Uivando para a Lua
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Despertando preguiçosamente ao anoitecer, piscou algumas vezes, olhando o calendário. O número 16 circulado em vermelho, prosseguia igualmente pelas semanas seguintes.
Suspirando, ainda rolou na cama, postergando o levantar.
Na cama ao lado, James roncava, imerso num pesado sono. Os demais também deveriam compartilhar daquele descanso, considerando as noites em claro para conseguir a aprovação na avaliação que antecediam o natal.
Certo, inicialmente, os garotos não pareciam motivados a obter boa nota. Todavia, aquela era uma avaliação importante para Lupin continuar na monitoria, por isto eles haviam “dado uma força” desta vez.
Sorrindo sozinho, já sentado na cama, agradecia mentalmente pelos amigos encontrados. As luas cheias aparentavam menos atormentadoras, ainda assim...
As nuvens dissipavam, revelando o negro véu da noite avançar. Apesar de cedo, algumas estrelas já estavam visíveis sendo envolvidas pela fraca névoa. Um bonito quadro tendo como moldura a vidraça de vidro.
Embora o pouco sol durante o dia, o frio prevalecia. Portanto, o garoto recolheu um par de luvas e vestiu a capa antes de prosseguir.
Em passos silenciosos, descia a escadaria para o salão comunal, decidido a não acordar os outros. Certo, ouviria algumas reclamações, porém sua consciência afirmava ser por um bom motivo e, diante disto, estava tranquilo.
Não ligou as luzes, apesar de estranhar o fato das baixas chamas indicar que recentemente alguém havia passado pelo salão comunal. Ainda na metade da circular escada, sentia agressivas pontadas na cabeça, indicando o aproximar da transformação.
A respiração pesava.
O salivar amargo.
Apertando as têmporas entre as palmas das mãos, precisavam avançar antes de perpetuar um inesquecível desastre pela escola. Infelizmente, estava amaldiçoado. Detestava aquele fato, no entanto, aprendera a lidar com isto, tendo o máximo de prevenção para não provocar outras vítimas.
Aquela insuportável sensação... Ninguém era...
— Menos 50 pontos para Grifinória. – Surpreendendo-o, Sirius permanecia deitado no sofá vermelho, observando a cínica fuga do meliante. — O senhor está fugindo no meio da noite sem comunicar aos seus amigos, Remus Lupin. – Recebendo um olhar de esguelha não intimidado, o fugitivo sorriu de canto, avançando os últimos degraus até a saída. Inconformado por ser ignorado, o mais velho saltou o sofá, empunhando a varinha numa astuta ameaça. – Serei obrigado a detê-lo por desacato a autoridade.
— Pad... – Protestaria. Ao terminar de arrumar os sapatos, a maciez do cachecol lhe envolvia o pescoço.
A quente temperatura lhe acolhia num aconchegante carinho.
— Você deve se proteger... – Brincou, num segredado sussurro. Pondo o tímido corpo de frente para si, arrumou a touca nos acastanhados cabelos da cabisbaixa cabeça. – Hoje é lua cheia, não é?
— Sim... – Resmungou inseguro. Reprimindo os sintomas iniciais da transformação, pediu seguramente. – Eu quero que você fique, Sirius. Cuide dos outros... Vocês estão cansados depois de tudo...
— E deixar meu “melhor amigo” ir num encontro sozinho com a Lua?
— “Melhor amigo”? – Erguendo a sobrancelha, riu descrente. Os olhos completamente amarelos. Percebendo o reflexo na íris cinza, fitou o chão, extremamente desconcertado.
Puxando mais a touca para ocultar aquelas aberrações, o nervosismo lhe dominava.
— Eu queria chamar de namorad... – Percebendo a preocupação dominar o trêmulo corpo, recolheu seu queixo, obrigando a lhe fitar. – Você está tão lindo, Moony. Eu, realmente, ficaria enciumado se você fosse para este encontro sozinho com a lua.
— Até parece... – Revirando os olhos, escapou do quente toque, logo retornando ao caminho até a casa dos gritos.
Sirius sorria apaixonado.
Depois de tudo, havia se acostumado em como o amigo ficava mais desestabilizado emocionalmente conforme a grande Lua alcançava o topo do céu. Às vezes, gritava, chorava ou ria de modo descontrolado, ao contrário dos dias normais quando era acolhido pelo abraço da apatia, angustiado acerca da imagem que os outros tinham a respeito dele. Eram naqueles dias, que ele alcançava o topo do céu, resplandecendo seu intenso brilho.
Observando o menino caminhar alguns passos afrente, o herdeiro da família Black apreciava cada uma destas fases, tornando-se um confidente da lua, a qual, o transmutar das fases deixava mais claro aquele aconchegante sentimento lhe aquecendo o peito.
Talvez, por isto também, Sirius não proferia as constantes piadas que reafirmava sua marota fama de malfeitor. Temia ser inconveniente ou machucá-lo ainda mais. Afinal.... Sorrindo consigo, questionava sobre quando havia ficado tão preocupado com alguém? Vindo de uma abastarda família, não negava como todos aparentavam insignificantes aos seus olhos, mas o pequeno garoto lobo...
Limpando a testa com o dorso da mão, transpirava. Retirando a capa, precisava conquistar a liberdade daquela agonia, portanto desfez a volta da agonizante lã lhe volteando o pescoço.
Astutamente, o mais velho recolhia as peças do chão. O faceiro sorriso dissipou ao perceber que eles não chegariam à casa dos gritos em tempo hábil. Precisava distraí-lo para que este não se machucasse como castigo por não ter alcançado o esconderijo, como da dolorosa vez que havia cravado as unhas nas próprias costas por ainda estar perto do rio quando banhado pela repentina lua.
— Se continuar se despindo assim, não garanto responder por mim.
Remus riu desacreditado, rodopiando nos calcanhares para observar o suposto algoz. Puxando lentamente o cachecol, colocou em torno ao pescoço da contraparte trazendo-o para mais perto de si. Erguendo a sobrancelha num ardiloso interesse, desafiava:
— E o que você faria contra um perigoso lobisomen, senhor Black?
Extremamente vermelho pela provocação, realmente, ali estava calor apesar do frio inverno. Desprevenido, realmente, não esperava tal reação do indiferente rapaz. Todavia, não mentia. Havia adorado. Refletindo, o que não adorava em Remus Lupin? Num faceiro meio riso, os olhos estreitos repousavam as mãos na lânguida cintura, interpondo:
— E você acha que me amedronta? – A marota voz confidenciava à medida que ficava mais próximo daqueles finos lábios sem cor. Confessando seriamente, permanecia encarando os amarelos olhos do amigo. – O meu bicho papão é ficar sem o lobisomen.
Largando as pontas da densa peça vermelha e amarela, Remus riu baixinho. Por um instante, o medo evanescia e...
— Droga! – Dando um leve soco contra o ombro alheio, simulava indescritível irritação apesar do ar de riso contido em suas palavras. — Odeio admitir, mas acho que me enfeitiçou, Padfoot...
— Ora, ora... E você achava que eu não prestava atenção na aula?
— Você não presta. – Retrucou rapidamente. – Você veio me perguntar o que o professor Flitwick...
— Ali não conta. – Recostando a testa contra a do lupino, a mão esquerda tocava-lhe o rosto ternamente. Suspirando apaixonado, admitiu tranquilo. — Eu estava ocupado admirando a pessoa que eu amo. – Antes que os finos lábios protestassem, expôs a astuta solução. – Mas, para sua sorte, sabia que um beijo quebra qualquer feitiço?
— Sério? – Desacreditado, maleou a cabeça seguindo a brincadeira. Por que sempre se deixava levar por aquele Black? Envolvido pelo carente olhar, terminou averiguando. Um beijo doce. Apenas um leve toque dos lábios e, logo, voltou à encará-lo um pouco decepcionado. – Acho que não funcionou.
Atordoado por aqueles olhos de carinho, Remus somente repetiu o ato. O indescritível desejo. Naquele momento, não respondia por seus impulsos, afinal. O intenso sangue lhe percorria as veias quase em desespero pela eminente transformação, ainda assim, a magnitude daquele beijo ludibriava seus instintos. As carícias despiam os trajes, almejando mais contato entre as peles. Ofegando entre os beijos, as respirações não se faziam necessárias naquela obstinada paixão.
Apertando o moletom alheio com bastante força, amedrontou-se ao perceber que as garras perfuravam a tricotada lã. Empurrando-o bruscamente, os olhos arrependidos percebiam como estavam distantes do improvisado asilo.
Levaria as garras ao rosto para desfigurar a terrível criatura, quando teve os antebraços contidos pelos decididos punhos. Sirius não queria machucá-lo, mas contaminado pela aflição...
— Não se machuque, Remus! – Praticamente gritava, aguardando ser ouvido pelo amante, o qual, contorcia em dor. — Não deixarei ninguém chegar perto de você. – Garantia, percebendo o abdômen contrair e descontrair numa extraordinária rapidez. – Por favor, Remus, só se acalme...
Arremessado para trás, o lobo rosnava pelas dores da transmutação. Todos os ossos fragmentavam em estilhaços, chocando-se entre si. Entretanto... Encarando os olhos cinzas por alguns segundos, optou por cravar as agressivas garras ao solo, adentrando a grande mata.
Recostando-se contra um grande tronco, admitia com a pouca sanidade que lhe restava.
— Acho... – Cerrava os olhos. Mordendo o lábio inferior para debelar o crescente sofrimento, concentrou um pouco de coragem junto ao vermelho gosto. Dissimulando a dor num fracassado cinismo, retrucou. — Acho que o problema seria eu chegar perto dos outros.
— Bem observado. – Olhando em volta, onde o pequeno lobo estaria? — Pois é. Isto também. Só quero que fique perto de mim. — Escutando um galho quebrar, fitou aquela direção, completando. — Você é o meu garoto lobo, Moony.
— Seu? – Espionando o comando da voz, não obteve resposta já que o animago havia trocado de forma para acompanhá-lo. Repreendia o bobo sorriso lhe enfeitando a face. Não queria aparentar uma adolescente apaixonada, todavia...
Não negava. Compartilhar aquele segredo trazia indescritível alivio. Embora milhares de olhos descriminassem sua condição sem, ao menos, conhecer, aquela determinada força que envolvia sua mão lhe motivava a caminhar... Sonhar... Talvez, embora minimamente, merecesse persistir. Soava surreal, contudo era extraordinário como Sirius o fazia acreditar que valeria a pena viver. Assim sendo, não podia negar aquele sentimento de felicidade, nem mesmo, como aquele bobo riso em seus lábios era verdadeiro.
O tormento latejava.
Sem ar, o peito ardia, as articulações fraturavam, contorciam, enquanto o corpo adquiria a indesejada forma da asquerosa criatura noturna. Droga! Aquela maldição... Maldição...?
Naquela noite, pela primeira vez, seus olhos fitava a gigantesca bola brilhante num silencioso agradecimento por “aquela maldição”. Apesar de imensamente dolorido, havia encontrado apoio, amigos e...
Como poderia nomear aquela agradável sensação?
Deste modo, quando banhado pela branca luz, uivou em alto e bom som para a lua. Ou talvez, aceitando os pronomes possessivos, uivava para sua radiante estrela, “Sirius”.
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