Ultima esperança
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Eu conhecia aquela voz de algum lugar, mas o nome não vinha em minha cabeça. Uma coisa era certa: não era alguém que eu queria encontrar.
Fui me virando lentamente para trás para constatar quem era o homem que havia encostado no meu ombro.
Meu coração gelou quando eu o vi.
— Danilo! – exclamei com os olhos arregalados.
Logo me afastei dele, como se tivesse visto um fantasma. Foi tão rápido que cheguei a esbarrar em uma pessoa que passava na hora.
— Eita, assim você me ofende fugindo desse jeito. – ele comentou após ver minha reação, dizia com aquele sorriso maldoso.
Danilo não havia mudado nada. Continuava intimidador, com a barba mal feita para esconder a cicatriz no rosto motivado por uma briga, o cabelo sempre bagunçado que caiam de forma desalinhada quando ele jogava para trás, ainda devia ter o olhar sério e ameaçador, mas no momento estava com um óculos escuro. Após tudo que aconteceu comigo, ele era a última pessoa a qual desejava encontrar.
Dei as costas para Danilo e voltei a andar na esperança de fugir, mas ele me puxou pelo ombro de novo e começou a andar juntamente comigo com o braço em volta do meu pescoço como se fossemos íntimos.
— Me solta... – eu murmurei de uma forma que ele pudesse escutar, minha voz saiu trêmula demais e certamente ele perceberia meu nervosismo.
— Vejo que andou aprontando... – o dedo de sua outra mão pousou no machucado no canto da minha boca enquanto andávamos.
Dei um gemido de dor e no reflexo, dei um tapa em sua mão. Não sabia o que o trazia aqui, logo não me arrisquei em pedir ajuda a outras pessoas, e se tivesse marcado alguma aposta ou sei lá o que?.
Ele continuou a falar despreocupado.
— Continua linda, Ramona. Ainda sozinha, né?
Danilo era um velho conhecido meu e de Clara. Quando frequentávamos algumas festas de Nico e de outras pessoas, quero dizer, quando Clara me levava para essas festas, era extremamente empolgada com essas coisas. Em uma delas, conhecemos Danilo, que era convidado "especial" de Nico. Obviamente, naquela época, não conhecíamos o verdadeiro lado de Nico.
Nem de Danilo.
Ele era extremamente comunicativo e receptivo, não demorou muito para nós duas gostarmos da sua pessoa e criarmos algum laço de amizade, Danilo nos convidava para suas festas que aconteciam em locais isolados, algumas vezes em casas ou apartamentos e Clara ia mais animada que eu para elas, até que descobrimos o que tinha por trás dessas "sociais". Primeiramente descobrimos sobre Nico, que vendia todo qualquer tipo de droga que um adolescente usaria, de inalantes até maconha e cocaína. E em seguida foi Danilo, o que chocou tanto eu quanto Clara, pois "gostávamos" muito dele.
Tudo que Nico vendia, aparentemente passavam pelo Danilo, era como um revendedor.
Nunca chegamos a pesquisar a fundo se era realmente isso, mas parecia meio óbvio, as festas que Danilo promovia eram bem maiores que a Nico ou de qualquer outro "revendedor". Depois de um tempo, descobrimos que Nico havia quebrado seu "contrato" com Danilo e conseguido outra pessoa para pegar as drogas, logo os dois acabaram rompendo qualquer tipo de laço que os ligava.
De qualquer forma, depois que eu e Clara descobrimos tudo isso, nunca mais saíamos para essas festas. Danilo ainda veio atrás, nos procurando, em especial pela Clara que havia achado bonita e tudo mais, mas ela parecia tão irredutível quanto eu.
Quando Rodrigo descobriu que íamos nessas festas e nós tínhamos nos envolvido com esse tipo de pessoa, ficou extremamente bravo, chegou a brigar com Clara e proibiu de não ir mais nesses lugares ou contaria para seus pais. Só se tranquilizou quando percebeu que Danilo havia desistido de nos procurar.
Mas agora ele estava aqui de novo, do meu lado.
— Não vai falar nada? – ele indagou percebendo meu silêncio.
Cansada daquela situação, o empurrei dizendo.
— Não tenho o que falar com você, e se me der licença, eu tenho que ir para um lugar. – claro que menti no final, não tinha nenhum lugar para ir.
Sai andando na sua frente sob seu olhar, mas Danilo não desistiu.
— Você não tem para onde ir.
Parei de andar na hora. Como ele sabia disso? Ou só estava jogando verde? Provavelmente a segunda opção, então resolvi ignorar o que disse e voltei a andar. Já estava no centro da cidade, logo ele não poderia fazer nada demais para me impedir.
Mas como sou inocente! Era Danilo com quem eu estava tratando.
Antes que eu me perdesse de vista no meio daquelas pessoas, Danilo me alcançou, pegou com força em meu braço e foi me puxando até sair daquele local. Tentei me soltar de todas as formas, chegando até mesmo me machucar, mas ele era bem mais forte.
Danilo praticamente me arrastou até chegarmos em uma parte mais vazia da cidade, onde só passava alguns ônibus e carros, até mesmo o ponto que havia perto de nós estava com uma pessoa apenas.
— Não vai fugir assim de mim depois de tanto tempo. -- ele garantiu sorrindo, como se não tivesse sido obrigada a chegar até ali.
— Eu já disse que nós não temos nada que conversar. – eu falei o encarando, tentando parecer ameaçadora.
Danilo tirou os óculos e colocou preso em sua camisa de botão azul-escuro. Passou, então, a sua mão delicadamente em meu rosto, tentei tirar novamente com um tapa.
— Será mesmo? Você parece está tão abalada, sozinha, com essa boca magnífica, diga-se de passagem, machucada, olhos inchados parecendo ter chorado. — Danilo chegou mais perto de mim e disse em um tom sedutor — eu posso cuidar de você, meu bebê.
— Talvez no dia que o Faustão deixar um convidado falar direito em seu programa. — eu disse o empurrando.
Só que não adiantou muita coisa, estava fraca tanto psicologicamente quanto fisicamente mediante a tudo que aconteceu desde ontem . Queria apenas dormir para sempre.
— Não, não posso de jeito nenhum deixar você sair assim.
Se eu não o conhecesse, poderia jurar que ele estava preocupado comigo. Ele continuou a falar.
— Soube que você tentou comprar drogas com aquele lesado do Nico.
Olhei surpresa para Danilo, como ele sabia disso? Teria algum site de fofoca de traficantes, por acaso?
— Como você sabe?! — exclamei sem fingir não esta surpresa.
— Tenho meus informantes, né? Foi comprar com a pessoa errada, meu bebê.
— Foi um pequeno acidente o que aconteceu naquele dia. Na hora errada, no momento errado. – eu falava olhando em seus olhos para, pelo menos parecer, que eu não estava amedrontada e nem nada disso.
— Nico é um escroto, babaca e essas bostas ai. Quando soube o que fez com ele na sua festinha, fiquei extremamente orgulhoso. Nunca imaginaria que aquela menina toda tímida se tornaria esse mulherão cheio de atitude. – sua voz parecia orgulhosa, como se eu fosse algo seu que conseguiu amadurecer.
— Ele mereceu. — tinha uma certa amargura no tom de minha voz.
— Com certeza, meu bebê. Por isso gosto de ti, você tem o "time" certo? Sabe como se vingar, gosto muito disso.
— Mas, eu não gosto de ti. – eu disse imitando a sua voz. – Então, vou indo. Valeu aí o reencontro. Vazei.
No momento que me virei para finalmente ir embora, Danilo me segurou novamente e me puxou para mais perto de si.
— Para onde? Brigou com seus pais, não tem para onde ir... Eu vejo a raiva nos seus olhos, Ramona. Eu sei muito bem como eles são, principalmente quando estão com raiva, ódio...
— Como você sabe disso tudo? – agora eu estava ficando mesmo preocupada. Meu corpo estava totalmente tenso.
— Já disse, informantes. Sei também que nunca aceitou a morte da sua amiguinha. Realmente, foi bem trágico, meus pêsames. Mas eu voltei, meu bebê. — Danilo falou de uma forma que era a melhor notícia do mundo.
Meu coração estava disparado novamente, como ele sabia disso tudo? Será que eu estava sendo vigiada o tempo todo e não sabia? E falar sobre a Clara...
— Ok, você já mostrou que sabe de tudo com seus informantes de Hollywood, agora me deixa ir. – praticamente estava implorando, minha voz chegava a ficar trêmula. Eu sabia de alguma forma que Danilo era bem perigoso e se ele tinha informações demais, era porque já andava rondando a muito tempo.
— Ramona, eu só quero te ajudar. Você é a melhor, linda, com atitude. Só falhou em comprar drogas com Nico e não comigo. – seus olhos brilhavam enquanto falava – Mostre para o mundo quem você é, solte tudo o que sente!
— Como? – tentei não mostrar interesse em sua proposta, mas só queria sair correndo dali.
— Vai ter uma social em um apartamento a qual eu alugo, pode dar uma passada lá. Estarei te esperando.
— Eu bem sei como deve ser essa sua "social".
— Bom que você já tem experiência.
Ele então me soltou, pegou um cartão no bolso da sua calça e colocou em minhas mãos dizendo:
— Ai está o endereço, não é muito longe de onde estamos. Ainda temos muito o que conversar, meu bebê.
E antes que eu falasse alguma coisa, Danilo saiu da minha frente com o "dever cumprido", colocou seu óculos escuro e se preparou para atravessar a rua. Mas disse antes de fazer isso:
— Não se esqueça, você precisa soltar essas feras que estão dentro de ti, tenho certeza que essa social veio em melhor hora... E mais uma coisa, você fica muito sexy com esse uniforme escolar.
Senti uma certa repudia com seu último comentário. Quanto ao primeiro... Bem, de certa forma ele tinha razão. Há muito tempo estava querendo extravasar tudo que estava sentindo e vivendo, só me faltava uma verdadeira oportunidade.
Só não pensei em uma social do Danilo.
Se Rodrigo tivesse escutado o convite dele, com certeza já teria tomado a frente e dito que eu não iria para essa festa nem morta. E ele estava certo, Danilo era um ser bem pior se comparado a Nico e eu estava absurdamente tentada em ir para esse lugar, só poderia esta maluca.
A ideia era tão tentadora que acabei pensando.
Uma vez, ao menos, não faria mal algum, certo? Eu já estava perdida mesmo, sem casa, sem aulas, sem nada, o que mais eu perderia indo a uma festa do porte de Danilo? Ainda me sentia desmoronar e no momento só queria esquecer todo acontecido em menos de um dia após o meu aniversário, o pior aniversário da minha vida, diga-se de passagem.
Novamente olhei para o cartão em minha mão, era escrito por Danilo, continha o endereço da tal "social" e mais ainda parecia tentador ir. Um calafrio percorreu o meu corpo e quando decidi o que faria, meu coração começou a disparar sentindo toda a adrenalina. Nas minhas recordações, a última vez que me senti assim foi fugindo da polícia no dia da compra com Nico.
Iria para essa festa.
Parecia que eu estava me preparando para me jogar de um precipício, mas eu não olhava para baixo, apenas queria cair. Tirei a blusa de botão e amarrei na cintura, estava um pouco suja de sangue e não ficaria legal indo com ela, ainda mais contendo o brasão do colégio. Estava com uma blusa sem alça por baixo, logo não haveria nenhum problema. Tentei limpar o máximo a minha boca e decidi segui para a festa.
De fato, não era tão longe de onde estava.
Quando cheguei, era uma porta velha de um prédio caindo aos pedaços, apesar de a rua não aparentar ser muito movimentada olhei para os dois lados para constatar se ninguém suspeitava de nada e entrei. Deparei-me com uma escadaria, provavelmente me levaria para a festa, de onde estava escutando as batidas frenéticas vindo dela.
Comecei a subir e meu coração batia mais rápido cada vez que eu chegava perto.Fui subindo aqueles degraus lentamente, eu poderia desistir? Poderia, mas necessitava disso, como se eu estivesse em um deserto e aquela festa fosse o lago na minha frente. Talvez fosse a minha ultima esperança... Ou não.
"Você precisa soltar as feras que estão dentro de você" Danilo disse e era isso que eu faria.
Eu ia subindo, subindo, até parar na porta onde vinha o som. Também era velha, mas bem melhor que a porta de entrada. A abri e deparei-me com um cara vestindo um terno bem mal arrumado, fora ele ser totalmente mal encarado. Aquela porta ainda não dava para a festa, talvez fosse atrás daquela parede localizada nas costas do homem.
— O que você quer aqui? – ele perguntou me analisando da cabeça aos pés. – Aqui não é lugar para criança.
Esse homem vê uma menina com uniforme todo mal arrumado, com a boca machucada e a única coisa que pensa é "criança", sério mesmo? Não que eu estivesse totalmente madura para não ter outra coisa para chamar.
— Hã... É... Vim para festa do Danilo. – foi a resposta mais idiota que eu disse em toda minha vida.
Ele levantou as sobrancelhas parecendo não acreditar em minha palavra.
Desviei meus olhos pensando no que poderia fazê-lo acreditar em mim, até que lembrei do cartão escrito a mão de Danilo. Peguei do bolso da minha saia e mostrei para ele.
O rosto do homem pareceu iluminar e saiu do caminho, dizendo.
— Ah, você é a moça que o senhor Danilo esperava, ele chegou a pouco tempo, pode entrar.
— Que esperava? – eu perguntei sem entender.
Mas o homem mal encarado não me respondeu. Passei a sua frente e fui em direção a parede, tinha uma porta do lado. Dei um grande suspiro, nisso meu coração já batia freneticamente e abri.
Muita luz forte, a musica estava extremamente alta, pelo jeito as paredes daquele prédio eram grossas o bastante para ninguém de fora escutar. As pessoas dançavam de todas as formas, alguns até de forma desengonçada e não precisava de muito conhecimento para perceber que essas não estavam em si. Havia bebidas para todos os lados. Nos cantos, haviam alguns sofás que algumas pessoas usavam para descansar, ficar com alguém ou desmaiar.
Dei o primeiro passo para o precipício e fechei a porta. Parecia quase impossível encontrar Danilo naquela muvuca toda, mas bastou eu andar – ou tentar andar – naquele povo todo para que ele viesse ao meu encontro.
Estava com uma garrafa na mão de alguma bebida que eu não consegui identificar e o cabelo mais bagunçado que o normal. Ele abriu um grande sorriso quando me viu, com dificuldade parou na minha frente, algumas pessoas iam elogiar da festa para ele, mas Danilo os ignorava.
— Que bom que você decidiu pela escolha certa. – ele falava gritando para que pudesse escutar sua voz.
— Não sei bem se é mesmo a escolha certa.
— Tenha certeza que sim, meu bebê.
— Quem faz uma festa desse jeito em plena segunda-feira?
— Sempre é dia de ganhar dinheiro. – ele deu um sorriso malicioso no final.
Danilo então passou sua mão na minha cintura e começou a me conduzir em meio a todos, alguns ainda tentavam falar com ele, que era bastante disputado. Deixei-me ser guiada, mas perguntei curiosa:
— Para onde está me levando?
— Para a área VIP, oras. Meu bebê, não posso ficar no meio desse povo.
Confesso que fiquei deveras aliviada, aquele local estava realmente sufocante. Naquela área, tinha um segundo andar que era aberta para ver todo o salão. Foi para esse lugar que Danilo me levou.
Passamos por todas aquelas pessoas e chegamos na escada que levava para a área VIP, tinha dois seguranças protegendo para que ninguém passasse por ali, a não ser com autorização. Quando avistaram Danilo, abriram passagem para nós dois e subimos.
Lá em cima, o clima era bem mais relaxante, apesar de não ser maior que o salão. As pessoas estavam bem mais arrumadas, havia mais homens ali que mulheres, todos conversavam normalmente pelo som não ser tão alto naquela parte. Ao lado, havia uma grande vidraça com uma visão privilegiada de tudo que acontecia com as pessoas em baixo. Nos cantos haviam sofás bem mais agradáveis e pequenas mesas com bebidas e outras coisas bem suspeitas.
Levando em conta toda estrutura daquilo, nem parecia ser um apartamento propriamente dito.
Quando entramos, uma mulher de aparentes quase trinta anos, usando um vestido descotado lhe dando um ar meio sexy e chique misturado e com longo cabelo castanho que chegava na metade das suas costas se aproximou dizendo:
— Olha, então essa é a convidada especial sua, Danilo? – ela olhava para Danilo enquanto falava, mas apontou com sua taça, aparentando ser champanhe, para mim. Sua fala tinha uma certa malícia que não entendi bem o porquê.
Danilo prontamente a respondeu, sem tirar suas mãos da minha cintura:
— É ela, amiga de longa data. – ele disse se voltando para mim. – Muito tempo, não é mesmo?
— Aproveitem então essa festa "fora de época". – ela disse rindo e se distanciando, indo falar com outras pessoas.
— Fofoqueira. – Danilo murmurou me levando para um canto daquela sala.
Me coloquei encostada na parede e ele me prendeu com seus braços. Me encarava parecendo me comer viva, estava ultrapassando os limites de eu me sentir "confortável".
— Pelo jeito já sou falada por aqui. — Eu comentei na esperança dele se distanciar de mim ou sei lá, tudo menos ficar me comendo com os olhos..
— Apenas fiz um comentário inocente para ela, sobre você.
Mas não adiantou nada, a forma como Danilo me olhava me fez sentir nua, não pude não comentar.
— Vai fica ai me encarando? – perguntei mostrando estar desconfortável.
— Queria está fazendo outra coisa. — sua voz soou maldosa novamente.
Ele chegou com o rosto mais perto do meu, mas meu reflexo respondeu rapidamente, acabei o empurrando com a mão.
Danilo fez uma careta e se afastou um pouco, tirando os braços em volta de mim.
— Essa é a minha social — ele abriu os braços mostrando que tudo aquilo era dele. — Aqui, as pessoas se soltam e enchem meu bolso de dinheiro.
— Que cretino você é.
— A vida é assim, meu bebê. — ele ficou pensativo por alguns segundos, depois voltou a dizer — Sabe que ainda lembro de você e a Clara, curtindo onde eu fazia as minhas festinhas, dançando, só não bebiam, tão inocentes...
— E você nos enganando. – disse o acusando enquanto ele vivia seu momento nostalgia.
— Nenhum momento eu menti, apenas omiti. – ele pareceu lembrar de algo e disse. – Depois vocês começaram a fugir de mim, ou, pelo menos, tentaram.
— Como assim? – perguntei sem entender.
Danilo se fez de desentendido e disse:
— Nada não, brincadeirinha. Temos que viver o agora, meu bebê. Chega de ficar remoendo o passado, não acha? – se ele me chamasse de "meu bebê" mais uma vez, iria dar um soco naquele rosto.
Bem, era isso que eu estava tentando fazer a algum tempo, antes das minhas forças se desvairassem e eu continuasse sendo assombrada por ele. Tocando naquele assunto novamente acabei voltando para os meus pensamentos.
De certa forma era nostálgico esse tipo de festa, na época que não sabíamos a verdade e íamos muito nelas, parecia que a qualquer momento Clara me encontraria após ter me perdido dela.
Danilo percebeu que, apesar de estar na sua frente, a minha mente estava longe, resolveu perguntar:
— Se arrependeu?
Queria dizer que "sim" e "não", eu sabia no buraco a qual estava me metendo, mas... Ah, que droga, resolvi não o responder diretamente.
— Ainda não fiz nada. Você disse que serviria para eu soltar as minhas feras, que eu precisava disso e tal, mas até então, nada aconteceu. – eu comecei a entrar no joguinho dele o provocando. — Por que não trás uma bebida?
— Hm... É assim que eu gosto. Tem razão, meu bebê. – disse parecendo ter perdido a batalha – Vou pegar umas coisinhas para gente.
Concordei com a cabeça e ele foi para outra direção da sala.
Onde eu estava com a minha cabeça? Em que momento da minha vida, após a morte de Clara, eu estaria em uma festa desse cara, praticamente flertando com ele? Com certeza, se Rodrigo soubesse me daria uma bronca daquelas.
Nem eu mesma em sã consciência faria essas coisas. Mas minha mente estava a mil e resolvi deixar que o vento me levasse.
E aqui estou.
Danilo rapidamente chegou com as bebidas, uma para mim e outra para ele. Quando peguei a minha, ele colocou a mão no bolso.
— Hora de soltar as feras, certo meu bebê? – e deu aquele sorriso que escondia algo.
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