disse a sorrir desajeitadamente.
– Shaoran-kun... – falou Sakura em um fio de voz. O rapaz virou o seu rosto para a flor, deparando-se com gigantescas esmeraldas a fita-lo. Pudera jurar que perdera os seus sentidos naquele momento.
Aproximara o seu rosto ao de sua esposa, unindo os seus lábios delicadamente. Controlou-se para não sorrir durante aquele beijo, ao sentir os lábios macios de sua flor.
Uma gota pousara em sua bochecha, trazendo-lhe a realidade, fazendo-o enxugar com a sua mão. Afastou-se um pouco, com os olhos semicerrados e um leve sorriso em seus lábios.
– Precisamos encontrar algum lugar para nos refugiar desta chuva. – disse em seu ouvido. Sakura riu baixo, colocando a sua mão na nuca do rapaz.
– Não sou feita de açúcar. – retrucou arrancando uma doce gargalhada do Shaoran.
– Teimosa. – sussurrou.
Levantaram-se assim que a chuva tornara-se violenta. Shaoran pegara a sua flor pela mão, enquanto corria compulsivamente, em busca de um local seguro. Em alguns minutos encontraram uma caverna, aparentemente vazia.
Sakura se sentou no escuro, observando o seu marido produzir fogo com pedras, galhos e folhas. Porém sem sucesso.
– Desisto. – disse jogando as suas mãos para o alto. Sentou-se ao lado de sua esposa, esfregando as suas duas mãos, tentando dar calor ao seu corpo.
– A senhorita deve estar congelando. – falou. Sakura de fato tremia, porém negara com a sua cabeça.
– Venha, precisamos nos aquecer com os nossos corpos. – Shaoran se aproximou cautelosamente, mas fora impedido com uma pequena mão em seu peito.
– Eu estou bem. – falou a jovem, logo depois espirrando. Shaoran bufou cruzando os braços.
– Não a deixarei morrer congelada. – disse a enrolando em seus braços. Sakura não recusara, sabia que sairia derrotada nesta história. Aceitou, reconhecendo o conforto e o calor dos braços de seu marido.
Shaoran enterrou o seu nariz no pescoço da moça, inalando o doce aroma floral pertencente a sua flor humana. Sakura sentiu o seu corpo estremecer ao toque de seu marido, suspirou delicadamente. O Li passara com o seu rosto a altura do pescoço de sua mulher, beijando-lhe. Subiu até encontrar-se com os lábios carnudos de sua dama, beijando-a. Suas mãos passaram para as costas da moça, fazendo-lhe um carinha, logo após tentando abrir os botões do vestido.
– É melhor tirarmos estas roupas, estão ensopadas. – sussurrou ao pé do ouvido da jovem. Sakura suspirou assentindo. Shaoran retirara toda a vestimenta de sua mulher, beijando cada pedaço de seu corpo e vislumbrando o corpo da moça estremecer a cada pequeno toque.
O sol aparecera gloriosamente, como estivesse a sorrir por uma noite afundada em uma tempestade. Sakura acordara nos braços de seu marido. Levantou-se, rapidamente se aprumando.
Saíra da caverna com a mão em frente ao rosto, evitando a irritação dos olhos com o excesso da luz solar. Retirou a mão, deparando-se com um belo arco-íris apresentando as suas sete cores, fruto de uma noite que se inundara. De uma noite perfeita.
– Bom dia. – falou Shaoran abraçando-a por trás. Sakura sorriu.
– Bom dia. – respondeu.
– Está com fome? – indagou o rapaz.
– Um pouco. – disse Sakura
– Penso que vi um pequeno lago por aqui perto. Quer me ajudar a pescar? – disse ficando posicionando-se ao lado de sua mulher.
– Claro.
Encontravam-se a beira do lago, enquanto tentavam desajeitadamente capturar algum peixe, ou até mesmo algo que os seus estômagos pudessem ingerir sem rejeitar. Usavam gravetos, pedras e até mesmo as suas mãos.
– Isso não está dando certo. – falou Shaoran rindo, cruzando os braços.
– Concordo. – Sakura suspirou exasperada, sem fôlego.
– Vamos tentar mais um pouco. – Sakura assentiu.
Shaoran avançara a um peixe a sua frente, pegando-o com as suas próprias mãos. Sorria vitorioso, erguendo o peixe em mãos. – Consegui. – gritou.
– Sakura, veja. – disse volvendo o seu corpo para a sua mulher. Largara o peixe assim que pusera os seus olhos sobre a flor apoiada em uma árvore.
– Sakura, você está bem? – disse correndo em direção a sua mulher.
– Estou bem, apenas um pouco enjoada e sem ar. – falou rindo nervosamente. Shaoran envolveu a sua cintura, dando-lhe apoio.
– Fique bem, Sakura. Por favor. – suplicara o rapaz.
– Ficarei. – sussurrou a moça, repousando a sua cabeça sobre o ombro do Shaoran. As suas pálpebras caíram em derrota, trazendo-lhe escuridão total. Mesmo em plena inconsciência, nunca estivera tão assustada em toda a sua vida. Sonhava em viver lindos romances, aventuras fantásticas e ter o seu final feliz, mas agora a sua razão dissera-lhe que isto só existe em livros.
Encarquilhou os seus olhos, os abrindo com certa dificuldade. Passara a sua mão no estranho solo em que fora deitada. Era macio. Abrira os seus olhos totalmente, deparando-se com um teto branco e pequenos detalhes em dourado. Sentou-se na cama, dando de cara com uma mulher esbelta e de olhos castanhos e a pele tão branca quanto à neve. Sakura arregalara os olhos, assustada.
– Não se assuste. Você está segura agora. – disse a mulher a sorrir.
– Onde estou? Quem é a senhora? – perguntou a flor aturdida.
– Ah, perdoe-me. Sou Yelan Li, mãe de teu marido. – respondeu amigavelmente.
– Senhora Yelan, ah meu Deus, perdoe-me o transtorno. – pediu Sakura levantando-se.
– Permaneça aí, Sakura-chan. Ainda está muito fraca. – falou Yelan, impedindo-a de prosseguir com a sua ação.
– Onde está o Shaoran? — perguntou a jovem olhando para os lados.
– Ele está bem. Está aguardando do lado de fora. – disse empertigando-se na cama, ao lado da flor. — A sua saúde é fraquinha, não é mesmo Sakura-chan?
– Um pouco. Quando menor, pegava gripe facilmente. — respondeu suspirando.
– O médico nos informou que a senhorita estava com uma pequena infecção no estômago. O que a fazia vomitar e sentir tontura. Quanto ao desmaio, você entrou em choque a tudo o que estava ocorrendo.
– Ah, vaso ruim não quebra. – disse Sakura rindo, enquanto apontava para si mesma. Yelan sorriu, balançando a sua cabeça negativamente.
– A senhorita é uma boa moça. Estou feliz por ter se casado com o meu filho. – falou colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha de Sakura. – A família Kinomoto tem muita sorte por ter a tido, e agora nós, os Li, temos sorte por tê-la.
– E-u agradeço, senhora Li. – disse Sakura corando.
– Eu que agradeço minha jovem. Por favor, me chame por Yelan. – pediu. A jovem assentiu, sem jeito.
– Yelan-san?
– Sim?
– A senhora conheceu a minha mãe, Nadeshiko Kinomoto? – indagou a jovem fitando-a receosa. Yelan aparentara hesitar, mas rendeu-se ao olhar suplicante da flor a sua frente.
– Sim, querida. – disse tristemente.
– O que houve com ela, e porque o senhor Fei Reed a odeia tanto?- Sakura pôde ver os tons opacos que os seus olhos assumiram, causando-lhe um aperto em seu seio efervescente.
– Ele não a odeia, Sakura. Não a odeia. – disse abaixando o olhar. Sakura franzira o cenho, confusa.
– Não entendo.
Yelan suspirou pesadamente, retomando as suas palavras. – Nadeshiko fugira da casa dos Kinomoto, dizendo-nos que não amava mais o seu marido e que o seu coração pertencia a outro ser humano. – dera uma pausa, inalando todo o ar que seus pulmões aguentariam.
– Este ser humano era o Fei Reed, e sentia o mesmo pela moça. Ambos apaixonados e vivendo em um mundo feito para os dois. Em alguns meses, Nadeshiko assumira estar grávida, porém o filho não pertencia ao Reed, e sim ao Fujitaka Kinomoto. Fei Reed encontrava-se afogado pelo próprio amor, engoliu todo o seu orgulho e assumira o filho. Meses depois, Nadeshiko dera a luz a uma linda menininha dos olhos esverdeados. – disse Yelan a sorrir para a moça que engolia esta história em seu cérebro.
–Porém, — dera uma pausa, suspirando tristemente. – Fora uma gravidez tão arriscada, Nadeshiko não aguentara, faleceu, deixando para trás a menininha em meus braços. – a mulher dos olhos castanhos fitou a flor, reparando nas lágrimas que brotaram no mar verde.
– Não chore Sakura. Ela te ama incondicionalmente entre as nuvens. – Sakura abaixou a cabeça, escondendo o seu rosto nas mãos, aos soluços. Yelan retomou a história, com um ar mais triste.
– Fei Reed encontrava-se enraivecido, sentia ódio da pequena garotinha, a culpara de todas as formas, absurdamente. Não quis mais tê-la, muito menos cuida-la. Foi para a casa dos Kinomoto, colocando a pequena garota no colo do Fujitaka. E jurou para si mesmo que nunca mais iria amar alguém. – disse Yelan abaixando a cabeça.
– Oh meu Deus. – falou Sakura entre soluços.
– Sakura-chan.
– Foi a minha culpa. Este tempo todo, foi a minha culpa. O Fei Reed estava certo.
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