Ultima esperança
10 09
Antes de ir para minha casa, comi os dois sanduíches e fui bebendo a água. Não sabia o que me esperava, sinceramente falando, apesar de conhecer os meus pais. Precisava de bastante paciência para ouvir todo o discurso do meu pai e aguentar a cara da minha mãe concordando com tudo que ele dizia.
Hoje, definitivamente, seria um dia agitado.
Quando cheguei na porta de casa, poderia sentir o clima frio saindo pela fresta. Dei um suspiro me preparando para o pior e entrei.
Encontrei meu pai, sentado no sofá com uma cara de enterro, em sua frente havia uma garrafa de cerveja – das várias que tinha em meu quarto – enquanto minha mãe estava sentada ao seu lado, parecendo apreensiva.
O que raramente acontecia, meu pai havia entrado no meu quarto. Acabei me esquecendo de esconder tudo aquilo após ter que sair correndo para o colégio cumprir com o meu plano.
A merda era bem mais funda que apenas uma "suspensão".
Não que os meus pais não soubessem que eu bebia ou algo do tipo, mas uma coisinha a mais para me culparem e agora com uma prova, era bem mais valioso.
Parei em frente a eles fingindo não entender e comentei.
— Não sabia que estava bebendo agora, pai.
Ele não respondeu nada, esperou alguns segundos até levantar. Pegou a garrafa e parou na minha frente. Seu olhar era duro e frio, cheguei a sentir um arrepio percorrer o meu corpo.
— Sem piadinhas, Ramona... Quero explicações. – ele disse apontando para a garrafa na sua mão. Apesar de a voz estar baixa, não parecia muito calmo.
— Hm... Bem... Isso é uma garrafa de cerveja, que provavelmente você pegou do meu quarto e que eu bebi. – disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Ramona, não tem só essa garrafa no seu quarto, tem mais de dez garrafas dessas lá.
— Algumas foram de ontem, enquanto estava festejando meu aniversário e outras foram de outros dias. Fique tranquilo, vou levar para o bar para trocar. Sempre pensando na natureza, não é mesmo? – disse ironicamente no final.
— Festejar? – meu pai repetiu sem acreditar.
Então meu pai jogou a garrafa na parede ao lado, quebrando-a toda. Chocada com essa reação, perguntei indignada:
— O que deu em você?! Isso custa dinheiro!
— Custa dinheiro?! Então é com isso que você gasta o meu dinheiro?! – ele começou a gritar.
Dei uma risada irônica e perguntei:
— Como se você não soubesse, não é pai? Mas o que importa é fingir que não está vendo nada.
— Ramona, o que você quer para a sua vida?! É assim que quer crescer?! Ser alguém nesse mundo?! Bebendo que nem um velho pinguço?! – meu pai continuava gritando para tentar manter a moral que não tinha.
— Como se importasse alguma coisa para você, pai.
— Me importa. É claro que me importa! Eu quero que você cresça filha, ganhe dinheiro, seja alguém!
— Ah não! Me poupe! De novo essa conversinha de ganhar dinheiro? Licença que vou para o meu quarto. – eu disse me virando tentando dar um fim naquela discussão inútil.
Mas meu pai segurou meu braço com força e perguntou:
— Onde você estava esse tempo todo?
— No colégio, é claro. – respondi na esperança de que nem ele, nem minha mãe, soubessem que eu havia sido suspensa.
É óbvio que estava errada, não é?!
— Além de quase virar uma alcoólatra, ainda é mentirosa.
Ele, então, me puxou de volta para onde estava e me colocou na parede, para que eu não desconversasse de novo e fosse para meu quarto.
Minha mãe apenas se levantou do sofá e disse apreensiva.
— Calma, Jorge. – ela parecia com medo dele fazer alguma besteira.
Calma para meu pai, não para mim, a errada da história.
— Você foi suspensa do colégio por caluniar um de seus colegas de classe. – meu pai me "informou" olhando fixamente para meus olhos.
— Caluniar um de meus colegas de classe? – perguntei sem acreditar no que tinha escutado.
Minha mãe aproveitou para completar o que meu pai havia dito, aumentando mais o absurdo daquela notícia.
— Sim, aquele menino, o Nico. Você colocou um vídeo constrangedor do rapaz no meio da sala. Isso é bullying, Ramona. Não sabe disso?
Olhei para os dois sem acreditar. Parecia que eu estava em outra dimensão, em uma realidade alternativa onde eu era a vilã da história e o idiota do Nico o inocente injustiçado.
— Ai, vocês só podem estar de brincadeira com a minha cara. – eu disse rindo sem acreditar, era surreal toda aquela conversa.
— Não tem graça nenhuma, Ramona. Pergunto novamente: onde você quer chegar? Ou melhor, o que você quer da vida?! Porque eu não sei mais.
— Pai, o melhor que você faz agora é parar de encher o meu saco, essa conversa de pai preocupado está me deixando enjoada. – tentei desconversar novamente, ele havia feito uma pergunta que nem mesmo eu sabia responder.
Ou sabia, mas acho que não era o que ele queria escutar.
Só que aquela minha atitude acabou irritando ainda mais meu pai, ele não conseguiu mais se controlar e soltou tudo que estava engasgado em sua garganta.
Me puxou mais grosseiramente pelo braço e falou, ou melhor, gritou:
— Estou cansado, Ramona. Cansado! Eu te dou tudo! Você tem casa, comida, roupa, estuda em um colégio bom, você quer perder a sua bolsa de estudos?! Eu me mato para te sustentar e é assim que você considera?!
— Me dá tudo?! Se isso é pesado demais para você, melhor parar, não sou eu o peso da sua vida?! – o respondi na mesma altura, gritando tanto quanto.
— Você é uma criança mimada, é isso! O que você quer, Ramona?! Me responde!
— Eu quero sumir! Eu quero morrer! Estou cansada! Cansada de nadar em um mar onde as ondas só me engolem! Eu nem tenho objetivo de vida. Se é isso que você queria, eu não tenho! Não sei nem por que continuo aqui! – eu respondi gritando mais ainda, tirando do meu coração todo o peso que estava sentindo a muito tempo.
Foi a primeira vez que fui verdadeiramente sincera com meus pais.
Podia ver pelo canto dos olhos o rosto horrorizado da minha mãe.
Meu pai não disse nada, e com a voz mais baixa, estava quase sussurrando, continuei o meu primeiro desabafo para ambos:
— Eu sei... Isso é horrível, ingratidão eu diria. Tanta gente querendo viver e eu aqui, com saúde, dizendo essas coisas... Mas eu não consigo...
Achei que naquele momento algo mudaria entre mim e meu pai.
E mais uma vez ele conseguiu me surpreender.
No mal sentido.
— Tenho vergonha... Tanto investimento para você jogar tudo por alto por conta de uma crisezinha de adolescência. – foi a primeira coisa que falou depois do que disse, nem se deu ao trabalho de entender o que estava acontecendo interiormente comigo.
Olhei para ele com os olhos arregalados, não estava acreditando no que ouvia.
— Como é? Pai... Eu estou me abrindo para você pela primeira vez, contando o que estou sentindo, e você me diz isso? – indaguei horrorizada pela reação dele.
Ele se afastou de mim, parecendo decepcionado e pensativo, depois voltando a me olhar, disse:
— Acho você está assim por causa daquela garota que morreu. Eu sabia que não daria certo aquela sua amizade.
— O que? – meu coração começou a disparar.
Ele não teria a coragem de falar dela.
— É, aquela sua amizade com aquela garota, que na verdade era uma vagabunda, a Clara. Você está se tornando uma igual a ela.
Senti meu rosto queimar e sem conseguir controlar meus impulsos, fui até meu pai para que ele pudesse escutar cada palavra que dissesse ali.
Ele não tinha o menor direito de dizer isso da Clara.
Não mesmo.
— Não fala assim dela! A Clara era a melhor pessoa que eu já conheci e o senhor não tem o direito de dizer isso dela!
— Melhor?! – ele tentava gritar mais alto que eu – Cair na internet usando drogas, bêbada em uma festa é ser a melhor pessoa que você conheceu?!
— Você não sabe o que está dizendo! Você não sabe de nada! Diz que me dá tudo, se fingindo de bom pai, mas o que quer é que eu arranje logo um emprego, para parar de trabalhar e se aproveitar do meu salário. Você é um aproveitador! Um mentiroso, que só se aproveita dos outros, é isso que faz com minha mãe e quer fazer comigo!
Mais rápido do que eu poderia imaginar, meu pai me deu um tapa no rosto tão forte que cambaleei até me encostar na parede e senti um líquido quente escorrer pelo canto da minha boca.
— Cala a boca... Você não sabe o que está falando!
Eu apenas o olhei. Aquilo dizia mais que mil palavras.
Estava tudo acabado naquele momento.
Tudo.
Sai correndo para subir as escadas, não passaria mais nenhum segundo naquela casa com esse homem que deveria ser meu pai.
Ele nem deveria ser chamado disso, não agia como tal, nunca o fez. Jorge não era como os pais que eu via, de colegas próximos, na televisão, em filmes, nem mesmo chegava perto. Hoje eu entendia porque sentia tanta inveja das pessoas em minha volta quando via elas com seus pais.
Parecia mais um tirano do que qualquer outra coisa. Era inacreditável que tínhamos o mesmo sangue.
Jorge veio atrás de mim tentando saber o que eu faria, quando entrei no meu quarto, fui direto no meu armário pegar as minhas roupas, o sangue ainda escorria lentamente pelo canto da minha boca.
— Eu te dei todo amor, tudo, Ramona! E é assim que você está me pagando! – ele gritava parado, olhando eu amontoar todas aquelas roupas.
O lado onde eu havia levado o tapa aquecia todo meu rosto, provavelmente estaria bem vermelho. Ele era alto e forte o bastante para fazer esse estrago.
No momento que ele disse isso, tive que parar para lhe responder.
— Amor?! Você não sabe o que é amor! Meu próprio pai me deu um tapa na cara!
— Você mereceu! Tem noção que fez um rapaz inocente ser humilhado no meio de uma festa e mostrou isso para todos?! Se não gostou do que fizeram com sua "amiguinha", você fez o mesmo. – ele enfatizou bem a parte do "amiguinha" ironizando totalmente.
— Você não sabe o que está falando, não mesmo.
Minha mãe apareceu logo atrás aterrorizada, ela tentava acalmar os ânimos a todo custo, mesmo que fosse em vão.
Quando peguei a minha mochila para guardar tudo e sair daquele lugar, Jorge entendeu o que eu faria e bruscamente tentou tirar a mochila da minha mão. Mas eu tentei impedir, só que ele era bem mais forte que eu e conseguiu tirar de mim todas as roupas que havia juntado.
— Se você pensa em sair de casa, vai sair com a roupa do corpo. – foi sua sentença final.
— Mas as roupas são minhas! – eu gritei voltando a tentar pegar a minha mochila.
Só que fui empurrada para trás e não pelo meu pai.
Sim pela minha mãe.
— Vai embora, Ramona... Se você quer fazer o que quer, é melhor ir. A vida vai te ensinar da pior forma, saiba disso. – ela disse se aproximando do meu pai quase o agarrando após ter dito essas duras palavras.
Aquilo foi o que mais me doeu. Como uma facada no coração, não tive nenhuma reação sobre o que ela dizia.
Por mais que minha mãe reclamasse das roupas que eu usava, do cabelo e essas coisas, eu nunca imaginaria que ela poderia me mandar embora sem nenhuma cerimônia.
Eu não disse mais nada. Na verdade, não havia o que dizer.
Minha mãe deixava as lágrimas rolarem e meu pai parecia decidido com a ideia. Irredutível, eu diria.
Sem estender mais aquela situação, fiz o que ela me disse.
Saí do quarto, desci as escadas e fui embora.
Eu sabia que eles não olhariam para trás, logo não me dei o trabalho de fazer o mesmo.
Era o que eu queria saber... Como chegamos a esse ponto. Agora, sinceramente falando, eu e meu pai nunca fomos próximos verdadeiramente, nunca consegui me abrir de coração para ele. Nem ele se abria para isso, e eu sempre tinha a sensação que estava sendo um peso em sua vida... Até que ganhasse dinheiro, é claro.
Lembrava vagamente da minha mãe dizendo que ele tinha trauma por falta de dinheiro, pois isso aconteceu quando era novo. Bem, eu não me recordava direito, exatamente, mas acho que nada justificava o que aconteceu em casa.
E Nico saindo como bom moço da história, não sabia o que o diretor havia falado, mas a verdade que não foi. Tal situação aumentou mais minha raiva por esse garoto.
Fui andando sem rumo pela rua. Sentia meu corpo pesar de uma forma que não conseguia nem limpar o sangue em minha boca. As pessoas que passavam por mim ficavam a me encarar quando percebiam meu machucado, mas ninguém se deu o trabalho de perguntar o que houve ou tentar ajudar.
Se Clara estivesse aqui, eu já teria ligado para ela, ido para sua casa, contado meus problemas e ela me ajudaria a resolver da melhor forma.
E ela faria o que eu mais queria que meus pais fizessem.
Me escutaria. Sem julgamentos, sem nada.
Apenas me escutaria.
Quando o vento da noite que começava bateu em mim, sentia mais forte a solidão e mais pesado era andar. Não tinha mais para onde ir.
Acabei me tornando o nada que tanto ansiava, mas não sabia que doeria tanto assim.
E a fala da minha mãe ecoava em minha cabeça.
"Vai embora, Ramona... Se você quer fazer o que quer, é melhor ir. A vida vai te ensinar da pior forma, saiba disso."
Era isso que ela pensava? Era isso que ela queria?
Parei de andar quando percebi que lágrimas caiam em meu rosto. Porque sou tão fraca? Clara diria, mais ou menos, que essa era momento de eu mostrar a minha força e mostrar era melhor que isso tudo.
Mas eu não conseguia...
Meu coração doía de uma forma que cada batida, sentia como uma facada e um peso absurdo recaia nas minhas costas.
Se eu fechasse os olhos para sempre, essa dor diminuiria?
Percebi que já estava em uma distância significativa da minha casa, a qual nem havia reparado, quando uma mão tocou no meu ombro e uma voz masculina perguntou:
— Ramona?
E, definitivamente, não era a voz do Rodrigo.
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