Quando Nico acabou de dizer aquelas palavras um tanto aterrorizantes pela forma como ele olhava aquela garota. Parecia esta a matando pelo pensamento e de forma bem agressiva, diga-se de passagem. Ele olhou para mim, mudando de semblante.

― Escapou dessa, querida. ― e saiu andando para fora da sala.

Senti um leve calafrio passar pelo corpo, espero que aquela menina não esteja tão ferrada quanto aparenta esta.

Fiquei com aquele pensamento durante a aula inteira, como já havia a encontrado naquela sala, enquanto, supostamente não estava escutando minha conversa com o Nico, ela seria mais uma injustiçada pelo povo do colégio que se acham donos do mundo por terem dinheiro.

Ou seria realmente culpada por eu e ele sermos quase presos.

Como não ia com a cara desse pessoal, resolvi levar mais em conta a primeira opção.

Fui ao encontro de Nico no final da aula, no corredor.

― O que foi agora? ― ele perguntou de forma ignorante, quando eu segurei seu braço. ―

― É sobre aquela menina.

― A X9?

― Como você sabe que ela é culpada? Só por que uma de suas seguidoras famintas disse que ela que o denunciou? ― indaguei.

― Você é surda mesmo ou só se faz? Não escutou que ela disse que viu a menina falando com a polícia no telefone?

― Muito vago, ela nem tem provas sobre.

Nico, então, chegou mais perto de mim, olhando nos meus olhos, perguntou.

― Então, pode ter sido você, não é mesmo?

Lhe dei um empurrão, estava próximo demais, poderia sentir o fedor de cigarro exalando de sua boca.

― Fala sério, se fosse eu, você acha que eu estaria aqui tentando provar a "inocência" daquela menina que eu nem conheço?

― A culpa tem que ser de alguém, a policia não faz ronda ali naquela hora, eu sei muito bem. Infelizmente a culpa caiu sobre aquela pobre menina, fazer o que, não é? A vida é assim mesmo.

― Grande babaca.

― Não é o que as minhas seguidoras famintas costumam dizer.

O deixei ali esperando alguma resposta minha e fui embora.

Nico era mais nojento do que eu poderia imaginar, de certa forma, foi bom eu não ter comprado nada com aquela pessoa, vai que alguma coisa pudesse cair sobre mim?

Sinceramente, tinha menos fé na humanidade quando conhecia mais pessoas como ele.

No dia seguinte, tudo ainda parecia muito calmo, quando a menina chegou na sala, a qual usava um uniforme impecável, começaram os murmúrios, duvido muito que ela não tenha escutado ou percebido tal coisa.

Fiquei a olhando sentando em sua carteira que ficava no canto, perto da porta da saída da sala. Não parecia ser um tipo de pessoa que ficava seguindo um traficante juvenil de uma escola e que ligava para a polícia com seu instinto justiceira, na verdade, parecia apenas uma menina normal, como qualquer outra, que chegava em casa e ajudava a sua mãe no jantar, depois, lavava os pratos e ia estudar e em seguida ia dormir cedo para mais um dia de aula. Seus cabelos negros caiam delicadamente por suas costas, sua franja estava muito bem cortada, tinha olhos castanhos claros, chamam de âmbar não é? De fato, pareciam olhos de um lobo escondido por um grande óculos de grau.

Porem, uma coisa me chamou mais atenção.

Como não estava de paletó, dava para ver um grande hematoma no seu braço e em seu joelho um ralado, parecia que tinha batido com o braço com força em algo e caído no chão em seguida.

Curioso, eu diria.

Logo fui tirada da minha distração quando o sinal tocou e o professor entrou em sala, obviamente mais atrasado que eu já que cheguei depois da hora certa.

Aparentemente a ameaça de Nico não seria concretizada, pois nada foi feito com o decorrer do dia, talvez ele tenha levado em conta o que disse ontem, ou não.

No final da aula, quando estava pronta para ir embora, o professor colocou relatórios em cima da minha mesa.

― Para você arrumar e entregar na diretoria.

― Mas por que eu?! ― perguntei irritada.

― Para compensar os dias que você chega atrasada, a não ser que queira mais uma advertência, não é mesmo? ― ele deu um sorriso falso no final e me deixou ali com aquela pilha de folhas.

― Mas até você chegou atrasado hoje.

Tive vontade de tacar tudo no chão e pisar, mas acho que daria bem mais trabalho ajeitar depois.

Engoli a irritação que estava sentindo e comecei a arrumar tudo.

Demorei quase uma hora para concretizar o serviço e entregar aquela papelada na diretoria, ninguém merece um professor folgado, aquilo era para ele está fazendo.

Já estava tarde e como estudava o dia inteiro, o Sol já tinha praticamente sumido.

Enquanto andava, passei por uma sala vazia e ela acabou me chamando atenção pelo barulho que vinha.

Parecia que alguém estava brigando lá dentro, parei então e encostei meu ouvido na porta para ver se descobria o que estava acontecendo.

Meu coração gelou quando reconheci a voz de Nico e a voz de uma menina de fundo.

Sem controlar o meu ímpeto, abri a porta e dei de cara com Nico e mais um menino que estava prendendo a garota que haviam acusado de ter denunciado o meu encontro com o bandidinho, vulgo, Nico.

― O que estão fazendo?! ― perguntei indignada, aquilo estava totalmente injusto.

― Sai fora daqui, Ramona, isso não é pra você. ― Nico falou sem tirar os olhos da menina.

Ela estava imóvel, pois o garoto estava prendendo o seu braço, não estava chorando também, mas aterrorizada, pois nas mãos de Nico, havia um bastão.

― Doente. ― Eu murmurei sem me controlar.

Sem pensar duas vezes, dei um chute no ponto fraco de qualquer homem, em Nico, a menina aproveitou que o garoto que a segurava se distraiu e o empurrou para trás, ele bateu na parede e o impacto fez com que os livros que estava na prateleira em cima caíssem em sua cabeça, por pouco não foi nela que conseguiu se soltar rapidamente.

Segurei a sua mão e nós duas saímos correndo dali, o mais longe possível.

Eu com certeza, tanto quanto aquela garota, estava ferrada, mas quem se importa?

Não suporto injustiça.

Chegamos na praça da cidade, tão longe do colégio quanto da minha casa, soltei a sua mão, ela parecia um tanto assustada com tudo que aconteceu, mas ainda aparentava ser forte, se fosse qualquer outra menina da mesma aparência que ela, estaria se debulhando em lágrimas, tá ai por que é tão errado julgar as pessoas pela aparência.

― Tudo bem? ― perguntei.

Ela soltou um suspiro e começou a sorrir, olhando para mim, disse.

― Nunca estive tão bem em toda minha vida.

― Acho que você não está tão bem assim, não sei se percebeu, mas apanharia do Nico.

―– Ah, eu sei, eu sei, mas não aconteceu, certo? Então está tudo ótimo. E essa corrida agora?! Minha nossa, me senti naqueles filmes de ação.

Ok, ela é muito mais diferente do que aparenta ser.

E estranha.

A menina continuou a falar.

― Obrigada por ter me salvado, é mesmo, acho que não estaria inteira agora se você não tivesse aparecido. ― por fim, ajeitou seu óculos que estavam tortos por causa da corrida.

― Você sabe o por que dele ter tentado te atacar?

― Ele disse sobre algo ter o denunciado, não entendi muito bem.

― Você apanharia, porque falaram que por sua causa, ele quase foi preso pela polícia, resumindo tudo. ― tentei esconder o fato de que eu também quase fui presa.

Parei para pensar que... O que estou fazendo?! Se ela mesmo denunciou, acabei de ajudar a menina que quase me colocou atrás das grades.

A menina se manteve quieta, a pressionei para que contasse algo.

― Foi você?

― É claro que não, por que faria isso? Não ganharia nada em troca.

Fiquei a encarando. De fato, ela não ganharia nada em troca.

― Estou falando a verdade, não faria nada, a não ser que ele tivesse motivo para me bater só por que cai naquela sala da quadra, quando vocês dois estavam conversando.

― Que você diz não ter escutado nada?

― Mas eu não escutei, foi o único momento que tive qualquer contato com vocês dois, estou falando a verdade. ― ela disse insistindo nessa ideia

Dei um suspiro, haviam grandes chances dela mesmo não ter nada ver com a polícia e toda denúncia, que era só mais uma vítima de Nico para ele acusar alguém.

― Tudo bem, agora tome cuidado, não sei se ele vai deixar essa passar.

― Pode deixar comigo.

Virei as costas para ela e fui embora, porém a tal gritou.

― Qual é o seu nome?

Sem olhar para trás, respondi.

– Ramona.

– O meu é Sara.

Sara...

***

Os dias foram se passando e nunca mais falei com a Sara, embora estudássemos na mesma sala. Ela parecia já está bem esperta com Nico e o tal não mais tentou qualquer coisa contra ela, comigo ele apenas tentou ameaçar, arranjar uma briga por conta do chute, mas não adiantou muita coisa, sabia que se todo mundo soubesse da sua tentativa de intimidar uma garota e que não conseguiu, sua moral cairia tão rápido quanto um foguete.

Seria apenas um rumor o motivo para estragar tudo.

No fim do dia, resolvi visitá-la, fazia tempo que não ia encontrá-la e o clima não poderia está melhor para esse momento.

Frio.

Nublado.

Exatamente assim que me sentia todos os dias.

Sera que ela conseguia ver isso? Será que ela me perdoaria?

Quando cheguei, me senti um pouco mal, pois não trouxe nem mesmo um buquê de flores, queria pedir desculpas novamente, mas acho que ela já estava de saco cheio das mesmas coisas.

E ali fiquei por um tempo, sentada, lembrando do tempo que não havia quase nenhuma preocupação e tudo tinha cor, tudo tinha vida.

" – Eh Ramona, não vamos passar por ai!

– Por que?

– Não gosto de cemitérios.

– Você sabia que um dia vai ficar aqui para sempre?

– Eu sei, eu sei, mas espero que demore muito para isso acontecer, ainda tenho muito para viver.

– Será?

– É claro que sim, sua idiota! Ramona, você é muito boba, agora, vamos dar meia volta por que não quero passar de jeito nenhum perto.

– Medrosa mesmo hein! Tem quantos anos? Cinco?

– Cala a boca."

Quando dei por mim, já estava tudo escuro, peguei minha mochila rapidamente e corri para casa me preparando emocionalmente para os questionários de minha mãe, Rose, sobre chegar tarde.

Entrando, dei de cara com meu pai sentado na sala, ele não costumava está em casa essa hora.

― Até que enfim chegou. ― Jorge, meu pai, disse.

― O que foi dessa vez?

― Quero conversar com você. ― ele disse de forma séria.

Como sempre, ele só se dirigia a mim para brigar, por que não me surpreendo mais, né?

Ainda sentado, ele continuou.

― Sente aqui.

― Estou bem pé.

Então ele começou seu discurso.

― Fui no seu colégio, faltas, notas baixas, advertências por chegar atrasada, onde você quer chegar, Ramona?!

― Pai, se for para começar com o seu discurso de como eu tenho que estudar para conseguir dinheiro no futuro, acho melhor parar por ai. ― quando ia subir para meu quarto, ele se levantou rapidamente e segurou meu braço com força. ― está me machucando.

― Você está sendo uma merda, um estorvo para todos aqui, será que não percebe e não tenta ser alguém na vida?! Hein, Ramona?!

― Você não sabe o que está falando. ― meu sangue estava fervendo, não sabia que ele estava dizendo aquelas coisas.

― Eu te dou tudo, tudo, você tem casa, comida, estudo, o que mais te falta? Estou cansado de te avisar, um dia vai se arrepender.

― Será mesmo que me dá tudo?!

― Mas é claro que dou, e você, aonde estava para chegar tão tarde?

― Não te interessa.

― Bebendo, fumando?! Pare de agir como uma vagabunda! Igual sua amiga!

Foi o momento que eu nunca senti tanta raiva em toda minha vida, estava me sentindo sufocada, e mais um minuto dentro daquela casa, poderia acontecer uma tragédia.

– Chega! – Gritei o empurrando para soltar meu braço. – Para essa casa eu não volto hoje.

E antes que ele ou minha mãe que apareceu em seguida, pudessem fazer algo, sai de casa com a minha bicicleta, lembrei que o dinheiro que compraria a droga de Nico ainda estava na mochila, e gastei tudo com bebidas e cigarro, apenas queria sumir, só isso.

Parei na calçada, a mesma que dava para o rio da cidade e ali fiquei, não lembro exatamente como tudo aconteceu, depois que alguns minutos, sei que já estava fora de si.

E que a encontrei.

― Ramona, você está bem?

Quando escutei sua voz, levantei do chão e corri para abraçá-la, aquilo não podia ser real, tinha que ser real, como se eu tivesse acordado de um pesadelo e ela nunca tivesse ido embora por minha causa.

― Clara, você voltou! – Eu disse a abraçando enquanto chorava.

Estava do mesmo jeito da última vez que nos encontramos, o mesmo corte de cabelo que eu dizia não gostar e o sorriso que encantava a todo que a conheciam.

Mas ela não correspondia meu abraço, pelo contrário, parecia assustada, então comecei a dizer chorando mais ainda.

― Me desculpe! Eu fui uma idiota, não deveria ter brigado com você, ter te deixado sozinha, deveria ter acreditado na sua palavra, não fui a melhor amiga que eu dizia ser, me desculpe, por favor!

E nada mais, nenhuma resposta, em seguida, tudo se tornou uma grande escuridão.

Acordei com uma grande dor de cabeça, parecia que ela estava sendo esmagada por um titã, minha boca tão seca quanto um deserto, fora meu corpo, poderia jurar que havia apanhado de cem homens.

― Maldita ressaca.― murmurei enquanto tentava descobrir aonde estava.

No meu quarto, é claro.

Só conseguia me lembrar das bebidas, o rio da cidade, calçada e... Clara.

Ela estava na minha frente, tão viva, tão forte que eu poderia jurar que foi algo real.

Mas é claro que não era.

Se já era uma grande batalha para eu acordar quando estava normal e sair da cama, imagine com ressaca.

Quando olhei no relógio, percebi que já havia perdido a hora da aula e nem mesmo chegar atrasada adiantaria de algo.

Decidi encontrar com Rodrigo, provavelmente ele que deve ter me salvado, como sempre faz, do meu momento bêbada, mas antes, tentei ao máximo disfarçar minha cara de acabada no banheiro e beber dez litros de água antes que morresse desidratada, minha mãe não estava em casa, provavelmente saiu para fazer compras ou sei la o que.

Melhor, pois sairia sem nenhuma pertubação ou perguntas sobre ontem.

Peguei a minha bicicleta que estava guardada como se eu não tivesse saído ontem e fui para a oficina que ele trabalhava consertando carros.

Ainda estava meio tonta, logo não corri muito.

Chegado na oficina, Rodrigo veio me encontrar rapidamente, estava com uma roupa velha e toda suja, normal.

― Estava querendo falar com você, pensei que tivesse no colégio... ― ele riu um pouco e continuou ― É claro que não estaria, depois de ontem. – Ele disse vindo em minha direção.

― Então foi você meu salvador ontem.

― Não só, mas o que deu em você de beber daquele jeito no meio da semana?

Parei a bicicleta e disse.

― Problemas, o de costume.

― Você ficou caída no chão lá, um tanto engraçada, ainda bem que a sua amiga te achou, senão até sem celular estaria.

― Como assim "sua amiga"? ― perguntei assustada, lembrando do sonho de ontem.

― Ué, a menina que me ajudou a te carregar para casa, alias, que vergonha você fez, confundiu a menina com a Clara e começou abraçá-la, chorando, pedindo desculpas.

O que?! Aquilo não foi um sonho?! Eu fiz aquilo tudo e... Não era a Clara.

Se não era a Clara...

― Quem é essa menina, Rodrigo?

― Hm... Deixa eu lembrar, ela me disse... Ah, já sei. Sara. Sara é o nome dela.