Entro no meu quarto, visto um top preto com um decote em V, umas calças de ganga escura rasgadas, um sapatos altos pretos e um casaco de ganga. Olho me ao espelho, tudo está do meu agrado, a maquilhagem assenta com o meu tom de pele mulato, as sobrancelhas preenchidas, um pouco de rímel que destaca os meus olhos verdes, uma sombra de um vermelho leve, um batom Matt castanho. O meu cabelo está solto, bem volumoso e aos caracóis.

Saio pela janela do quarto, silenciosamente, para a minha mãe não acordar. Já são quase duas da manhã, está uma noite lindíssima, consigo ver as estrelas a brilhar no céu com toda a força, e ouço grilos, muitos grilos. Ando cerca de um quarto de hora até chegar à grande porta vermelha de um edifício velho. Entro. Começo logo a sentir no meu corpo a vibração que a música causa. Hoje o House não está muito cheio, por isso, não é difícil de encontrar Cláudia.

— Alegria! Estava a pensar que hoje não vinhas! – gritou Cláudia para mim.

Cláudia é a minha melhor amiga, ela é uma rapariga branquinha, com cabelos longos ruivos e olhos castanhos. Hoje trás vestido um macacão cai-cai comprido preto, tem o cabelo apanhado num rabo de cavalo e trás calçados uns sapatos altos pretos.

Eu e ela costumamos vir ao House beber um coupo, dançamos um pouco e voltamos para casa, tornou-se um rotina agradável. Vou ter com ela ao balcão e sento-me ao seu lado. Cláudia estava a contar-me o seu dia entusiasmante. Mesmo antes de ter a oportunidade de pedir alguma coisa, a empregada do bar, Elisa, abriu uma garrafa de vodka preta, deu-nos dois copos de shot e serviu-nos.

— Oferta daquele rapaz sentado ao pé da janela. – sussurrou Elisa.

Era um rapaz bonito, de pele morena, cabelo castanho e olhos azuis, tinha os braços perfeitamente esculpidos e uns ombros largos, era o meu dia de sorte. Estou quase a fazer vinte e dois anos e nada de namorado, talvez aquele fosse finalmente o meu príncipe encantado.

— Alegria, acho que ele está de olho em ti, se não fizeres alguma coisa, eu faço. – Cláudia mordia o lábio com força, às vezes esquece-se de que tem namorado.

— Eu vim aqui para beber um copo, não para namoriscar ninguém, e se posso beber à borla, melhor ainda. – mal terminei a frase uma mão pousou no meu ombro.

— Podes sempre beber um copo comigo. – disse o rapaz misterioso, os olhos dele estavam poisados nos meus e porra... como os olhos dele eram bonitos.

— Desculpa, eu estou comprometida, se quiseres podes levar a garrafa. – disse eu bebendo o meu shot e levantando-me para me ir embora.

Ele fez uma leve força nos meus ombros para eu me voltar a sentar e fez um sorriso matreiro.

— Eu insisto, Alegria. – esclareceu ele.

Nesse momento percebi que algo não batia certo, ele estava a prestar demasiada atenção a mim e à Cláudia, embora ela tenha gritado bem alto ‘’Alegria’’ a música estava bem mais alta.

— Só eu é que lhe posso chamar isso! – exclamou Cláudia.

— Se Alegria não é o teu nome, então qual é?

— Se me dás licença, vou ligar ao meu namorado. – levantei-me do banco e comecei a dirigir-me para a porta, pegando no telemóvel, fazendo de conta que ia mesmo ligar ‘’ao meu namorado’’.

Estava com esperanças que Cláudia me seguisse, mas acho que ela nem se mexeu do banco.

— Dayo... – ele proferiu baixinho – nunca conheci ninguém com esse nome antes, que significa?

Virei-me repentinamente para trás e lá estava a ele, com o braço apoiado no balcão a fixar-me. Calculei que a Cláudia lhe tinha dito o meu nome. Andei furiosamente para a frente.

— Olha eu não sei qual o teu problema, mas eu não quero ter nada a ver contigo! Fui clara o suficiente!? – adverti.

— Ouve, Dayo, eu só quero fazer novos amigos, sou novo na cidade e não conheço ninguém, eu percebo que sejas comprometida, mas o teu namorado com certeza não te impede de fazer novos amigos. – ele falou docemente.

— Um único copo. – disse entre um suspiro.

Não sabia porque me estava a fazer de tão difícil, na verdade, nem sabia porque tinha inventado a história do namorado. Ele até era bastante giro...

Bebemos um copo. Dois. A Garrafa já ia a meio. E quando dei por mim, estavam três garrafas vazias em cima do balcão.

A Cláudia estava prestes a entrar em coma alcoólico, eu e o rapaz misterioso, riamos das figuras dela. Ela estava descalça a dançar, mas mal se aguentava em pé, então agarrava-se a todos os que viessem contra ela na multidão. Eu, ao contrário de Cláudia, tinha uma grande resistência à bebida, estava ainda longe de estar bêbeda, ainda nem tinha chegado bem ao ponto de alegre.

Cláudia caiu de joelhos no chão. Saltei do banco e corri até ela, levantei-a e arrastei-a até à porta, acenei para o rapaz bonito e saí com Cláudia às costas.

Comecei a andar em direção a casa.

— Tem calma! – a porta vermelha atrás de mim abriu-se repentinamente — Não te livras de mim assim, não queres que vos leve a casa? – o rapaz perguntou.

— Não é preciso, mas obrigada. – disse eu dando mais alguns passos.

Pensando bem... a Cláudia ainda morava longe e era de noite, não era má ideia o rapaz levar-nos, mas pensando ainda melhor, eu ainda nem sabia o nome do rapaz, por isso, nada melhor do que fazer algum exercício.

— Eu insisto.

Outra vez aquele '’insisto’’, parecia ser uma palavra gatilho para mim.

— Percebe de uma vez por todas! Eu não te conheço de lado nenhum, nem sei qual é o teu nome, nem eu nem a minha amiga vamos entrar num carro contigo. – dirigi-me a ele agressivamente.

Cláudia sentou-se de pernas cruzadas no chão.

— Amigo, não leves a mal o que ela diz, ela reage assim com todos os rapazes que se tentam aproximar dela. A história do namorado, lembraste? É mentira. E lembraste de ela ter dito que nós não íamos entrar num carro contigo? Também é mentira. Eu não consigo andar, e ela não consegue carregar-me até casa. Por isso, sê um querido e põe-me no banco de trás do carro, assim que eu estiver lá dentro ela vai sentir-se obrigada a vir também, depois deixas-nos às duas em casa, e não te esqueças de lhe pedir o número de telemóvel antes de ela sair do carro.

— Nem pensar! Vou ligar à minha mãe. – avisei pegando no telemóvel.

— Alegria, a tua mãe pensa que estás na tua caminha a entrar no sétimo sonho e tu vais ligar-lhe a pedir para te vir buscar?

— Eu não vou entrar num carro com um estranho. – reforcei a ideia começando a marcar os números.

O rapaz aproximou-se de mim, pegou no meu telemóvel e eu fiquei imóvel, colocou-o no meu bolso do casaco, e deixou-se ficar bem perto de mim.

— Sou o Marco, só não referi o meu nome porque não o perguntaste. E se bem me lembro, não te menti em relação a nada, por isso calculo que é mais seguro vocês entrarem num carro comigo do que eu estar sequer perto de vocês.

Não disse nem mais uma palavra, limitei-me a entrar no BMW preto e a tentar não ser paranoica. Coloquei no GPS do carro a minha morada e a da Cláudia. Agora estava muito mais segura, estava dentro de um carro de um completo estranho e ele sabia onde eu morava.

Parámos na casa da Cláudia primeiro, eu ajudei-a a entrar pela janela e voltei para junto de Marco.

— Já me vais dizer porque a Cláudia te chama Alegria? – perguntou Marco mal eu entrei no carro.

— Dayo significa ‘’a Alegria chegou’’... – esclareci-o sem nunca deixar de olhar para os pés.

— Humm... encaixa-te que nem uma luva. – ele disse sarcasticamente e arrancou com o carro.

— Só tenho cuidado comigo. Se não fosse pela Cláudia, eu nem nunca teria falado contigo em primeiro lugar.

— Porquê? Meto assim tanto medo?

— Medo? – dei uma gargalhada – Tu pareces um anjinho.

— Porque te estás a fazer de difícil? – ele perguntou parando o carro na beira da estrada.

— Porque paraste? Leva-me a casa ou eu saio! – gritei.

— Diz-me porque te estás a fazer de difícil?

— Eu vou me embora! – estava a entrar em pânico.

— Dayo... eu sei que me achas um rapaz interessante, eu consegui sentir como ficaste tensa quando me aproximei de ti.

— Por favor, deixa-me apenas em casa. – falei com a maior calma que consegui.

Ele pôs a chave na ignição e começou a conduzir. Permaneceu um silêncio total até chegarmos a minha casa.

— Obrigada pela boleia.

Quando estava prestes a fechar a porta ouvi:

— Foi um prazer conhecer-te.

Fechei-a de seguida e entrei pela janela do meu quarto.

Despi-me, vesti o pijama e desmaquilhei-me. Pus a roupa para lavar e fui arrumar o casaco no armário. No bolso do casaco encontrei um papelinho:

‘’Festa num armazém, sexta-feira à noite +351963165423’’

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.