Um Adeus E Uma Promessa...

1 Um adeus e uma promessa...


Desci as escadas que ligavam Peixe e Aquário sentindo a maior dor que me lembro de ter sentido na vida. A cada passo, sentia meu coração se esfarelar. Eu não queria ir até lá. Não queria. Não queria vê-lo largado naquele chão frio, como se fosse nada. Não queria ver o corpo sem vida do meu amor, aquele que ainda cedo, naquele mesmo dia, tinha dito que me amava enquanto se entregava a mim. Pela última vez.

Minha respiração falhou com aquele pensamento, e pela visão periférica vi Aiolia me olhar preocupado, mas sem dizer nada. Hesitei por alguns segundos antes de finalmente entrar no penúltimo templo.

Eu não queria ver. É vergonhoso admitir, mas minha vontade foi a de dar meia volta e sair correndo para bem longe. Mas apesar de todos os meus desejos, meus olhos traidores buscaram o exato local onde ele estava caído. A casa ainda estava inteiramente coberta de gelo, seu cosmo pairando no ar. Eu diria que era uma cena linda, se não tivesse consumido toda a vida do meu amor.

Caminhei sozinho ate o corpo coberto no chão, enquanto todos permaneciam atrás de mim. Eu me sentia tão congelado quanto aquelas paredes, mas não me importei. Senti que todos mantinham uma distância cautelosa, mas a presença de todos era tão insignificante naquele momento que eu mal me dava conta dos outros. Eu estava quase anestesiado...

Até aquele momento...

- M-Mestre... – Alguém balbuciou atrás de mim.

Senti como se uma corrente elétrica cruzasse todo o meu corpo, me puxando em direção ao som daquela voz. Eu me virei tão rapidamente em direção ao som, que até mesmo eu me surpreendi, mas meu cérebro não conseguiu identificá-la. Olhei surpreso Shaka, Mu, Aiolia e Aldebaran se postarem defensivamente, enquanto me encaravam e mantinham os cavaleiros de bronze as suas costas. Eu não conseguia entender o porquê daquela reação deles.

- O que houve? – Perguntei, minha voz mais baixa e rouca que o normal.

- Milo, se acalme... – A voz tranqüila de Mu trazia um tom tenso.

- Mas eu não estou calmo?

- Não, não está... – Aldebaran fora quem respondeu dessa vez – Seu cosmo está irradiando ódio e você está com sua agulha ativa desde que pisamos aqui.

“Quando foi que aflorei minha agulha?”, eu me perguntei, olhando confuso para minhas mãos.

- Milo, está tudo bem... – Aiolia tentou soar mais tranqüilo do que realmente parecia – Vamos ajudar você...

Eu assenti, começando a voltar meu olhar para frente, quando novamente um choramingo e a palavra “Mestre” lançaram uma sensação desagradável em meu peito. Virei-me lentamente em direção ao som, dessa vez ignorando a postura tensa e defensiva dos quatro. Meus olhos se focaram no garoto loiro, que olhava para o corpo do meu amado, que agora estava atrás de mim.

A sensação letárgica completamente esquecida, dando lugar agora ao ódio que Aldebaran disse sentir em mim. Agora eu o sentia. Com o corpo dele atrás de mim e meus olhos pregados naquele garoto, eu conseguia religar todos os sentimentos corretamente. E o sentimento mais claro de todos era o desejo de matá-lo.

- Como se atreve? – Minha voz soava estranha até aos meus próprios ouvidos, baixa e fria, mas eu estava tão cheio de ódio que mal percebia isso – Como se atreve a chamá-lo assim? — Eu vi com uma satisfação maligna o garoto se encolher, enquanto eu falava – Como se atreve a sequer olhá-lo? É por sua culpa que ele está morto, seu moleque miserável... – Meu corpo agora vibrava com ódio, enquanto eu dava um passo vagaroso na direção dele, logo depois outro e outro – Eu devia te matar... Furá-lo tantas vezes só para te ver agonizar, mas sempre contendo sua hemorragia, para que o seu sofrimento durasse mais tempo.

Eu já estava a meio caminho dele quando um vento gelado me fez parar. Aiolia, Mu, Shaka, Aldebaran e eu mesmo nos viramos para o corpo estendido no chão. Aquele vento frio tinha o cosmo dele e apesar de todos nós termo sentido, ele apenas atingiu a mim, como se me pedisse para parar.

Eu quase podia ouvir a voz dele sussurrar naquele vento...

Fechei meus olhos, lutando contra o desejo de descolar músculo por músculo dos ossos de todo o corpo de Hyoga, e voltei a falar.

- Saia daqui... – Rosnei – Saia antes que desrespeite o desejo dele de te manter vivo e faça você se desculpar diretamente com ele... Antes que eu deixe de tentar me convencer que ele não quer que eu te mate. – voltei a olhá-lo e apontei para os meus quatro companheiros – Nenhum deles vai me parar se eu realmente me dispuser a te matar... Não do jeito que eu estou agora...

Eu não me importei com os olhares que dirigiram a mim, quando disse aquilo. Não me importo se era um plano “dele”, aquele garoto me tirou tudo o que eu mais amo na vida. Eu poderia matá-lo... Ele até merecia morrer, mas “ele” não gostaria disso. Voltei meu olhar para o corpo diante de mim e voltei a falar, agora em um grito de ódio.

- Saiam!

Mu foi primeiro a se retirar, logos sendo seguido pelos demais, incluindo o aluno do meu amado, e logo estávamos a sós. Do mesmo modo que nos despedimos no café da manhã, quando ele me beijou e me desejou cuidado e boa sorte na luta que teríamos. Eu senti que não voltaríamos a nos ver, quando ele passou por mim com lágrimas nos olhos, vindo de Libra. Eu senti que poderia perdê-lo, mas nada fiz para impedir. Pelo contrário... Deixei que Hyoga passasse e assim “ele” cometesse essa loucura.

Eu não fazia idéia de que era aquele o fim que ele planejara para si. Iludi-me pensando que as lágrimas dele eram apenas pela tristeza de ter de matar aquele para quem meu amor devotava um amor de um pai para com seu filho. Mas “ele” sabia. Agora eu vejo que ele sabia que Hyoga sairia dali vivo, vivo e mais forte para realizar o último passo de seu treinamento. Superá-lo.

“Aquário é um cavaleiro solitário, Milo.” – ele uma vez me dissera, depois de se sagrar cavaleiro – “Precisamos matar os nossos sentimentos e perder por nossas próprias mãos aquele que mais amamos para alcançar nosso verdadeiro poder. Sentimentos nos aquecem, e Aquário só pode ter o frio eterno em si.”

Só agora eu me dava conta que o que Hyoga fizera hoje, foi o que ele precisou fazer para receber a armadura de Aquário.

Matar seu mestre.

Sorri de modo amargo ao me dar conta do porque ainda estava conseguindo pensar sem que a dor me dilacerasse. Eu não queria pensar em seu nome. Eu sabia que evitar falar o nome dele só retardaria a dor que se aproximava e deixei que meus joelhos cedessem, o que fez com que eu caísse ajoelhado ao seu lado. Tirei a capa que antes eu colocara sobre ele, quando passamos. Eu sabia que aquele era o nosso último instante. Nosso último adeus.

- Camus... Idiota... – sufoquei um soluço enquanto as lágrimas já me escapavam – Por que isso? Por que teve que fazer isso? – puxei-o para os meus braços, soluçando mais ao sentir faltar o calor do corpo dele.

Só havia o frio e o vazio.

Meu amor já não estava mais ali.

- Você prometeu que não ia me deixar... – o choro já me tomava sem controle, enquanto eu apertava mais do seu corpo inerte em meus braços – Prometeu que iria ficar comigo... Você é um mentiroso. – acusei baixo, mas continuei gritando para as paredes — Um maldito miserável e mentiroso.

Apesar do corpo frio, ele ainda estava mole em meus braços, quase como se estivesse dormindo, e isso só aumentou mais o meu desespero. Meu amor não mais acordaria, não importava o quanto eu o chamasse. Afastei-me para olhar em seu rosto. Estava tão pálido e frio. Seus cabelos, antes ruivos vibrantes, agora ostentavam um branco pálido e cadavérico. Toda a vida dele foi sugada pelo gelo e toda a cor que eu amava por causa dele, se perdeu. Tudo o que eu tinha ali era o branco frio e vazio.

Não sei quanto tempo fiquei ali sozinho, com o corpo de Camus em meus braços, chorando em silêncio. Não conseguia processar nada ao meu redor, enquanto afagava o rosto sem vida da pessoa que mais amava e amaria em minha vida, murmurando incontáveis vezes que o amava, até o momento que o gelo ao meu redor começou a se dissolver e uma presença chamou minha atenção.

“Milo...” – Uma voz sussurrada me chamou, me fazendo desviar o olhar do rosto do francês pela primeira vez em muito tempo.

Olhei ao redor, em parte surpreso por algo conseguir atrair minha atenção naquele momento, mas preocupado com mais uma invasão. Porém, não conseguia ver ninguém ali. Estava tudo exatamente igual, fora que o gelo parecia derreter com mais rapidez, tornando-se uma névoa pesada ao meu redor. Inconscientemente apertei o corpo de Camus em meus braços, quando uma sombra surgiu na névoa. A temperatura parecia cair novamente, me fazendo tremer suavemente, enquanto a sombra parecia caminhar em minha direção, logo tornando a pessoa parcialmente visível.

Um arfar de surpresa e confusão mês escapou enquanto eu o olhava. Eu devia estar começando a ficar completamente louco pela dor da perda, mas eu podia jurar que aquela pessoa parada dentro da névoa fria era...

- C-Camus... – Balbuciei, abraçando mais o corpo frio, como uma criança assustada.

Ele apenas permanecia parcialmente escondido na névoa, como uma miragem. Mas eu sentia que era real. Aquela névoa era o resto do cosmo dele, eu o sentia ao meu redor. Ele estava a alguns metros, me observando, como sempre fazia quando tentava imaginar o que eu estava pensando. Eu sorri triste para ele, acreditando mesmo que estava louco. Se eu tinha mesmo perdido a razão, porque não me entregar a um delírio tão indo?

“O que está fazendo?” – Eu ouvi sua voz ecoar a pergunta em minha mente, mas seus lábios não se moveram.

- Estou apenas chorando... – respondi, voltando a olhar o corpo dele em meus braços e afagando seu rosto frio – Chorando porque acreditei em você... Acreditei nas suas palavras de que ficaríamos juntos. Você é um mentiroso, Camus... – Eu tentava segurar o choro que ameaçava me dominar novamente, mas estava sendo difícil — Um mentiroso idiota... Você se matou pelo seu aluno e me deixou sozinho... – Voltei a olhá-lo, agora com raiva e me sentindo traído – Você me fez feliz por dois dias... Para no terceiro me abandonar! Por dois dias, eu pensei... Eu pensei que podíamos ser felizes juntos... Eu te amo, você me amava... E agora? Eu estou sozinho de novo!

A forma como ele me olhou, com tristeza e dor, me arrancou mais um soluço. Quando ele avançou para mim, a nevoa o envolveu. Eu apenas permanecia ali parado, tremendo e chorando em silêncio, olhando-o furioso e cheio de dor, quando ele finalmente me alcançou.

“Em primeiro lugar, eu não amava você... Ainda o amo...” – Ele começou se ajoelhando a minha frente – “Eu lhe disse que nem mesmo a morte poderia me fazer deixar de amá-lo. Além disso, mon amour, eu não tive escolha... Eu precisava fazer aquilo. Tentei tomar um caminho diferente em Libra, mas percebi que Hyoga precisava aprender aquela lição. Era o meu dever como mestre dele. Sei que agora você o odeia e também odeia a mim...”

- A você, nunca!! – Interrompi-o com um rosnado, mas ele apenas sorriu e continuou como se eu não o tivesse atrapalhado.

“... Mas você precisa entender que era o único jeito. Eu não menti para você, quando disse que o amava e continuo amando. Mas, por enquanto, não posso ficar com você.” – Camus voltou seu olhar para seu cadáver em meus braços, enquanto eu ainda mantinha um abraço protetor sobre seu corpo sem vida – “Eu posso sentir esse abraço... É tão quente... Tão bom...” – Ele voltou a me olhar, enquanto levava sua mão enevoada até o seu corpo, retirando todo o gelo de seu cabelo e pele e devolvendo sua cor normal – “Eu queria que você cuidasse do meu corpo agora, Mi... Gostaria que fosse você a me dar esse último adeus.”

- Mas eu não quero dizer adeus... – Gemi chorosamente, escondendo meu rosto nos cabelos ruivos de seu corpo – Quero ficar com você... Quero você de volta para mim.

“Ainda não, meu amor...” – Ele me respondeu com tristeza – “Mas creio que em breve, infelizmente, você vai se juntar a mim...”

Eu o olhei, sem entender. Ele estava me dizendo que eu iria morrer em breve?

Porém, quando pensei em lhe perguntar, ele pareceu ouvir algo que eu não conseguia e suspirou.

“Eu preciso ir, amour...” – Ele me disse, voltando a me olhar – “Saga, Shura, Afrodite e Máscara da Morte estão me esperando...”

- Mas, Camus... – Eu comecei, querendo implorar para que ele ficasse mais um pouco, eu ainda não estava pronto para que ele me deixasse, porém ele apenas sorriu com carinho e se inclinou para mim.

“Não posso ficar mais, Milo... Eu queria, mas não posso.” – Ele sussurrou próximo aos meus lábios e eu pude sentir o hálito frio que emanava dos lábios dele ao fazer isso – “Mas nós vamos nos ver de novo. Eu prometo.”

E então, como se para firmar sua promessa, ele colou os lábios aos meus. O que era estranho era o fato de que eu senti a mais leve das pressões sobre os meus lábios, como quando ele me beijou pela última vez, o que não deveria acontecer, já que ele não tinha um corpo físico. Porém, sem dúvida alguma, era um toque real. Instintivamente, fechei os olhos e senti o seu frio me abraçar uma última vez, antes de desaparecer.

Quando voltei a abrir os olhos, toda a névoa, todo o gelo e todo o cosmo de Camus haviam desaparecido. Voltei a olhar para o corpo em meus braços e vi que nos cantos de seus olhos fechados havia gotas de água acumuladas, como se fossem lágrimas. Com o polegar, eu as recolhi e sorri com carinho. A ele, também doía partir. Eu sabia disso, mas agora eu tinha uma nova promessa dele para me manter. E sabia que iria doer o que eu teria que fazer agora, mas por ele... Apenas por ele, eu iria suportar.

- Vou acreditar em você mais uma vez, amor... – Sussurrei, beijando-o na testa, antes de pega-lo nos braços e erguer a ambos do chão – E vou te esperar... Para sempre.

Notas finais
É uma fic curtinha, que me veio do nada, enquanto eu ouvia o ost tema do Camus. Então acho que não ficou muito bom. Mas, se gostaram, fiquem a vontade de de deixar um comentário.

Até mais!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!