Um Altruísta Conto De Natal
1 Um Altruísta Conto de Natal
Notas iniciais
“Quando alguém ama outrem nada é importante, nem a sua própria vida.”
Sentia os passos secos daquela estranha criatura atrás de si. Repetiam-se periodicamente como se de um ritmo macabro se tratasse.
- Despacha-te Mafalda! Corre! Já estamos perto do carro! Anda!
Os passos fugiram ao ritmo, começaram a acelerar.
Mafalda agarrava a mão da mãe com força, não a queria largar, não queria ficar ali sozinha no meio daquele denso e sombrio bosque, mas já corriam há tanto tempo e ainda não haviam sequer avistado a estrada.
Os passos estavam a aproximar-se.
Tentou correr mais depressa contudo as pernas não respondiam à sua vontade.
Sentia os passos mesmo por detrás de si e que estes começavam a abrandar.
Tinha que largar a mãe, estava a atrasá-la. Se a continuasse a agarrar iam acabar as duas mortas.
Os passos cessaram. Por instantes pensou que a criatura havia perdido o interesse naquelas duas presas fáceis, mas logo abandonou este pensamento.
Experimentava o peso daquela asquerosa criatura sobre suas costas. “Mãe!” pensou, mas nada disse. O odor pútrido da besta chegava-lhe às narinas. Sabia que ia morrer e que tinha que largar a mão de sua mãe caso contrário também esta morreria.
Aquele assombro animal rasgara-lhe com movimentos secos e rápidos, o casaco de penas branco pérola e perfurava agora, com o seu amaldiçoado bico, a camisola e a carne de Mafalda. A dor provocada, propositadamente, naquela pobre e inocente criança era-lhe insuportável, finalmente largou a mãe. Sentia aquele bico bastardo a sugar-lhe a vida de entre as costelas.
– Sai de cima da minha filha! Seu macaco horrível e repugnante! Deixa-a em paz! – ouviu sua mãe dizer.
De rompante o peso sucumbiu de suas costas. Levantou-se a custo e viu a sua mãe a lutar contra aquela horrível criatura.
– Foge Mafalda! Foge! – gritava-lhe desesperada a sua mãe, mas não podia sair dali e deixá-la sozinha naquele combate mortal, tinha que ajudá-la. — Sai daqui Mafalda! Vai pedir ajuda rápido! Já vou ter contigo! – sua mãe apresentava um tom impaciente e agoniante na voz. Deveria Mafalda obedecer e deixá-la sozinha a lutar por sua vida contra aquela criatura? Ou deveria ajudá-la? – Vai Mafalda! Já!
Começou a correr. Esforçava-se ao máximo para não cair e chegar rápido à estrada. O sangue, pegajoso e quente, que escorria de sua recente ferida colava-lhe a roupa ao corpo. Avistou uma luz, “A estrada!?”. Apressou o passo.
A via, iluminada apenas por seis ou sete postes de luz alaranjada que ainda permaneciam intactos, encontrava-se praticamente deserta. Avistavam-se, ao de longe, luzes traseiras de carros, mas mais nada se via no meio daquela escuridão de meia-noite.
– Socorro! Socorr… – Mafalda caíra de joelhos, todas as suas forças se haviam esgotado e seu sangue continuava a sair, lenta e penosamente, de sua chaga.
Começava a ver um vulto no meio da escuridão mas não o conseguia distinguir pois via tudo distorcido. Seria alguém que ouvira o seu breve e desesperado pedido de socorro? Ou seria outro monstro?
Principiava agora a cair lentamente para um eterno infinito negro, ouviu um longínquo e arrepiante grito de dor que lhe gelava a alma e finalmente caiu.
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– Como está a paciente do quarto cinquenta e nove? – perguntou o psiquiatra à enfermeira do Hospital Psiquiátrico de Dumo Negro, enquanto iam juntos ver os pacientes na sala de convívio.
– O seu estado mantém-se estável, sem variações de humor e ainda não iniciaram as alucinações normais desta altura do ano.
– Alucinações?
– Sim. Todos os anos, desde que a paciente chegou, ela acredita que a mãe a vem visitar na véspera de Natal. Isto deve suceder devido ao sentimento de culpa que tem por ter esventrado a mãe no mesmo dia há vinte e um anos.
– Nunca ficou comprovado que foi ela, pois não? Até porque ela também tinha um ferimento grave nas costas.
– Sim, nunca ficou provado, mas quem é que acredita que foram os monstros que ela descreveu? Com certeza que foi ela até porque se fossem monstros ou criminosos ela não abandonava a mãe, ou acha que sim?
– Pois não sei… Olhe aí, com licença. – disse abrindo a porta.
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Mafalda encontrava-se crescida, havia-se tornado numa bela e ondulante mulher, mas nunca acreditaram nela e mantiveram-na presa naquele “glacial inferno branco”, como lhe costumava chamar, por teimarem que ela estava a mentir quando na realidade o faziam por terem receio de viver o mundo tal e qual como ela o viu, sentiam que se a rotulassem por doida nunca iriam conhecer o verdadeiro mundo selvagem que anda lá por fora. Ela compreendia que era difícil e doloroso acreditar na realidade que protagonizou com sua mãe, até para ela o havia sido, mas não tinham o direito de a tornar na sua prisioneira.
Achava-se radiante, contudo. Havia chegado o seu dia preferido do ano. Nada poderia correr mal. Após o seu acolhedor pequeno-almoço natalício, que era sempre o mesmo de ano para ano, foi para o quarto e esperou. Sabia que ela viria, tinha prometido exactamente um ano atrás que o faria. Sentou-se então na sua cama, com armação de ferro e colcha de neve, e começou a ler um livro intitulado “A Fonte do Terror”, de Raquel Silva e Gonçalo Gonçalves.
– Olá Mafalda! – tal como Mafalda esperava a sua mãe apareceu passado dois minutos. Pregavam-lhe sempre um susto as suas silenciosas aparições.
– Olá mãe! – disse correndo a abraçá-la. – Que saudades! – apertava a sua mãe com quantas forças tinha, como que para garantir que não se separariam outra vez, embora soubesse que tal seria impossível. – Vamos dar um passeio lá fora? Está um dia lindo!
– Pode ser. Vai lá agasalhar-te que está frio – disse carinhosamente a sua mãe afagando-lhe a cabeça.
Passaram o dia todo a passear no jardim congelado do Hospital à luz de um agradável sol de Inverno. Todo o jardim brilhava para elas como se estas fossem rainhas vitoriosas deste paraíso prateado e todos ali as admirassem. Falaram de inúmeras coisas, Mafalda tinha sempre algo para dizer à sua mãe visto que apenas a via uma vez por ano. Ao pôr-do-sol entraram no edifício e Mafalda, obrigada por sua mãe, como todos os anos foi comer. As enfermeiras tomavam notas enquanto falava com sua mãe, provavelmente por acharem que ela estava a alucinar, mais uma vez, por serem incapazes de ver a quem se dirigia. Findo o jantar, foram para o seu quarto, onde Mafalda recostou sua cabeça sobre o colo de sua mãe e esta acariciava-lhe os fogosos cabelos. Ficaram assim durante horas.
– Bem Mafalda, tenho que ir… – disse próximo da meia-noite a sua mãe num tom penoso.
– Já? Fica mais um bocadinho…
– Sabes bem que não posso… – duas safiras brilhavam agora devido às lágrimas cristalinas que se formavam. – Anda lá, deita-te.
Mafalda deitou-se e a mãe cobriu-a.
– Até para o ano meu anjo… – disse beijando-lhe a testa e deixando cair sobre o mar de chamas do cabelo de sua filha uma lágrima.
– Até para o ano… – disse chorando Mafalda vendo o já habitual espectáculo de luz branca que sucedia sempre que a mãe se ia embora e desejando que chegasse rapidamente o próximo Natal.
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