– Gata, espera! Deixe que eu levo a sua mochila!

Contive-me para não jogar Caleb há dois metros de distância com uma só mão e me afastei de seu carro com passadas largas.

– Ei, Tracy, espera!

– Olha aqui, Cal, em primeiro lugar, só porque eu aceitei a porcaria da sua carona, não quer dizer que eu goste de você! – me virei para olhá-lo e mostrar o quanto estava com raiva dele.

– Ué, mas achei que a gente estava junto!

– Eu não vou ficar perto de um cara que atacou o meu namorado! – bufei, me virando de costas para ele.

– Ex-namorado, esqueceu? Você mesma cuidou disso.

– Cale a boca, Caleb Watson! Ou, dessa vez, eu juro que mato você!

Me afastei dele e corri para minha primeira aula, que seria uma tortura grande, pois Peggy e Aaron a tinham comigo.

Peggy, é claro, não era o problema. Mas Aaron era.

– Mas, Tracie, nós podemos ser...

– Não me chame assim! E fique longe!

– Ora essa, mas você sempre me quis por perto quando...

Antes que ele terminasse, eu me virei rapidamente e soquei-lhe no queixo, fazendo Cal voar até o estacionamento e bater em um carro. A vantagem de ser uma loba é que se tem muita força e velocidade; compare isso ao bater em um lobo com dois metros de altura e imagine o impacto.

Só espero que um dos jogadores de futebol da escola me perdoe pelo amasso no carro.

– Sua louca! Quer que as pessoas nos vejam e descubram?
– Graças a você, chegamos atrasados, então ninguém vai nos ver. Agora vê se aprende a lição e me deixe em paz!

Antes que Cal protestasse, eu corri para minha sala de aula e entrei, cabisbaixa. Me sentei ao lado de Peggy e abri o livro na página pedida pelo professor. Enquanto ele rabiscava uma equação na lousa, eu olhava para Aaron por sobre o ombro.

E, para minha surpresa, ele me olhava de volta!

Nosso olhar durou apenas dois segundos, mas bastou para mim. Era a primeira vez em uma semana que ele me olhava de novo – e com muito calor. Eu mataria por ter aquele olhar em mim de novo! Sentir seus braços fortes me abraçando de novo...

– Tracy Sky! – o professor se dirigiu a mim, e por seu tom de voz notei que não era a primeira vez que ele me chamava.

– Sim?

– Por favor, quando alguém pergunta uma coisa, é para ser respondida!

Concordei, abaixando o olhar para o livro enquanto todos os outros riam de mim.

Exceto Aaron.

Ele foi o único que não demonstrou emoção alguma. Peggy deu um risinho fraco, mas de brincadeira, e abraçou meus ombros. Mas Aaron? Ele não fez nada.

Quando o sinal para o almoço tocou, eu achei que fosse morrer. Agüentar três horas de imensa tortura sentada a apenas duas fileiras de meu ex-namorado era demais para mim. Aaron saiu da sala voando para se juntar aos integrantes do time de futebol – seus amigos desde o fundamental. Me esgueirei por entre a multidão de adolescentes até alcançá-lo. Consegui encostar em seu ombro antes que ele chegasse no refeitório.

– Ei!

– Me solta. – sua voz estava fria. Pela primeira vez na vida, tive medo dele.

– Precisamos conversar.

– Não temos nada para conversar. Se tivesse confiado em mim, talvez teríamos. Por que não vai atrás do seu querido companheiro de matilha? – ele disse as palavras com nojo – Por que você já não me tem mais.

– Eu te amo! – supliquei, segurando seu rosto com as mãos.

– Sinto muito, mas não posso fazer nada. – ele tirou minhas mãos de seu rosto como se eu fosse um parasita – Acabou, se lembra?

– Eu sei que ainda me ama.

– Nosso amor nunca existiu, Tracy. Pelo menos, da sua parte. Agora, por favor, será que eu posso sair daqui? Não agüento mais olhar para seu rosto.

Com isso, ele se virou e entrou no refeitório.

Dei um soco com força no armário de um pobre inocente, amassando-o com o impacto. Me virei e andei furiosamente para o estacionamento da escola. as lágrimas escorriam por minha face, um aperto no peito estava me dominando, eu só queria chorar e socar muito alguém – e eu tinha uma certa preferência sobre quem fosse.

– Parece que o destino insiste em nos cruzar.

– Caleb, você não entende nada? EU TE ODEIO! SUMA DAQUI AGORA!

– Você não percebe que nossa ligação é incrivelmente forte? – ele se aproximou de mim com passos lentos e calmos. Passou lentamente o dedo pelo cós de minha calça e envolveu minha cintura com os braços. Eu estava imóvel, planejando enganá-lo e matá-lo depois, para finalmente ter minha vingança. Ele roçou os lábios nos meus e me puxou para si, faminto. Seus lábios esmagavam-se nos meus e desejo irradiava dele – Eu quero você, Tracy... Esqueça o Aaron, ele não te quer mais... Fique comigo.

Foi nesse momento que ergui o joelho e atingi seu nariz com força, sentindo a cartilagem se movendo. Eu sabia que tinha quebrado; sangue escorreu pelo rosto dele e Cal passou a mão pelo ferimento, como se não tivesse sentido. Lobos podem ser incrivelmente fortes às vezes.

– Você não deveria ter feito isso. Quer lutar? É o que vai ter!

Cal deu um salto mortal e se transformou, irradiando calor por todo lado. Me agachei e senti os pelos saindo de meu corpo. Dei um salto e explodi em chamas, pousando graciosamente no chão. Rosnei, eriçando os pelos para Caleb e uivei.

Fora da escola. Não quero que meu pai venha aqui de novo por um chamado de emergência. E não quero que Aaron nos veja.

Está usando seu comando alfa agora? Como quiser. Eu vou acabar com você!

Ah, é mesmo? Eu sou a alfa, idiota! Eu sou a mais forte do bando!

E eu sabia que ele não me machucaria porque era loucamente apaixonado por mim, é claro! Eu estava em vantagem.

Cal e eu corremos para a floresta, onde encontramos alguns lobos – tipo, lobos mesmo, não humanos que se transformam – que esperavam a luta. Eu não podia falar com eles, mas rosnei, afastando-os dali.

Está seduzindo um membro de outra matilha?

Está com ciúmes, fracassado?

Ele pulou em cima de mim e rolamos pelo chão. Meu corpo ficou cheio de terra e grama, mas não liguei. O sangue alfa ferveu em minhas veias, tive vontade de acabar com ele. Mas o problema era que Cal era forte e, embora não fosse me atacar de uma maneira agressiva, ele era bom lutando.

Coitadinho do Caleb, sem seu papaizinho para defendê-lo! Eu vou acabar com você!

Dei um salto, sobrevoando sua cabeça, e aterrissei do outro lado da floresta. Com uma investida, joguei-o contra um carvalho velho, derrubando algumas folhas e galhos com o impacto daquele corpo grande e forte. Caleb tentou me atacar, mas desviei. Então ele pulou em cima de mim e bateu os dentes a centímetros de meu focinho. Com as patas dianteiras, empurrei-o para trás e me recompus em cinco segundos.

Sabe que não posso machucar você. Eu te amo, Tracy!

Você tirou de mim a pessoa que eu mais amava! Se me amasse, desistiria de tudo para me deixar feliz e você não fez isso!

Cravei os dentes em sua garganta e ele ganiu, ferido. Rosnou, furioso, e me jogou contra o mesmo carvalho velho que eu o jogara. Caleb cravou os dentes em meus flancos, vingando-se, enquanto eu tentava me recompor.

Vamos ver o que você é sem seu namoradinho!

Ele se afastou para me tomar distância e me derrubar de novo, mas eu fui mais rápida: virei-me para a direção da escola e comecei a correr, me transformando em humana novamente. Se eu fosse rápida, poderia salvar Aaron novamente. Se eu impedisse Caleb, ele não machucaria Aaron.

– Volte aqui, sua traidora! – ele gritou, já sob a forma humana.

Olhei rapidamente para trás e vi uma marca horrenda em seu pescoço. O sinal de minha mordida. Cal precisaria de uma boa desculpa para poder enganar a todos ou de um bom médico. Seu nariz parara de sangrar, mas o ferimento continuava evidente.

Continuei correndo, sentindo meus pés latejarem. Não olhei, mas sabia que havia uma marca feia de mordida de lobo lá. Tropecei por um momento e rolei pelo asfalto. Me levantei e manquei até o carro de Peggy, procurando apoio lá. Caleb não se atreveria a pisar na escola daquele jeito, todo machucado. Peguei meu celular e disquei o número dela. Peggy atendeu no terceiro toque.

– O que houve? Você não apareceu para a aula!

– Eu estou no estacionamento, corre aqui!

Peggy apareceu menos de cinco minutos depois e cobriu a boca com as mãos ao me ver. Rezei para não estar tão feia, mas sabia que eu ralara as pernas e machucara muito o calcanhar. Fora isso, meu rosto estava com hematomas da luta.

– Ai, meu Deus, Tracy! O que você fez?

– Eu fui atacada por... Um cachorro. – menti. Lobos não apareceriam de uma hora para outra no estacionamento, não lobos normais – Anda, me ajude. Preciso ir para casa.

– Você precisa de um médico! Venha, eu te levo à enfermaria.

Lobos se curam rápido, mas não adiantaria dizer isso à Peggy. Então cedi quando ela passou o braço por meu corpo e me ajudou a chegar na enfermaria.

– Olha, eu sinto muito por você e o Aaron. Eu sei que você está arrasada, mas se lembra do que me disse sobre o Cal? Você vai superar. Ah, e eu estou saindo com um gato da minha turma de filosofia! Você precisa ver!

– Fico feliz, Peg. Cal não presta.

– Eu sei. Por falar nisso, viu a Nina?

– Não. Mas acho que ainda teremos notícias dela.

E eu espero que não, mas não posso fugir dela. Nina vai voltar para cobrar o que ela pensa ser dela: Caleb. Só espero que ela o convença a me deixar em paz.

Mas eu sabia que era impossível.