― Espere, como é o nome da menina mesmo? ― Perguntei sem acreditar, definitivamente Rodrigo deve ter se confundido com algum outro nome.

― Sara, já falei. Ela estava até com o mesmo uniforme que o seu, quero dizer, o mesmo não, o dela estava três vezes mais arrumado.

Quase deixei a bicicleta cair do meu lado, Rodrigo percebeu que eu havia ficado chocada e comentou.

― Bizarro, não? Pensei que a metade da sala te odiasse e a outra nem soubesse da sua existência.

― Engraçadinho. ― fiz uma careta no final.

Talvez essa menina morasse em direção aonde eu estava e no caminho, voltando de alguma coisa, tivesse me achado caída no chão e por caridade e agradecimento por eu ter a "salvado", resolveu dar essa ajudinha.

Só pode ser por isso.

― Bem, agora eu tenho que agradecê-la. ― disse, por fim.

– Pelas normas da educação, sim... Mas, Ramona, você tem um tempinho para conversar? Sobre outra coisa...

― Na verdade, você que deveria dizer sobre si, já que está no horário de expediente.

― Ah, sem problemas, já consertei um carro, estou com tempo livre.

Então, Rodrigo me direcionou a um banco que ficava perto de onde ele trabalhava, nós ali sentamos e ele começou.

― Queria comentar sobre seu... Como posso dizer, "surto"?

― Não, Rodrigo, se quer falar sobre a Clara, é melhor...

– Ramona, eu pensei que você tinha ao menos superado um pouco, se perdoado, mas depois de ontem, vi que não conseguiu avançar nada disso.

― Avançar? Avançar o que? Você quer dizer, viver como se nada tivesse acontecido e eu não ter praticamente causado a morte da minha melhor amiga? ― perguntei olhando nos seus olhos, parecia que as pessoas faziam questão de não entender o que realmente aconteceu.

― Causado a morte? Você não tem nada a ver, foi uma fatalidade.

― Não foi uma fatalidade, Rodrigo, é só pensar que se, pelo menos eu tivesse a apoiado, nada disso teria acontecido.

Minha voz já começava a falhar, aquele assunto caia no meu coração como um ácido, eu podia sentir ele corroendo todo meu interior.

Rodrigo bufou meio impaciente, parecia não aceitar minha postura diante dos fatos.

― Então, vai ficar ai se torturando pelo resto da sua vida por uma coisa que não poderia ser evitada?

― Será mesmo que não poderia? E sim, ficarei, pelo tempo que for, preciso pagar por isso.

― Ramona...

― E chega dessa conversa, tenho que ir embora.

Levantei do banco e sai antes que Rodrigo pudesse me dirigir alguma palavra, estava quase chorando e se havia algo que eu odiasse, era chorar na frente de qualquer pessoa.

Era como um atestado de quanto eu sou fraca, só eu sabendo disso, já bastava.

Peguei a minha bicicleta e fui pedalar por ai.

Esse fantasma me assombraria eternamente.

O fantasma da culpa.

Do remorso, do arrependimento, tudo isso junto.

Enquanto o vento batia em meu rosto, sentia que levava as lágrimas junto, não era para terminar daquele jeito, eu queria que Clara soubesse disso.

E novamente, fui visitá-la, como não havia levado nada para prender a bicicleta, a deixei em um canto onde ninguém pudesse pegá-la.

Eu sei, já tinha feito isso ontem, mas parecia que hoje se fazia necessário.

E ali fiquei por longos minutos sofrendo aquilo que merecia, lembrando de tantos momentos que vivemos juntas, sonhando com um futuro tão maravilhos que hoje parecia impossível de se realizar.

Hoje não trouxe um buque novamente, mas podia sentir a resposta dela vindo dos calafrios que sentia.

Clara tinha medo de passar por esse local e agora ela estava aqui enterrada.

Cemitérios são tão frios.

***

Sermões da minha mãe me esperavam por eu ter pedido um dia de aula, não sei como Rodrigo conseguiu essa proeza, mas ela não chegou me ver bêbada entrando em casa, logo a briga não durou muito tempo e eu consegui ir para o colégio.

Atrasada, é claro.

Quando entrei na sala, a aula havia acabado de começar e não houve nenhuma bronca vinda do professor, quando isso acontecia, eu costumava achar que era sinal que o dia seria agradável.

Lembrei do acontecido com Sara, tinha que agradecê-la por ter me ajudado, mesmo que aquilo ainda soe muito estranho. Ela estava ali, concentrada na aula como uma aluna exemplar, um verdadeiro exemplo que eu não seguiria.

Quando o sinal tocou, me levantei para falar com ela, mas várias meninas a rodearam e a levaram para fora da sala, o que foi realmente estranho, Sara não parecia ser uma menina que andava com aquele tipo de gente, ainda mais com as meninas que andavam com o garoto que quase a espancou, diga-se de passagem.

Meu radar de que algo estava errado começou apitar, e como sou uma pessoa muito curiosa quando ele apita, fui ver para onde haviam a levado.

A levaram tão rápido que não vi o caminho que seguiram

Nada de sala, quadras, praça de alimentação, pátio.

Faltava só um lugar que não havia olhado.

O banheiro feminino.

Fui em um mais longe da nossa sala e que quase ninguém entrava, por ser afastado da maioria dos salões, por que se estivessem fazendo o que eu suspeitava, aquele banheiro era perfeito para tal coisa.

Quando abri a porta, meu extinto acertou.

Estavam praticando o famoso "bullying" com Sara.

Encurralada por quatro meninas que já tinham bagunçado seu uniforme e eu cabelo, além de terem derrubado seu óculos, uma das garotas estava com um balde de água na mão.

Era de se imaginar o que ela faria com aquilo.

Logo que entrei, elas pararam de humilhar Sara que parecia encolhida, sem saber como reagir a tanta intimidação.

― Pode dar meia volta. ― Vanessa me disse, aparentemente a mentora daquilo tudo e a menina que disse que Sara denunciou meu "negocio" com Nico.

― Desde quando você manda em mim? ― respondi sem muito interesse, significado de perder tempo era discutir com ela e suas amigas.

Simplesmente, fui em direção a Sara para tirá-la daquela brincadeira de mal gosto, mas duas meninas me seguraram e Vanessa disse.

― Calma, calma, ainda falta terminar o aviso.

― Aviso? ― perguntei sem entender, tentando me soltar daquelas duas.

Já disse como não suporto a Vanessa? Ela tão fútil, interesseira e qualquer outro defeito mesquinho que tiver, não é atoa que vive colada em Nico como um urubu.

Quando dei por mim, ela jogou o balde de água na cabeça de Sara que não fez nada para impedir, a risada das outras três começou a ressoar no local, o nojo que eu estava sentindo delas poderia ser visto no meu rosto.

Por fim, ela disse.

― Isso é só um aviso pra você aprender a se comportar no colégio, viu querida? Se cuida. ― em seguida, ela saiu junto com as outras três, me soltando também.

― Que vaca, sinceramente. ― murmurei tentando limpar meu uniforme do fedor do perfume de suas escravas que haviam me segurado.

― Logo hoje que não trouxe uniforme reserva. ― Sara comentou.

Quando olhei para frente, a vi totalmente exarcada, por conta do balde de água.

― Eu tenho um no armário. ― eu disse tentando ajudar, na verdade, não sabia nem o que dizer em um momento como esse.

Se eu fosse Sara, teria empurrado aquelas galinhas a muito tempo e de preferência, derrubado o balde em Vanessa.

Ela pegou o óculos no chão para secar e olhou para mim, a qual fiquei um tanto surpresa com seus olhos, eram extremamente bonitos, quase não dava para perceber no dia a dia.

― Sério? Não vai ser nenhum problema eu usar seu uniforme?

― Ah não, de boa, só vai ficar um pouquinho grande em você, já que sou mais alta.

Ela deu uma risada tentando parecer simpática enquanto tremia de frio e disse.

― Tudo bem, melhor que ficar com esse molhado né?

Sara agia como se nada tivesse acontecido, como se quatro meninas não tivessem acabado de a humilhar e a molhado.

― Você tá bem mesmo? ― perguntei meio preocupada.

― Claro, ficarei melhor se eu tirar logo esse uniforme, não quero ficar resfriada.

― Ok, então vamos. ― eu disse indo para a porta.

Sara veio atrás de mim, quase chegou a cair quando passou pelo chão molhado, mas se segurou na pia.

― Opa, como sou desastrada. ― ela disse meio envergonhada, suas bochechas rosadas denunciavam isso.

― Cuidado. ― apenas disse isso, não sou muito simpática quando converso com alguém que nem conheço direito. Não sabia o que falar, exatamente.

Nós duas fomos até o vestiário feminino perto da quadra, a sorte que estava vazio então não teria ninguém para ficar perguntando o que aconteceu e depois criando fofocas no colégio sobre tal.

Peguei meu uniforme e a entreguei, sentei em um banco que servia para as meninas sentarem para colocar sapato ou ficar conversando.

Enquanto Sara trocava de roupa dentro do boxe que ficava atrás de mim, lembrei que ainda não tinha a agradecido pelo dia anterior.

― Sara?

― Oi ― ela respondeu dentro do boxe.

― Ér... Como posso dizer isso... Obrigada por ter me ajudado ontem quando estava meio...

― Bêbada?

― É, meio não, totalmente bêbada. ― respondi consertando, não teria problema ser direta com ela.

Logo Sara apareceu e sentou do meu lado, estava secando o cabelo, de fato meu uniforme havia ficado um pouco grande nela, mas de certa forma a deixou até fofa.

― Tudo bem, como você tinha me ajudado com Nico, achei que tinha mais que obrigação de fazer isso e o seu namorado me ajudou também, então não houve problemas.

― Namorado? ― perguntei assustada.

― É, um barbudo lá, acho que o nome é Rodrigo.

Comecei então a gargalhar, aquela era a primeira pessoa que não dizia que nós eramos irmãos.

― Não, ele não é meu namorado, é um amigo de infância.

As bochechas de Sara ficaram coradas novamente.

― Ah desculpa, é que ele veio me ajudar, dizendo "ah conheço ela, posso levá-la para casa", fiquei meio desconfiada e fui junto, só que ele foi entrando, achei que fosse mesmo um namorado.

―– Engano seu, não é namorado. ― respondi ainda rindo por dentro da ideia dela e reafirmando a ideia.

― Quero dizer, antes dele te levar, você ainda teve um "ataque", diria assim. ― ela não parecia muito a vontade em dizer sobre aquilo.

Naquele momento fui eu que fiquei com o rosto corado, aquilo não foi exatamente um sonho, eu abracei alguém, que não era a Clara, e sim a Sara.

Que vergonha, queria abrir um buraco nesse momento e me enfiar ali mesmo.

― Aquilo foi... Bem... Esquece aquilo, só isso.

― Quem era a Clara? Parecia que você tinha tido algum problema com ela e...

― Esquece isso. ― levantei-me rapidamente, não ia conversar sobre esse assunto com uma menina que eu nem conhecia direito ― Quanto ao meu uniforme, não precisa se preocupar em entregar não, fique à vontade.

― Ramona...

― E obrigada de novo. ― logo sai daquele local.

Mas pude escutar ela gritar.

― Obrigada!

Sinceramente, não sei por que sai correndo, algo como pânico senti naquele instante com ela citando a Clara, em seguida querendo saber quem era.

Pelo menos fiz o que tinha de fazer, agradeci por ter me ajudado e isso já bastava.

Quando tocou o sinal para os alunos voltarem para sala, ela apareceu com o uniforme "Novo", pude reparar Vanessa comentando com as outras meninas quando a viu entrando.

Se ela achou que a Sara perderia aulas por conta do ataque e seria envergonhada pelo uniforme molhado, estava totalmente enganada.

Primeiro eu salvando Sara de ser pega por Nico e seu coleguinha, segundo ela me tirando bêbada da rua e agora eu emprestando meu uniforme, estava começando a estranhar tanta coincidência em menos de três meses.

No final da aula, maioria dos alunos saíram da sala, exceto Sara que havia pego sua toalha, a mesma que secou o cabelo, e começou a passar na mesa. Arrumando meu material, estranhei aquele ato, fora que algumas pessoas que passavam por ela, começavam a rir olhando para sua carteira.

Lá vai eu e minha curiosidade de novo.

Esperei ela sair e fui olhar também.

― Mas que droga é essa... ― murmurei.

Sara parecia ter tentado apagar tudo que estava escrito ali, mas não deu muito certo, como seu material ainda estava pendurado na cadeira, dava para supor que ela voltaria.

Estava escrito ali todos os tipos de ofensa que você pode fazer para um ser humano, além de avisos como "Não se meta com a gente sua vadia", "Melhor ficar de bico calado", "Morra", entre outras coisas.

― Acho que eles levaram a sério demais o dia que você me ajudou a fugir. ― Sara disse aparecendo na sala.

― E por que não estão fazendo nada comigo? ― perguntei enquanto ela se aproximava com um pano e álcool na mão para limpar a mesa.

― Vai saber, mas são só alguns palavrãozinhos na mesa, nada demais. ― em seguida ela começou a limpar a mesa sem olhar para mim, parecia tentar esconder o que estava sentindo sobre essa situação.

― Vamos fazer alguma coisa, principalmente para Nico, para aprender que não deve mexer com gente que não fez nada de errado. ― disse, decidida a olhando.

Sara me fitou surpresa e perguntou.

― Vamos?

― Sim, vamos.

Já disse que eu odeio injustiça?