Uivando para a Neblina

4 Capítulo 4- Vingança


Notas iniciais
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―O que você faz aqui?!―Perguntei para o corvo em minha janela.

―Espada maneira! Onde conseguiu?

―Não é de sua conta! O que você quer de mim?

―Eu só quero ajudar!

―Você não pode simplesmente sair do meio do nada e dizer que quer me ajudar!

―Acalme-se! Trago-lhe uma informação na qual você pode achar útil.

―Hum...pode falar.

―Você conhece o Kiwi’s?

―Não era aquele restaurante abandonado?

―Esse mesmo. Eles faliram e abandonaram o estabelecimento. Há relatos de atividade demoníaca por lá. Se eu fosse você, eu ia lá e mandava esses monstros para o espaço! Literalmente...

―Vou ignorar a estranheza e a aleatoriedade de sua súbita aparência pelo bem de minha sanidade, portanto só lhe digo uma coisa: Estou ocupado.

―Ahh...ok, eu entendo. Até mais!

E o pássaro novamente voou pelos céus e desapareceu. Eu não sei o que me metia mais medo, os demônios horrendos que eu precisava confrontar ou esse pássaro de objetivos duvidosos. Depois do estranho encontro, vesti meu peitoral por baixo de minha camisa e peguei um táxi até a escola. Eu tinha uns negócios inacabados lá.

A rua estava deserta como sempre, tão abandonada quanto a escola. Era um lugar bem curioso, para falar a verdade. Eram nove horas e meia, porém ainda chovia. Para falar a verdade, chovia tanto que uma ligeira neblina havia se formado sobre a cidade. Nada de muito notável, porém curioso, de qualquer maneira.

Puxei minha espada e escudo, me preparei psicologicamente para o que vinha a seguir e finalmente adentrei a escola abandonada. Eu já sabia que caminho ia tomar: Subi as escadas e fui em direção ao corredor. Aquele demônio iria me pagar.

As sombras começaram a vir pelo corredor, como aconteceu anteriormente, porém as ignorei. Não me importei com qualquer daqueles eventos estranhos que aconteciam ao redor, nem mesmo aqueles que eram completamente novos, obviamente forjados para me assustar, tais como corpos pendurados no teto. Nada que aquele demônio jogasse em mim iria me assustar.

Finalmente, depois de uma longa caminhada, encontrei a besta. A serpente dos olhos azuis havia voltado, de alguma maneira. E lá estava eu, face a face contra o imenso crocodilo com serpentes como línguas.

―Hehehehe, vejo que voltou! Pronto para sofrer mais um pouco?―Provocou a serpente dos olhos vermelhos.

―Veremos quem irá sofrer. ―Respondi.

A serpente de olhos azuis cuspiu um enorme jato pressurizado de gelo, porém o bloqueei facilmente com meu escudo, no qual absorveu todo o impacto. Conforme eu avançava casualmente em direção ao demônio, a serpente continuou a cuspir mais jatos de gelo, todos defletidos por meu escudo.

Cheguei perto o suficiente da criatura, cravando minha espada na cabeça da serpente de olhos azuis, que morreu instantaneamente antes que pudesse soltar mais um de seus raios. Porém dessa vez eu percebi algo novo: Algo em sua garganta brilhava em uma pálida luz azul-clara.

Antes que eu pudesse examinar de perto a criatura, a serpente de olhos vermelhos, enfurecida, lançou sobre mim uma mordida, porém sua face se encontrou contra meu escudo, no qual usei para desferir um bruto golpe para afastá-la. Ela ficou desorientada e, depois de que saiu de seu estado de confusão, virou-se contra mim e disse cheia de ódio e revolta:

―Você vai me pagar, garoto!

E cuspiu furiosamente de sua boca uma violenta nuvem de gás fervente, na qual derreteu todas as sombras que perto dela ficaram. Fiquei de guarda com meu escudo, confiante de seu poder, e com ele cruzei a violenta nuvem. O gás era repelido pelo meu escudo e parte dele voltou contra a serpente, queimando severamente sua face. Pude ouvir seus gritos de agonia por trás da cortina fervente conforme sua face era lentamente deformada.

Depois que desfeito todo o gás, me voltei contra a serpente e, em um movimento rápido, cravei minha espada na sua garganta, atingindo a glândula na qual produzia suas chamas. Sua garganta começou a queimar violentamente, conforme a serpente agonizava severamente em uma profunda dor e as chamas se alastravam por todo seu corpo.

O crocodilo, ao presenciar as chamas se espalhando rapidamente em direção a sua boca, mordeu brutalmente a serpente, separando-a do crocodilo e a matando instantaneamente. Recuei.

O grande réptil já não tinha mais suas línguas, apenas seu tamanho. Ele, furioso com a morte das serpentes, avançou contra mim, atropelando todas as sombras nas quais por lá andavam. Pus minha espada em minha alça e com a mão livre concentrei um poderoso ataque espiritual.

Esperei o crocodilo se aproximar mais e então sobre ele lancei um jato não-pressurizado de ferro derretido. O líquido acertou sua face em cheio, causando uma dor intensa no crocodilo e derretendo seus olhos com facilidade. A criatura se debatia severamente conforme o ferro se solidificava sobre sua pele.

O crocodilo desmaiou de tanta dor, caindo inconsciente no chão. Nesse ponto eu estava tão furioso e queria tanta minha vingança que tinha esquecido minha missão original: Coletar informação sobre os demônios. Agarrei meu celular e liguei para Vazachor.

―Eu neutralizei o demônio! Porém ele está desmaiado agora...

―Ótimo! Porém vamos precisar de informação e desacordados não falam. Como ele está?

―Ehh...eu joguei ferro derretido na cara dele. Ele está cego, grande parte das escamas de sua cabeça foram derretidas e há muito ferro sobre ele.

―Você jogou o quê?! Nossa! Quanta violência desnecessária! Mas acho que podemos usar ele. Qual é o tamanho dele?

―Do tamanho de um ônibus escolar.

―Esse vai dar trabalho...vou mandar uns agentes irem aí para o pegar. Faremos algumas perguntas para ele quando acordar...

―Agentes?! Por que não os mandou para me ajudar a batalhar contra esse demônio?

―Com agentes quero dizer meros Krazuamen. Eles só vão retirar a criatura daí, não são treinados em combate. E mesmo que fossem, seriam massacrados.

―Ah...ok, então.

Vazachor desligou e eu fiquei um tempo no corredor, me certificando que a criatura não acordasse. Eu tinha percebido que as sombras tinham parado de aparecer e seus corpos tinham desaparecido. Depois de alguns minutos chegaram oito fortes Krazuamen, os homens-corvo.

Eles agarraram a criatura e a arrastaram até a entrada da escola, porém encontraram um problema: Ela não passava pela porta. Porém eles resolveram na boa e velha moda Krazuamen, explodindo totalmente a porta e o muro ao seu redor, arrastando o grande crocodilo para dentro de um container em um caminhão.

Ia demorar um pouco para que a criatura acordasse e talvez até mais para que uma informação útil fosse extraída dela. Sentei-me na sarjeta e comecei a refletir nesse dia maluco que eu estava tendo. Eu havia acabado de massacrar totalmente um poderoso demônio de uma maneira excessivamente brutal. Eu não me sentia mal pela dor excessiva que eu havia o causado. Para falar a verdade, acho que eu me sentia um pouco feliz diante de seu sofrimento...

Comecei a perceber o quão forte era o poder que eu tinha em minhas mãos. Eu podia materializar o que quisesse. O limite era minha imaginação, e minha imaginação é um lugar bem fértil e talvez um pouco escuro. Resolvi fazer um pequeno teste e em minha mão tentei materializar uma barra de ouro.

Para meu espanto, funcionou. Uma perfeita barra de ouro surgiu em minha mão direita. Outro limite era meu espírito: Pelo que eu sabia, a energia espiritual é produzida constantemente em nosso corpo e usar ela em excesso podia causar alguns problemas psicológicos e até mesmo físicos às vezes.

Era algo para se considerar. Materializar, digamos, uma estaca de aço em minha mão, não causaria muitos problemas, principalmente em alguém como eu, que tenho um espírito bem mais poderoso do que os demais. Porém, materializar, digamos, um navio, poderia causar sérios problemas.

Foi então que me lembrei do que Duskly havia dito. Alguma atividade demoníaca ocorria em um restaurante abandonado. Chamava-se Kiwi’s e aparentemente foi abandonado quando o dono faliu economicamente. Mais tarde, seus órgãos também faliram e o estabelecimento nunca mais foi aberto.

Tinha uma história bem curiosa, porém eu não via muitos motivos para ir para lá. Era bem capaz que aquele lugar guardasse poderosos demônios e mesmo que não guardasse, o que eu ganharia apenas matando demônios?

Eu ia pegar um táxi, porém notei que eu não tinha dinheiro. Minha carteira estava vazia. Eu pensei em ir à pé, porém demoraria demais. Foi então que veio à minha cabeça uma idéia, não das melhores, porém ainda assim, uma idéia.

E se eu materializasse dinheiro? Além de uma grande falta de ética, seria bem conveniente em uma situação como essa, e não tinha nenhuma lei que dissesse que não se podia materializar dinheiro real usando uma técnica espiritual ensinada por um corvo falante.

Era tentador, porém resolvi deixar quieto e simplesmente materializar uma bicicleta. Apontei minha mão para a rua e dela saiu uma nuvem de metal e outros materiais que compunham uma bicicleta comum.

No momento que fiz isso comecei a sentir uma forte dor de cabeça. Tudo isso por causa de uma mera bicicleta. Eu cambaleei e então caí no chão de tanta dor. Tentei me levantar, porém minha visão enfraquecia-se lentamente, conforme eu escorregava para o inconsciente. Fiquei desacordado por algumas horas e, ao acordar, já eram duas horas da tarde. Materialização era algo perigoso, porém eu não sabia que era tão perigoso assim!

Subi na bicicleta e pedalei até minha casa, ainda pensando no incidente. A dor de cabeça ainda não havia passado, porém não estava tão forte quanto antes. Eu comecei a sentir uma súbita irritação enquanto pedalava: Uma forte vontade de dar um soco na cara de alguém.

A dor e a irritação já haviam passado quando cheguei a minha casa, porém ainda estava pensativo sobre o incidente. Quem diria que com tamanho poder viria tamanha responsabilidade? Bem, era meio óbvio para início de conversa. Tudo que eu podia teorizar sobre o incidente era que a complexidade da bicicleta requeria muito mais energia para se materializar do que uma mera poça de ferro derretido.

Eram três horas quando cheguei em casa. Eu não tinha nada para fazer, apenas esperava que os deuses me ligassem e me dessem minha próxima tarefa. Resolvi ir para sala e liguei a televisão. E ainda bem que nele eu liguei.

Estava passando ao vivo um programa sobre um grupo de jovens que iam procurar atividade paranormal em lugares abandonados. Eles normalmente acabavam se envergonhando e parecendo completos idiotas, pois raramente achavam qualquer coisa de interessante em suas explorações. Porém, dessa vez, eles estavam mexendo com o que não deviam.

Os quatro jovens estavam prestes a se aventurar no Kiwi’s, o restaurante abandonado. Duskly tinha me contado sobre atividade demoníaca lá e, pela minha experiência enfrentando um demônio Draelthiano, eu duvidava muito que os jovens sairiam de lá vivos.

Eu não podia deixar que aquilo acontecesse. Seria algo bem sangrento para ser visto na televisão, e, além disso, se eu não os salvasse, quem iria? Agarrei minha espada e escudo, coloquei o peitoral por baixo da camisa e parti para outra árdua jornada para o insano mundo oculto dos demônios.

Dessa vez não precisei de táxi algum: Tinha minha bicicleta e o Kiwi’s não era tão longe de casa, tanto é que eu comia frequentemente lá em minha infância. Sinto falta do sanduíche que faziam lá...

Cheguei lá em vinte e cinco minutos, pedalando freneticamente. Era um lugar relativamente pequeno, portanto fiquei preocupado com os quatro, sendo que eles poderiam ter sido massacrados no momento que abriram aquela porta.

Puxei minha espada e escudo e adentrei aquele lugar. Havia esparsos buracos no telhado pelos quais a luz solar entrava. Nos muros haviam alguns símbolos, escritos em um alfabeto desconhecido. Acho que vi mais de 60 caracteres diferentes só em um único muro.

Enquanto explorava aquelas ruínas de um antigo bom restaurante, senti um cheiro horrendo vindo da cozinha. Uma fumaça miasmática de lá vazava, com o horrível e pútrido fedor de carne podre queimada. Chutei a porta da cozinha e me vi diante de uma horrível cena.

Na grelha havia três fígados humanos, junto com tecido nervoso, cartilaginoso e dérmico. No canto da sala pude ver três corpos totalmente desfigurados e mutilados. Estavam em um estado tão horroroso que mal pude distinguir seus sexos.

Porém o mais horrendo não estava na grelha ou no canto da sala, mas sim em pé, enfrente a grelha segurando uma espátula, virando os fígados como se fosse hambúrguer. Para meu espanto, não era um demônio, mas sim um humano. Um degenerado, psicótico e maléfico humano.

Era mais alto que eu, também mais gordo. Para falar a verdade, era muito gordo, não sabia como suas pernas podiam o sustentar. Sua camisa azul estava manchada de sangue e outros fluídos e suas calças jeans também. Sua cabeça era quase que careca, com esparsos cabelos, porém o que mais me chamava a atenção era seu sorriso doentio enquanto cometia tamanha atrocidade.

Porém o que me deixou perplexo em meio aquela situação era a falta do quarto membro. Talvez tenha fugido? Ou quem sabe estivesse se escondendo, apavorado? Apesar daquilo, eu era certo de uma coisa: Ele iria pagar.

―Você aí! O que pensa estar fazendo?!

O degenerado virou-se para mim, deixando o fígado queimar na grelha, e, com certa dificuldade com as palavras, me disse:

―Estou seguindo as ordens do mestre.

―Que mestre?

―Ele.―Respondeu o degenerado, apontando seu dedo gorduroso para a porta da cozinha. Olhei para trás e pude ter uma visão do próprio inferno encarnado. Era uma criatura horrível, cuja aparência induz terror até mesmo para os mais bravos, cuja forma intimida até os maiores. Era um demônio Draelthiano.

Era uma legião de sombras gritantes, nas quais formavam um único ser incorpóreo, com olhos escarlates cintilantes que expressavam claramente sua hostilidade. Das sombras formou duas mãos, que lentamente abriram a porta e permitiram que sua cabeça espiasse o que ocorria lá dentro da cozinha.

Das mesmas sombras formou pernas e lentamente se aproximou de mim. Por mais que eu tivesse a força, sua presença subitamente sugou cada pingo de coragem que eu tinha. A aparência do ser era tão aterrorizante, comecei a suar frio e a tremer. Certamente era alguma espécie de magia que a criatura possuía, porém não deixava de ser uma das coisas mais aterrorizantes e assombrosas que já cheguei a ver em toda minha vida.

O degenerado começou a rir histericamente, conforme o espectro se aproximava. A criatura formou garras afiadíssimas em suas mãos espectrais e de sua boca começou a vazar uma quantidade demasiada de sangue fervente.

A situação estava feia: Eu estava frente a frente com um poderoso demônio amorfo, cuja forma física é quase que impossível de ser afetada com minha arma. A batalha seria árdua e a imagem gritante daquela aberração assombraria meus pesadelos por toda a eternidade. Recuei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.