Ultima esperança
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Peguei a bebida de sua mão e ele exclamou surpreso:
— Nossa, não sabia que aceitaria tão fácil assim! Pensei que reclamaria "ah, Danilo, seu idiota. Oferecendo bebida para uma menor?". Parece que as coisas mudaram mesmo...
— Muita coisa mudou, Danilo.
Olhei para o copo em minha mão, não estava reconhecendo a bebida que continha ali e olha que eu já bebi muita coisa nesses poucos anos nessa rotina, saberia qual bebida era só de sentir o cheiro.
— O que é isso? – perguntei curiosa, cheirando o copo ainda na esperança de saber o que era, sem coragem ainda de beber.
Ele deu um sorriso parecendo esconder algo e esclareceu.
— É uma bebida especial para uma pessoa especial.
— Eu mudei, mas suas cantadas continuam a mesma merda.
Danilo colocou a mão no coração como se eu o tivesse ofendido e disse fazendo drama:
— Ai, assim você me magoa, meu bebê. Agora beba isso, tenho certeza que será a melhor noite da sua vida.
— Suspeito demais.
Estava meio desconfiada daquele líquido rosa em minhas mãos, apesar de ter um cheiro agradável, meio adocicado, coisa boa vinda de Danilo era quase impossível. Mas como dizem, já que estava na merda, uma mais ou outra a menos não teria muita diferença.
Respirei fundo e comecei a aproximar o copo de minha boca. No momento que eu beberia a tal bebida misteriosa, alguém do meu lado exclamou alto o bastante para que talvez as pessoas lá embaixo tenham escutado.
— RAMONA!
Levei um susto tão grande que quase derrubei o copo em cima de Danilo.
Quando olhei para o meu lado esquerdo, logo reconheci a menina. Confesso, depois de tantos meses, ela estava um pouco mais diferente e quase não lembrei. Seus cabelos castanhos estavam mais longos e a franja havia sumido, sua maquiagem estava mais pesada destacando seus olhos castanhos, estava de salto e a roupa a deixava bem mais velha fazendo as contas de quanto teria depois da última vez que nos falamos.
— Elena? – perguntei sem acreditar.
Ela abriu um grande sorriso, seus olhos estavam brilhando, talvez pela iluminação?
— Ai socorro, você ainda lembra de mim, que saudades!
Elena veio rapidamente me abraçar como se nunca tivéssemos parado de nos falar. Estava em choque, demorei um pouco para retribuir.
Ela se afastou rapidamente e segurando meu ombro, começou a me analisar.
— Nossa, como você mudou. Cortou o cabelo, está com ar de mais velha!
— Acho que posso dizer o mesmo de você. – comentei meio sem graça.
Era uma surpresa ver Elena novamente, alguns dias depois que Clara morreu, ela havia se mudado, sua família havia ficado com medo de o mesmo acontecer com ela, por que também achavam que Clara havia sido culpada pelo acontecido. A tal estudava conosco, às vezes andava comigo e Clara, era a pessoa mais animada que eu conheci em toda minha vida, tagarelava sem parar e tudo e qualquer coisa a deixava extremamente empolgada. Íamos com Elena para algumas festas e quando não conhecíamos quase ninguém, ela nos enturmava rapidamente, embora nem ela mesma conhecesse a maioria das pessoas. Mas Elena era bem mais tranquila e ingênua, quando soubemos de todo o esquema que envolvia as sociais que íamos, para não deixá-la se meter nesse assunto, não contamos do verdadeiro lado de Nico ou Danilo, no entanto, dizíamos para ela não participar de tais coisas. E ela aceitava super bem pois gostava demais da nossa presença e confiava em nós.
Eu e Elena tínhamos uma afinidade tão grande, assunto não faltava quando parávamos para papear, deixando Clara, às vezes, com ciúmes. Ela chegava ao ponto de dizer "porque não vai conversar com a Elena? Ela é bem mais legal, divertida e etc", era fofo, apesar de infantil. Quase brigamos uma vez por ela não responder minhas mensagens, só porque havia saído com Elena sem ela, seu argumento foi que "nem ao menos tive a coragem de avisar que sairia". Tão boba.
Mas como tudo mudou após a morte de Clara, a última vez que vi Elena foi em seu funeral. Ela veio conversar comigo, tentando me consolar, mas estava tão destruída que mal conseguia comunicar alguma coisa.
No final das contas, ela foi embora da cidade sem ao menos termos uma despedida direita. De certa forma eu havia gostado, Elena era uma pessoa muito boa e merecia coisas melhores do que continuar aqui e sendo minha amiga.
Só que como a vida é uma surpresa atrás da outra, aqui estava ela, e exatamente na festa do Danilo, logo a dele.
— Mudei mesmo, coisa de cidade grande. – ela respondeu sem graça por eu ter me lembrado e pelo meu comentário – Para melhor, né?
— Ah... Sim, sim. Você voltou para cá ou só está de passagem? – queria muito que fosse a segunda opção, não por ela, mas para o bem dela. Por que é óbvio! Eu posso me afundar na lama em uma festa de Danilo, mas ela não.
— Voltamos. Meu pai conseguiu fazer a cabeça da minha mãe e após muito custo, voltamos para essa cidadezinha simpática. Não é ótimo, Ramona?! Poderemos andar juntas de novo!
— Ah... Claro... — era ótimo e não era, de certa forma.
— Parece que muita coisa mudou, não acha? Cheguei a poucas semanas, mas já encontrei bastante coisa nova. — ela começou a dizer com sua empolgação marcante.
— Sim, muita coisa mudou... Você nem imagina. – na verdade, eu queria dizer "sai logo dessa festa para o seu bem!", mas acho que não adiantaria, afinal, o dono dela estava do meu lado.
Reparei que Elena não estava segurando nenhuma bebida alcoólica, isso acabou me tranquilizando mais.
Espera, eu estou parecendo a mãe dela em menos de segundos após nosso encontro, qual é o meu problema?!
— Que bom que você aceitou meu convite, Elena. – Danilo tomou a palavra.
Elena se voltou para ele sorrindo e respondeu:
— É claro que aceitaria, ainda mais sabendo que minha amiga estaria aqui. – voltando-se para mim, continuou a falar. – Estava ansiosa para te encontrar, de verdade. Danilo foi até legal comigo me deixando entrar na área VIP que, aliás, ficou incrivelmente maneira.
— Obrigado. – ele agradeceu orgulhoso.
Isso não pode ser real, Danilo convidou a Elena para essa festa?!
Olhei para ele o metralhando com os olhos e perguntei, tentando disfarçar minha irritação:
— Você convidou Elena para a festa? Como soube que ela já tinha chegou? Ou melhor, como você sabia da nossa amizade? – comecei a falar sem parar uma série de perguntas, nem sabia se ele entenderia o todo.
— Hm... Informantes. – ele se bastou em dizer isso. – E sim, convidei. A empolgação dessa menina é inesquecível!
Danilo ficou me olhando depois de ter dito isso e reparou na alteração em minha voz.
— Foi um presente para você, encontrar sua velha amiga. – ele tentou se explicar, voltou a fitar Elena que nos olhava curiosa e disse. – Elena, você sabia que a Ramona anda passando por grandes problemas?
— Sério?! – ela exclamou tão alto quanto chamou meu nome.
Se ele desse mais uma palavra sobre mim, voaria naquele pescoço.
Mas é claro que ele continuou e é claro que eu não voei em seu pescoço.
— Sério, pode ver. Vindo para uma festa com uniforme do colégio. – ele disse apontando para a minha roupa. Por alguns segundos fiquei meio envergonhada, afinal, o resto das pessoas ali estavam extremamente bem-vestidas, e dei um suspiro de alívio, pensei que ele começaria a dizer sobre Clara e tudo que ocorreu depois da sua morte.
— Achei que fosse como nos velhos tempos. – Elena disse rindo ao me olhar da cabeça as pés, pelo menos não reparou em minha boca machucada, menos uma coisa para explicar, apesar de ainda não parecer tranquilizada. – Quando a gente saia do colégio, passava na casa da Clara e depois íamos para alguma "social". Apesar dessa aqui não parece aquelas simples que a gente frequentava. — ela comentou explicando a sua fala inicial.
Ouvir Elena dizer o nome de Clara deixava com uma nostalgia e saudades imensas me remetendo naqueles tempos onde a minha melhor amiga ainda estava do meu lado e eu poderia ser considerada uma pessoa boa.
Percebendo o silêncio que havia se instalado entre nós três, ela continuou a falar.
— Ramona, não quero perder seu contato de novo, pode me passar seu número, para depois da festa a gente marcar para se encontrar e tudo mais?
Eu ponderei a ideia antes de responder, ela realmente não percebeu que as coisas mudaram drasticamente depois que foi para outra cidade. Não queria dizer e nem nada disso, mas se eu não desse meu número, com certeza Danilo arrumaria um jeito de dar por mim, levanto em conta o quanto era intrometido e sabia coisas demais.
Comecei a ditar e ela foi anotando no meu celular, por fim disse:
— Salvo aqui, depois poderemos conversar melhor.
— Você já está saindo? – perguntei vendo que ela se distanciava aos poucos.
— Sim, sim. Na verdade, nem estava nos meus planos estar aqui, mas como Danilo me convidou dizendo que você estaria, não aguentei esperar por outra oportunidade.
— Ah não, Elena. Fique mais, tome um drink, curte a música. – Danilo insistiu para que Elena ficasse colocando a mão delicadamente em seu ombro e a puxando de volta para mais perto.
— Não, ela não precisa tomar drink. – eu disse tirando sutilmente a mão dele do braço dela, me voltando para Elena, continuei. – Vamos marcar para sair, sim. Mal posso esperar.
Elena começou a parecer meio sem graça dizendo.
— E também, não quero atrapalhar o lance de vocês dois.
— Lance? – perguntei querendo ter a certeza que eu não tinha entendido errado.
Antes de Elena explicar algo, Danilo passou seu braço em volta do meu pescoço e disse com aquele sorriso que eu já estava me irritando:
— Não existe lance nenhum, somos só amigos.
— Amizade colorida, né? – Elena disse rindo tentando brincar com a minha cara.
— É claro que nã... – mas minha boca foi tampada pela mão de Danilo.
Elena começou a rir mais ainda e, por fim, disse.
— Enfim, vou indo. Estou muito feliz em ter te reencontrado, Ramona. Vamos matar saudades em breve.
— Ér... Com certeza. – eu disse depois que Danilo tirou sua enorme mão da minha boca.
— Até mais Danilo, até mais Ramona. – e por fim, ela pediu licença para Danilo tirar o braço do meu pescoço e me deu um longo abraço.
Depois a vi saindo da parte VIP, não tinha o que duvidar, Elena estava indo embora mesmo, me deixando mais aliviada. Aquele não era o lugar para ela.
Porém, a raiva subiu pelo meu corpo lembrando que Danilo sabia muito mais da minha vida do que eu poderia imaginar, cheiro de algo muito estranho estava rolando por ali a qual eu não reconhecia o que era e para não socar Danilo, era melhor me retirar. Antes tinha que comentar algo.
Me virei para Danilo que estampava um sorriso maroto e disse.
— Para um traficante, você está se passando por um ótimo stalker. Desde quando anda me seguindo?
Ele fez uma cara de desentendido e me respondeu.
— Eu?! Te seguindo?! Que absurdo.
— Ok, isso já deu para mim. Fui. – eu disse jogando o copo em seu corpo sujando toda a sua roupa e saindo da sua frente sem chance de resposta.
Mas Danilo não desistiu tão fácil, veio atrás de mim tentando argumentar para que eu ficasse, mas não queria dar ouvidos em nenhuma palavra que ele diria, queria que ele explodisse nesse troço chamado festa.
Enquanto eu descia as escadas ele ia dizendo.
— Ei! Ramona! Você não ia liberar suas feras, extravasar?!
— Vá se ferrar! – eu gritei sem dar atenção para ele.
— Não tem ninguém lá fora te esperando. Não tem amigos, família, você está sozinha, garota!
Minha paciência já estava no limite. Parei no meio do caminho para lhe responder como um ponto final naquele momento. Toda aquela situação já estava me tirando do sério. Definitivamente, onde eu estava com a minha cabeça para aceitar sair com esse cara?! Eu devia estar chapada mesmo, confusa, maluca, só pode. O tapa do meu pai não deve ter feito muito bem para minha cabeça.
Tudo aquilo, até mesmo a minha conversa com Danilo na rua, estava tudo planejado, e o pior, ele me vigiava constantemente, sabia até do paradeiro de Elena, sabia meu problema com minha família, sabia até onde eu estava quando saí de casa.
O que eu não sabia era o que esse doente estava querendo com aquilo tudo, mas a questão é: Eu cai igual uma idiota na sua historinha de "você tem que libertar suas feras".
Patética.
— Vê se dá um tempo, babaca! E não volte a me vigiar! – eu gritei voltando a andar e sem olhá-lo.
No fundo, parecendo sua voz longe, ele disse.
— Cuidado, Ramona... Cuidado...
Não consegui escutar o resto da frase por conta do barulho, mas de certo que havia dito para eu tomar cuidado.
Não pude conter ou me proteger do que aconteceu posteriormente, de tão rápido e inesperado foi.
No meio do salão, na parte principal da confusão enquanto eu procurava a porta de saída, pude ver Danilo se afastando me deixando mais tranquilizada para tomar meu rumo. Provavelmente ele desistiu de me encher o saco e resolveu curtir a própria festa.
Andando, não encontrava a porcaria da porta para sair desse buraco, quanto mais eu andava, mais apareciam pessoas e mais parecia não ter fim aquele salão. Mas o inesperado aconteceu, passei alguns minutos andando e quando parei para tomar algum ar, alguém me puxou pela cintura no meio daquele amontoado e me picou com alguma coisa em meu braço. Tentei me soltar imediatamente, mas a pessoa parecia ser bem mais forte que eu.
Tentei empurrar as pessoas que estavam em minha volta para me livrar, só que era impossível. E por algum motivo, minha vista começou a ficar embaçada, eu comecei a sentir uma grande euforia nascer dentro de mim, as luzes começaram a ficar mais fortes e as batidas da música eletrônica ali estavam ensurdecedoras.
Eu não sabia mais aonde eu estava ou o que estava fazendo ali, apenas queria me balançar, sentia uma energia sem tamanho, como se eu fosse explodir, porém todo esse sentimento não entrava de acordo com o meu corpo, ele estava amolecendo cada vez mais enquanto a tal pessoa me carregava.
Encostava nas pessoas tentando encontrar alguma razão para o que estava ocorrendo, mas pareciam fantasmas em minha volta, toda essa sensação durou alguns minutos até que finalmente a minha vista se apagou e definitivamente perdi noção de tudo.
****
Meu corpo doía tanto, estava tão estranho e cada tentativa de movimento era uma fisgada de dor parecendo chegar até a minha alma. Não conseguia abrir os olhos, estavam tão pesados que eu teria que fazer toda a força do mundo para poder enxergar algo. Pelo menos, consegui perceber que estava em um lugar não muito grande, ao ponto de que minhas pernas tinham que ficar meio dobradas para caber aonde quer que eu estivesse.
Com muita dificuldade, consegui levantar um pouco a mão, mas acabou caindo e pousando na barriga, aquele ato me cansou de uma forma que parecia que eu havia tomado algum remédio para dopar elefante, porque não era possível estar me sentindo tão lesada.
Então, após alguns minutos naquela situação, eu percebi que não estava com a minha blusa, podia sentir a minha pele quando minha mão caiu. Um medo se apoderou de mim, um pânico terrível.
Mas que droga de lugar eu estava?! O que aconteceu comigo?!
Mentalizei todo o ocorrido: eu estava na festa com idiota Danilo, depois de encontrar repentinamente Elena eu tentei sair de lá e depois... Alguém me agarrou e eu não lembro mais de nada.
Alguém me agarrou e me picou ou sei lá o que com algo, apenas tenho certeza que senti uma fisgada no meu braço motivando talvez toda essa lerdeza do meu corpo. Minha cabeça pensava rápido demais, mas o meu físico não obedecia.
Com certeza eu devia ter sido dopada por alguém, levando em conta tudo o que aconteceu e minha briga com Danilo, aquilo só poderia ter sido plano dele. Só não fazia o menor sentido ele me prender em algum lugar só por que quis sair da sua festa a força.
Ou tinha?
Aos poucos fui conseguindo abrir os olhos, ainda sim era de uma forma bem lenta e não totalmente. Minha vista estava meio embaçada, então demorou alguns segundos para reconhecer todo o local.
Tudo estava escuro, pareciam janelas à minha volta, mas de fora estava escuro do mesmo, a não ser a única luz fraca vinha de frente, havia dois borrões pretos na minha frente e um grande vão que me separava deles, aparentemente eu estava deitada em um banco.
Mas que merda... Estou dentro de um carro?!
De quem?! Mal conseguia enxergar as coisas em minha volta, tentar me levantar foi em vão, minha cabeça estava mais pesada que todo o resto. Pelo menos constatei somente a falta da minha blusa, de resto estava tudo ok.
Algo me dizia que uma coisa muito perigosa poderia acontecer comigo se eu continuasse ali.
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