Chegamos rapidamente na casa em que ocorreria a festa. A música estava tão alta que podia ser ouvida por toda a rua, e jovens entravam e saíam a todo momento pela porta da frente e pelos fundos. Alguns deles estavam sentados nos jardins, rindo, tirando fotos e segurando latas de cerveja.

Enquanto caminhávamos para a entrada, senti o olhar de Frederico. Olhei de maneira questionadora para ele.

— Até que você ficou gostosinha. – comentou. – Mesmo que não tenha peitos.

— É verdade. – eu ri. Parecia irritá-lo profundamente que nenhum de seus comentários maldosos me atingisse. – Mas isso não importa. Você também não tem peitos, mas isso não impede que os caras te confundam com uma menina nas ruas.

— Ah! – ele também riu. – Você é boa com as palavras.

— Esse deve ser o primeiro elogio que você me faz.

— Eu acabei de te chamar de gostosa.

— Ah, é mesmo. – eu revirei os olhos. – Você tem uma tendência a fazer elogios seguidos de críticas. Fica difícil saber o que prevalece.

Frederico era mesmo um rapaz popular. Assim que entramos, ele foi recebido por inúmeras pessoas que o cumprimentavam, vinham falar com ele e tentavam chamar sua atenção. Os rapazes pareciam ser todos seus amigos, e as meninas pareciam prestes a se jogar em seu colo. Ele já devia ter ficado com a metade delas.

Estar ao seu lado me incomodou um pouco, especialmente pelos olhares que recebíamos. Me incomodava, principalmente, que fossemos vistos como um casal. Fomos à cozinha e Frederico foi direto ao freezer, pegar bebidas. Me ofereceu uma, mas balancei a cabeça negativamente.

— Você não bebe? – respondi que não e ele continuou. – É mesmo muito certinha.

— Não, eu não sou certinha. Pensa comigo: ser certinho é fazer o que os outros esperam que você faça. Eu nunca tive vontade de beber. Você e muitas outras pessoas querem e esperam que eu beba, mas eu não quero, por isso me recuso. Ir contra o que esperam de mim e me pressionam para fazer não é ser certinha, mas revolucionária. É um ato de rebeldia.

Frederico riu, como se eu falasse o maior absurdo do mundo. Seus olhos foram em direção a porta e, em seguida, ele me puxou pela cintura, numa espécie de abraço. Quando foi que eu o tinha dado esse tipo de intimidade?

— O que é isso? – resmunguei, tentando afastá-lo delicadamente.

— Eu senti vontade de tocá-la. Você disse que fazer o que quer, independente do que os outros esperam, é revolucionário. Estou apenas sendo rebelde agora. – ele sorriu vitorioso.

— Bem, isso é verdade. – respondi, dessa vez o dando um generoso empurrão e o fazendo me soltar. – Mas querer e poder não são sinônimos. Você pode olhar o quanto quiser, mas não pode tocar. Além disso... Você não faz o meu tipo.

Antes que ele pudesse responder, Will parou ao lado de nós, com um largo sorriso no rosto, e me olhando dos pés à cabeça. Pude entender claramente o motivo da súbita e forçada aproximação de Frederico. Era um pouco patético, mas parecia ter funcionado, porque havia um brilho diferente no olhar de Will.

— Parece que aquele encontro deu mesmo certo. Vocês parecem realmente próximos... – ele comentou.

— Não é nada disso. Nós apenas nos encontramos... – eu comecei, mas Frederico me interrompeu.

— Nós viemos juntos.

Eu podia sentir a tensão entre eles. A última coisa que eu queria agora era ser alvo de uma competição ridícula entre machos.

— Eu vou ao banheiro. – inventei, desesperada para escapar dos dois.

O combinado era ir até a festa com Frederico, e ele me daria as informações. Nunca foi especificado quanto tempo eu deveria ficar, ou como deveria agir. Encontraria logo a oportunidade perfeita de ir embora daquele lugar, pois a música já me dava dor de cabeça e o cheiro de bebida me enojava. No caminho, encontrei Mila e outros três rapazes. Ela estava sempre rodeada de homens. Ela me abraçou como se não nos víssemos há alguns anos.

— Vamos dançar! – quase gritou, animada, e segurando minhas mãos.

— Na volta. – sussurrei em seu ouvido. – Preciso ir ao banheiro.

Ela concordou. Desejei poder me trancar no banheiro e ficar ali até a festa acabar, mas não podia. Olhei meu reflexo no espelho, retocando o batom. Apesar de dificilmente ir a festas, eu gostava muito de me arrumar. Minha mãe havia me ensinado a me maquiar e dizia sempre que uma mulher deve se arrumar para ela mesma, e deve estar bonita em qualquer situação. Eu queria algum dia ter pelo menos a metade da beleza e da elegância da minha mãe.

Assim que saí do banheiro, fui capturada por Mila, que me puxou e começou a dançar, sacudindo meus braços. Ela se esforçava tanto! Eu não podia ser rude com ela. Comecei a dançar, me divertindo com seu jeito animado e espalhafatoso, um pouco mais exagerado pela bebida.

— Aqueles dois não param de te olhar. – ela sussurrou no meu ouvido. Segui seu olhar e vi Frederico e Will como dois urubus. – Vamos fazer uma parceria? Você fica com o loirinho e eu fico com o fortão. Negócios.

Não respondi. Aquela parceria não era lucrativa para mim. Comecei a me sentir desconfortável com aquela situação, mas não deixei transparecer. Mila voltou a sussurrar para mim.

— Hum, o fortão está vindo pra cá.

Não esperei para ver o que ele queria ou planejava. Saí de lá praticamente correndo, sem dar explicações para ninguém. Saí pela porta dos fundos e suspirei aliviada ao ver que não havia ninguém na varanda de trás, apenas alguns grupos de amigos mais à frente, na grama. No entanto, meu alívio durou pouco.

— Por que você está sempre fugindo de mim?

Eu reconhecia aquela voz. Sua mão grande pousou no meu quadril e dei um passo para trás, notando que estava encurralada numa parede. O sorriso de Will se alargou mais. Desejei tanto que as coisas fossem diferentes! Ele era tão bonito... Mas eu não sentia nada por ele. Seu toque me incomodava. E não existia nada pior do que ser tocada por alguém que você não gosta.

— Por que você está sempre atrás de mim? – respondi com outra pergunta.

— Eu estou afim de você desde a primeira que te vi. Mas você continua me rejeitando. É por causa do Fred? – ele se aproximou ainda mais. Nossos corpos agora estavam colados e aquilo me desconcentrava.

— Não, eu já disse não ter nada com aquele pirralho.

— Se não tem interesse nele... Então... – seu rosto se iluminou, como se tivesse encontrado a resposta. – Você é lésbica?

— Não, não sou. Você acha mesmo que uma menina precisa ser lésbica para te recusar? – eu ri. – Sua autoestima é admirável.

— Por que você simplesmente não tenta?

— Não. Eu não quero.

Will tentou me beijar, mas eu virei meu rosto. Continuamos fazendo esse jogo ridículo: ele insistindo, eu me desviando. No exato momento em que ele segurou meu rosto e nossos lábios se encontraram, ouvimos uma voz muito próxima.

— Desculpe interromper. – Will, felizmente, afastou os lábios dos meus e nós dois olhamos na direção de Fred, que tinha aqueles habituais braços cruzados. – Mas essa visão está me dando nojo.

Aproveitei a deixa para empurrar Will para longe de mim, e praticamente correr na direção do jardim. Os dois ficaram me olhando sem entender e eu apenas gritei, sem maiores explicações:

— Estou indo embora!

Não sei o que eles discutiram depois disso. Mas quando já estava na rua, senti uma mão em meu ombro, mas não me virei. Eu sabia quem era.

— Espere! Tudo bem ficar chateada, mas comigo? Eu não fiz nada. – Fred se explicou, levantando as mãos para mostrar que era inofensivo. Parei subitamente, olhando-o nos olhos.

— Não estou chateada com você. Só estou com pressa.

— Pretende ir embora a pé? É perigoso. Está tarde, as ruas são escuras e desertas e você está sozinha. – ele tinha bons argumentos. – Eu trouxe você. Eu vou te levar de volta.

Não discuti. Entramos no carro e permanecemos em completo silêncio boa parte do caminho. Quando já havíamos entrado no campus, Fred voltou a olhar para mim com o canto do olho.

— Está triste? – perguntou hesitante.

— Não.

— Está muito calada. Isso é estranho. – percebendo que eu não continuaria a conversa, ele prosseguiu. – Aquela idiota fez... Fez alguma coisa ruim?

— Está preocupado comigo? – um sorriso brotou em meus lábios.

— É claro que não. Por que estaria?

— Você está me levando em casa e não passa da meia noite. E está a todo custo tentando me fazer falar.

— Aquela festa estava uma merda, é por isso! Aquelas garotas... Eu detesto mulher feia.

— Você é o maior idiota de todos.

Quando chegamos, tentei descer do carro, mas Fred não destrancou a porta. Olhei em sua direção, questionando-o, e ele logo desviou o olhar e começou a falar.

— Vai embora sem o seu pagamento? – ele gaguejou um pouco. – Está muito cedo para ir para casa.

Aquela era a única maneira de salvar aquela noite. Abri um sorriso sincero e Fred suspirou, de maneira que me pareceu aliviada. Ele logo se pôs a falar sobre o irmão, mas os dois não pareciam muito íntimos. Ele comentava os acontecimentos como alguém de fora, que observa atentamente, sempre mantendo um distanciamento. O carro estava escuro e eu não podia ver muito bem sua expressão, mas enquanto falava ele não olhou uma vez sequer para mim. Eu podia jurar que ele estava sério e desconfortável como quando citei Mike pela primeira vez.

— Quando eu tinha dez anos, ele já passava dos vinte. Por isso não me lembro tão bem da sua juventude, mas sei o que sempre era dito por nossos pais, ou nas reuniões de família. Ele era uma criança muito inteligente e estudiosa. Formou-se e ingressou na universidade aos dezesseis anos. Também não demorou muito para se formar, e em seguida ingressou no mestrado. Ele tinha mesmo jeito de professor universitário, com toda aquela postura e seriedade. Era o filho exemplar: meus pais o deram um piano de presente num de seus aniversários. Ele tocava sempre, mas nunca soube se realmente gostava, ou se fazia isso para agradar a família, que se reunia em volta dele para ouvi-lo. Tocar um instrumento clássico era um sinal de status que meus pais estimavam bastante, mas nunca o forçaram a nada. Quando ele disse que queria cursar geografia, meus pais quase entraram em colapso. Queriam que, assim como meu pai, ele fizesse medicina. Achavam que ele tinha inteligência para aquilo, e que cursar qualquer outra coisa era um desperdício dela. Mas ele era teimoso e insistiu em fazer. Assim que fez dezoito anos, foi embora de casa. Não sei bem como ele se virava naqueles dias, mas soube que trabalhava na própria universidade, e vivia de bolsas. Meus pais não comentavam muito sobre sua situação, pois achavam que se fossem duros ele se arrependeria e voltaria. Ele nunca voltou.

Fred parecia imerso em suas memórias. Parou de falar subitamente, e só então olhou para mim. Seu olhar me dizia que havia acabado e não pretendia falar mais. De qualquer forma, já era muito. Era mais do que poderia esperar. O agradeci, empolgada, e o vi destrancar a porta do carro. Não disse mais nada. Antes de descer, o olhei mais uma vez com gratidão.

— Durma bem e tenha bons sonhos.

Fred ficou muito surpreso, mas fechou a cara, fazendo-se de forte. Na época, eu não entendi porque ele parecia tão surpreso com um simples cumprimento. Saí do carro e corri em direção ao dormitório, feliz como uma criança. Demorei a dormir imaginando Mike como médico. Ele provavelmente seria bom em qualquer coisa que fizesse. Também o imaginei aos dezesseis, já formado e numa faculdade. Embora parecesse tão bom, devia ser difícil carregar tamanha pressão tão jovem. Ele devia ter suportado todos os tipos de expectativas vindas de todos à sua volta. Devia ter explodido, se cansado, e saído de casa em busca não só de independência, mas de liberdade. Fugindo da cobrança e dos olhares, que deviam estar sempre nele. Mas a imagem que mais me marcava era dele tocando piano. Fred não havia dado detalhes, mas eu podia imaginá-lo numa sala ampla e com janelas de vidro, tocando um piano branco, com olhos fechados e expressão enigmática. Pelas fotos que eu já tinha conseguido juntar, ele era bastante parecido com o irmão, então sempre que ia imaginá-lo, juntava sua imagem com a de Fred, que eu conhecia mais expressões faciais e mais detalhes.

Mike era tão lindo que fazia meu coração se acelerar. Não era nada parecido com Will. E o que eu sentia quando o imaginava também não tinha semelhança alguma com o desconforto e a insegurança que o toque e o olhar de Will me causavam. Eu não queria nenhum outro homem na minha vida. Não precisava, nem nunca precisei. Beijos e abraços não eram nada se não vinham de quem eu amava. Um beijo sem sentimentos é um simples encontro de bocas. Nada diferente de esbarrar um braço num desconhecido no meio da rua. Mas beijar quem se ama... Devia ter uma sensação única.

Eu nunca gostei de ninguém. Nem nunca senti aquelas coisas. As experiências românticas que tinha eram vazias e ao mesmo tempo amargas, porque me lembravam o que eu não podia esquecer: eu não queria nada daquilo. O que eu queria nem mesmo eu conseguia explicar. Não tinha nome.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.