Eu não sabia exatamente o motivo de ela estar ali, mas eu sabia que ela estava ali por minha causa, eu sabia que ela estava ali para podermos reconciliar algo, mas que ela não ficaria comigo, apenas gostaria de conversar.

Eu faria o papel de uma pessoa fria, e séria, já que ela não gosta do meu jeito, possessivo e arrogante, assim talvez ela ficaria mais do meu lado.

– Conversar? – perguntei numa voz suave, porem ao mesmo tempo triste – não temos o que conversar – e sorri – eu já entendi que você me quer longe, então eu estou obedecendo sua ordem – disse por fim, olhando dentro de seus olhos confusos.

– Temos muito a conversar, Caleb. Podemos entrar em um acordo, e assim você volta para Canadá. Por favor, volte para lá – pediu num tom suplicante – você precisa dar um ponto final em sua relação com a Peggy, ela ainda gosta de você – disse numa tentativa de me convencer de que ela só estava ali à favor de sua querida amiga, Peggy.

Que se dane essa garota! , quis gritar, mas apenas mantive a calma, e mudei a trajetória do assunto, voltando ao assunto anterior.

– Tracy, não temos mais o que conversar. Sabe, eu não entendo você, quando eu me afasto, você me quer por perto, quando eu estou perto, você me quer longe, então agora eu te pergunto: o que você quer?

Ela se calou logo de imediato, os olhos dela estavam confusos, e parecia que ela estava tentando encontrar as palavras certas para a minha pergunta, uma resposta no qual não fosse nem sim, nem não. Mas do mesmo jeito eu irei entender que ela me quer por perto, se não ela não teria perdido seu tempo vindo atrás de mim, e gastado toda sua energia para vir até aqui.

– Então... O que você quer? – repeti novamente.

– Caleb, você sabe que eu amo Aaron, e não posso deixá-lo, seria injusto para mim e para ele. Eu sei que você sente algo forte por mim, mas me parece uma coisa possessiva, sabe? E não amor – Tracy disse quase num sussurro.

– Eu entendo você. E foi por amor quem me afastei. Há uma semana eu ainda pensava na possibilidade de ficarmos juntos, mas meus amigos e meu pai, em especial, abriu os meus olhos, e eu pude ver que eu estava errado, eu estava agindo de forma errada com você e com o... Aaron. Eu me coloquei no seu lugar, e no lugar dele– eu não quis dizer o nome do namorado da Tracy, porque é estranho para mim, a todo momento ele sempre fora apenas um intruso e não... Aaron – e realmente, não é fácil. Portanto peço desculpas à vocês — eu disse abaixando a cabeça, fingindo me sentir envergonhado.

– Esta tudo bem, Cal – ela disse levantando meu queixo.

Os olhos dela eram tristes como os meus, eu vi que ela se sentia culpada por algum motivo que eu não pode perceber com tanta clareza.

– Tracy, posso te contar uma coisa? – perguntei. Ela apenas assentiu e eu prossegui – Sabe, quando nós éramos menores éramos tão amigos, você se lembra? – eu sorri e ela assentiu novamente, esboçando um sorriso nostálgico – então, já nessa época eu gostava de você, mas era aquele amor de criança sabe, de só sentir um frio na barriga quando chegava perto. Nós praticamente crescemos juntos, e quando alcancei meus quinze anos, descobrimos juntos que eu era lobo e você uma loba um ano depois, e este era o nosso segredo, no qual pensávamos que ninguém sabia. Foi tão incrível a nossa descoberta, tudo bem que foi um pouco constrangedor saber que éramos lobos – eu ri – pois de repente nos transformamos e nunca se passou em nossa cabeça que poderíamos nos transformar em um animal – percebi que os olhos de Tracy estavam perdidos em algum ponto do meu quarto, e as lembranças se passavam como um filme em sua mente, como se passavam na minha – foi então que um dia eu decidi contar à você sobre o meu amor, que cresceu dentro de mim a cada dia que passava, e então você meio que correspondeu a esse meu amor, só que eu nunca soube exatamente se você gostava de mim, mas eu tinha em mente que sim, porque você correspondia as minhas cartas, você ia aos lugares que combinávamos de nos encontrar, íamos caçar juntos, como lobos, e até olhamos as estrelas juntos, você se lembra? – perguntei olhando para ela, que sorria ao lembrar dessa cena, que provavelmente ela nem se lembrava mais, ou se lembrava guardava no fundo da mente dela – foi a partir deste dia que eu pensei que estávamos namorando, porque nós entrelaçamos as nossas mãos e bebemos vinhos e quase nos beijamos, mas você não correspondeu – meu tom de voz soou triste, mas eu prossegui – e depois de um tempo, percebi que você conversava muito com o Aaron, e me senti enciumado, trocado, traído por você. Você nem mesmo vinha falar comigo depois das aulas. Então eu descobri que vocês estavam saindo juntos, e então no dia que eu descobri que vocês iam estudar juntos eu fiquei espionando vocês e vi vocês... – meus olhos se encheram de lagrimas, aquela cena me perturba muito, e odeio lembrar desta terrível cena – se beijando. O beijo que eu sempre sonhei para nós dois, o beijo que eu sempre planejei. Foi então que fiquei com tanta raiva, e me transformei. Quando vi vocês saindo da sua casa eu não consegui controlar o meu temperamento e o ataquei – eu estava arfando – e quando vi seu desespero eu fugi, mas eu sabia que já tinha te magoado, então eu tentei de todas as maneiras consertar meu erro, mas não consegui. Você só sentia mais raiva de mim, e isso foi me matando, então eu decidi deixar vocês dois em paz – eu suspirei e olhei para os olhos perplexos dela.

Ela tinha uma expressão mista, sua face incompreensível, seus olhos tristes, os lábios contraídos, sua respiração uniforme.

– Cal, eu pensei que você fazia aquelas coisas para me provocar, para me ameaçar, mas você estava só tentando chamar a minha atenção – ela disse com lagrimas nos olhos.

– Na verdade eu fazia aquelas coisas pra te provocar mesmo, mas ao mesmo tempo eu fazia por raiva do Aaron, portanto dá para entender também que era por ameaça, mas na verdade eu queria também que você percebesse a minha presença.

Ela me abraçou tentando ser gentil, e eu aproveitei aquele momento para matar a saudade da atenção que eu não sentia há tempos.

– Obrigada por sua atenção, Tracy, mas agora eu peço que você vá embora – eu disse friamente, me afastando dela – eu não posso mais ficar perto de você, porque cada momento que eu passo com você o meu amor só aumenta, e quando eu fico longe, é só saudade, então eu prefiro ficar só sentindo sua falta, e sofrer as minhas conseqüências do amor – eu disse já sentindo falta dela.

Eu não queria que ela fosse embora, mas ela tinha que ir para eu pelo menos tentar me esquecer um pouco dela, embora seja um pouco difícil eu me esquecer dela, pois eu a amo desde quando éramos crianças, eu cresci praticamente amando ela, e fiquei tão preso a ela que agora eu só consigo sentir dor.

– Mas você ficará bem? — perguntou acariciando minha bochecha.

– Não se preocupe, Tracy, eu ficarei bem. E uma coisa, se precisar de mim, é só chamar – eu disse sorrindo.

Tracy se aproximou de mim, e me beijou só nos lábios. A minha vontade foi de agarrá-la, mas contive a esse desejo.

– Adeus Caleb — ela disse segurando meu rosto e olhando dentro dos meus olhos.

– Adeus, Tracie — eu respondi.

Ela saiu de perto de mim, correu para a janela e se transformou na linda loba, pela qual sou apaixonado e a partir de agora terei que esquecê-la.