Uivando para a Neblina
1 Capítulo 1- Alma Dourada
Notas iniciais
A coruja e o lobo: O que ambos têm em comum? São predadores implacáveis em seus universos, furtivos e violentos, senhores da noite, senhores da lua.
O ano é 3509, a sociedade mudou bastante nos últimos 20 anos, notavelmente pelas atitudes heroicas dos três escolhidos, Zachary Axis, Mary Wolfhent e Jeff Desercul. O último infelizmente morreu, os dois primeiros, felizmente, são meus pais.
Me chamo Richard Axis, filho de Zach e Mary, vivo na Noruega com meus pais. A sociedade, como mencionei anteriormente, está passando por um processo assustadoramente rápido de evolução tecnológica, tudo isso por causa de uma simples forma de energia descoberta por ninguém menos do que meu pai: A Unimatter, ou energia espiritual.
O poder que vem do espírito pode ser convertido à energia, usada em combustíveis, armas e outras coisas. A sociedade, na qual era anteriormente composta apenas por humanos recebeu novos integrantes: Os Krazuamen, metade corvo, metade homem, esses seres são servos de Vazachor, altamente inteligentes, altamente mandões.
Os Eazmen, metade águia, metade homem, servos de Hawter, são espertos e fortes. Temos também os Snozmen, os homem coruja-das-neves, servos de Owlazar, esses seres conseguem ser tão mandões quanto os Krazuamen, as vezes tão fortes quanto os Eazmen. E por fim temos os Hagoheikers, ou simplesmente Hagos, seres de quatro braços parecidos com gárgulas, extremamente fortes e hábeis com Unihacks.
Sinto que também devo explicar o que são Unihacks, afinal, foram elas que transformaram o mundo no que é hoje! Elas são habilidades nas quais usam o espírito para materializar, alterar ou simplesmente explodir algo. Desde que meu pai as descobriu e compartilhou essa importante descoberta com a comunidade científica, novas Unihacks surgiram, mais poderosas e úteis! Inicialmente eram feitas puramente para combate, porém hoje em dia aposto que existe Unihack até para desentupir o vaso sanitário!
Apesar das diferenças, os humanos conseguem viver em paz com as quatro raças que mencionei anteriormente. Alguns até se tornam amigos, raramente marido e mulher...não me pergunte como são os híbridos.
A pacífica convivência é resultado das maravilhas alcançadas com as Unihacks. Diferenças religiosas? Nossos deuses são pássaros! Escassez de combustível? Unihacks! Unihacks!
A gentileza gerava gentileza, era um mundo lindo, uma aura de compreensão e pureza pairava sobre todo o globo! Porém não há motivo para eu estar contando esta estória se tudo está bem...
Novembro de 3509, dia 21. Entrei de férias, joguei minha mochila em minha cama: Adeus dor insuportável nas costas por carregar uma tonelada de livro! Fui para meu computador ver as notícias, o que de interessante se passava mundo afora?
Bem, além da nuvem de corujas na Sibéria, a única notícia que me chamou atenção foi uma que envolvia um ataque hacker aos servidores internacionais de noticias. Eu não sou o tipo que assiste noticiário na TV, apenas leio as notícias na Internet, portanto devo ter perdido.
Além de teorias idiotas da conspiração que envolviam alienígenas e sociedades secretas, havia o vídeo do ataque. Nele, uma criatura encapuzada não identificada aparece falando em Inglês, com um estranho sotaque, sobre um ataque terrorista. Não informou data alguma, apenas falou baboseiras sem sentido como “O dragão surgirá das cinzas” ou “Suas plumas serão apagadas da história”.
O ataque logo foi esquecido por todos, o povo achou que era apenas mais um idiota sem o que fazer. Eu posso culpá-los? Há muitos idiotas sem o que fazer no mundo, talvez eu me encaixe dentre eles, apesar de trabalhar voluntariamente na empresa de meu pai.
É inconveniente que eu comece a me descrever agora? Tanto faz! Afinal, sou o mestre das inconveniências: Sou alto, tenho cabelos brancos (Levemente azulados) e longos, olhos avermelhados e uma força anormal, afinal, sou filho dos escolhidos. Onde eu estava? Ah, sim, no ataque hacker!
Não foi algo significativo para a maioria, passando despercebido. É claro que houve grupos que especulavam sobre novas ordens mundiais divinas, invasão alienígena, seres interdimensionais e até foi teorizado que tudo isso era uma simulação de computador feita por seres superiores.
Eu fiquei cético em relação à tamanha besteira, creio que há algo muito maior do que aliens com cabeças de melancia querendo invadir nosso mundo. No momento em que li fui dominado por uma imensa curiosidade. Talvez não fosse um vagabundo desocupado?
Não sou uma pessoa ocupada, meu trabalho voluntário é quase que desnecessário, desde que há milhões de trabalhadores na empresa de meu pai. Além disso, estava de férias, tinha tempo de sobra. Resolvi investigar mais profundamente o fato, porém onde começar?
Meu pai estava trabalhando e eu não queria azucrinar minha mãe que estava dormindo, portanto resolvi perguntar a alguém mais sábio. Ajoelhei-me na frente de minha cama e rezei com toda minha alma à Hawter, o deus águia, o líder dos deuses.
Minhas palavras ecoaram pelo quarto com uma aura divina e serena, a lâmpada de Unimatter começou a piscar freneticamente, um vento corria pelas cortinas. Conforme eu o invocava, a lâmpada quebrou e o vento cessou. Levanto minha cabeça e o vejo, do lado de minha janela com os olhos na lâmpada quebrada. Se manifestou como um Eazman, metade homem, metade águia. Usava um casaco púrpuro, calças jeans e um capuz. Apesar de não sentirem frio, deuses aparentam ter uma noção de moda.
—Eu sabia que devia ter feito uma chegada menos dramática! —Exclamou o deus.
—Você sempre quebra as lâmpadas, cara! Assim não dá...
—Desculpe Richard!—Perdoou-se Hawter, consertando a lâmpada através de uma Unihack, e continuou:
—Então, por que me invocou dessa vez? Não vai me dizer que Zach perdeu a chave do carro de novo!
—Não! Não é isso...ao menos agora. Preciso de sua orientação à respeito do ataque hacker.
—Aquele feito por um idiota sem o que fazer?
—Eu tenho certeza que não é um idiota sem o que fazer!
—Bem, se insiste. Eu mesmo tentei o rastrear, porém falhei. É impressionante quando consegue esconder seu IP de um deus, devo dizer. Vejo que atingiu sua maioridade recentemente, está pronto para exercer sua responsabilidade como escolhido!
—E o que um escolhido faz?
—Depende bastante. Seu pai foi escolhido para descobrir os paradeiros de Vazachor, porém creio que você tenha uma tarefa igualmente importante. Talvez até mais...
—E o que isso tem a ver com o ataque hacker?
—Apesar de eu estar cético com isso, meus irmãos têm teorias interessantes sobre o ataque. Acho que seria bom fazer uma reunião sobre isso, eles têm tempo de sobra assim como eu!
—E onde vai ser a reunião?
—Eu posso chamar os dois agora. Não há muito de interessante acontecendo lá no céu.
—Não quer dizer a terceira dimensão?
—Terceira dimensão, céu, paraíso, casa dos deuses, recanto dourado, aviário divino, mundo das nuvens, tanto faz!
—Nossa, quantos nomes!
—Sim...Ei, contatarei os dois agora. Nos encontre na praça.
—Não é melhor ir em um lugar menos movimentado? Quero dizer, vocês são deuses! Vão chamar a atenção!
—Seres da trindade divina são todos iguais, nem nos notarão!
Se despedindo e se desculpando por causa da lâmpada quebrada, Hawter ascendeu de volta para o céu, aviário divino, tanto faz! Vesti uma roupa discreta: Um casaco branco, calça jeans, luvas de couro e sapatos confortáveis para a caminhada para o parque. Tinha o costume de levar minha mochila ao sair, nunca se sabe! Nela coloquei meu caderno de anotações, minha carteira e meu celular.
Apesar da paz evidente entre as etnias, ainda havia a constante guerra entre criminosos e pessoas de bem. Criminalidade não era comum onde eu morava, porém por via das dúvidas levei uma faca de energia para minha proteção.
Avisei para minha mãe que ia sair. “Se cuida...”, disse sonolenta. Sai de casa e desci a ladeira, dobrei a esquina e dei longos passos retos em direção ao parque. Não era longe, cheguei lá em quinze minutos.
Olho ao meu redor com o intuito de avistar os três, porém sem êxito. Não desistindo, olho novamente, dessa vez avistando um Eazman, um Snozman e um Krazuaman. Ao notar minha presença Hawter acenou.
—Aqui!—Gritou ele.
Chegando à mesa os três deuses pararam de falar da nuvem de corujas na Sibéria e passaram a falar sobre o ataque hacker. Hawter estava cético sobre isso, porém Vazachor e Owlazar não.
—Eu digo alienígenas interdimensionais!—Afirmou Owlazar.
—É claro que não, tonto! É bem mais sério!—Exclamou Vazachor.
—Mais sério?—Questionei.
—Muito mais sério!—Afirmou Vazachor e continuou:—Nós sabemos que existem apenas um tipo de ser que realmente nos fez mal e esses são os demônios!
—Impossível! Meu pai derrotou Nyxta, o líder deles!—Afirmei.
—Mas não matou todos. Enquanto estava lá no inferno, capturado por aqueles monstros eu ouvi falar sobre a dinastia Amber: É a família real dos demônios, tiranos de sangue que mandam no império dos demônios. Nyxta era apenas mais um deles.—Respondeu Vazachor.
—Só observo...—Comentou Owlazar.
—E como eles ganharam acesso a nossa dimensão?! Quero dizer, meu pai selou o portal do inferno para essa dimensão! —Perguntei.
—Suspeito que ainda haja demônios soltos nos quais mantêm contato com o Amber de lá. Talvez a invasão tenha sido uma mera ferramenta para infiltrar demônios em nosso mundo...
—Isso é horrível! Quer dizer que ainda pode haver demônios a espreita por ai?!
—Infelizmente, sim. Precisamos achar os demônios espiões e obter informações, porém é meio difícil encontrá-los...
—Ei! Acho que sei onde vocês podem achar um...— Comentou Hawter.
Hawter se levantou da mesa e olhou em direção a um banheiro. “Ali!”, falou apontando o dedo em direção ao lugar.Como acharíamos um demônio dentro de um banheiro?!
—Sigam-me!
Como não tínhamos muitas alternativas, seguimos Hawter até o banheiro. Lá, depois de fechar a porta, Hawter olhou de um lado para o outro. Invocou alguma Unihack que eu não conhecia, fazendo uma vela aparecer em sua mão. Colocou-a na frente do espelho do banheiro, ligou a torneira e segurou nossas mãos.
—Ei, não é assim que se invoca a...
—Calado Owlazar! Ela pode fugir assim...
Ele ia invocar a Maria Sangrenta?! Todos sabem que isso é apenas um mito, estranhamente, ele surgiu um pouco depois da grande invasão. Alguns dizem que ela não existe, enquanto outros afirmam ter a visto no espelho. Eu não ia contrariar um deus, então segurei na mão de Vazachor e Hawter e começamos a invocar:
—Maria Sangrenta! Maria Sangrenta!
Na décima terceira vez que recitamos seu nome ela surgiu no espelho: Uma figura fantasmagórica de uma mulher bela de cabelos longos, sem olhos, apenas sangue escorrendo. Usava um longo vestido. Sua mão alcançou a de Hawter, e seu rosto saiu do espelho.
—Agora acreditam na Maria Sangrenta agora?—Perguntou ela.
—Acreditamos que você nos dará o que precisamos, demônio asqueroso!—Exclamou Hawter, puxando a do espelho pela mão e a arremessando contra a porta.
—Ai! Eu irei os amaldiçoar com cinquenta anos de az-...
—Calada! Sabemos que é um demônio, o mais patético que existe! Você nos dará as informações que precisamos!
—Uhh...demônio? Eu sou um fantasma! Buu!
—Vai já virar um fantasma se não cooperar conosco!—Gritou Hawter, sacando uma espada espiritual e apontando-a em direção a Maria Sangrenta. Não é algo que se vê todo o dia...
Vazachor se aproximou e estendeu sua mão, levantando-a. Calmamente começou a questioná-la sobre a invasão, Nyxta e o império dos demônios. Maneira estranha de se falar com um demônio...
—Por favor, não contém para Xugorth! Ele vai me matar!—Disse ela.
—Xugorth?—Questionou Hawter.
—O atual Amber de lá. Ele mandou centenas de demônios para cá, muitos foram obrigados!
—Não é como se vocês não gostassem de nos causar dor!—Exclamou Hawter.
—Não gostamos! Apenas a família real gosta! Somos uma sociedade como qualquer outra. Eu fui tirada de minha família por ordem daquele maldito Xugorth! Deixei duas filhas para trás...
—Está mentindo! É claro que está!—Persistiu Hawter.
—Estou? Pergunte a qualquer outro demônio de sua história, a maioria foi obrigada à vir para cá. Você acha mesmo que qualquer ser pertencente a qualquer dimensão gostaria de passar sua vida inteira em um banheiro?
—Mas você...demônios são...ah, esqueça! Vou fingir que confio em você. Porém você irá nos dar mais respostas! Precisamos saber mais sobre o que esse Xugorth está tramando. —Disse Hawter, aceitando a ajuda do demônio.
—Vocês planejam ir contra ele? Não sou a favor dele, mas quero provas que não vou acabar com minha alma destruída por causa de vocês! —Questionou ela.
— Olhe bem para esse jovem aqui! Ele foi escolhido pelo destino para lutar bravamente contra o mal! Ele pode destruir legiões de bestas e aniquilar os maiores dos brutamontes só por causa do sangue heróico que corre em suas veias! —Assegurou Owlazar.
—Não o priva de ser um completo idiota. E o que o torna um escolhido, posso saber? —Perguntou Maria Sangrenta.
—Bem...é meio que genético. O pai dele foi escolhido por métodos divinos...nossa, você me pegou! —Respondeu Owlazar com um tom de zombaria
—Sua coruja idiota! Ele é o escolhido porque nas veias dele corre o sangue de um herói, porém na sua alma corre...nossa, não é que ela me pegou também! —Respondeu Hawter.
Meu pai lutou bravamente por sua sobrevivência, seus instintos o obrigaram a se tornar um verdadeiro exército de um homem só, porém quanto a mim... eu tinha o potencial, mas o que me incentivava a lutar? Ah, sim, o iminente ataque causado por seres extremamente poderosos de outra dimensão. Esqueci desse pequeno detalhe!
Depois de meus motivos serem esclarecidos, decidimos ir para um lugar mais apropriado para se dialogar. No começo tivemos dúvidas se realmente podíamos levar um demônio por aí, porém o único motivo para ela estar naquele banheiro era o medo de ser reprimida violentamente por Xugorth, sendo que ela podia assumir a forma de uma humana completamente normal quando bem quisesse.
Dirigimos-nos novamente à mesa onde os três deuses estavam conversando inicialmente. Todos se sentaram, menos Hawter, já que só tinha quatro cadeiras e aparentemente ele não tinha problemas em ficar de pé, porém problemas em relação ao demônio ele tinha: E muitos!
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