Ultima Primavera - One Shot

1 Ultima Primavera - Capitulo Único


Anne, desde jovem, tinha alguns problemas. Sua cabeça sempre confusa, não conseguia compreender o mundo da forma que todos o compreendiam. Com 19 anos foi diagnosticada com Esquizofrenia Paranoica. Começou a ser medicada com remédios fortíssimos, mas que, aos poucos, começaram a fazer as vozes na sua cabeça, que a impediam de viver em paz foram lentamente sumindo.

Em meio a sua recuperação, em uma saída com os amigos, Anne conheceu Joseph. Joseph morava sozinho e fazia faculdade de Contabilidade na cidade. Anne não foi capaz de tirar os olhos dele. Após algumas mensagens, papo vai e papo vem, Joseph e Anne se encontraram, e Anne contou sua história. E meio as lagrimas, Joseph a segurou mais forte do que ninguém jamais havia feito. Pela primeira vez em anos, em anos, ela se sentiu viva. Naquele dia, descobriu que ele era o homem da sua vida.

Na primavera daquele ano, noivaram. A primavera foi escolhida pelas flores. Queriam casar naquela estação para passar pelo jardim de margaridas em frente a igreja. A mãe de Anne, ansiosa, não parava de fazer os preparativos do casamento, em uma de suas corridas pela cidade em busca de um doceiro que fizesse o bolo mais perfeito, o carro de sua mãe bateu contra o de um homem bêbado que furou o sinal vermelho.

Naquele dia, a mãe de Anne faleceu.

Ela caiu em crise mais uma vez. Com a morte de sua mãe, que sempre esteve ao seu lado, Anne começou a enlouquecer. Seus remédios foram lentamente perdendo o efeito e as vozes foram voltando a sua cabeça, ela começou a temer machucar Joseph com tudo aquilo, e começou a se isolar. Após semanas sem responder suas mensagens, Anne decidiu finalmente responde-lo. Marcou um encontro em seu apartamento para dar o ultimo adeus.

Anne vestiu sua roupa mais bonita, passou sua melhor maquiagem e seu melhor perfume. Antes de sair de casa, tomou duas cartelas inteiras do seu remédio com um gole de Rum. Segundo suas pesquisas, teria três horas até o fim iminente. Respirou fundo, entrou no carro e foi em direção a casa de seu amado, que ficava a alguns minutos dali.

“Fraca”

“Idiota”

“Faça esse favor ao mundo e morra logo”

As vozes em sua cabeça não a largavam, em meio a tremedeira, ligou o som do carro para tentar afasta-las. Com os ombros a tremer, se apoiou na janela do carro e olhou para fora. O sol brilhava forte, e as petúnias cresciam ao canto da estrada. As petúnias estavam lindas. Essa seria a ultima vez que veria as petúnias.

Ao chegar a porta do apartamento de Joseph, respirou fundo, ignorando as vozes e o som incessante de sirene que a sua cabeça não parava de repetir como um toca discos emperrado, tocou a campainha, e esperou a resposta. Joseph abriu a porta. Estava com um avental de cozinha que dizia “Kiss the Chef”. Sem mal cumprimenta-la, entrou correndo para dentro.

— Entre amor, estou cozinhando pra você! – Gritou do corredor.

Cozinhando? Joseph odiava cozinhar. A única vez que havia provado um prato dele foi em seu aniversário. O que estaria fazendo na cozinha? Ao chegar perto, começou a sentir o cheiro tal que não sentia ha anos. Mas não conseguia lembrar o que era.

— Eu estou tentando cozinhar aquele bolo de maracujá que você me disse que sua vó fazia. Sua vó deveria ter uma paciência de ferro para aguentar isso.

— Você cozinhando? Pra mim? – Anne apertou as unhas na palma da mão, tão forte que começou a sangrar. Precisava resistir, não esperava por isso, queria apenas vê-lo pela ultima vez.

— Você ficou sumida nos últimos tempos. Eu sei que é uma barra tudo isso que você está passando, então achei uma boa te fazer um mimo. Vamos comer macarronada a bolonhesa com o bolo de maracujá de sobremesa, que tal?

Sem resistir, Anne correu até ele, com as pernas tremendo e o coração acelerado. Abraçou-o por traz com toda a força que ainda tinha e começou a chorar. Ele se virou, preocupado, mas antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, Anne beijou-o. Ele envolveu-a com os braços enquanto ela chorava sem parar. Ela não queria parar, ela não queria sair. As vozes em sua cabeça cessaram, e a paz finalmente surgiu. Ela ouvia apenas o palpitar de seu coração, encostado ao dele, que batia tão forte quanto. Ela pegava em seu cabelo com fulgor.

Anne estava se sentindo viva pela ultima vez.

— Uau...Fazia tempo que você não vinha pra cima com tanta força. – Disse ele rindo, antes de perceber o rosto de Anne. Sua feição mudou de sorridente para apreensiva em segundos. – Meu amor...Por que você está chorando.

Ela tentava falar, mas não conseguia parar de soluçar, ela passou a mão, tremula, pelo rosto dele. Ele era como uma pintura pra ela. Com o rosto vermelho, e os olhos cheios d’agua, Anne sorriu. Tirou do bolso um pequeno pedaço de papel e colocou sobre a mesa. Joseph não conseguia reagir, parado como uma estátua de mármore, enquanto ela beijava sua testa e saia do recinto.

Enquanto esperava pelo elevador, ela pode ouvir a voz dele quebrando o silêncio. Ele não parecia bravo, ele parecia desesperado. Enquanto ele corria em direção a ela, ela adentrava o elevador e assistia sua porta fechar. Ele batia forte contra a porta do elevador, gritando o nome dela. Pela primeira vez, ela havia visto-o chorar.

Não conseguiu resistir, suas pernas não tinham mais força para se aguentar em pé. De joelho, Anne começou a chorar mais e mais forte, até vomitar, talvez o fluxo sanguíneo do coração acelerado tenha acelerado o efeito do remédio. Sua visão trêmula a levava cada vez mais próxima a um desmaio. A luz do elevador parecia mais e mais forte. Estendeu sua mão a porta do elevador, seu ultimo desejo estava concreto, seu caminho ao paraíso estava livre.

“Sentiremos sua falta”, disseram as vozes em sua cabeça.

No térreo, o velhinho que morava no 503 tentou chamar uma ambulância. Mas de nada adiantou.

Anne morreu, sorrindo.

Em seu tumulo, não houve nenhum dia até o final da primavera, em que não houvessem margaridas recém colhidas.

Notas finais
Se leu até aqui poderia largar um oi nos comentários né ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!