Um último Beijo

1 Capítulo 1 one-shot


Tem sangue no meu vestido, não é uma mancha muito grande mas vai ser difícil de limpar. Ele não percebe. O vestido não é importante, por mais que eu tenha passado horas escolhendo e torrado três meses de salário nele. Nate simplesmente o arranca com voracidade, machuca um pouco meus braços quando faz isto.

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Eu odeio a maneira como ele não repara nos detalhes, o jeito como estou, a maquiagem, a roupa, o quarto especialmente arrumado. Nenhum agradecimento. Eu transformei uma pocilga em um quarto decente, tem velas pelo chão, a música favorita dele tocando do cd que eu comprei. Tudo limpo, bem diferente da porcaria de quando chegamos. Ele disse, desde que ficassemos juntos o lugar não importava. Idiota, eu né, por concordar.

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Então ele chega. Sua boca cheira a álcool. Londres é cheia de pubs, Nate poderia estar em qualquer um. Dançando, talvez com outra pessoa, seus braços a envolvendo como envolvem a mim agora.

Eu sei. Não sou tão idiota como pareço.Um pouco. A menina inocente que se entrega por completo. Odeio o jeito dele, no entanto, ele disse \" Vamos ficar juntos neste Natal, só eu e você\" e sumo de casa no meio da noite, enfiando me num carro com gente que eu não conheço.

Londres é grande e linda. Estou num quarto de um motel qualquer em um de seus piores bairros, escuto tiros, alguém morreu bem do outro lado da rua.

-Por favor N, eu fiz torta, a gente pode comer na praça e ver as estrelas e coisas assim... — tento falar, mas minha boca de repente é preenchida pela dele.

É véspera de Natal e a minha torta irá queimar. Foda-se, meu corpo está submisso aos carinhos de Nate. Sinto arrepios aonde ele toca, seus lábios percorrem a curva da minha perna.

Ele não percebe o corte em meu braço, mesmo a ferida estando um pouco aberta.

Me pergunto se ele me ama.

Então o telefone toca, pela música eu sei que é o celular dele.

-Alô. Oh,sim.Claro, em cinco minutos. Não, está lindo assim,claro que eu vi.

De repente eu sumo, como se ele tivesse esquecido da minha presença. Está tão diferente, sua voz mais carinhosa e de certa forma, atenciosa.

Imagino se é ela. Meu estômago se contrai, acho que vou vomitar.

-Nate, vou desligar o forno, já volto.

Acho que ele nem ouviu. A cozinha cheira a algo queimado, minha torta.

-Que porcaria é essa? Você quer por fogo na porra do quarto, não basta a merda dessas velas espalhadas?

-Foi mal droga.

-É péssimo. Você não consegue fazer nada direito. Vou sair.

Meu nariz começa a coçar, ele não vai voltar tão cedo, estou me segurando para não chorar.Ele vai voltar. Me iludo. Não demora muito tempo e as lágrimas começam a rolar pelo meu rosto.

Imagino se ela vai cozinhar ou se eles irão a um restaurante. Ele tem dinheiro pra ela, pro pub, pra vodka. Menos pra mim.

Estou abrindo a gaveta, o objeto prateado reluz. É coisa da minha cabeça,Nate só precisa resolver algum problema. Estou tentando me convencer.

Fico em dúvida em ligar para meus pais. Melhor não, se eu não quiser ouvir : nossa filha não é uma vagabunda qualquer que vai embora contra a vontade dos pais.

Pego a faca. Ela parece sorrir pra mim. Falta meia hora para o natal, lembro da m inha infância, passeando nessa época com meus pais, o coral que cantava na frente de casa, o mini-estábulo e o jantar.

A noite está fria lá fora. Mesmo assim, saio de calcinha e sutiã, enrolada apenas no lençol barato do motel, a torta queimada em uma mão, a faca e uma garrafa de vodka na outra.

Uns trombadinhas mexem comigo quando eu passo, tanto faz, palavras não me machucam mais. Está nevando, a praça só tem uns mendingos dormindo bebados. Compatriotas, rio.

Sento em um banco e como um pedaço da torta. Nate estava certo, sou péssima em tudo. A vodka desce como um alívio,limpando o ardor deixado pela torta, principalmente depois de colocar umas coisinhas extras nesta, parece um remédio para mim.

Minha visão começa a nublar. Vou esperar Nate, quero que ele veja o céu comigo e a neve, é tão lindo. Infelizmente, acho que exagerei na medida, minhas mãos tremem. A torta se espatifou no chão. Estou caindo, meu corpo adormeceu de repente. Não. Eu quero esperar Nate. Por que você demora tanto?

Era pra ele estar aqui. Ver isso comigo. Sentir isto. Não...Eu não consiguiria dar isso para ele não é mesmo? Afinal, eu sou realmente uma idiota.

Queria pelo menos um último beijo. O big Ben vai tocar agora, 12 badaladas. Meus olhos estão se fechando sem ao menos eu mandar.

Sinto a neve tocar no meu corpo. É a última coisa que sinto. Parece com os beijos de Nate.

Tão bom.

Notas finais
ninguém nunca comenta, então nem vou pedir ;-;
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!