UTOPIA
1 Prólogo. - Fatos.
"O instinto destrutivo da humanidade, forjada no seio da evolução pela seleção natural, é inegável. Não é à toa que, para toda nova tecnologia, por mais bem intencionada que seja, damos um jeito de encontrar potenciais usos maléficos. Até aí, tudo bem. Desde que surgimos, estamos fazendo isso. O problema é quando a civilização atinge um estágio tecnológico tal que seu poder pode levar à autodestruição — intencionalmente ou por acidente."
(...)
Aquele homem..
Oito anos atrás, a minha vida começou a se tornar movimentada.
Tudo bem, sou a filha mais velha de uma grande família. 5 irmãs para cuidar, sem contar o trabalho da fazenda. Sou de longe uma caipira careta, mas também não sou nenhum mulher preguiçosa da cidade grande. Meu nome é Alessa, eu sou uma mestiça vivendo nos EUA.
Não..
Não tão simples assim. Eu conheci aqui, neste país, o homem da minha vida. Todos esses anos foram dedicados à esse homem. Tudo começou em uma viagem, quando eu estava dentro de um trem partindo para New York, e então o vi me encarar do outro lado do vagão. De início, como uma boa mulher reservada, fiquei completamente incomodada com aqueles olhos. Ao mesmo tempo, eram os olhos mais lindos que eu tinha visto. A cor de mel, um castanho claro reluzente em contato com a luz do sol que raiava com vigor naquela tarde. Ele sorriu, e então levantou-se e caminhou em minha direção. O banco ao meu lado era vago, mas não mais. Ele sentou-se, e pude observar detalhadamente a figura masculina em minha frente. "Um homem de negocios", foi minha primeira impressão. Cabelo curto e bem cortado, barba feita e um terno caro. A gravada era listrada, branca e azul. Clássico e fino.
– Porque uma dama tão bonita está aqui, tão sozinha?
Quebrei o contato visual, olhando pela janela. Eu estava de longe concentrada naquelas árvores que passavam lá fora, mas não iria dar bola para qualquer estranho que me cantasse no trem.
– Eu estou bem assim.
Para não parecer tão grossa, sorri por meio segundo ao olhar para ele. Era assustadoramente gentil aquele sorriso em seus lábios finos.
– Se eu estiver incomodando..
Ele disse e então procurou levantar-se, e foi aí que eu agi por impulso. Minhas mãos foram até uma das pernas dele, e então o pressionei sobre o banco para evitar que este fosse embora. "Ah, eu não fiz isso!", pensei.
– Ah..desculpe. Está tudo bem, é bom ter uma companhia. É que..sabe..não sou o tipo sociável.
Liberei outro sorriso, e desta vez, falei devidamente virada para ele, que estava sentado em minha frente. Ele sorriu, e disse.
– Gosto do seu sotaque asiático, uma graça.
É de se imaginar que a tarde foi realmente bem longa. Depois daquele dia, ele me ligava todos os dias, e me contava sobre sua vida. Ele trabalhava em coisas secretas, e dizia que era totalmente promissor. Dizia ele, que o futuro dependia do trabalho dele. Quer dizer, o futuro dele, certo?
Isso tudo, durou por seis anos. Quero dizer, nunca realmente acabou. Ele pediu minha mão no dia de Ação de Graças, em frente toda minha família. Romântico, foi o que minha mãe disse, mas fiquei um tanto constrangida. Foi um trabalho danado até eu ter coragem de dizer um "sim", mas foi o que eu disse. Me casei com este homem. Christopher Green, me casei com Christopher Green.
Hoje, com 26 anos, tenho uma enorme barriga. A mêdica me disse ser um menino, um menino que provavelmente será bem grande e saudável. Um mestiço, como eu.
– Christopher..? está aí? estou sentindo sua falta. Ele está realmente saudável, digo, o bebê. Quando vai vir me ver? Espero que seja em breve. Eu o amo. Boa noite.
beep.
Todas as noites eu ligo para ele, para o Japão. Diz ele ser pelo trabalho, pois o Japão está trabalhando em um projeto revolucionário para o mundo tecnológico. Christopher tinha me deixado uma linda casa e uma criança, mas sua ausência era castigadora. Mas, o que eu esperava ao casar com o bom homem engravatado e romântico? Talvez fosse cedo demais para reclamar ou se fazer de vítima, ele estava lá por nós. Por mim, pelo bebê.
Seu trabalho era importante. Talvez, ele fosse importante demais. Não é como se eu fosse uma mãe solteira, não é?
Era manhã, umas seis horas, talvez. Domingo. O dia estava nublado, nenhum sol, mas mesmo assim o clima trazia um calor confortável. Eu olhei para o lado e reparei a luz acessa no telefone. Uma mensagem?
– hunf..
suspirei, mas com um sorriso no rosto. Eu tinha uma boa esperança de que aquele podia ser o Chris.
beep.
Em cima da cama, virei-me para o criado mudo e observei o telefone como se ele me olhasse nos olhos.
– Alessa, quanto tempo. É o Chris. Vi que me ligou várias vezes nesse mês, me perdoe por não poder responder. Estou voltando para os Estados Unidos hoje mesmo. Vai me esperar em meio a velas? não me diga que adivinhei? haha.. Me aguarde.
Hm? eu esperei o mês inteiro e era quase uma notícia anormal ouvir aquilo. Internamente feliz, mas por fora, estava totalmente sem reação. Céus! Ele poderia pela primeira vez sentir os movimentos do bebê, e também podemos comer seus pratos preferidos. Eu abri um sorriso e corri para o banheiro. Abri a torneira quente e a fria, deixando a banheira encher de água aos poucos, enquanto eu a encarava.
É engraçado quando a gente se sente apaixonado, fica totalmente besta pela simples presença ou voz de alguém. Coloquei a mão esquerda em cima de minha barriga, e senti o bebê que se movia delicadamente. Eu tinha ele comigo por todo o tempo, não é mesmo? prometo, irei por toda minha vida, colocar esse bebê acima de tudo no mundo.
– Alô, mamãe? Christopher está vindo para os EUA! É, isso mesmo. Sim, eu vou fazer isso. Se quiser, passe no nosso apartamento mais tarde. Ainda se lembra, não é? haha..ele está bem, sim. Pode deixar, nada de vinho essa noite. Eu te amo! Boa noite!
Dei as boas notícias para toda a família, e coloquei um frango para assar, junto a algumas batatas. Eu não podia vestir meu melhor vestido, mas vesti o casaco que ganhei no nosso aniversário de um ano de namoro. Sabe, nunca fui o tipo de mulher delicada, mas o amor pra mim é uma das coisas mais doces e importantes dentro de alguém. A carne, precisa de amor. O sangue, é como se fosse a paixão correndo por todos os cantos de nosso canto, alimentando nosso coração para continuar batendo. Amor dos nossos pais, dos nossos amigos, dos nossos amados e filhos. O ser huamano sempre foi assim, movido pelo amor.
Se passou uma hora e meia desde a ligação, e tudo já estava pronto. Comecei a sentir o peso do tempo, mas não era mais hora de castigo, era hora de respirar em alívio.
trrrim!
A campainha cantou para mim e ao mesmo tempo corri para a porta. Eu não estava preocupada em virar meu rosto para a janela e ser uma mulher reservada, ou dar um pequeno beijo e perguntar sobre o trabalho. Eu abri a porta e pulei em seus braços sem se preocupar com as malas que ele trazia nas mãos. Ele as largou no mesmo momento, e foi aí que senti meu corpo ser segurado. Ele tinha aquele mesmo cheiro que me lembrava pinho, as árvores do trem, as florestas que eu passeava na infância. Cheiro de Christopher.
Eu ria feito uma criança ao ganhar sua primeira bicicleta, isso quando minha boca se desocupava dos selares contra os lábios dele. Ele parecia cansado, tinha sido uma viagem de muitas horas. Eu sempre fui o tempo egoísta para demonstrar o bem.
– Ah, meu bem..senti tanto a sua falta. Como você está. E ah, me deixa trazer isso.
– Ora, mulher, me dê isso aqui! Entre e cuide desse barrigão para nós!
Ele riu e pegou as malas das minhas mãos, levando-as para dentro do apartamento. Eu já disse o quão ele é cavalheiro? Ri timidamente e tranquei a porta.
– Esse cheiro é frango?!
Apenas o olhei e ele já entendeu. Por mais cansado que estivesse, aquele sorriso de satisfação em seu rosto era gratificante, e o mais belo do mundo.
– Olha só..
Corri em direção a ele, colocando uma de suas mãos sobre minha barriga. No momento não havia muito movimento, era tão pequenos que ele demorou para notar algo ali.
– Isso agora, é?
– Não, isso é fome.
– Ah..
Você sabe o quão preciosos são momentos como esses? momentos perfeitos. Momentos em que seu coração e alma desncansam juntos na mais perfeita harmonia. Ter alguém que te ame, é uma sensação incrível...mas o melhor é amar, e ter certeza da veracidade desses fatos. Éramos um belo trio, não?
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