Ultraviolência
1 ULTRAVIOLÊNCIA
Era a noite do meu aniversário, no entanto ninguém sabia. Um garçom esbarrou em mim primeiro, pediu desculpas e me ofereceu uma taça, pensou que me compraria por uma tragada. Observei atentamente como em um seminário, todos os talheres de prata e os lustres de ouro, o cenário idílico para os ricos, parecia uma fossa de desejos e aspirações confiscadas por alguns dólares a mais. Sim, eu estava ali com um terno manchado de champanhe e a consciência suja como lama, pois eu não pertencia àquele lugar, por mais que o meu ego dissesse demasiadas vezes que tudo aquilo deveria me pertencer um dia.
Andei pela sala e me senti invisível, pois não carregava no bolso uma quantia exorbitante igualado a maioria, e sim apenas o que meu coração aguentava, umas tantas mágoas e o restante de prantos, e claro, a antiga dose de amor materno.
O cenário que não condizia com a realidade, a fragilidade da classe mais elevada ocultada por uma mansão de valor incalculável e jargões gastronômicos, causavam-me repúdio e o despertar de ignotas emoções que me fariam explodir em outras ocasiões. Sinceramente, todos eles não se diferenciavam muito dos ludibriados nas tabernas da vida, a única diferença era que a crença primordial na cabeça de cada demente ali, era que aqueles trajes de malha fina valiam mais que a vida de qualquer outro debilitado economicamente. Porém, eu estava ali para provar, que o futuro idealizado com virgens me esperando no paraíso é uma mentira dos nossos antepassados, facaltruamente para que esperemos fogos de artificio numa posição elevada.
Quando um palito de fósforo queima, o fogo e suas proporções ígneas torna a labareda por cima. Todos eles poriam o planeta em chamas se pudessem ser o Rei das Cinzas.
Salpiquei meu prato, com nome francês, que em seu estado verídico não significava nada, como se só restara-me um copo açucarado ou uma garfada salgada. A sensação do povo na mão dos poderosos.
Saquei do bolso dianteiro, contorcendo-me na mesa, um isqueiro. Pensei em olhar para os lados e deixar meu lado destrutivo e caótico soltar as criaturas antropofágicas ao acendê-lo bem próximo ao pano que forrava a mesa. Logo guardei. Em venetas, não permita ser levado, aliás, há altas probabilidades de estar envolto numa, seu sofá já está cansado do seu corpo invertebrado.
O déspota subiu no palanque, tocou a taça duas vezes com um talher dourado. Patriarca e venerado. Uma sociedade brasileira muito igualitária, por via de dúvidas.
Minha face demonstrava deboche, mas quem me prova que alguém me via? O discurso ao ser transcrito pode parecer rápido e contínuo, contudo, o indivíduo de calamitosos desejos mesclava cada palavra com um movimento esdrúxulo que fazia com os lábios, indescritível. Havia lido anteriormente, que entre o fuzil e a caneta há uma discrepância colossal, não há como negar, a caneta com toda certeza é mais poderosa que um fuzil.
Dizem que entre o negro, o pobre, o homossexual, e do outro lado: o aristocrata, o rico, o poderoso; podemos escolher com clara visão os mais lascivos, os ignorantes apontam sem pestanejar o primeiro grupo, com o poder do julgo qualquer judeu vira Hitler.
Cocei o queixo, a “festa” começou a ficar entediante, sem tralhas para arrumar, parti, com a noite inaugurando mais uma caminhada, pelos caminhos da injustiça. Com pessoas defendendo o asfalto e as suas posses. No Brasil, o que define quem você é o valor e a quantidade de propriedades privadas, espero que tenha alguma, ou você é nada, ou será que... Falta alguém dizer que tudo isso está incoerente?
FIM
16/04/15
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