Ultima esperança
2 01
Acordei com a gritaria da minha mãe que, provavelmente, estaria no primeiro andar preparando o café da manha para meu pai.
― Acorda, Ramona, eu não vou falar mais! Você vai se atrasar para a aula! ― ela estava berrando de forma bem raivosa, chegava a irritar.
Sem forças para levantar, ainda mais com a motivação de ter que ir para aquele hospício que as pessoas chamam de colégio, fui me virando, de modo molenga, na cama, até cair no chão, na esperança que no impacto, me despertaria para me arrumar.
Em vão, é claro.
Apenas aconteceu que eu cai, machuquei o meu cotovelo e ainda chamei atenção da minha mãe que perguntou o que estava acontecendo.
Fiquei ali, deitada no chão, com o cobertor jogado ao meu lado.
Todos os dias eram assim, com colégio ou sem colégio.
Essa vontade louca de viver que não sentia a muito tempo.
Desde quando ela se foi...
Comecei a sentir novamente aquela dor no coração, aquele aperto insuportável, só podia ser um pesadelo o que eu estava vivendo.
Após alguns segundos jogada naquele chão, me levantei, mais um berro da minha mãe na cozinha eu seria capaz de explodir.
Fui lentamente para o banheiro, meu cabelo estava ficando grande já, quase chegando no ombro, e minha franja já chegava a tampar meus olhos, por ele ser preto e bem liso, eu parecia uma emo com enormes olheiras que parecia que tinha acabado de levar um soco. Peguei meu uniforme e tentei desfaçar qualquer detalhe que fizesse a minha mãe ficar falando o quanto estava largada e desci para a cozinha.
Uniforme do meu colégio era e é extramente desconfortável, quem tem paciência para passar praticamente 7 horas da sua vida como uma camisa de botão, uma gravata e uma saia? Quase nunca colocava a gravata de forma correta, isso quando eu ia com ela, quase sempre andava com a camisa de botão um pouco aberta, por baixo, uma blusa preta de alça, pelo menos assim eu não me sentia sendo enforcada.
― Você já viu que horas são? ― minha mãe disse quando me viu sentando na mesa, ela estava terminando de preparar o café.
― Hora de aventura. ― respondi sem dar muita atenção enquanto pegava meu pão, percebi agora o quanto estava com fome.
― Estou falando sério, será que você não consegue chegar um dia no horário certo no colégio? ― por fim, ela já estava sentada na minha frente, pronta para dar mais um de seus sermões.
― Talvez no dia que puder ficar livre dessa coisa, chegarei o mais cedo o bastante para acabar logo. ― falava sem olhar para ela.
― E esse cabelo? Você deveria deixar crescer, era tão linda com ele longo. E é bom você cortar logo essa franja, com esses lindos olhos azuis escondidos nesse cabelo com corte horrível. Esse uniforme, Ramona, esta horrível, por que você não se arruma como uma pessoa normal?! Céus, essas olheiras, você anda madrugando?! Cadê a gravata de seu uniforme?! Ele foi feito para ser usado.
Era assim.
Todos os dias.
Chegava perder até a fome.
As mesmas observações, e sempre coisas eu que "tenho que mudar, para parecer uma pessoa normal".
Quando minha mãe tomou folego para reclamar de mais uma coisa, levantei-me rapidamente pegando um pedaço da torrada, dizendo.
― Valeu mãe, tenha um ótimo dia ai, estou vazando.
E antes dela responder, já estava a caminho do colégio.
Acho que trinta minutos atrasada para aula, não é um grande problema, certo?
Sempre passava pela casa dela, seus pais haviam se mudado depois do acontecido e agora vivia outra família ali, alguns anos atrás, eu estaria a esperando para que pudéssemos ir para o colégio juntas, ela reclamaria que cheguei atrasada e iriamos discutindo um modo de ajudar o meu "defeito".
Nunca chegávamos em uma conclusão concreta.
Voltei a andar e cheguei no colégio, como esperado, as aulas já haviam começado, andei pelos corredores me preparando emocionalmente para um esporro do professor.
Quando passava por alguns deles, recebia olhares de reprovação, apesar deles estarem acostumados com meu jeito e o estado do meu uniforme.
Logo que cheguei na sala, tentei entrar da forma mais discreta possível, como a sala tinha duas portas, uma na entrada e outra que dava para o fundo da sala, obviamente tentei entrar pela do fundo, mas em vão, o professor se virou no exato momento que sentaria na minha carteira.
― Isso são horas, dona Ramona.
― Nunca é tarde para chegar na aula, não é mesmo? ― perguntei tentando descontrair aquele momento de tensão.
― É sim Ramona, as vezes, é tarde demais.
Pude escutar o "uuh" vindo de toda a sala, o professor voltou a anotar a matéria no quadro enquanto eu me encolhia na carteira.
Péssimo dia.
No fim de todas as aulas, que pareciam uma tortura, enquanto arrumava meu material para fugir daquele lugar, Nico, um garoto da minha sala, sentou a minha frente e disse.
― Vamos conversar.
― Sobre?
― Aquela parada.
Parei no exato momento que ele acabou de falar, era daquilo que eu estava precisando agora, não havia outro momento melhor do que esse.
― Vamos. ― respondi, nós dois estávamos tentando disfarçar para que ninguém soubesse que estávamos conversando.
― Na quadra, onde o pessoal guarda o material escolar, essa hora tem ninguém lá.
― Certo.
Então, ele se levantou e foi embora da sala.
Esperei alguns minutos para me levantar e sair dali, outros alunos já tinham ido embora também.
Fui até a quadra e a sala com material escolar de educação física estava meio aberta, teoricamente Nico já estava lá.
Entrei devagar e dei de cara com ele sentado em uma caixa.
― Demorou, hein! ― Nico reclamou fazendo uma careta que mostrava o quanto já tinha rugas pelo rosto.
― Tinha que desfaçar, ué. Mas enfim, está com a parada? ― falei sem paciência.
― Garota, você acha que eu viria para o colégio com drogas, deve ser meio retardada, não acha?
Tive vontade de socar a cara daquele mauricinho, mas me segurei, afinal, precisava dele ainda.
Dei um suspiro impaciente e perguntei.
― E quando vai ser a hora?
― Amanha, de noite, umas vinte horas, no estacionamento perto do colégio, você está com o dinheiro, certo?
― É claro, como eu pediria algo para alguém tão escroto como você sem dinheiro?
― Ainda bem que você sabe...
Nico não conseguiu terminar a frase, pois um grande barulho fez o fundo daquela sala.
― Essas bolas de basquete tem vida? ― ele perguntou se levantando assustado.
― Até onde eu sei, não. ― respondi.
Meu coração começou a disparar, e se fosse algum professor ali ouvindo a nossa conversa? Seria o nosso fim.
Nico não parecia com coragem para ir ver por que daquele barulho, muito menos coragem para prosseguir a nossa conversa. Tomei a frente e fui chegando perto lentamente para ver a causa daquele barulho.
Qual foi meu susto quando vi uma menina da nossa sala caída no chão, presa por várias bolas de basquete em cima, estava em uma situação nada agradável, porem engraçada de ver.
― Não é nada disso que você está pensando. ― ela disse com o rosto todo corado.
Nico, então, apareceu atrás de mim quando ouviu que era uma voz feminina.
― O que essa idiota está fazendo aqui?! Você que a mandou para cá?! ― disse se dirigindo a mim.
Olhei para ele sem acreditar naquela afirmação e me defendi.
― Ficou maluco?! É claro que não, nunca falei com essa garota. ― voltando para a menina que ainda estava caída, perguntei. ― por que drogas você está fazendo ai?!
― Ér... Bem... É que eu estava guardando algumas coisas na sala, dai vocês chegaram e...
― Mas não tinha ninguém aqui quando eu cheguei. ― Nico a cortou.
A menina tentou se defender novamente.
― Eu acho que sou meio invisível mesmo... Mas, fiquem tranquilo, estava com fone de ouvido, nem ouvi o que vocês estavam conversando.
De fato, por cima das bolas, estava o fone dela tocando alguma música que eu não conseguia reconhecer.
Sem a menor vontade de discutir, dei a mão para ela se levantar.
― Acho bom você não ter escutado nada, melhor para a sua vida. ― Nico disse a ameaçando enquanto a menina arrumava o uniforme e pegava o celular no chão.
Nico ameaçando parecia um cachorro pequenininho latindo para um estranho.
― Pode deixar, não ouvi nada! ― ela disse, praticamente gritando.
E antes que Nico pudesse ameaçar com mais alguma coisa, ela saiu correndo, meio estabanada, batendo em algumas caixas.
― Que maluca.
Dei um suspiro, o que tinha para resolver, já havia o feito, então, por que eu ainda estava nessa sala com esse idiota?
― Que tal, amanha, depois de você experimentar pela primeira vez o barato, a gente não possa sair por ai, fazer algumas doideiras? ― ele perguntou se aproximando de mim.
― Quem sabe no dia trinta e um de fevereiro? ― e sai daquela sala antes de ouvir sua resposta.
Se é que tinha alguma resposta.
Quando cheguei em casa, fui direto para meu quarto, antes de minha mãe se pronunciar sobre alguma coisa que seria uma reclamação.
Tranquei a porta do quarto e me afundei na cama, como tenho feito todos os dias.
E ali fiquei por alguns longos minutos.
Sentia tanto peso em cima de mim, poderia simplesmente sucumbir, mas a vida parecia gostar de me ver nesse sofrimento, nessa agonia.
Estava em uma procura, talvez descontrolada, de algo que mudasse as cores das coisas que vejo, das coisas ao meu redor, pois tudo que olho, é apenas de um cinza, nada tem cor mais, nada anima. Por algum tempo, procurei em várias coisas algo para suprir esse vazio e mudar essa situação, quando comecei a beber, achei que isso faria algum efeito e que tudo mudaria, tudo voltaria a ser como antes, mas que ilusão a minha.
De fato, por algumas semanas, apesar das reclamações da minha mãe com o cheiro de bebida que exalava em alguns finais de semanas – quase todos, eu diria – depois de um tempo, tudo tornou-se um mesmo, se eu pudesse ficar bêbada vinte e quatro horas, esquecendo de todos os problemas, seria mais fácil.
Ou não.
Revirei na cama sentindo novamente aquela pontada no coração.
Por que eu não conseguia seguir em frente? Queria saber...
Fui interrompida nos meus pensamentos quando minha mãe começou a bater à porta, foi ai que percebi que já estava um bom tempo na cama, pensando e cochilando várias vezes.
― Ramona, preciso falar com você, agora!
Levantei sem vontade da cama e abri a porta, fiz uma cara de tédio para ver se ela se mancava e me deixava sozinha.
― O que você fez com o dinheiro que seu pai te deu? ― ela perguntou imediatamente.
Ah o dinheiro que ele me deu, na esperança que eu gastasse com material escolar e outras coisinhas para que eu pudesse arranjar um emprego.
O mesmo dinheiro que gastarei com Nico.
― Guardado.
― Por que você ainda não comprou as coisas que precisa?!
― Por que não quero? Até onde eu sei, o dinheiro que ele me deu, é meu, certo? Logo, posso gastar com o que eu quiser.
― E com o que você vai gastar?
― Não interessa.― respondi fechando a porta, mas ela a segurou.
Então fui me deitar novamente, percebi que ainda estava com o uniforme do colégio.
― Como não interessa? Ramona, eu sou sua mãe.
― Eu sei disso. ― minha voz foi um pouco abafada pelo travesseiro, mas minha mãe pode entender.
― Me deixa muito triste a forma como você está lidando com tudo que aconteceu, eu tentei de tudo, mas parece que você não dá valor a nada.
Fiquei em silêncio, quando a minha mãe dava para começar mais um de seus sermões, ficar respondendo seria pior.
― Bebendo, saindo e voltando de madrugada, imagine o que mais você deve fazer escondido, me preocupa, sabia?! Eu quero seu bem, minha querida, mas me sinto perdida agora. Tudo que falo te irrita, você vive com dez pedras na mão pronta para tacar em alguém.
É claro que se sente perdida, preocupada demais com que tipo de decoração vai colocar na casa, não é mesmo? Não comigo, já conheço essa história dela.
Foi então que ela falou algo que não devia, ou tentou falar.
– A Clara...
― Cala a boca! ― eu gritei. Já sabia a merda que sairia ali.
Ela não poderia ousar falar o nome dela novamente.
― Filha, você precisa superar, isso passou, acabou, não tem como voltar mais! E ela nem era tudo isso para você ficar assim!
― Você não sabe de nada! Que merda, será que não consegue me deixar em paz!? ― gritei saindo do quarto.
Enquanto descia a escada correndo, pude escutá-la falando.
― Por que sempre fica descontrolada quando falo dela?! O que te afeta tanto, garota!
A resposta era que a culpa me corroía, mas certamente minha mãe não entenderia isso.
Acabei indo para a rua, vagando por ai sem rumo certo, talvez desse para pegar fiado alguma bebida no bar do Menezes e ficar sentada em algum lugar olhando para o nada.
Fui até lá e o Menezes já veio me receber, já era conhecida.
― Veio pagar o que me deve? ― era um senhor de cabelos calvos brancos e de um grande bigode igualmente branco.
― Ainda não, mas queria aumentar um pouquinho a minha conta ai.
― E por que eu daria algo a você sendo que está me devendo?
― Eu já falei que vou pagar, nem chegou no final do mês.
Ele pegou as duas garrafas de cerveja e colocou no balcão para mim, dizendo.
― Até o final do mês, se não pagar, irei direto na sua casa cobrar.
― Tranquilo, vovô, até mais. ― eu disse pegando as garrafas e saindo daquele bar antes que ele mudasse de ideia.
Sentei em uma calçada que dava para o rio da cidade e fiquei ali, estava um pouco frio e o vento batia no meu rosto me dando calafrios.
Vendo o rio, dava para ver a pequena ponte, ao longe, que levava as pessoas de um lado da cidade para o outro, gostava de me perguntar para onde aqueles carros estavam indo. Será que era um trabalhador cansado estava doido para chegar em casa e encontrar a sua família? Ou estava indo para o trabalho ainda? Saindo para alguma festa no meio da semana? Será que estavam felizes? Ou tristes?
Ocorria o pôr do sol naquele momento, queria tirar uma foto, mas no calor da hora, quando sai enfurecida de casa, acabei esquecendo meu celular.
― Bebendo novamente.
Era voz de um homem e eu conhecia bem.
― É o que parece, não é Rodrigo? ― eu respondi sem olhá-lo
Rodrigo era um amigo de infância, cinco anos mais velho que eu, sempre teve sentimento de proteção como irmão mais velho sobre mim, as pessoas falavam que nós parecíamos realmente irmãos, por conta da cor de nossos olhos serem semelhantes, mas eu sempre dizia que os meus olhos eram bem mais claros que o dele, logo sempre discutíamos sobre isso.
― Você não acha que está muito cedo para ficar bebendo desse jeito, ainda mais sozinha? – Ele perguntou tentando parecer bem-humorado enquanto sentava do meu lado.
― Acho que isso não te interessa.
― Nossa, essa doeu. – Ele disse colocando a mão no coração como se tivesse levado uma facada. – Parece que está de mal humor.
― Parece?
― Ok, ok, posso supor que você brigou com sua mãe e que para descontar sua raiva, você pegou essas cervejas fiadas no bar do Menezes iludindo o pobre velhinho que você vai pagar no final do mês, sendo que faz isso a uns três meses e nunca pagou, obvio que ele não lembra por conta da idade.
― Está esperto hoje.
― Eu conheço a minha amiga, não é? Mas sério, qual foi o problema com sua mãe dessa vez?
Dei um gole na bebida, ainda vidrada olhando a ponte e seus carros, respondi.
― É só ela querendo se meter na minha vida. Nada demais.
― Normal, já que você tem dezesseis anos.
― Quase dezessete.
― É, tá por ai, mas bebe como uma mulher de vinte e pouco, nem parece aquela menina de alguns poucos anos atrás que tinha longos cabelos, só bebia coca-cola e voltava para casa antes das vinte e três horas.
Olhei para ele bem séria, e disse.
― Ela morreu.
― Talvez fosse prudente fazer um dia de luto para ela ou fingir que nada aconteceu?
― Cala a boca, Rodrigo. – Dei uma pequena risada da idiotisse que ele dizia.
― Ahá, te fiz rir, pelo menos um pouco.
Até que ali o assunto acabou, o que foi melhor, uma coisa que eu amava na minha relação com Rodrigo era que nós dois sabíamos quando deveríamos começar e terminar um assunto, e mesmo que ficássemos sem assunto, não ficava um clima tenso e preocupada em achar mais alguma coisa para falar, era calmo e a gente se entendia mais ainda.
E assim ficamos até Rodrigo apontar para a outra garrafa que estava do meu lado, perguntou.
― Posso?
Fiz uma cara feia para ele, mas no final entreguei, porém na hora que Rodrigo foi pegar a cerveja, a deixou cair sem querer.
― Você fez isso de propósito! ― eu gritei brava.
Ele começou a rir dizendo.
― É claro que não, ela escapuliu da minha mão.
Comecei a dar socos no seu braço.
― Que idiota, sai da minha frente, sério!
É claro que ele fez aquilo de propósito, não queria que eu chegasse mais uma vez com cheiro de cerveja dentro de casa.
― Ok ok, eu vou, tenho que ir consertar um carro lá no trabalho.
Ele, então, segurou meu rosto para que eu olhasse nos seus olhos e disse.
― Vê se não fica muito tempo aqui, pegará resfriado.
Fiz um "Joinha" com a mão e ele se levantou indo embora.
Dei um suspiro, não tinha mais bebida, logo ficaria chato ficar sentada ali, mas voltar para casa seria tão pior quanto.
Só que eu não tinha muitas opções.
Por fim, fiquei mais alguns minutos ali e fui para casa.
Meu pai já estava preparado para mais uma de suas broncas, mas sai correndo para o quarto, ele ficou batendo na porta durante alguns segundos, mas sempre acabava desistindo rápido.
Melhor para mim.
No dia seguinte, após o fim das aulas, fui para casa passar um tempo, tocando guitarra até dar a hora de encontrar com Nico, estava tão animada e nervosa para aquilo, podia sentir a adrenalina pelo corpo. Minha mãe batia, algumas vezes, na porta do quarto reclamando do barulho, mas estava tão empolgada que conseguia até ignorar seu berros.
Quando deu a hora para sair, peguei uma roupa qualquer, coloquei um casaco escuro e uma toca, por conta do frio que estava lá fora e na hora que sairia, minha mãe perguntou.
― Vai aonde, mocinha?
― Dar um passeio, relaxa, acho que não demoro. ― e sai antes de qualquer resposta.
Meu corpo tremia de excitação, peguei a minha bicicleta e fui correndo para o estacionamento, alguns minutos de prazer, poucos na verdade, me ajudariam a superar e preencher esse vazio que nasceu no meu coração? Sinceramente, não sei, mas estava louca para descobrir.
Chegado no estacionamento, deserto como esperado, Nico já me esperava encostado em um carro, coloquei a minha bicicleta em um canto e fui em sua direção.
― E ai?
― Calma gata.
― Não estou com tempo, aqui está o dinheiro. ― mostrei para ele.
― Certo, certo
Nico então pegou um saquinho do bolso, mas no exato momento que fazia isso, dois policiais apareceram.
― Ei, garotos! O que estão fazendo?!
― Deu merda, sua babaca, o que você fez?! ― Nico disse nervoso, depois saiu correndo.
Meu coração gelou, aquilo não podia esta acontecendo.
Aproveitei que o poste perto estava quebrado, logo os policiais não conseguiriam ver meu rosto, sai correndo também, o mais rápido que pude, peguei a bicicleta e fui disparada.
Eu acho que nunca andei de bicicleta tão rápido em toda minha vida, fui tão longe que acabei me perdendo um pouco para chegar em casa.
Não tinha como ninguém saber aquilo, alguém tinha nos denunciado, alguém que sabia que a gente estava ali, mas estava tão nervosa que mal conseguia pensar direito.
Único lado bom era que não havia dado dinheiro para Nico, seria capaz dele ficar com a droga e o meu dinheiro naquela hora.
Quando deitei em minha cama, apenas sei que demorei muito para dormir, nervosismo e o medo eram tão gritantes que ainda tinha dificuldade de respirar, eu suava frio pensando no que seria de mim se aqueles policiais tivessem me pego.
Que merda eu fiz para tudo dar errado para mim?
Na verdade, eu sabia o que tinha feito.
Mas o pesadelo ainda não havia acabado.
No dia seguinte, no intervalo de uma das aulas, Nico veio tirar satisfação comigo no meio de alguns alunos que ainda estavam na sala.
― Foi você, não é? Querendo me ferrar sua idiota!
Não querendo me rebaixar ao nível daquele imbecil, apenas disse calmamente.
― Por que ferraria uma pessoa tão ferrada quanto você? É a lógica, não é?
― Vai saber! Você tem noção que ferraria com todo o esquema, nós seriamos preso.
― Eu sei disso, não sei se você lembra, mas eu também estava lá.
― Nico? ― uma menina apareceu para o informar.
― O que é?! – Ele respondeu de forma ignorante.
― Eu acho que sei quem foi que denunciou o seu plano... ― então, seus olhos pousaram na mesma menina que havia escutado a minha conversa e a de Nico na sala no dia anterior do acontecido, ela estava lanchando sozinha, em um canto da sala. – O nome dela é Sara e eu a vi falando com a polícia sobre, no telefone.
Poderia ver o rosto de Nico avermelhando de tanta raiva, o papel que estava na sua mão foi amassado, no final, ele apenas murmurou.
― Ah... Mas essa garota vai pagar muito caro... Muito mesmo.
Naquele momento, eu vi um Nico que não conhecia.
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