Ultravioleta

1 Capítulo 1


Duzentos e oitenta e oito dias antes [Ramona’s P.O.V]

O vento de final de tarde era gelado, e dançava sobre a terra. Meus passos largos e apressados eram o único som que preenchia o local: um zoológico abandonado. Há duas décadas atrás ele fora fechado porque os animais que aqui viviam morreram de uma suposta epidemia. O céu de inverno ficava alaranjado a medida em que o sol ia se pondo atrás das colinas não muito distantes daqui. Olho no mapa do zoológico todo empoeirado e gasto pelo tempo, através de uma caixa de vidro retangular. A informação era clara: oito mil libras estavam enterradas onde costumava ser a morada de um leão. A exatos 800 metros daqui, pelo o que vi. O portão já estava estourado. Eu seria burra de pensar que durante duas décadas alguém iria invadir isso aqui, porém seria bem desnecessário. Com tanta coisa pra fazer e tanto lugar para ir, por que aqui? Antes de entrar no local, volto para a estrada e retiro meus óculos de sol e olho em volta. Ao longe, uma motocicleta estacionada do lado esquerdo, e um carro do lado direito. Como eu pensei. Eu nunca erro. Pego minha Winchester 22 que estava na barra da minha calça, pressionada sobre meu quadril. Carregada. Aperto com as duas mãos, respiro fundo, e adentro o zoológico abandonado.

Deste ponto de vista, ele é muito mais macabro do que imaginei. Todo o cuidado é pouco, nunca se sabe quem pode estar escondido por entre os matos que cobrem as jaulas. Não muito a frente, um corpo caído no chão, todo ensangüentado. A causadora da morte é nada mais e nada menos do que um tiro, bem do lado esquerdo do peito, que acertou em cheio o coração. Só pode ser obra de uma pessoa, pensei, existem poucos atiradores bons que não sejam de elite nessa cidade. Agradeço por ser uma delas. Meus olhos estavam atentos a qualquer movimentação suspeita, mas não passava de o vento balançando o mato. Ando calma e apressadamente, com passos firmes, leves e ao mesmo tempo nervosos. Meu coração a mil. Eu não sou a única aqui. Eu deveria saber. E sabia. Sigo os passos que ficaram marcados na terra, e logo avisto outro corpo, dessa vez de baixo de uma placa. Jaula do leão, á 500 metros. De longe, ouço tiros ecoando pelo local, e gritos agonizantes. Outra vida que fora tirada. Outra alma roubada. Ando mais, e mais. E a cada passo dado meu coração disparava. Quando vejo, já estou na frente da jaula do leão; que nada mais é do que um mini bosque que ficou assim devido ao tempo, com uma cratera no chão, que suponho que deveria ser um lago, e uma espécie de caverna pequena, tudo coberto por barras de ferro.

Aonde alguém esconderia oito mil libras? Corro meus olhos por toda a extensão do local. E toda a minha atenção se volta para a caverna. Ótimo. Caminho com passos leves e perto das árvores, até que passo por um pedaço em que a terra está um tanto quanto elevada em comparação ao resto do chão. Piso em cima, e aquilo range, como se fosse madeira. Verifico se ninguém está olhando e me abaixo lentamente. Não posso me dar ao luxo de largar a arma, então com apenas uma mão, começo a desenterrar o objeto. Era um pequeno baú de madeira escura, com as iniciais “MB” gravadas com letra cursiva na tampa. Com uma boa pancada, consigo quebrar o cadeado enferrujado. Um frio percorre a minha espinha, não por causa da ansiedade de saber o que tinha dentro do baú, mas sim porque sinto o cano de uma arma na cabeça.É o fim, penso.

— Mas olha o quem temos aqui – uma voz rouca preenche meus ouvidos em um tom autoritário – ,se não é a famosa Ramona Marshall... Sempre na frente dos homens, não é? Nunca se submetendo, como as outras mulheres. Mas deixe-me lhe contar um segredo – o homem (desconhecido, para mim), pegou minha nuca, me levantou e me prensou contra a árvore. Não bastasse isso, com a arma apontada para minhas costas, ele sussurra em meu ouvido – homens detestam quando mulheres estão no comando.

É o fim. Pensei assim que ouvi o som de uma arma ser engatilhada.

- Não é assim que se trata uma dama – uma segunda voz surge no local, talvez para o meu alívio, ou não. – Ora, vamos lá, Sean. Estou tentando ser legal e evitar de arrumar mais uma vítima de minha mira perfeita.

- Ethan, some daqui – disse Sean – sabemos o que ela achou e...

- O que ela achou? Um baú insignificante? O dinheiro está comigo, seu babaca. Agora me faça o favor de se afastar da dama e abaixar a arma? – Sean riu em desgosto. Sinto o cano da arma novamente sobre meu estomago e fecho os olhos com força.

Meu corpo treme e dou um pulo quando ouço um tiro ecoando no local. Abro meus olhos, minha roupa contém alguns respingos de sangue e Sean está deitado no chão ao nosso lado, apertando a coxa esquerda, ensangüentada. Desvio o olhar de Ethan, coloco o baú dentro de uma bolsa e me levanto. Ethan tem uma bolsa igual, apenas com o conteúdo diferente. O dinheiro. Ele dirige seu olhar a mim como quem quer dizer “vamos”, em silencio.

- Acho que não foi dessa vez, querido. Quem sabe em uma próxima – digo para Sean assim que Ethan se afasta um pouco.

Caminho ao lado de Ethan até a entrada principal, que foi por onde entramos. A essa hora, o dia já havia acabado e a lua começava a se erguer atrás das colinas. A bolsa bege está na minha mão, e Ethan se encosta em sua moto, colocando a dele atrás de si, no banco da moto. Minha escolha deve ser rápida: o pequeno baú ou o dinheiro. Preciso agir. E rápido. Fico frente a frente com o moreno dos olhos violeta, que me olha de cima a baixo.

- E então...? – Ethan pergunta.

- Eu queria agradecer por o que você fez antes... legal da sua parte. Considerando o fato de que não nos conhecemos... E de que não podemos ser amigos

– respondo em um tom mais baixo, porém firme e sem perder a postura.

- E por que não? – Ethan levanta uma sobrancelha.

- Ah, por favor Ethan. Não se faça de desentendido. Você sabe e muito bem do que estou falando.

- Ok, infelizmente eu sei. Podemos não nos conhecer, mas sei muito sobre você. Ramona Marshall, 22 anos, trabalha como balconista do Belgo’s, não? Fugiu de casa e entrou para a máfia muito cedo. E dentre tantas outras coisas... – nesse momento, Ethan me puxa pela cintura, colando nossos corpos – solteira.

É agora. Pensei.

Passo meus braços ao redor do tronco de Ethan e os desço, até encontrar a bolsa. Faço uma troca rápida, segurando a dele com a mão esquerda e deixando a minha ali. Feito.

- Estar solteira não significa que eu esteja disponível – Dou um chute nas partes baixas de Ethan, fazendo-o se curvar para frente, e saio com passos largos e rápidos até a minha motocicleta.

O eco da moto reverberava por toda a estrada acordando animais adormecidos na floresta ou nas montanhas que rodeavam a estrada deserta. Eu já estava quase no limite da velocidade e meu velocímetro estava a ponto de explodir. A essa altura, eu já não queria mais saber se Ethan viria atrás de mim para recuperar o dinheiro, estou pouco me importando. Pelo menos eu cumpri o meu dever, a minha missão. E isso já vale mais do que qualquer outra coisa. Acho que consigo uma grana legal depois de hoje, algo que realmente dê para o restante do mês. Vou poder dormir ao menos um pouco mais tranqüila do que nas outras noites. Afinal, o dia foi cheio, e ainda tem muito mais pela frente.


Duzentos e oitenta e sete dias antes [Ramona’s P.O. V]

Aqueles olhos multicoloridos não paravam um segundo sequer desde que o homem entrou no bar. A sua barba por fazer e suas olheiras entregavam-no, provavelmente ele estivera acordado a algumas noites. Estatura mediana, porém forte, roupas escuras e uma jaqueta de couro pesada para lhe proteger do frio noturno da cidade. Conheço muito bem esse tipo. A luz fraca do bar lhe destacou os olhos, que procuravam perdidamente por alguma coisa, ou alguém. Então ele me fita, intensamente e imediatamente, como nunca antes.

Aos fundos, meu patrão dava sermões nas poucas garçonetes que trabalhavam ali, reclamando de sua incompetência. Ele era um velho baixo, gordo, careca e rabugento e viciado em donuts. Ele administrava o caixa, controlando quem pagava ou não e, sempre que podia, dava um jeito de conseguir mais dinheiro do que os clientes deveriam pagar. As luzes se apagaram e o pequeno palco de madeira escura foi iluminado. Uma musica animada começou a tocar e algumas mulheres começaram a dançar. Os homens se divertiam ao ver as mesmas rebolando e empinando conforme o ritmo da musica. Um sorriso enorme estampava os rostos daquelas jovens, mas tenho minhas duvidas sobre elas realmente estarem sorrindo. Nem sempre um sorriso significa felicidade. Às vezes é só uma mascara que esconde o que realmente sentimos, para evitarmos preocupações alheias e perguntas que nem mesmo você saberia responder.

Eu as entendo, por mais que eu negue, eu odeio trabalhar aqui. Mas fazemos o que é preciso para nos sustentar. Desde sempre fui muito sozinha. Meus pais se separaram ainda quando eu era jovem e minha mãe deu a falecer. Sempre vivi com meu pai, mas tínhamos uma relação complicada também. Muitas vezes ele dava mais valor ao seu trabalho do que a mim. Então peguei minhas trouxas e sai de casa. Eu era adolescente na época, não sabia o que estava fazendo e muito menos no que eu iria me meter e ser quem eu sou. Meu sonho desde sempre foi estudar em uma boa universidade. Mas as condições financeiras não ajudaram e a desvalorização da mulher muito menos.“Mulher foi feita para agradar o marido e cuidar da casa. Nada de estudar.” Foi o que eu sempre ouvi, de amigos, pais, familiares, conhecidos e até desconhecidos. Mas eu posso ser muito mais do que isso. Eu não nasci pra ter uma vida medíocre e banal. Eu não sou como as outras. Eu também posso fazer o que os homens fazem. Posso (e sou) inteligente, muito mais do qualquer outra mulher que aceita sua vida de submissa por ai. Eu nasci pra ser livre e fazer o que eu quiser. Eu dizia para mim mesma. E foi com esses pensamentos que eu consegui me enfiar em um dos becos da cidade e mostrar para um bando de homens que também consigo ser ameaçadora, manusear uma arma e dar uns bons socos. Claro, nunca faço nenhum serviço sozinha, estou sempre acompanhada. Afinal, todos estamos.

Afrouxei um pouco a fivela do cinto que prendia a minha saia. O mesmo par de olhos claros de antes agora estava sentado em frente ao balcão. Olho para os lados, mas todas as garçonetes estão ocupadas em outras mesas. Ótimo. Sempre sobra pra mim

- Ramona! – meu chefe diz gritando. Reviro os olhos e sigo em direção ao rapaz.

- Posso ajudar? – pergunto, segurando firme a caneta e o bloco de papel na mão.

- Eu quero uma dose de tequila, por favor – a voz rouca do rapaz tilintava nos meus ouvidos.

Anoto seu pedido no bloco de papel e pego a bebida, coloco-a em um copo de dose única e entrego ao rapaz.

- Mais alguma coisa? – pergunto e aperto os dedos na caneta, nervosa.

- O seu número, obrigado – ele diz e sorri de lado.

- Hm, não. Desculpe – os olhos claros me fitam e ele levanta uma sobrancelha

– O que é? Não posso rejeitar?

- Sem querer ser modesto, mas já sendo, ninguém me rejeita – Mas o que? Acabo rindo ironicamente.

- Fico lisonjeada em ser a primeira mulher a te dar um fora. – lhe entrego a nota fiscal escrita à mão — Aliás, o caixa fica a direita. E tente não ser tão direto na próxima vez.

- Então você prefere os intermediários? – ele diz e pega o pedaço de papel do balcão. – É uma pena que eu sou um. Eu iria te ligar, mas como não tenho seu numero... Eu passo te pegar as sete no sábado.

- Ah Ethan, me poupe...

- Não se atrase. Odeio ter que esperar.

Então ele me dá as costas e segue em direção ao balcão.

Eu mereço.

Quando Ethan finalmente deixou o bar, apenas se ouvia as risadinhas das outras garçonetes desocupadas. O que dizer sobre minhas colegas de trabalho? É quase um insulto ter que conviver com elas. Todas são extremamente inúteis, exceto por Elizabeth...


[Elizabeth’s P.O.V]

- Ele convidou a Ramona! – Laura estava com as mãos em meus ombros e me balançava de um lado para o outro enquanto ria e gritava tudo ao mesmo tempo. – Ele veio aqui só para convidá-la. Eu não acredito!

- Laura, ele só convidou a Ramona para sair. Homens saem com mulheres, isso é normal. – tentei acalmar a Laura, a menina de 17 anos que veio trabalhar no bar há poucos meses. Ela ainda é inexperiente, imatura e extremamente agitada, principalmente quando se trata de Ethan Bennet, seu amor platônico.

- Mas é O Ethan, Elizabeth. Eu tenho certeza que ele veio aqui só para convidar a Ramona, até porque Ethan nunca viria ao Belgo’s.

- Eu não sei o que você vê de tão interessante nesse Ethan, sinceramente. E sinto lhe informar, mas a Ramona recusou o pedido dele.

- A Ramona tem problemas? Quem recusaria Ethan Bennet? – disse balançando as mãos freneticamente.

- Ah, olha o chefe deve estar me chamando! Nos falamos depois.- não queria ficar ali ouvindo sobre o “homem gostoso que nunca é recusado” então dei uma desculpa qualquer para fugir da conversa. Sou ótima em fugir de assuntos que não me interessam. Anos de prática.

Depois de atender algumas poucas mesas, fui falar com a Ramona do tal gostosão que está tentando ter algo com ela.

- Então, fiquei sabendo que o homem mais cobiçado da cidade está te chamando para um encontro. – ironizei

- Ele é um idiota – ela me lançou um sorriso fraco – Bonito, mas idiota.

- Ouvi falar que seus olhos são os mais bonitos da cidade.

- Eles são bonitos, mas, sinto que já vi aqueles olhos em algum lugar. Eles me parecem muito familiares. – Ramona olhou em volta, como se estivesse procurando alguém. Segundos depois fixou seu olhar em mim – Muito parecido com os seus, alias.

- Acho que é só impressão. — desviei o olhar e ajeitei meus óculos no rosto — Só pelo que a Laura me fala, já dá pra perceber que ele é um canalha. Não sei como ela consegue gostar dele. – tentei desviar do assunto.

- Se ele acha que está sendo original, está errado. Há um milhão de caras igual a ele por ai.

- Por que todos os homens são iguais?

- Homens. – Ela revirou os olhos.

Ramona era uma boa amiga, eu gostava dela não só por ser uma ótima pessoa, mas também por ter os mesmos ideais que os meus. Não sei como conseguíamos ser tão diferentes e tão parecidas ao mesmo tempo.


Horas se passaram, estávamos completamente entediadas. Então resolvemos ficar sentadas em uma mesa perto da porta do bar, contando os segundos para ir para casa. Durante esse período de tempo, eu e Ramona conversamos sobre como viemos parar ali, trabalhando como garçonetes em um bar de esquina. Ramona falava tranquilamente sobre o seu passado, já comigo não era bem assim. Tudo ia bem, ela falava sobre suas experiências e eu ficava calada, apenas escutando. Então Ramona fez a pergunta que tanto temia.

- Conte-me sua história, você já sabe a minha.

- Olhe! Já está quase na hora do bar fechar. Vou pegar minhas coisas.

Eu definitivamente não queria contar minha história. Meu passado é obscuro, e eu não gosto de sair falando sobre ele, se me perguntarem, eu desvio do assunto. Isso não é mentir ou algo do tipo, mas pra mim é uma espécie de anestesia. Esconder a verdade maligna sobre meu passado me mantém... tranquila.

Notas finais
Esperamos que tenham gostado. Lembrando que opiniões e críticas construtivas são muito bem aceitas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.