UN 2814 - Risco Biológico [Atualizada]
3 Capítulo 3: O homem da cabana
Sexta-feira, 7 horas antes.
Acordei cedo, hoje eu teria um dia cheio. Moro sozinho em uma pequena cabana perto de uma floresta, hoje eu vou me mudar e pegar a estrada de volta para minha cidadezinha no interior. Preparei um café bem forte pra acordar logo, olhei pela janela e no quintal estava minha moto, muito limpa exatamente como havia deixado.
Peguei um dinheiro em meu guarda-roupa, estou com aquela esperada ansiedade que se cria pela mudança, ajeitei uma mochila vazia na moto e fui em direção ao mercado mais próximo.
Sexta-feira, 4 horas antes.
Fiquei um bom tempo escolhendo muitas coisas, entre elas doces, bebidas e muita comida enlatada. Eu odeio cozinhar desde que me entendo por gente, entro na fila do caixa que era enorme e fico lá por um bom tempo até chegar minha vez, pago a conta e vou pra casa.
Cheguei e logo fui conferir minhas coisas, se a comida ainda estava dentro da mochila. Não posso deixar nada passar.
Faltava uma garrafa de Uísque que havia comprado, rapidamente peguei a nota e voltei ao mercado, que agora estava mais lotado do que nunca. Uma confusão extrema, as inúmeras tv's a todo volume no noticiário e mesmo assim impossível de escutar pelo barulho das pessoas alvorotadas, uma moça muito bonita me atendeu, peguei o Uísque, mostrei a nota e ela me devolveu.
Consegui entender apenas algumas palavras do noticiário. — A infecção... Bzzz... Impedida... Bzz... São Paulo.
Perguntei. — O que estava acontecendo que todo mundo tava apressado e nervoso?
- É que o noticiário alertou pra uma suposta epidemia e disse que as pessoas têm que ficar em suas casas e evitar sair, se a situação ficar pior vai mandar médicos. Ela me disse com em tom de preocupação.
- Talvez nem seja pra tanto, a televisão aumenta muito as noticias. Ainda mais as ruins. — Eu disse dando um sorriso pra ela. E segui em direção a minha cabana.
Lá me troquei, coloquei uma roupa resistente para a viagem. Uma jaqueta, calça jeans e botas, tudo estava calmo naquele instante, olhei para as paredes vi muitas coisas que me faziam estar perto de minha cidade. Recordações de caça, na proximidade da parede um fogão a lenha. Por mais que estivesse longe, a minha cabana era um pequeno pedaço da minha terra que herdei de um tio que eu nunca conheci.
Olhando para anos atrás, lembro de ver seu testamento e descobrir que eu estava como dono da cabana, e agora já pretendo me mudar, mas não vender a cabana, ela é ótima, muito rústica e resistente. Tem um grande terreno, vasto de arvores e frutos, um pequeno rio na parte baixa, muito limpa e com peixes que nunca haviam sido pescados, mais ao norte há uma pequena floresta, a qual muitas vezes me dispôs a caça de pequenos animais.
Foi muito bom o tempo que vivi aqui, mesmo não gostando da cidade, adorava meu cantinho na cabana. Fiquei por longos minutos em silêncio até ouvir um grito tão alto que parecia estar dentro de casa.
Sai imediatamente no quintal a qual avistei um homem perseguindo uma mulher armada com uma grande faca de cozinha, que gritava. — Todos vão morrer não á salvação. — Ela cai, e eu estático ali sem entender nada só observava de longe.
Gritava histericamente, — A fúria do senhor está vindo! – Como se sua vida dependesse disso.
O homem se pôs a atacá-la e ela o golpeou na cara onde ficou um enorme corte, mesmo relutante pus a ajudá-la, entrei rapidamente em casa, peguei o velho rifle de caça da parede, carreguei com três munições que havia sobrado da caçada anterior, e efetuei os disparos.
Acertei apenas um, eu estava trêmulo, acertei no canto da boca do homem que parecia não sentir dor e estar sedento de sangue. A mulher se levantou aproveitando que o individuo se dispersou e saímos correndo, ela em direção contrária a minha cabana, só escuto quando ele cai no barranco e some de vista. Pergunto-me agora se ela fugiu ou morreu com a queda.
A criatura, homem, seja lá o que for segue andando em direção a floresta, me ignorando completamente.
Percebi que havia acontecido ali uma situação completamente estranha, e hipóteses passaram em minha cabeça, os noticiários e tudo o que estava acontecendo, me fez lembrar anos atrás quando eu e meus amigos de infância havíamos brincado de criar um manual de sobrevivência em um apocalipse zumbi, pareceu uma idéia idiota, mas o que acabei de presenciar, o que me fez atirar em um homem, que queria devorar uma mulher, tudo parecia tão interligado.
Rapidamente liguei a TV, agora estava fora do ar, enchi o tanque da moto e a botei dentro da sala, tranquei todas as portas e janelas, minha mudança havia ido por água abaixo, e lá fiquei na minha cabana no alto da colina, esperando respostas.
Sentei-me na poltrona em frente à TV, abaixei todo volume, encostei o rifle ao meu lado, e mais um turbilhão pensamentos invadiram minha cabeça. Como estariam às pessoas que conheço agora, se estão vivos e a salvo, como ficou a cidade depois de tudo isso?
Levantei e fui servir uma dose do Uísque que havia dentro da mochila, tomo em apenas um gole e desceu como se fosse a água mais fresca. Abri as cortinas e olhei atentamente para o quintal, estava calmo como de costume a única coisa que não combinava com a paisagem era uma grande mancha de sangue na grama.
Recuperei parcialmente os sentidos e abri a porta da frente, uma brisa quente beijou meu rosto, sai na varanda e fui em direção ao galpão, entrei e peguei umas 9 caixas de munições que estavam em um armário velho cheio de ferramentas, voltei para dentro de casa e decidi ir até a cidade para ver o que teria ocorrido lá, peguei meu rifle, coloquei um boné vermelho, esvaziei a mochila e decidi ir a pé para não chamar atenção.
Cheguei à cidade, tudo estava um caos, carros batido
espalhados pela rua, lojas saqueadas, casas semi destruídas, corpos pelo chão. Entrei numa pequena venda, lembrei do que um velho amigo disse, era melhor eu evitar o mercado que fui mais cedo, pela grande concentração de gente que havia lá.
A venda estava aparentemente vazia, recolhi alguns
enlatados, as prateleiras todas bagunçadas e destruídas, mas mesmo assim havia bastante comida, me dirigi até o balcão onde peguei cinco caixas de cigarro, e um isqueiro de ferro que tinha um nome gravado, escrito Daniel com uma bela letra cursiva, sai na rua e tudo estava calmo. A mesma brisa quente da colina pairava sobre a cidade, acendi um cigarro.
Segui andando pela rua principal, e logo de longe percebi o mercado que fui nesta manhã, decidi não entrar, me lembrei da bela garota que ali trabalhava, e disse pra mim mesmo que não custava dar uma averiguada pelo lado de fora.
A grande porta de vidro do mercado estava escancarada, olhei através do vidro para o balcão, onde a vi pela ultima vez, vi um movimento repentino e decidi entrar. Joguei o cigarro fora e entrei.
Cheguei próximo ao balcão e lá estava ela sentada no chão com um semblante de dor.
- Ei, você ta legal? — Perguntei.
- Alguém me atacou! — Ela respondeu.
- Há quanto tempo está ferida?
- Já faz algumas horas. Uma maluca mordeu meu braço.
Decidi ajudá-la. Então a levantei, passei seu braço direito ao redor da minha nuca, segurando-a pela cintura. E seguimos em direção a rua principal, e logo depois em direção a floresta, para minha cabana.
Ao virar a esquina nos deparamos com dois indivíduos, pelos trajes pareciam caminhoneiros, camisa xadrez e um jeito rude, vinham em nossa direção, deveriam estar juntos. Foram chegando perto e vi seus rostos, tinham a escura face sujeitas à morte.
Um deles não tinha um olho e sangrava muito, vieram gemendo em nossa direção.
Atirei uma pedra, errei e pegou numa janela de vidro, um deles foi em direção deste, perdeu o foco em nós, mas o outro continuava vindo até nós. E seguimos ainda mais rápido na direção contraria. A nossa frente havia mais duas criaturas nos dois lados da rua.
Estávamos cercados. Entramos numa casa e fechei as janelas e portas, os zumbis agarravam a porta de entrada e os vidros das janelas, fechei a cortina e fiz sinal de silêncio para garota, a fim de acalmá-la.
Olhei por uma fresta da cortina e lá estavam eles ao redor da casa, até que um grito chamou atenção deles em direção a sorveteria que estava próximo, então foram se distanciando.
- Ah... Ainda bem que estão indo, você está bem?
Ao me virar me deparo com a garota agora com uma aparência mudada, olhos avermelhados e um pouco inchados, como se antes ela estivesse bem. A pele ficou mais rosada, ela me fitava diretamente nos olhos como fez nessa manhã, só que agora parecia estar faminta e eu seu prato principal.
Ela me observava de uma forma estranha, como se me analisa-se, segurei firme no rifle, mas sem apontá-lo.
- Estou me sentindo muito mal, por favor, me ajude! Ela diz em um tom de sofrimento.
Eu encosto a mão esquerda no rosto dela, enquanto a direita segurava o rifle com o dedo no gatilho, seu rosto estava queimando como se estivesse com uma febre muito alta, a pele parecia ressecada e áspera, olhei diretamente em seus olhos que pareciam extremamente irritados havia um misto de sangue, os olhos azuis da garota agora estavam escuros e com um brilho intenso, a cada segundo parecia estar mudando de cor, para algo mais cintilante.
- Eu vou ajudar você! Vamos para a minha casa. — Peguei-a pela mão, pois estranhamente agora ela se movimentava bem, mas ainda estava com uma aparência sombria.
Saímos até a rua principal, e pegamos o caminho em direção a cabana. Avistei minha casa no alto da colina, nunca tinha ficado tão em feliz em vê-la em tão pouco tempo, a casa a qual eu ia deixar. Continuei a guiar a garota em direção a cabana, enquanto chegávamos às proximidades da casa ela sussurra algo.
- Na minha casa, próximo ao mercado tem o carro do meu padrasto ele só sai para viajar, fomos à lagoa para pescar mês passado, o sol brilhava muito lá, pegamos muitos peixes, eu escorreguei e cai no lago. — Ela dizia coisas que não tinham muito sentido pra mim.
Chegamos à entrada, abri a porta, minha moto estava na sala no mesmo jeito que havia deixado, não era nenhuma moto cara, mas era ótima e tinha valor sentimental.
Coloquei a garota em dos sofás, fui buscar água e cobertores, pois ela estava queimando em febre, enquanto pegava as coisas fiquei puxando assunto procurando confortá-la.
- Então qual é seu nome? — Perguntei imediatamente.
- Alice. — Ela responde prontamente.
- Eu sou Pablo, o que aconteceu na cidade?
- Foi tudo meio confuso, primeiro o governo mandou uma mensagem a todas emissoras de TV pra uma possível epidemia... Disse para todos se refugiarem em casa, e guardar comida, por isso tanta gente no mercado. — Ela responde pausadamente, pois respirava mal.
- E depois, o que aconteceu após minha saída? — Perguntei.
- Depois, alguns começaram a ficar malucos, e atacar algumas pessoas, aconteceu uma briga generalizada dentro do mercado, fui atacada como eu expliquei quando me encontrou, fiquei ali quieta, para não chamar atenção. — Ela conta com uma voz rouca.
- Beba isto! — Alcanço um copo de água. — Vou ali ao quarto pegar umas cobertas.
O que me preocupava era a febre dela que parecia estar muito forte, encostei em seu rosto, foi como encostar em uma chaleira prestes a ferver.
Enquanto me dirigia ao quarto, comecei a imaginar o que ela havia me contado sobre o acontecido no mercado, como ela sobreviveu? Todos estavam mortos. Foi sorte!?
Peguei duas cobertas grossas feitas de pele animal, bem antigas, tinham cheiro de mofo. Segui em direção a sala. Ao chegar à sala olho para o sofá e ela não está lá.
- Alice? Cadê você? — Pergunto.
Dou três passos em direção ao sofá, sinto em minha nuca uma baforada quente, e sinto uma presença atrás de mim. Solto os cobertores no chão e me viro rapidamente,
mas não havia nada ali.
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